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Esporte como emancipação

05/01/2018

por Thayse Uchoa

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Assistindo a cerca de 180 alunos de seis comunidades do município de Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre, o Emancipa Esporte se consolida como projeto social que muda a vida das pessoas.

A rede Emancipa Educação Popular atua em âmbito nacional e está presente em seis Estados. Aqui no Rio Grande do Sul, no município de Gravataí o projeto tem foco nos esportes, essencialmente no Taekwondo. Ruan Martins, 24 anos, é bancário, professor voluntário de Taekwondo e coordenador do projeto, ele conta que a iniciativa começou há pouco mais de um ano e já colhe frutos de sucesso. “A proposta iniciou a partir de uma experiência de parceria entre o cursinho popular pré-universitário Emancipa, que já tinha atuação com alunos da comunidade do Xará – subúrbio de Gravataí. Eu já estava começando a dar aula de Taekwondo nessa comunidade, onde desenvolvia um trabalho através da associação de moradores.” Dessa forma os alunos passaram a se interessar pelo esporte destaca o professor.

A comunidade do Xará fica em uma região afastada do centro de Gravataí, o local tem poucos recursos e é uma das regiões mais pobres da cidade.

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“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si mediatizados pelo mundo” Paulo Freire

O projeto tem base nos ensinamentos de Paulo Freire, patrono da educação brasileira.  As aulas vão além dos ensinamentos esportivos: trabalho em equipe, o respeito aos colegas, professores e familiares são a base para a permanência nas aulas. “A educação é feita em comunhão, e é isso que eles aprendem com o esporte, a importância da coletividade. A partir daí, a gente consegue trabalhar questões mais profundas e cotidianas. O pensamento crítico e os questionamentos sobre a realidade em que os jovens da comunidade vivem, possibilitam novas perspectivas e vontade de mudança.” ressalta o professor.

O projeto deu certo, e a partir da formação dos alunos no Taekwondo está se expandindo a outros bairros da cidade de Gravataí. Motivados pelo poder transformador do esporte, os alunos já formados estão oferecendo aulas em outras cinco comunidades: Moradas do Vale, Rincão, Princesa, Bonsucesso e Central, atendendo cerca de 180 alunos.

Os aprendizes têm entre 5 e 17 anos e não há pré-requisitos para participar das aulas, mas sim, para a permanência no programa. Trimestralmente o projeto envia uma carta aos pais e professores, onde eles precisam dissertar sobre o comportamento, e o rendimento escolar dos alunos. “Queremos saber se eles estão aplicando em casa e na escola todo o conhecimento que a gente desenvolve no projeto. Então quem não devolve essa folha, não treina. É um trabalho coletivo. A contrapartida é o bom comportamento e rendimento escolar” conta Ruan.

O professor Ruan Martins, treina desde os seus nove anos de idade e relata que toda a sua trajetória ocorreu em projetos sociais. Ele relembra ainda, a vontade de transformação social de seu professor de Taekwondo, a qual ele acredita ter herdado. “No momento que me formei faixa preta, passei a dar aula em projetos sociais, aos 16 anos de idade. Foi uma forma a dar seguimento ao que o meu professor fazia e ainda faz. Mais tarde foi, também, por uma tomada de consciência de classe social, de perceber o que é a desigualdade e o que ela ocasiona. Então não é só uma questão de motivação, mas de consciência, porque a educação é uma ferramenta de luta muito importante.”

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As aulas do projeto ocorrem e se mantém de forma independente. Para arrecadar fundos, são produzidos campeonatos, rifas, jantares, e por vezes há doações de pessoa físicas.  É também, mais uma forma de engajamento e união dos alunos. Saiba mais sobre o projeto clicando aqui.

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Suor, sorriso e amizade

04/01/2018

Esporte universitário e Associações Atléticas Acadêmicas da UFRGS

Camila Bengo

As Associações Atléticas Acadêmicas (AAA’s) podem ser a primeira coisa que vem à mente quando o assunto é esporte universitário. Misturando atividades esportivas com diversão, entretenimento e até mesmo ações de voluntariado, as AAA’s são organizações estudantis que têm como objetivo integrar os acadêmicos por meio do esporte. Elas tomaram conta das universidades nos últimos anos, inclusive da UFRGS. Entretanto, o desporto universitário data de muito antes.

Primeiros passes

Time de futebol masculino da Mackenzie College, primeira Associação Atlética do país

É no fim do Século XIX que aparecem as primeiras manifestações do esporte nas instituições de ensino superior no Brasil, em universidades dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Já em 1916, universidades dos dois estados disputam a primeira competição em nível interestadual do país.

No início da década de 30 surgem as primeiras federações universitárias, como a FAE (Federação Atlética de Estudantes), em 1933, no Rio de Janeiro, e a FUPE (Federação Universitária Paulista de Esportes), em 1934.  Em 1935, obra do jornalista Cásper Libero, acontece a I Olimpíada Universitária do Brasil, tendo ainda São Paulo e Rio de Janeiro como principais focos do esporte. A II Olimpíada viria a acontecer cinco anos depois, já com a participação de estados de outras regiões do país, como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia. A Olimpíada Universitária foi a competição que originou os Jogos Universitários Brasileiros (JUBS), ainda hoje o campeonato universitário mais importante do país.

