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Nos pênaltis, Gurias Coloradas levantam a taça de campeãs do Gauchão Feminino 2017

11/12/2017

Camila Bengo

 

Foto: Sport Club Internacional

 

Enganou-se quem pensou que os 2×0 sobre o Internacional, no jogo de ida da final do Gauchão Feminino, garantiria a vitória para o Tricolor: com decisão nos pênaltis, as Gurias Coloradas levaram a melhor e levantaram a taça de campeãs estaduais pela sexta vez. Disputada no último sábado (9) no estádio Beira-Rio, a partida foi marcada pela rivalidade clássica de um Grenal, com o calor da torcida organizada do time anfitrião e arquibancada visitante cheia.

Aos 10’ do primeiro tempo, já com uma chance de gol perdida pelas gremistas e uma penalidade não marcada para o Internacional, a artilheira do campeonato, Karina, abriu o placar para o Tricolor e fez a alegria da torcida do Grêmio. A festa, porém, durou pouco. Aos 13 minutos, o escanteio cavado pela colorada Rosana teve a cobrança feita por Byanca Brasil, que encontrou a volante Gabriela Luizelli livre para marcar e garantir o empate. A partir daí, a tranquilidade da equipe gremista foi embora, abrindo espaço para que as coloradas dominassem o restante dos 90 minutos de jogo. Nos acréscimos da primeira etapa, novamente Byanca auxilia na jogada que garantiu a virada do Internacional; pela direita, passa pela gremista Thiellen e cruza para a meia Mylena, que marca o 2×1 para as Gurias Coloradas.

No segundo tempo, o time anfitrião continuou com o controle da partida e deu trabalho para a goleira Carol, que sofreu com as investidas coloradas. Enquanto isso, as Gurias Gremistas permaneceram recuadas, perdendo para a zaga do Inter as poucas chances de finalização que conseguiram criar. Aos 42’, Byanca deu sua terceira assistência decisiva ao levantar para Letícia, que de cabeça garantiu o 3×1. Com 44 minutos corridos, substituição inteligente na equipe colorada: a troca da goleira Luana por Fernanda, que viria a se tornar a heroína da vitória.

O resultado de 3×3 no agregado levou a decisão para os pênaltis. A goleira Fernanda defendeu três cobranças gremistas, perdendo apenas para a zagueira Rafa. Pelo Inter, marcaram Rosana e Thais Marques; Mylena mandou direto para o travessão e o chute de Renata encontrou as mãos da goleira Carol Aquino. Na última cobrança Tricolor, a meia Dani mandou por cima do gol e levou a loucura a equipe colorada, que se consagrou campeã com os 2×1 nas penalidades.

A festa foi vermelha e branca no Estádio Beira-Rio, enquanto as atletas do Grêmio saiam de campo sob os aplausos da torcida. Nas redes sociais, a rivalidade Grenal continuou. Após receberem a informação de que as Tricolores já haviam

reservado uma churrascaria para comemorar a vitória, a equipe colorada corneteou o “churrasquinho” e dedicou “um minuto de silêncio para o Grêmio que está morto”.

O bom desempenho das jogadoras da dupla Grenal, que chegaram invictas na final do Gauchão Feminino 2017, mostra mais uma vez a superioridade dos times da Capital em relação ao Interior, dispondo de mais recursos financeiros e estruturais. Ainda assim, a vitória colorada coloca a mostra o fato de que o Sport Clube Internacional oferece condições de treinamento e suporte bem melhores que o rival para suas atletas: até mesmo o fato de a final jogada em casa, pelo Grêmio, ter sido realizada no CT de Eldorado do Sul, enquanto a equipe colorada recebeu a partida no Beira-Rio, diz muito sobre essas discrepâncias. Apesar dos excelentes resultados alcançados no campeonato, a equipe feminina do Grêmio não é tratada aos moldes da equipe masculina. Contrariando as promessas de alto investimento feitas pelo presidente Romildo Bolzan ao final de 2016, após o lançamento do novo Estatuto da Conmebol que proíbe times que não possuírem equipe feminina de disputarem a Libertadores e Sul-Americana de 2019, o Grêmio atende as jogadoras em parceria com a Associação Gaúcha de Futebol Feminino (AGFF), que é responsável por garantir hospedagem, transporte e ajuda de custo para as atletas, enquanto se limita a oferecer a estrutura física para os treinamentos e a equipe profissional que acompanha o time.

Salvo as dificuldades enfrentadas pela modalidade, o Gauchão Feminino 2017 fez história ao se mostrar como uma competição série e bem organizada e apresentar times melhor estruturados, ainda que haja a necessidade de mais investimentos. A vitória desse ano foi das Gurias Coloradas, mas quem ganhou foi o futebol feminino do Rio Grande do Sul.

 

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Internacional vence Grêmio nos pênaltis e é campeão do Gauchão Feminino 2017

10/12/2017

Júlia Vargas

vargastjulia@gmail.com

 

Mesmo favorito, Grêmio não conseguiu passar o time colorado e a goleira Fernanda que defendeu 3 dos 4 pênaltis     Foto: Sport Club Internacional

Internacional e Grêmio se enfrentaram nesse sábado na etapa final do Campeonato Gaúcho Feminino 2017. No jogo de ida, no CT Presidente Hélio Dourado, o Tricolor levou a melhor, ganhando de 2 a 0. Apesar da vantagem, a partida de volta foi o contrário: em casa, no Beira-Rio, as Gurias Coloradas dominaram os 90 minutos e venceram por 3 a 1. Com o resultado, o campeonato foi decidido nos pênaltis e o Inter se sagrou campeão vencendo o rival por 2 a 1.Time

A artilheira do campeonato, Karina, abriu o placar a favor do Grêmio aos 10 minutos. A camisa 10 enfiou a bola entre duas zagueiras e mandou para o fundo do gol do Inter. Porém, o empate não demorou a chegar. Aos 15 minutos, Gabi Luizielli deixou tudo igual em uma jogada ensaiada. Bianca Brasil cobrou escanteio e Gabi colocou pra dentro com um toquinho. A virada só chegou no final, nos acréscimos, quando Milena colocou a bola no fundo da rede com um belo cabeceio.