Cerimônia de abertura dos Jogos Universitários Brasileiros (JUBS) de 1971, em Porto Alegre

Intervenção Estatal

Até então, a prática esportiva dentro das instituições de ensino superior se dava de forma autônoma. Quando, em 1937, por intermédio da Lei n° 378, foi criada a Divisão de Educação Física do Ministério da Educação e Cultura, que passou a regulamentar também o desporto universitário. Entretanto, foi em 1941, com a aprovação da Lei n° 3.199, durante a ditadura do Estado Novo, que as maiores mudanças aconteceram: a regulamentação das entidades esportivas, a definição da função do Estado brasileiro frente ao esporte e a indicação de como administrar as práticas esportivas, inclusive as universitárias.

É na Lei n° 3.199 que as Associações Atléticas Acadêmicas aparecem pela primeira vez de forma oficial. A nova regulamentação estabelecia que as AAA’s deveriam estar associadas aos Diretórios Acadêmicos de seus respectivos cursos e que a soma das atléticas de uma mesma instituição formaria as chamadas Federações Atléticas Acadêmicas que, em âmbito nacional, seriam representadas pela Confederação Brasileira dos Desportos Universitários (CBDU).

Alunos da Escola de Educação Física (ESEF/UFRGS) nos Jogos Universitários Metropolitanos de 1957

Em meados da década de 70, durante o governo da Ditadura Militar do General Ernesto Geisel, a intervenção estatal avançou ainda mais no âmbito dos esportes acadêmicos. Com a promulgação da Lei n° 6.251/75 e do Decreto-Lei n° 80.228/77, a estrutura esportiva foi, mais uma vez, alterada de forma autoritária. A nova legislação determinou que as AAA’s não poderiam mais se organizar no âmbito das graduações, devendo haver uma única Atlética por instituição de ensino superior.

Com o fim do Regime Militar, a abertura política que começou a se instalar no Brasil atingiu também o campo dos esportes universitários. A Constituição de 1988 reestruturou a relação Estado-esporte, devolvendo o controle para as entidades esportivas de um modo geral. Pela nova Constituição, cabia ao Estado fomentar as práticas desportivas, zelando pela autonomia das entidades e destinando recursos públicos para o que começa a ser chamado de esporte educacional, permitindo às instituições a solicitação de capital financeiro para viabilizar ações de incentivo ao esporte.

Esporte na UFRGS

Equipe masculina e feminina de Voleibol da Divisão de Esportes da UFRGS

Na UFRGS o esporte é administrado pela Divisão de Esportes da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE). A Universidade mantém times masculinos e femininos de voleibol, handebol, basquete, futsal, futebol, atletismo, natação, tênis, judô, jiu-jitsu e xadrez. Paralelo a isso, existem as Associações Atléticas Acadêmicas, organizações estudantis autônomas ao aparato institucional, com exceção da Associação Atlética Acadêmica XX de Setembro (AAAXXS), do curso de Medicina, única a possuir o título de Projeto de Extensão Universitária.

O movimento de criação das AAA’s na UFRGS ganhou força no ano de 2014 com o surgimento da Associação Atlética da Escola de Engenharia (AAEE). A partir daí, contando com o auxílio dos fundadores da AAEE, outros cursos aderiram à iniciativa. Lucas Moraes, estudante de Educação Física e presidente da Associação Atlética Acadêmica do Campus Olímpico (A3CO), fundada em 2014, afirma que, com exceção da AAAXXS, as associações não recebem nenhum tipo de apoio da Universidade. “Na verdade as Atléticas nem existem pra UFRGS. As únicas organizações estudantis que eles reconhecem são os diretórios e centros acadêmicos. Até dentro do Campus sempre foi um desafio ser reconhecido, agora que a direção e os professores tão começando a ver o nosso trabalho e começando a abraçar a Atlética um pouco mais, mas é bem difícil assim. E no fundo a Divisão de Esportes sabe que atualmente, querendo ou não, o esporte universitário tá na mão das Atléticas. A Atlética acaba abraçando muito mais os alunos do que o esporte universitário oficial da UFRGS, que é só voltado pra competição. Não que as Atléticas também não sejam, mas o objetivo maior ainda é cumprir um papel integrador, promover o esporte dentro dos cursos. Já no esporte universitário da Divisão de Esportes o aluno tem que passar por peneira e aqueles que são escolhidos é que vão poder treinar.”

Delegação da A3CO participando do Universipraia 2017, competição universitária de esportes de praia que reúne Atléticas de todo o país

Rafael Cardozo, estudante de Arquitetura e Urbanismo e membro da diretoria da Associação Atlética Acadêmica da Faculdade de Arquitetura e Design (A3FAD), fundada em 2017, sente falta do apoio da direção da Faculdade no processo de consolidação da Atlética. “Ta sendo tudo bem autônomo, a gente tem que se virar sozinho. Até tentamos isso de se tornar Projeto de Extensão, como na Medicina, no início do ano. Enviamos um ofício pra direção da Faculdade e eles ficaram de nos responder, mas infelizmente nunca responderam. Só que também naquela época a gente tava só com a ideia, agora a gente já tem as equipes. O próximo passo vai ser lançar novamente isso e conversar com professores pra talvez conseguir esse respaldo, que facilitaria muito. Não ter que pagar por campeonatos e quadras, poder gerar horas complementares, é uma coisa que incentivaria demais o pessoal a participar.”

A autonomia estudantil é uma das principais características das AAA’s, que acabam se tornando um espaço de aprendizado para os estudantes envolvidos, extrapolando as linhas da quadra. Para Lucas Moraes,  presidente da A3CO, que também está em busca do status de Projeto de Extensão, a institucionalização das Atléticas pode não ser tão interessante quanto parece, apesar dos benefícios que traria. “Quando iniciou essa ideia eu tava pilhando muito, mas agora eu já começo a pensar até que ponto é válido isso. Porque é muito rico tu fazer algo totalmente independente e diretamente do aluno pro aluno, é muito mais rico do que tu fazer alguma coisa com uma verba da Universidade por exemplo e quando vê já começam a se meter de alguma forma e aí eu não sei até que ponto vale. Tenho as minhas dúvidas, mas tô tocando o projeto. Já falei com um professor de Gestão Esportiva que tá apoiando e tal, só que é meio nadar contra a maré assim.”

Ensino, saúde e integração através do esporte

Diretoria da Associação Atlética Acadêmica da Fabico, fundada em 2017

“Estar na gestão de uma Atlética é uma experiência quase que profissional”, afirma a estudante de jornalismo Gabriela Plentz, presidente da Associação Atlética Acadêmica da Fabico (AAAF), ressaltando o impacto das Atléticas na formação dos estudantes. Por trás da prática esportiva, as AAA’s se tornam espaços de aprendizagem para os alunos envolvidos, que se vêem frente a situações de planejamento e gestão esportiva. A função de administrar um projeto autônomo como as Atléticas, independente do cargo assumido, acaba por proporcionar experiências ímpares de aprendizado multidisciplinar e trabalho em equipe.

Além disso, as Atléticas Acadêmicas funcionam como um instrumento de integração entre estudantes de diferentes cursos e, por vezes, cumprem papel fundamental para permanência na Universidade. “Eu acho que a Atlética é vital porque se tu chega bixo, não conhece ninguém, e não tem uma boa acolhida, não tem amigos ainda, tu acaba não gostando do curso no primeiro semestre e já sai fora. Quando vê era o que tu queria fazer, tu só não te sentiu bem vindo. E a Atlética é um lugar pra acolher o aluno ou a aluna, porque o esporte consegue unir a gurizada, o pessoal se junta. E eu acho que é interessante pra Universidade saber que o aluno não tá saindo do curso justamente por estar participando de um projeto como a Atlética”, opina o estudante Rafael Cardozo, da A3FAD.

Atletas de uma das equipes de futsal comemorando o gol marcado durante a Copa Fabico, evento realizado semestralmente pela AAAF

A pressão psicológica que a rotina universitária impõem é um dos principais motivos de evasão e trancamentos, pois cria um ambiente propício para o desenvolvimento de diversos transtornos psicológicos que influenciam diretamente na vida acadêmica. Atualmente, quase um terço dos jovens brasileiros sofre com transtornos mentais comuns (TMC), caracterizados por dificuldade de concentração ou para dormir, tristeza frequente, falta de disposição, compulsão alimentar, entre outros sintomas, agravados entre aqueles que estudam em instituições de ensino superior. Se não tratados, problemas como esses podem evoluir para distúrbios mais severos, que levam inúmeros estudantes a abandonar a Universidade todos os anos.

Dentro desse quadro, a prática esportiva se mostra fundamental para a manutenção da saúde integral dos estudantes. Um estudo realizado pela Universidade da Califórnia atribui à prática esportiva a estabilidade da produção de neurotransmissores como o glutamato e o ácido gama-aminobutírico (GABA), responsáveis por regular a saúde física e emocional do indivíduo. De acordo com o mesmo estudo, a prática de atividade física funciona como uma terapia alternativa para transtornos psicológicos, a exemplo da depressão, cuja ocorrência está relacionada a níveis disfuncionais de GABA.

Nesse sentido, a existência das Atléticas se torna fundamental. Com o esporte universitário promovido pela Universidade incapaz de incluir um número maior de estudantes, cabe às AAA’s a missão de abraçar os alunos, promovendo a integração e suavizando a pressão imposta pela vida acadêmica. “A existência de Atléticas na UFRGS é muito importante porque, se parar pra pensar, o esporte sempre foi um ambiente de modificação na vida das pessoas, sempre foi um meio que integrou gente de todas as classes e, enfim, é um espaço de integração que faz bem pra saúde mental, faz bem pra saúde física, faz bem pra tudo. Então a gente ter isso dentro da Universidade, que é um ambiente pesado, de pressão e de muita responsabilidade, ter um espaço que promove eventos esportivos pra dar uma relaxada, palestras para se pensar o esporte e, principalmente dentro da Fabico, pensar também a comunicação no esporte, é muito importante. Eu vejo como uma forma de tu canalizar outras energias, tu integrar pessoas diferentes e também criar um espaço de aprendizado”, enfatiza Gabriela Plentz, presidente da AAAF.