No segundo tempo, o domínio seguiu das Gurias Coloradas. Com um Grêmio muito recuado, o jogo praticamente aconteceu só na área das visitantes. As chances de gol para o Inter foram infinitas e Carol Aquino, a goleira tricolor, teve

muito trabalho. Defendeu várias, mas não conseguiu salvar a cabeçada de Letícia, aos 43 minutos, que fechou o placar em 3 a 1 para as donas da casa.

Com esse resultado, uma vitória para o Grêmio e outra para o Inter, a decisão do Campeonato ia para os pênaltis. Tatiele Silveira, antes de terminar o segundo tempo, trocou de goleira e colocou Fernanda no lugar de Luana, troca que foi decisiva para o Inter ganhar o campeonato. Fernanda pegou 3 dos 4 pênaltis das gremistas, terminando o jogo em 2 a 1 para as Gurias Coloradas.

Tanto o time do Grêmio quanto o do Inter chegaram ao final do Gauchão invictos. Com muito mais investimento dos clubes, a superioridade em relação aos times do interior era enorme. Tatiele Silveira e Patrícia Gusmão fizeram um ótimo trabalho com suas equipes e chegaram até o fim com suor e muito esforço que os times femininos enfrentam. As duas, de todas as formas, merecem parabéns!

Fabiano Ventura: o gaúcho que conquistou a Europa debaixo das traves

01/12/2017

Rene da Silva Almeida

renealmeida.jornal@gmail.com

Fabiano Ventura Sarmento poderia ser só mais um técnico qualquer de futsal escondido na segunda divisão do Rio Grande do Sul. Mas este porto alegrense tem muito mais história para contar. O primeiro goleiro brasileiro a jogar no futsal espanhol e na seleção italiana começou a praticar o esporte em 1988. Até 2006, quando decidiu encerrar sua carreira, conquistou títulos desejados por muitos jovens que hoje treinam forte em busca de um lugar ao sol. Hoje, aos 45 anos, ele lembra das histórias de sua vitoriosa carreira. Da inesquecível vitória sobre a Rússia em Moscou ao projeto de se tornar um treinador de futsal de alto, conheça Fabiano Ventura.

Rene: Como você começou a jogar futsal?

Fabiano: Eu comecei no futebol de campo, nas categorias de base do Inter. Só que depois, com a necessidade do goleiro ter que ter altura, eu fui deixado de lado e fui para o futsal quando tinha 20 anos no juniores do Aimoré (clube de São Leopoldo/RS). Aí, fui jogar na PUC. Eles estavam fazendo um time de futsal para a Série Bronze do Gauchão. Depois fui convidado para jogar futebol de areia e me destaquei num campeonato gaúcho. Fui convocado para a seleção gaúcha de futebol de areia e fomos jogar aqueles jogos que tinha no Rio de Janeiro, em Copacabana. Lá, o meu diretor foi convidado para trabalhar no futsal do Inter em 2000. Aí eu fui contratado e fiquei 3 anos no Inter. Disputei a Liga Nacional de Futsal, a Série Ouro do Gauchão e fui campeão da Taça Brasil ganhando do Vasco, que tinha Lavosier e Manoel Tobias. Era o melhor time do Brasil.

Depois fui para Espanha. Naquela época eles mudaram a regra para o goleiro poder jogar com os pés e nós já tínhamos um trabalho de quase um ano fazendo isso aqui. Lá na Espanha isso era novidade. Eu fui o primeiro goleiro brasileiro a jogar no futsal espanhol. Cheguei lá e nosso time, o Melilla, foi a defesa menos vazada do Campeonato Espanhol. Depois, fui comprado pela Roma e em seguida emprestado para um clube chamado Chieti. No Chieti eu fui campeão italiano. Depois fui contratado pela Lazio, um dos times mais fortes da Itália. Mas já no Chieti eu fui convocado para seleção italiana. Depois fui jogar em Nápoles, em Ischia. Em 2005 eu vim jogar a Liga nacional pelo Tubarão. Por último, joguei no UJR, na Série Prata do Gauchão e depois parei de jogar.

Na Europa eu fui três vezes campeão italiano e disputei o europeu pela seleção italiana. Fomos campeões em 2002 do europeu. Na Espanha, eu fui o goleiro menos vazado do Campeonato Espanhol em 2001. Fui o primeiro goleiro brasileiro a jogar pela seleção italiana.

Rene: Como foi sua carreira depois que parou de jogar?

Fabiano: Em 2009, juntamente com o Paulão, fiz um projeto de um ginásio com as dimensões da Liga Nacional de vôlei e de futsal aqui no Paladino, em Gravataí. Aí eu recebi um convite para fazer uma parceria com o Corinthians de Alvorada, que tinha vaga na Série Prata do Gauchão. Assim eu comecei em 2010 a minha carreira como treinador. Depois treinei a ABV Alvorada na Série Prata, em 2012 e 2013, e tive escolhinha em Gravataí com crianças carentes. Esse ano eu fui o treinador do Ser Alvorada na Série Prata do Gauchão.

Rene: Qual o ponto mais alto da sua carreira?

Fabiano: O ponto mais alto da minha carreira foi em 2001 a convocação para seleção italiana. Eu não esperava. Ali eu era considerado um dos quatro melhores goleiros do mundo. Tanto que o Mammarella, que hoje é o melhor goleiro do mundo, era meu reserva.

Rene: Qual história mais marcou a sua carreira?

Fabiano: A história que mais marcou a minha carreira foi em 2002 no europeu de seleções, quando a Itália jogou contra a Rússia em Moscou e nós ganhamos por 2 a 1. Acho que tinha 20 mil russos no Ginásio Olímpico. E o gol da vitória foi uma jogada minha. Foi um passe que eu dei para o nosso ala e ele chutou cruzado e fez gol. Aquele acho que foi o momento mais emocionante que eu tive porque nós éramos nove brasileiros de doze jogadores na seleção italiana. Era uma pressão muito grande em cima de nós. Aquilo ali foi um alívio. Classificamos a Itália para a final do campeonato europeu tendo a maioria de brasileiros na seleção.

Rene: Qual o momento de maior dificuldade?

Fabiano: O momento mais difícil da minha carreira foi entre 1998 e 1999, quando o Inter desistiu de disputar a Série Ouro e encerrou as atividades. O futsal foi todo para o interior e era muito difícil economicamente a gente ir para lá. Eu já tinha dois filhos. Então tive que começar a fazer as coisas por aqui. Foram dois anos muito difíceis para mim.

Rene: Quais as principais diferenças do futsal europeu e brasileiro?

Fabiano: O futsal é um esporte que fala português, que fala brasileiro. Não tem como fabricar um jogador europeu no nível do jogador brasileiro. Ricardinho, que é o maior jogador do mundo pela FIFA, é um jogador de copia tudo que o jogador brasileiro tem. Na realidade, o jogador europeu é mecânico, joga muito em cima de um padrão tático. O jogador brasileiro dribla. Na Série Prata que nós jogamos aqui no Rio Grande do Sul, o nível é tão alto que muitos jogadores podem jogar em qualquer time da Liga Nacional e do mundo. Agora, se for ver os times de série B da Itália, da Espanha, não se vê essa qualidade.

Rene: Como você vê o futsal brasileiro hoje?

Fabiano: O futsal brasileiro está passando por um momento de reconstrução política. Acho que nós fizemos o pior mundial da nossa história (eliminado nos pênaltis para o Irã nas oitavas de final). Acho que é um período de renovação na parte política. Porque a qualidade técnica, se muito bem organizada, o Brasil vira uma seleção imbatível no cenário mundial. É muita qualidade individual, faz muita diferença.

Rene: Quais as principais diferenças do tempo em que você jogava para o futsal que se pratica hoje?

Fabiano: Eu jogava num período em que todo time tinha grandes jogadores que faziam a diferença no confronto individual. E isso fazia com que a parte tática fosse muito difícil de fazer. Quando tem um jogador que tem drible e facilidade de fazer o confronto um contra um, dificulta muito a tática de qualquer time. Naquela época, tinha muita dificuldade, porque a gente enfrentava Fininho, Choko, Falcão que ainda tava surgindo, era muito inferior ao que é hoje. Tinha jogadores com muito mais qualidade de drible. Hoje é um futsal mais tático, mais mecânico, mais em cima de um padrão tático, um futsal muito falado, muito concentrado na questão física.

Rene: Quem é teu ídolo no futsal?

Fabiano: Meu grande ídolo, que eu me espelhei, é o goleiro Serginho, goleiro que jogou na seleção brasileira. Ele foi o cara que inventou a vibração do goleiro, essa vibração que todo mundo faz quando tira uma bola, quando o goleiro faz uma defesa, quem inventou foi o Serginho. E eu copiei essa vibração quando joguei na Europa. Lá eu era taxado por alguns de ridículo. Mas era tão difícil tu defender uma bola que quando fazia era uma coisa que deveria ser comemorado pelo goleiro. Eu e ele passamos pela transição da bola pesada para a bola leve. Ficou muito mais difícil para nós nos adaptarmos a bola leve naquela época. Uma defesa era muito comemorada.

Rene: O que significa o futsal para você?

Fabiano: O futsal foi o alicerce da minha vida. O futsal me deu coragem, me deu alegria, me deu tristeza, me deu decepção, me deu força para continuar quando tive muito mais motivos para parar. Eu respeito muito o futsal.

Rene: O que você faz hoje?

Fabiano: Eu sou formado em direito pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Agora em janeiro de 2018 vou fazer o curso da Confederação Brasileira de Futsal para treinadores de alto nível e no meio do ano que vem vou fazer o curso da UEFA para treinadores do nível europeu. O ano que vem eu vou começar a investir em cursos para poder ser treinador de alto nível. Eu também passei na prova da FIFA para agenciar jogadores depois que eu parei. Era um período que eu queria tirar um pouco o futsal da minha cabeça. Hoje eu tenho uma empresa de gestão de carreiras. Mas o meu grande foco vai ser na carreira de treinador de futsal.

 

Entrevista com Helga Sasso

27/11/2017

Arthur Ruschel da Silva

totoruschel96@gmail.com

 

Chilena de Santiago, Helga Sasso fez toda sua carreira no voleibol do no Rio Grande do Sul. Lembrada como uma das maiores jogadoras do estado, a atacante, ao lado de lendas como Jaqueline, Isabel e Vera Mossa, fez parte da geração de ouro” do Brasil que alavancou o esporte no país e sacramentou de vez a hegemonia brasileira nas quadras. Hoje, Helga é técnica das categorias de base da Sociedade Ginástica Porto Alegre (Sogipa).

 

Fotos: Acervo Pessoal

 

Como você iniciou sua carreira e por que decidiu jogar voleibol?

Meus pais se conheceram em um campeonato sul-americano de voleibol aqui em Porto Alegre. Logo depois, eles foram morar no Chile. Minha mãe e irmã jogavam no time da cidade e eu sempre assistia aos jogos. Sempre quis jogar, pois todo mundo da minha família jogava, mas minha mãe dizia que eu só podia começar depois dos 10 anos. Quando completei a idade, ela começou a me ensinar.

Quando ocorreu o golpe militar no Chile nos mudamos para o Brasil, em Alegrete. Por eu ser filha da Karen, e alta, peguei minha primeira seleção gaúcha. Acho que tinham pena de mim. Em 1976 me mudei para Porto Alegre, onde joguei minha vida inteira na Sogipa. Em 78 fui convocada pela primeira vez para a seleção brasileira.