Torcida organizada da AAAF acompanhando a equipe de futsal feminino na disputa pela Taça CECIV, torneio organizado pelo Centro dos Estudantes de Engenharia Civil

Por trás do clima de diversão que toma conta das Atléticas, muitas vezes taxadas de “pauta da direita” pelo movimento estudantil, elas demonstram sua relevância impactando diretamente a vida dos alunos. Não é novidade que o esporte tem o poder de transformar realidades e, no caso das Atléticas, ele é o pretexto que possibilita a superação do individualismo e da competição, inflados pelo ambiente acadêmico. Reunindo estudantes de todas as classes, raças e gêneros, as AAA’s se transformam em espaços para se pensar e viver em comunidade. Lucas Moraes, presidente da A3CO, ressalta o papel inclusivo das associações:  “No esporte tu trabalha diversas coisas que eu acho essenciais não só pra formação na tua área de atuação profissional, mas também como pessoa; como, por exemplo, trabalhar em grupo e entender que o coletivo é importante, porque tem gente que fica 4 anos na faculdade dentro da sala de aula e não sabe nem o nome da pessoa que tá do lado. Através do esporte tu vai vivenciar esse coletivo”.

No gramado ou no areão, o futebol é paixão

21/12/2017

Rene da Silva Almeida

Aloísio veio de Pelotas e começou nas categorias de base do Internacional.

Você já parou para pensar o que vai fazer depois que parar de trabalhar? Alguns não vêem a hora desse dia chegar. Possuem muitos planos, pois não trabalham exatamente onde imaginaram quando criança. Para outros, esse momento parece ser um pesadelo. Não imaginam ficar sem fazer o que mais gostam. Não vivem sem aquela amada atividade. O dinheiro é importante, mas não é o mais importante. Esse parece ser o caso de quem trabalha jogando futebol. Paulão, Luis Fernando e Aloísio são exemplos disso. Mas a diferença desses três homens está na humildade. Humildade para deixar de lado a vaidade e fazer carreira no futebol de várzea.

Não é raro, no fim de ano, vermos jogos beneficentes promovidos por ex-jogadores profissionais. Mesmo aposentados não conseguem ficar longe da gorduchinha. Seja na imprensa comentando jogos, na sala de aula estudando para ser treinador ou auxiliar técnico, ou se tornando empresário de jogadores ou diretores de clubes, ex-jogadores fazem de tudo para ficar perto de sua paixão. Eles nasceram para estar perto do futebol. Nossos três personagens escolheram um caminho bem mais singelo, em que dividem o vestiário com seguranças, vendedores, motoristas e torcedores que até ontem vibravam da arquibancada com suas atuações. Eles encaram campos (não é possível chamar de estádios) precários e aceitam atuar sem remuneração. É, para jogar na várzea é preciso amor pelo que se faz.

O lateral-direito Paulão (de pé, o primeiro à direita) considera que o melhor momento de sua carreira foi no Glória, de Vacaria.

Do Barcelona ao campo da Tuka

Ele já jogou com grandes estrelas no clube catalão. Morou quase 16 anos em Portugal, conquistando nada mais nada menos que 7 campeonatos portugueses. Natural de Pelotas, o zagueiro Aloísio Pires Alves defende hoje as cores do Flamenguinho da Tuka. Ele conta que entrou no futebol de várzea a convite de um colega, há três anos. “Tu tem que se adaptar. Eu já joguei no Ararigbóia, que é um campo de areia, com as dimensões menores e buracos. Tem que gostar bastante e ter amor pelo esporte. Acho que meu grupo acaba por compensar. A parceria do pessoal é muito legal”, relata o jogador. Aloísio tem no currículo 14 jogos pela seleção brasileira principal, passagens por Brasil de Pelotas, Internacional, Barcelona e Porto. Com esse histórico, não é de se admirar que seus adversários nos jogos amadores olhem com outros olhos para o atleta de 54 anos. “O pessoal te olha como se tu ainda tivesse em atividade. Sempre entram com um pouco mais de vontade. Dão a vida”, confirma Aloísio. Perguntado se acredita que leva vantagem sobre seus companheiros por ter sido profissional, ele diz que isso acontece naturalmente. “Pelo fato de ter jogado num alto nível, até mesmo pelo aspecto físico e pela experiência”, justifica.

Além de ex-jogador profissional, Paulão é um dos fundadores do Flamenguinho da Tuka. O clube amador da zona leste de Porto Algre foi criado em 1975.