Representei o país até o ano de 1984, mesmo ano que me casei e fui morar no Rio de Janeiro até 87. Logo depois fui jogar uma temporada na Itália. Encerrei minha carreira quando engravidei do meu primeiro filho, o Guilherme, em 1989.

 

Quais foram os momentos mais importantes da sua carreira?

Quando ganhamos o campeonato sul-americano adulto, em 1981, na cidade de Santo André (SP). Nós sempre perdíamos para o Peru. Lembro que o ginásio estava lotado e viramos o jogo para 3×2. Foi muito emocionante. Eu entrei só no segundo set e mudei o jogo. Outro momento foi quando fomos campeãs mundiais das Universíades (Jogos Universitários Mundiais), no Canadá, em 1983.

 

 

E os piores momentos?

Eu acho que foi quando eu torci o meu joelho no mundial de 1982. Queria poder a voltar a jogar logo e tive que opera-lo três vezes naquele mesmo ano. Não cheguei a ficar parada, mas ia e voltava. Isso era muito ruim. Quase não consegui jogar o mundial do ano seguinte, mas fui cortada do pan-americano.

Mas sem dúvida, o pior momento mesmo foi quando eu estava jogando pela Sogipa. Fiz uma “china” (jogada característica das centrais no vôlei) e torci o meu joelho bom. Eu me lembro de ter caído em quadra, pensando: “meu joelho bom não, meu joelho bom não…”.

 

Helga gosta de relembrar os bons momentos vendo os recortes dos jornais da época

 

Mudou muita coisa no voleibol desde a sua época?

Com certeza. A qualidade técnica dos treinos melhorou bastante. Eu treinava cinco vezes na semana; de manhã, tarde e noite; mas os treinos eram muito básicos. Hoje, a parte física evoluiu muito também. Temos atletas muito mais altas. Eu tenho 1,77 e era central da seleção brasileira adulta, o que hoje é considerado muito baixo para a posição.

 

Como você avalia a reformulação da atual seleção brasileira feminina, promovida pelo técnico José Roberto Guimarães?

Na minha época essas trocas aconteciam muito cedo. A Vera Mossa foi para sua primeira olimpíada com 15 anos. Aos 22, ela já era uma veterana. Hoje em dia as jogadoras estão despontando na seleção com 30 anos. Jamais uma atleta chegaria a essa idade na minha época.

Temos vantagens e desvantagens. Colhemos bastantes frutos com essas atletas mais experientes, mas iremos “remar” um pouco agora quando essas atletas novas entrarem. Nossa seleção hoje é muito habilidosa, mas não é uma seleção alta. Nas categorias de base, vêm se buscando muito isso. Cada vez mais eles privilegiam a altura e esquecem a habilidade; isso não é legal. Claro, fazer um atleta alto ganhar habilidade é mais fácil, mas eu acho que existem muitas atletas habilidosas que são tão boas quanto. Hoje em dia é muita altura, muito físico.

 

Time campeão do Sul-Americano de vôlei, em Santo André. Helga sempre com sua camiseta três

 

Analisando a Superliga, só temos a equipe do Canoas representando o estado no naipe masculino, e, já algum tempo, não temos uma equipe no naipe feminino. Como podemos mudar isso?

Outro dia eu estava assistindo o jogo do Bauru contra o Minas Tênis Clube. No Bauru tinha duas atletas que jogaram aqui no Rio Grande do Sul, no Minas tinha duas atletas que foram nossas aqui na Sogipa. Sempre exportamos nossos melhores para as equipes de fora. Não temos investimento, nunca teve. Essa é a nossa maior dificuldade. Poderíamos fazer grandes equipes.

No vôlei feminino o custo é muito mais caro, porque uma atleta que faça a diferença no feminino é muita mais caro que no masculino. Se você chutar uma árvore vai cair, no mínimo, dois atletas que jogam igual ao que você quer contratar. No feminino isso é muito mais difícil.

 

Faltou conquistar alguma coisa na sua carreira?

Eu me considero uma pessoa bastante realizada nas coisas que eu consegui gosto do meu trabalho, gosto de fazer o que eu faço amo meu trabalho. Nunca pensei em chegar numa seleção gaúcha, em uma seleção brasileira. As coisas foram acontecendo e eu acabei conhecendo o mundo inteiro. Que legal que essas coisas acontecem. O vôlei me deu muita coisa.

Talvez não ter ido para uma olimpíada seja a única mágoa que eu tenho, porque isso é uma coisa tão importante para as pessoas. Lá na Sogipa eu fui campeã mundial e ninguém sabe disso. Eu fui cortada em duas olimpíadas, eu poderia ter ido.

 

Helga no Mundial Juvenil realizado no México, em 1981.

 

Daiane​ ​de​ ​Ouro:​ ​“​Esse​ ​é​ ​o​ ​principal​ ​papel​ ​do​ ​projeto​ ​social:​ ​oportunizar  grandes​ ​possibilidades​ ​na​ ​vida​ ​das​ ​crianças.” 

26/11/2017

Júlia Vargas

vargastjulia@gmail.com

 

Nenhum brasileiro consegue escutar as notas iniciais de Brasileiro sem lembrar dela fazendo o famoso duplo twist carpado no solo. Daiane dos Santos tem 34 anos, 1,46m de altura e foi a primeira ginasta brasileira a ganhar uma medalha de ouro em um Campeonato Mundial, na Califórnia, em 2003, embalada com a mesma música de Waldir Azevedo. 
Referência profissional para muitas meninas e atletas brasileiras e mundiais, a gaúcha decidiu se aposentar após os jogos olímpicos de Londres, em 2012, no qual teve o melhor desempenho na equipe brasileira. Hoje, a ex-ginasta se dedica à desenvolver futuros talentos e suprir a falta de investimento de base no esporte através do projeto sócio-educacional “Brasileirinhos”. Aqui, Daiane falou sobre a pressão dos campeonatos, sobre o racismo nas competições, sobre a vida pós-aposentadoria e sobre sua geração de atletas.

 

 

No Brasil, não existe aposentadoria para atletas. Como foi para ti parar de competir depois de uma carreira tão bonita e querida pelo público? E como ficou a relação com os patrocinadores?
Bom, eu acho que a decisão de se aposentar nunca é fácil, mas antes do atleta pensar nisso, de parar de treinar, parar de fazer essa atividade física que é o trabalho dele, ele tem que se preparar, já pensar em fazer uma formação, pensar o que ele vai fazer daqui pra frente, qual carreira ele quer seguir, de que forma ele vai dar seguimento para o que ele já faz ou mudar completamente de área. Acho que isso é muito importante, mas a decisão de parar sempre é muito difícil.
Acho que tem que ter uma preparação psicológica para isso também. Por exemplo, no meu caso eu fiz ginástica durante 18 anos, então meu corpo sentiu falta durante anos. Só agora, depois de 5 anos, que ele tá entrando em adaptação, que ele entendeu que eu não sou mais atleta. O corpo pede e a nossa mente pede também. Ela tá acostumada com essa rotina. Mas eu acho que é muito bom também viver uma carreira diferente. A aposentadoria no Brasil ela é fictícia, ela é só um nome. Não tem nenhum amparo social para isso. A gente não ganha aposentadoria financeira, mas deixa de ser atleta e começa a partir para uma nova carreira ligada ou não ao esporte.
A relação com os patrocinadores ficou normal. Os contratos são feitos como atleta, então eu tenho hoje novos contratos com outros patrocinadores que não são mais os que eu era atleta, mas fica normal. Tudo isso depende de
como a gente vai conduzindo a nossa carreira após término como atleta, mas para mim, eu tive um patrocinador novo após o término da carreira que não estava ligado diretamente a ginástica.

Qual característica tua foi mais importante para tu chegar onde chegou na ginástica?
Bom, eu acho que minha principal característica para conseguir chegar até meu objetivo foi a determinação. Acho que superar todos os obstáculos, ter um foco e seguir em frente para chegar até o objetivo foi muito importante
para mim. Então, acho que a determinação é muito forte. Se eu tivesse que resumir em uma palavra seria essa.

É impossível falar da ginástica sem citar o seu nome. Como você lida com isso? Concorda que a sua geração mudou o patamar da modalidade no país?
Concordo sim que essa geração mudou a visão da ginástica pro mundo e pro Brasil também, mas tudo isso veio por uma mudança geral. A gente teve mais investimento no esporte com as leis de incentivo. A seleção fez uma concentração permanente lá em Curitiba, onde todas nós moramos juntas durante oito anos. Se deu a condição adequada para todas treinarem igualmente. Eu acho que tudo isso fez com que todo o potencial da seleção pudesse ser desenvolvido e acabou aumentando cada vez mais os resultados benéficos para o Brasil. E isso fez com que a ginástica brasileira se tornasse tão reconhecida dentro do país e fora também.

 

 

Quando você foi para as Olimpíadas de Atenas, você foi com uma das favoritas. Esse reconhecimento é maravilhoso, mas também carrega muita pressão. Como tu lidava com essa pressão e a ansiedade durante as competições?
Acho que pressão a gente sempre sofre. É normal isso acontecer, sempre tem a pressão externa. Mas eu acho que o mais difícil é a pressão interna, nossa como atleta, que é bem difícil de controlar. Aos poucos, ao decorrer das competições, a gente vai ganhando mais experiência e vai aprendendo a lidar com essa ansiedade que, no fundo, é até positiva, porque ficar muito apático também é ruim, mas demais ela te atrapalha. Então, o ideal é alcançar esse equilíbrio, fazer com que isso reverta de uma forma positiva, que possa ser utilizada para benefício da competição em geral.

Hoje, com a internet, os preconceitos sofridos por atletas negros é mais visível, como o caso do Angelo Assumpção. Tu passou por alguma situação de preconceito durante sua carreira?
Essa questão do preconceito já é presente há muito tempo. Realmente, hoje, com a internet, eu acho que todos os tipos de preconceitos, todas as situações são latentes e inclusive para todas as pessoas. É muito difícil ver algum negro que não tenha sofrido algum tipo de preconceito, mas eu a diferença é como a gente encara esse preconceito. Eu acho que tem que ser com educação, mostrando que o preconceito é uma erva daninha e que ele precisa ser exterminado. As pessoas precisam entender que se você quer respeito, respeite também. Você não precisa se o melhor amigo, mas se você não gosta, não precisa ofendê-lo. Eu acho que a gente sabe o nosso valor e cada um tem que saber o seu e compreender o que é certo e o que não é, o que é verdadeiro ou não.

Mesmo afastada das competições desde 2012, tu ainda é muito ligada ao esporte por ser comentarista e administrar o projeto social Brasileirinho. Por que você acredita que projetos sociais são tão importantes para o esporte?
Os projetos sociais hoje eles são uma contribuição que os ex-atletas ou os atletas atuais podem dar para a sociedade. O esporte ligado a educação, dentro de um projeto sócio-educativo, como é o Brasileirinhos, ajuda a transformar a vida dessas crianças e desses jovens que praticam. Mostrando uma visão de vida diferente da que ela já vem, um lado mais positivo, passar essas diretrizes do esporte, o respeito, a disciplina, os desafios dos medos, superação, garra, união de grupo, todos os valores e as regras que o esporte emprega, que são muito parecidos com o que acontece na vida. Então, fazer essa ligação do esporte social, dando oportunidade a outras crianças, a gente tá descobrindo novos diamantes, não só para o esporte, mas também para a vida em geral. Dali podem sair médicos, fisioterapeutas, psicólogos, advogados, enfim. A gente não pensa na formação de atleta, mas sim na formação do caráter do ser humano. Eu acho que esse é o principal papel do projeto social hoje: oportunizar grandes possibilidades na vida
dessas crianças.