A humildade de quem foi do futebol argentino à várzea

Luis Fernando Garcia Carneiro começou aos 10 anos nas categorias de base do Grêmio. Esteve no grupo tricolor que conquistou a primeira Copa do Brasil, em 1989. Com passagens por San Lorenzo da Argentina, Jorge Wilsterman da Bolívia e pela segunda divisão espanhola, trabalhou como auxiliar técnico antes de entrar no futebol de várzea. Hoje, trabalhando na metalúrgica de seu pai há quase dez anos, Luis Fernando conta que entrou para o futebol amador também a convite de amigos. O jogador do Flamenguinho ressalta que nunca teve problema de relacionamento com ninguém pelo fato de ter sido profissional. “Tem alguns companheiros que foram profissionais e que acham vão ser daquela maneira para o resto da vida. Eu me envolvo na várzea como se fosse mesmo da várzea. Não relembro meu passado como profissional. É diferente, tu não tem treinamento, encontra o pessoal só no fim de semana. Tu tem uma história, mas não precisa reviver essa historia. É por isso que eu tenho o respeito de todos”, destaca o jogador. Ter sido profissional também é um fator diferencial para o zagueiro de 48 anos. Atualmente jogando muito mais na posição de volante, devido a sua condição física, ele aponta as principais diferenças entre a várzea e o profissional. “A diferença é fora do campo. Quando tu é profissional tem uma estrutura diária de um clube que te dá condição de desenvolver. Tu tem salário, tem premiação, tu joga nos estádios bons. Na várzea tu não escolhe gramado. Joga no areão, com buraco ou sem buraco. O embasamento técnico que eu tive lá no começo me deu a possibilidade de fazer a diferenciação”, relembra Luis Fernando.

O orgulho de ser Flamenguinho

Com passagens por Cruzeiro de Porto Alegre, Internacional, Juventude e Chapecoense, é no Glória de Vacaria que Paulo Roberto dos Santos, o Paulão, viveu o melhor momento da carreira. Em 1989, o time da região norte do estado ficou os dois turnos do Gauchão invicto. Depois que terminou sua carreira, em 1992, o lateral-direito foi professor de escolhinha de futebol, conselheiro tutelar e assessor parlamentar. Paralelo a isso, se dedicou ao Flamenguinho da Tuka. Paulão é fundador e patrono do time da zona leste de Porto Alegre, criado em 1975. “Eu considero meu filho mais velho”, brinca. Ele conta que seu relacionamento é o melhor possível com todos e que seus companheiros reconhecem e respeitam seu passado. Apesar de achar que a vantagem de ter sido profissional se restringe à experiência, o jogador de 57 anos se mostra feliz ao falar de seu time de várzea. “É gratificante, reunimos através do futebol muitas pessoas, não só do Flamenguinho, mas também torcedores de outros clubes”, celebra.

É paixão

Apesar das diferenças nas carreiras de cada um, os três respondem a mesma coisa quando são perguntados sobre o que significa o futebol para suas vidas: “O futebol é tudo pra mim”. E vão mais longe. Os três dizem que enquanto tiverem condições vão continuar jogando futebol. É, realmente futebol é uma cachaça difícil de abandonar. Não há dinheiro que pague a felicidade de dar uns chutes numa bola. É muito mais do que futebol, é paixão. Seja nos microfones, na beira do gramado, nas quadras ou nos campos de areão, se tem futebol envolvido, sempre vai haver alguma grande história a ser contada.

eSports conquistam maior reconhecimento como atividades esportivas profissionais no Brasil

21/12/2017

Erick Gomes

Com cyberatletas ranqueados entre os melhores do mundo e o surgimento de novos profissionais especializados, diferentes modalidades de esportes eletrônicos vão ganhando cada vez mais espaço na mídia.

Times organizados, com uniformes e vários patrocinadores de peso. Treinamentos intensos, que compõem quase o dia inteiro da rotina de atletas. Centenas de campeonatos anuais ao redor do mundo, com altas premiações. Estas são só algumas das características de uma das modalidades esportivas que mais cresce no Brasil e no mundo: os eSports.

Quem acredita que passar horas na frente de um computador ou de um console de jogos é apenas um divertimento para jovens nerds está enganado. O mercado dos esportes eletrônicos nos últimos anos tem tido um enorme crescimento rapidamente, trazendo consigo não só a profissionalização dos cyberatletas, como também a criação de novas profissões. Streamers, managers e donos de organizações, além de produtores de vídeos e jornalistas especializados são alguns dos novos profissionais que estão surgindo neste ramo, muito por conta do grande número de pessoas que procuram informações sobre o mundo dos games.

Entretanto, ainda existe um receio por parte das pessoas em considerar os tipos de eSports como práticas esportivas. A streamer iniciante e estudante de enfermagem Ana “LaDiva” Vieira comenta que isso existe pois os jogos eletrônicos sempre foram considerados coisas de criança, mas os adultos de hoje que são Pro Players eram as crianças de décadas passadas, que continuaram jogando. “Sempre vai ter aquela história que joguinho não é profissão, mas está circulando muita grana e empregos nisso com patrocínio, com montagens de eventos e campeonatos, transmissões pela televisão e prêmios nos torneios”, explica Ana.

O streaming como diversão e fonte de renda

A estudante começou a fazer transmissões de diversos jogos em agosto deste ano. Os streamings de campeonatos e partidas de jogos são feitos através da plataforma Twitch, principal site utilizado pelos esportes eletrônicos. Com a maioria dos seus streams sendo sobre League of Legends e Counter Strike: Global Offensive, Ana não começou o trabalho buscando renda, mas sim por gostar de jogar e da interação com a audiência. As transmissões são realizadas através da criação de uma conta no Twitch e a instalação do software de transmissão, e ocorrem quando o streamer está jogando. O público que se interessar pelo stream verá a partida e, a partir disso, começará a comentar o jogo. A audiência das transmissões pode ser formada por seguidores ou por assinantes – subscribers, que pagam R$4,99 por mês -, que podem doar qualquer valor para o streamer, além de receber vantagens, como jogar junto e participar de sorteios de itens de jogos.

Existem também os chamados hosts ou ganks, que acontecem quando streamers com maior público transmite a live de um streamer iniciante como forma de divulgação e popularização. “A comunidade da Twitch é bem assim, pessoal tá sempre ajudando quem tá começando”, comenta Ana. LaDiva conta que já fez streaming pra mais de 300 pessoas com o host que recebeu, mas normalmente a sua média é de 10 a 40 pessoas, considerando o ideal atingir pelo menos 100 seguidores. O tempo de duração das transmissões normalmente dura entre 4 a 8 horas, sendo comum entre streamers profissionais passar de 8 horas quase diariamente. A remuneração destes profissionais, além de vir das doações e inscrições, é feita a partir dos patrocínios e propagandas que passam durante a stream. Existem também aqueles que fazem 24 horas de transmissão uma vez por mês, contando com conversas e brincadeiras além das partidas dos jogos.

Bruno Eugênio também viu uma oportunidade de trabalho no streaming. Conhecido principalmente pelo seu apelido “Amarelito”, Bruno é produtor de conteúdo sobre games e humor desde 2007, e em 2012 surgiu a oportunidade de trabalhar como editor no blog LeNinja, um dos nomes mais populares da blogosfera. Começou a fazer lives em agosto de 2015, inicialmente com jogos de terror. Em seguida, passou a se dedicar exclusivamente a transmissão de League of Legends. “Foi questão de começar, receber as críticas nos vídeos e ir buscando uma interação maior com o público que comecei a fazer lives. Acabei conhecendo a comunidade e mergulhei de cabeça. Posso ficar um tempo sem fazer lives, masquando volto, a recepção do público é sempre uma coisa única”, explica Amarelito. Seus streams atingem entre 1200 e 1500 viewers.

Mais espaço na mídia e reconhecimento

Apesar da cobertura dos jogos eletrônicos ser feita principalmente pela internet, os principais canais de televisão dedicados a esportes já transmitiram grandes campeonatos de eSports, e estão abrindo mais espaço para os games na sua programação. Atualmente, o canal ESPN+ conta com três programas semanais dedicados ao segmento e transmite a ESL Brasil Premier League – competição com equipes brasileiras de diferentes modalidades -, o canal Esporte Interativo transmite os torneios de Counter Strike: Global Offensive, e o canal SporTV traz em sua programação os principais campeonatos de League of Legends. Os dois jogos são considerados os mais populares no universo gamer, cada um movimentando mais de 4 milhões de dólares em premiações para os campeões das suas mais de 200 competições profissionais. LoL e CS:GO, como são popularmente conhecidos, possuem, respectivamente, 1616 e 2114 jogadores profissionais ativos e extremamente dedicados, dentre os quais os brasileiros se destacam. De acordo com o ranking de 2017 da HLTV.org – a classificação mais respeitada de eSports -, a equipe brasileira SK Gaming é considerada atualmente o melhor time do mundo de CS:GO.

O Brasil também já foi sede de importantes competições de modalidades de esportes eletrônicos. No dia 21 de maio de 2017, a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida pela Riot Games para sediar a final do Mid-Season Invitational, torneio mundial de League of Legends. No Rio Grande do Sul, Porto Alegre já foi sede da Série dos Campeões da Liga Brasileira de League of Legends, nos dias 26 e 27 de abril de 2015.

A atenção que o eSport está ganhando chegou ao ponto de o co-presidente do comitê das Olimpíadas de 2024, Tony Estanguet, admitir ter o interesse de trazer os jogos para o evento, que ocorrerá em Paris. Em entrevista na China em agosto deste ano, o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomas Bach, declarou que os eSports serão bem vindos nos Jogos Olímpicos, mas para isso será necessário a criação de regras para que a modalidade possa seguir os padrões olímpicos. Bach ainda deixou bem claro que os jogos violentos não terão vez no evento.

Primeira premiação de e-Sport do Brasil acontece na próxima segunda

A empresa de negócios esportivos GO4It, em parceria com o Grupo Globo e a Claro, lançou em novembro o Prêmio eSports Brasil, primeira premiação dedicada ao segmento dos esportes digitais no país. Com 4 categorias decididas pelo voto do público e 11 categorias técnicas, escolhidas por um júri composto por 34 especialistas, o evento será transmitido pela SporTV na próxima segunda, dia 19 de dezembro.