 

 

Você acha que o país é carente de investimento para os esportes?
Sim, o Brasil ainda tem uma carência muito grande pro esporte, principalmente porque a gente ainda não tem uma política esportiva formada dentro do nosso país. Acho que facilitaria muito se houvesse um investimento no esporte, principalmente nas categorias de base, porque hoje, no alto rendimento, já melhorou bastante, mas na base ainda falta muito. Se a gente tivesse o esporte na escola, como acontece nos outros países, nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia, ajudaria muito. Hoje a gente tem uma desvalorização cada vez mais forte do profissional de educação física. Hoje, a educação física nem sequer entra na grade curricular da escola e pra gente que trabalha na área, é realmente muito difícil. Já melhorou muito do que se tinha antes, porque antes não se tinha nada e hoje já temos leis que amparam os atletas, mas ainda tá muito baseado só no alto rendimento e a gente precisa da base, do meio entre o
alto rendimento e a base, até chegar a ser um atleta de ponta. Ainda falta um pouco desse olhar para a gente desse lado. E claro que, construindo isso, vai se construir uma política esportiva que é o que a gente tem de mais ausente no Brasil hoje.

Como você vê a renovação da ginástica no Brasil?
Eu acho que o Brasil vem se mantendo com uma geração de bons ginastas. Tem havido um crescimento e a gente espera que isso aconteça cada vez mais porque se não o esporte acaba morrendo. Fico contente, acho que a gente tem
alcançado cada vez mais objetivos maiores, cada vez aumentando mais o quadro de medalhas com atletas  alcançando resultados específicos. E é isso que a gente quer ver. Mostrar que o Brasil tem sim, com todas as dificuldades, uma grande ginástica e pode fazer parte da história do esporte mundial.

Que tipo de política de apoio aos atletas e ao esporte poderiam ser aperfeiçoadas no nosso país?
Hoje a gente tem vários tipos de apoio via lei do incentivo ao esporte, bolsa pódio, bolsas escolares para atletas que vem do esporte escolar também, falando de patrocínio indireto, isso pelos governos. Mas a gente sabe que só esperar o resultado das políticas públicas não adianta. A gente precisa também ali da empresa privada ajudando, fazendo a sua parte, apoiando e incentivando os atletas. E isso pode vir através da lei do incentivo, que hoje é o maior apoiador do esporte brasileiro. Essa lei tem amparado muitos atletas para que consigam se manter somente como atletas no
Brasil. E isso faz com que o rendimento esportivo brasileiro aumentasse muito! Então, se a gente tivesse cada vez mais leis que amparasse os atletas, ajudaria muito. Por exemplo, se a gente tivesse hoje o incentivo maior das faculdades, como se tem nos EUA, onde os atletas podem ganhar bolsa para estudar, seria um grande incentivo porque a gente estaria pensando nesse atleta lá na frente: hoje ele é um atleta, mas, melhor que um atleta, é um atleta formado. Isso é uma coisa que pode se construir, mas hoje o maior apoiador é a Lei do Incentivo ao Esporte.

Entrevista com Adriano Engelke

26/11/2017

Adriano Engelke na segunda edição dos Panamericanos que participou    Foto: Acervo pessoal

 

Christopher Sant’Anna

santanna.christopher@gmail.com

 

Como foi que tu começou na ginástica rítmica?

Bom, começou comigo indo acompanhar o meu irmão. Ele tinha 7 anos e eu tinha 5, e ele queria praticar. E ele um dia parou não quis mais, e eu continuei. Eu já vivia de cabeça pra baixo e aprontando em casa, me identifiquei com o esporte então eu continuei praticando. Isso foi em São Leopoldo, aí depois, lá pelos 17 anos, fui convidado pra ir pra Sogipa, em Porto Alegre, e ali comecei com minha carreira e fui até 1996, com 30 anos praticando. Aí finalmente parei.

 

Quais os momentos que mais te marcaram na tua carreira como ginasta?

Ah, todas as competições grandes que eu participei eu guardo com carinho na memória. Todas elas me marcaram de alguma forma. Fui em dois Jogos Panamericanos, dois Campeonatos Mundiais… Participei de dois Jogos Ibero-americanos, dois Sul-americanos. Todos foram importantes pra mim como atleta, em algum momento. Me ajudaram a crescer como atleta e como pessoa.

 

Como o esporte afetou a tua vida fora dele?

Eu não consigo ver a minha vida fora do esporte, eles sempre estiveram muito interligados, são até hoje. Mas a humildade, a disciplina, o respeito, tudo isso o esporte nos ensina e a ginástica me ensinou, com certeza. E eu levei pra vida e é o que eu tento passar pros meus alunos.

 

Depois de te aposentar como atleta, como é o teu contato com a ginástica?

Depois de me aposentar, eu continuei trabalhando como treinador, coisa que já fazia, mas me dediquei exclusivamente a isso. Sigo nisso até hoje, tenho uma escola de ginástica em Criciúma, Santa Catarina, e sou o técnico de ginástica do município. Então continuo sempre aí fazendo isso, trabalhando com o esporte e os novos atletas que estão surgindo aí.

 

Como tu avalia a situação atual da ginástica no Brasil?

Ah, a ginástica ao meu ver vai muito bem no Brasil. O esporte vem crescendo no país ano a ano, conseguindo destaques internacionais, cada vez mais tem algum atleta nosso aparecendo no circuito mundial… E com a Olimpíada de 2016 muitos clubes se equiparam melhor, conseguiram mais equipamentos e deram mais apoio aos nossos atletas. Isso é ótimo tanto pra nós que trabalhamos com o esporte quanto pro país, né. Só o que eu queria que mudasse é a abrangência, porque a gente tem relativamente poucos atletas de alto rendimento que permanecem aí, fazendo carreira no esporte. Quem sabe com mais locais bem equipados, mais investimento mesmo, pra que novos atletas em potencial apareçam ajude a melhorar isso.

 

Tem algo que tu gostaria de dizer pra esses atletas iniciantes, ou pros interessados em começar?