O ex Pro Player de Smite e estudante de geografia, Gianlucca “qe3q” Severo, considera a premiação muito importante pelo reconhecimento que traz ao e-Sport. Gianlucca, que atuou nas posições de caçador e Mid pela organização INTZ de 2014 a 2017, parou de jogar após o mundial de janeiro para se dedicar aos estudos. Já Bruno Eugênio, editor do LeNinja, vê o prêmio como uma apresentação deste segmento recente, fazendo com que as grandes marcas passem a conhecer mais o universo dos jogos. “Tendo um prêmio que mostre a importância dos jogadores e outras personalidades, facilita essa aceitação. Consequentemente, todos ganham dinheiro para investir e fazer o cenário ficar ainda mais forte”, explica Bruno.

O rio grande já foi terra de voleibol

21/12/2017

Arthur Ruschel da Silva

totoruschel96@gmail.com

Alexsandro Bauer acompanhou o projeto desde o início: “Saudade de ver esse ginásio lotado”

Equipe de voleibol Ulbra foi tricampeã da superliga masculina

Tesourinha lotado,12×8, a Ulbra/Diadora perde por 2 sets a 1 e precisa reverter o placar a favor da poderosa Olimpikus. O levantador argentino Weber, da equipe gaúcha, havia entrado na metade do terceiro set, machucado, e com o seu 1,80 altura, bloqueou Giba, de 1,92. Era ele a personificação da raça gaúcha que permitiu a virada no quarto set e a vitória no tie-break. A Ulbra conquistava uma importante resultado que seria o combustível para o último jogo no Rio de Janeiro.

A vitória em Porto Alegre foi o começo da ascensão de uma grande equipe que marcou época. No jogo em solo carioca, a Ulbra venceu os donos da casa por 3×1, e sagrou-se campeã da Superliga de voleibol, temporada 97/98. Essa cena se repetiria nas temporadas seguintes. A equipe foi tri-campeã da competição (98/99 e 02/03). Anos dourados do voleibol gaúcho. Hoje, o que resta são apenas lembranças.

Memórias estas vividas de perto por Alexsandro Alves Bauer, coordenador de esportes do complexo esportivo da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Na época, Alex era responsável pelo almoxarifado e coordenação dos jogos. Acompanhou o projeto desde o seu início.

A intenção era ser um grande clube. Com o futebol tínhamos uma parceria com o Inter, já no vôlei, era com a universidade. O primeiro ano foi bem desafiador, mas ao poucos fomos pegando a ‘manha’”, lembrou.

Alex também estava naquele fatídico dia 16 de abril de 1998, em que a grande virada aconteceu. Ele recorda como era trabalhar e ao mesmo tempo ser torcedor do clube:

Quando tu trabalha em um clube, tu veste a camisa. Todo o teu emocional é trabalhado. Todo mundo tava gritando, apoiando. Éramos uma equipe nova que a região metropolitana abraçou”, comentou.

O coordenador também destacou a participação e o engajamento da cidade para o sucesso da equipe: “A cidade abraçou de coração o projeto. tinha gente que estava em todos os jogos. Mandavam mensagem de apoio”, e finaliza: “Todos os jogos não baixava de 1000 pessoas”. O ginásio, onde a equipe treinava e jogava, tinha capacidade para 1200 pessoas.

Hora de montar a equipe

A tarefa de reunir o elenco para o início o projeto foi incumbida ao experiente técnico Jorginho Schimdt. O treinador já havia sido campeão da superliga, comandando a também gaúcha equipe da Frango Sul/Ginástica. Com o fechamento do time, Schimdt se transferiu para a recém iniciada Ulbra.

Desde o início eu tive muita confiança e consistência no projeto que me foi apresentado. A estrutura que a Ulbra tinha para treinamentos, fisioterapia e parte física era um exemplo para tudo isso.”, ressaltou.

Com a chegada de um patrocinador, a equipe pode enfim montar um elenco competitivo para a disputa da superliga de 97/98. Desde o início, a Ulbra/Diadora era apontada como “zebra” da competição.

Para um time que se classificou em 4 lugar, e foi campeão, o respaldo acabou sendo muito grande. Tudo isso foi graças a um planejamento feito entre equipe e a própria universidade.”, afirmou.

Schimdt também ressaltou a importância da sua passagem na equipe para o seu crescimento profissional:

Eu não tenho dúvida que a propulsão que a Ulbra deu para minha carreira esportiva foi muito grande. Meu crescimento teve muito a ver com esforço próprio, e do apoio que eu tive naquele tempo.”, enfatizou. Hoje Jorginho atua como secretário de Esportes da prefeitura de Novo Hamburgo

O elenco era formado por atletas como Weber, Alex Lenz, Fernandão , André Heller, Mâncio, Celso, Marcelo Fronckowiak, Fink, Joel, Hernani, Jeffe, Gatin, Wilian, Jonas, Betão e Gilson, o Mão de Pilão.

Equipe campã da temporada 97/98, primeiro título da Ulbra

Muitos profissionais e atletas foram “crias” da equipe

Foi uma parte fundamental da minha trajetória. Eu realmente me tornei um atleta profisional la. Ganhava salário, eu morei na Ulbra, estudei.”, afirmou o campeão olímpico, em 2004, pela seleção brasileira, André Heller. O central tinha apenas 20 anos quando se transferiu da recém extinta Frango Sul/Ginástica, para a Ulbra/Diadora, em 1996.