Olha, o que eu tenho pra dizer é que curtam o esporte que praticam, façam com paixão e sempre tenham objetivos pra seguir em frente. Quem é atleta desenvolve não só o corpo mas quem essa ela é, tu te eleva como pessoa, e isso não tem preço e tu vai levar para o resto da vida.

 

Paixão dividida entre remar e administrar

23/11/2017

Thayse Uchoa

thayse.uchoa@gmail.com

 

Alexandre Reichert sente-se à vontade no Clube de Regatas Almirante Barroso, com vista privilegiada do Guaíba e das ilhas e pontes que o cercam. O remo faz parte da sua vida desde a adolescência. Hoje aos 44 anos, Alexandre lembra sua trajetória como atleta em clima de nostalgia.

 

Onde tu nasceu e como foi a trajetória até te identificares com o remo?

Eu comecei a remar por causa do meu irmão mais velho, o Gustavo Reichert, que já tinha uma história no ciclismo e competia pelo Grêmio Náutico União (GNU) quando ele tinha entre 15 e 16 anos. Por uma questão de falta de adaptação, meu irmão foi convidado pelo treinador de remo do GNU para conhecer o esporte. Meu irmão veio até a sede, que fica na Ilha do Pavão, e se interessou pelo remo. Nessa época, o União tinha a prática de promover um dia de integração, onde os atletas podiam levar os familiares para conhecer as instalações do clube, a minha família foi, e eu também. A idade mínima para iniciar a treinar no remo é de 12 anos, na época eu já tinha 13, então me convidaram para treinar também. O meu pai achou uma ótima ideia porque assim, eu podia ir para os treinos junto com o meu irmão e um cuidava do outro. Dessa forma, comecei a remar, 6 meses depois do meu irmão, mas só que ele entrou direto em uma categoria Júnior e já participava de competições e eu entrei na escolinha, na categoria infantil, comecei bem no básico. Isso foi em 1986…

 

Alexandre Reichert e o irmão Gustavo Reichert Fotos: Acervo pessoal

 

Por quanto tempo tu ficou no Grêmio Náutico União? Em que competições tu participou?

Eu fiquei até 1995 no União. Corri todas as categorias infantil e juvenil em campeonatos estaduais. A partir da categoria Junior já é possível participar de competições do calendário nacional em campeonatos brasileiros e sul americanos e aí eu já comecei a levar o remo mais a sério, de forma mais profissional.

 

Alexandre em premiação de campeonato estadual

 

Alexandre em premiação de campeonato brasileiro

 

Tu pensava no remo como uma profissão?

Todo mundo tinha esse sonho né.

Infelizmente o nosso país não apoia o esporte, essa falta de incentivo não é só no remo, a gente percebe essa situação em vários outros esportes. Antigamente, os departamentos esportivos disputavam os atletas, alguns buscavam jogadores de basquete, outros buscavam remadores e assim por diante, com o intuito de formar profissionais… Aí depois, quando eu tive uma atuação mais adiante na Federação a gente tentava fazer ações para tirar crianças de situações de risco e não tanto no sentido de formar profissionais do esporte. Por outro lado, era uma forma de investirmos na base.

A situação do remo é a mesma de vários esportes, não existe incentivo na base, é um pensamento muito imediatista. As empresas só querem investir depois que tu ganhou algum campeonato e não se importam com a base, quando na verdade, os atletas precisam do dinheiro antes, para poder se formar, se capacitar, e assim, poder concorrer a um mundial. Essa estrutura nunca vai dar certo. Em esporte nenhum. No remo é a mesma situação, é um esporte caro, os barcos nacionais mais baratos custam cerca de 7 mil reais. Os internacionais já partem de 15 a 20 mil reais. Então é difícil de fazer o transporte e manutenção desse material, muito mais difícil há 30 anos atrás.

Outra questão é os clubes de regatas que são associados a clubes de futebol junto. Os clubes de futebol têm muito dinheiro, então a estrutura de clubes de remo como Flamengo, Vasco da Gama e Corinthians, é de ponta. Os caras competiam com barcos e remos de fibra, enquanto eu competia com barco e remo de madeira. Mas a gente foi lá e ganhou. Só que é uma situação muito sacrificante quando não se tem apoio nenhum. Ainda assim, eu fui um cara privilegiado no esporte, porque através do União eu ganhei uma bolsa de estudos e consegui fazer a faculdade de administração. Como atleta eu tinha uma ajuda de custo e a bolsa de estudos na faculdade.

 

Galpão onde ficam guardados os barcos e remos dos atletas do Clube Almirante Barroso

 

O que tu mais gosta nesse esporte?

Ah ele é apaixonante! Há o contato com a natureza, a possibilidade de se ter um autoconhecimento bem desenvolvido, principalmente quando se rema sozinho. Tu sabe, que todos os progressos são resultado do teu esforço. No remo nada é questão de sorte, ou tu está treinado ou tu está tecnicamente evoluído.

É um ensinamento pra vida, um esporte severo, em que não é possível ganhar sem treino.

 

Quando começa a tua carreira como competidor?

Eu ganhei muitos campeonatos brasileiros e sul americanos quando eu era da categoria júnior pelo União. Quando eu virei sênior, que é a categoria adulta, começaram algumas situações delicadas…

A sede da confederação brasileira e as competições eram no Rio de Janeiro e a gente aqui do sul sempre ganhava dos cariocas. Só que era muito difícil o deslocamento até o Rio. Precisávamos de carretas para levar os barcos. Certo dia, a confederação decidiu mudar o local das competições para a Bahia e o União não tinha condições de arcar com os custos. Imagina se já é difícil viajar para o Rio de Janeiro com todo o material, considera se fôssemos pra Bahia. Só que precisávamos do título brasileiro para poder competir em campeonatos internacionais. Como o União não tinha como nos levar pra competir, também não tínhamos títulos aí começaram as cobranças e o desestímulo.

Meu pai olhou pra mim e falou “olha tu já está com 20 anos na cara, o que tu vai fazer da vida? O remo vai te sustentar?” E isso foi um boicote da Confederação Brasileira de Remo (CBR), quando mudou as competições para o norte.

Nesse meio tempo aconteceu uma situação bem legal. Por sorte, um empresário simpatizou com o clube, com o esporte e com a gente, escutou a nossa história e nos perguntou quanto custava pra ir para o mundial. Na época deviam custar uns 20 mil reais e esse empresário bancou e patrocinou a nossa participação. Aí a gente começou a correr atrás, porque tínhamos que ganhar do atual campeão brasileiro. Desafiamos o campeão da época, que era do Flamengo, e nos classificamos. Em 1994 fomos para o mundial. Depois disso, pra competir novamente, nós teríamos que começar tudo de novo. Aí meu pai me disse uma coisa que foi muito importante, que eu tinha que ter uma experiência em estágio antes de me formar pra poder competir com o mercado. Daí foi um momento de decisão porque, ou eu me profissionalizava, ou continuava insistindo no remo. Daí eu fui seguir a minha vida, como a maioria das pessoas eu fui trabalhar.

Então eu tinha potencial, mas não tinha oportunidades muito menos apoio financeiro e político e quando a vida começou me cobrar eu tive que estabelecer prioridades. Eu vi que o esporte não ia me trazer o retorno financeiro que eu precisava.

 

Campeonato mundial de remo na França

 

Qual é a melhor idade para atuar no remo?

Tem medalhistas olímpicos com 42 anos, mas em média o auge dos competidores é entre 30 e 36 anos. Porque ele já tem mais maturidade física para suportar o estresse e a dor por um longo período. Quando ficamos mais velhos, o corpo começa a suportar mais a zona de desconforto. Tal como maratonistas, raramente tu vai ver maratonistas jovens. O auge dos maratonistas também é acima de 30 anos por suportar mais a fadiga.

 

Como era tua rotina de treinos?

Eu treinava todos os dias pela manhã e à tarde, em média dava 32 a 36 km por dia. Me sumia por essas águas. Essa é uma das vantagens do Guaíba, porque em outros estados o atleta tem que ficar como em uma piscina, indo e voltando.

Aí eu parei por dois anos, fui dar sequência profissional na minha vida. E nesse meio tempo eu fui convidado para assumir a Federação. Nesse momento eu pensei que se eu não fui beneficiado na época que eu era atleta pelo menos agora eu vou virar “cartola” e vou tentar ajudar a próxima geração. Eu pulei para o outro lado do balcão pra ajudar quem estava chegando e não deixar com que passem pelo que eu passei. Assumi a federação com 27 anos, era uma gestão de gurizada, nós revolucionamos e enchemos as regatas. Inovamos nas provas e as tornamos mais atrativas. Enchemos as escolinhas fazendo campanhas com escolas e mostrando o que era o remo, fizemos um folder divulgando os clubes para atrair o interesse das crianças pelo esporte. Conseguimos resultados bem bacanas. Mas toda a revolução incomoda e acharam que estávamos revolucionando demais então na próxima eleição já não ganhamos mais.

Nesse período eu também fiz o curso de arbitragem, na Confederação Brasileira de Remo (CBR). Eu passei em segundo lugar e pude a ter habilitação para ser árbitro nacional. Daí passei de técnico da Federação para árbitro geral e a gente trouxe brasileiros pra cá, que na época não tinha, e fizemos regatas bacanas  de 2 mil metros e regatas do calendário nacional que nunca tinham vindo pro Estado. Nesses três anos eu fui o árbitro principal e logo depois nós perdemos a gestão novamente. Daí eu me desmotivei, porque fiz todo um esforço e veio outra gestão, que não acompanhou a evolução das coisas, e eu vi se perder tudo que eu já tinha feito.

De 2002 a 2004 eu competi na categoria master pelo União e por motivos profissionais eu precisei me mudar para o Rio de Janeiro. Lá eu remei pelo Flamengo em 2004 e 2005 e pela categoria máster e ganhei mais campeonatos brasileiros e sul americanos. Só que aí eu já não tinha a mesma rotina de treinos. Os competidores master treinam um turno só, se possível todos os dias. No Rio eu tinha uma logística que me permitia treinar e também o clima lá é mais agradável. Aqui a gente sofre muito com o frio e o inverno. Mas lá no Rio eu já via o remo como hobbie.

 

Alexandre treinando nas águas do Guaíba

 

Quando oficialmente tu parou de competir?

Eu parei de competir oficialmente as categorias principais em 1995, quando eu voltei do mundial. Ali parou minha carreira, depois, eu entrei na federação e já comecei a competir master que não é mais a categoria principal. Nessa época eu já estava mais pra brincar do que para competir.

Quando voltei do Rio de janeiro eu voltei pro União, mas já pensando no remo como lazer e acabei saindo logo depois por incompatibilidade de horários. Recebi um convite para vir para o Clube Almirante Barroso onde eu posso treinar na hora que eu quero e posso e já faz 5 anos que estou aqui. O clube é fechado, a gente convida os sócios. Um clube super simples mas as coisas aqui funcionam bem, temos a saúde financeira positiva e aos poucos vamos arrumando e fazendo as melhorias do clube. A gente aqui é uma família. Eu conheço os caras daqui há mais de 30 anos.

 

O que tu faz hoje?

Hoje eu trabalho nas lojas Renner. Sou especialista em processos administrativos. Aqui no Clube eu sou diretor técnico de remo e hoje eu pratico o esporte por prazer e nem participo mais de competições, até porque eu estou com sobrepeso.

 

E gosta da tua profissão atual?

Sim sim, é o que eu domino, o que sei fazer. A gente acaba encontrando prazer no que a gente corre atrás e se especializa.

 

Tens filhos?

Tenho três de quatro patas (risos)

 

Alexandre Reichert ex-atleta e administrador e Thayse Uchoa estudante de jornalismo UFRGS