A força dessa equipe era ser muito heterogênea. Tínhamos jogadores de todos os níveis, características e perfis. Isso deixava a equipe muito forte. Sabíamos que no papel não éramos a melhor equipe, mas trabalhávamos muito.” ressaltou.

Hoje, André trabalha como gestor da equipe do Vôlei Renata, da cidade de Campinas – SP.

Marcel Matz, atual técnico do Lebes/Canoas, único representante do estado na superliga atual, também iniciou sua carreira profissional nas quadras da Ulbra. O ano era 2002, e o técnico entrou como estagiário na comissão técnica da equipe.

Pela primeira vez eu pude sentir começar a entender oq era uma semana inteira de trabalho. Foi um ‘start’. Agora estou colhendo e tentando aplicar o que eu aprendi.”, comentou o treinador.

A temporada de 02/03 foi o último título da Ulbra como representante do Rio Grande do Sul. “Era um grupo jovem, mas com jogadores maduros como Ricardinho e Marcelo Negrão. Era um equipe muito batalhadora.”, relembrou Matz.

O elenco da temporada também era composto por Dentinho, Rapha, Acácio, Riad, Renato Felizardo, Lilico, Bozko, Duda, Jardel, Thiago Peter, Dante Trevisan, Alan, Roberto, Cris e a revelação, Roberto Minuzzi. O técnico era Marcelo Fronckowiak.

Em 2006, a Ulbra passa a representar, também, o estado de São Paulo, disputando dois campeonatos estaduais. A temporada 08/09 ficou marcada como a última edição com a participação da equipe. O time já vinha sofrendo com a falta de patrocinadores e a crise econômica, por isso, fechou as portas.

De qualquer forma, o voleibol da Ulbra deixou sua marca como uma das maiores e mais vitoriosas equipes da história do vôlei nacional. De weber até Ricardinho, Gilson até Minuzzi, de um Tesourinha lotado à um ginásio com capacidade para 1200 pessoas, muito foi feito pelo voleibol naquela época e deve ser levado como exemplo e inspiração.

A maioria dos atletas que eu encontro perguntam: quando a Ulbra vai voltar?”, finaliza o coordenador de esportes do complexo esportivo da Ulbra, Alexsandro Alves Bauer.

O Caso Colin Kaepernick

21/12/2017

Christopher S. WIlbert

O juiz apita. O homem adiante da linha corre e chuta a bola para o campo adversário. Um deles a agarra, e se ajoelha no chão, rendendo-se, fazendo com que todos os outros jogadores em campo parem de correr, e entrega a bola ao juiz de linha. Não, não é futebol. Não brasileiro, pelo menos.

Nos últimos anos, a National Football League, mais referenciada pela sigla NFL, vem ganhando popularidade no Brasil. Os jogos, transmitidos pelos canais da empresa americana ESPN, atraem cada vez mais os telespectadores brasileiros para os mistérios das regras do futebol americano. Porém, nem tudo é transmitido, nem tudo recebe a relevância que deveria e não é só de touchdowns e tackles que vive esse esporte: com a crescente atenção, vem também maior responsabilidade para os envolvidos na sua existência e impacto na sociedade. E ninguém personifica melhor isso do que o ex-quarterback do San Francisco 49ers, Colin Kaepernick.

Kaepernick se tornou quarterback dos 49ers em 2011, permanecendo no time até 2016 e se tornando um dos melhores quarterbacks neste ínterim. Após denúncias de violência policial a jovens negros, o quarterback começou a realizar um ato tão polêmico que resultou, segundo ele, na sua retirada do time principal e, ultimamente, no seu atual estado de desemprego: durante o hino nacional americano, antes das partidas,o quarterback do San Fransisco se ajoelhava em protesto, um ato considerado por muitos uma ofensa ao futebol e à própria pátria do jogador.

Independentemente do repúdio dos torcedores e críticos do esporte, o jogador insistiu em se ajoelhar por diversos jogos. Aos poucos, alguns de seus colegas se uniram a ele, ainda que poucos. Finalmente, após um mês, o técnico dos 49ers retirou Kaepernick do posto de quarterback oficial e o colocou como reserva, alegando que seu desempenho havia decaído demais. Ao invés de se manter, o jovem atleta viu a atitude como um repúdio à sua manifestação e deixou o San Francisco em março deste ano, buscando emprego em outros times. Entretanto, mesmo com muitos times em séria necessidade de novos quarterbacks, Kaepernick permanece sem emprego.

Segundo Renan Jardim – jornalista e editor do blog Touchdown RS – “Kaep tem dois lados da moeda nessa história. Ambos o desfavorecem, mas sua causa é justa”. De acordo com ele, Kaepernick realmente teve um desempenho abaixo do esperado antes de ser retirado do time principal, mas não reduziu seu valor no mercado. “Kaep virou um QB móvel, alternativo para seu ataque. Elevou seu valor comercial quando botou o 49ers no Super Bowl, se tornou um dos grandes destaques da NFL. O rendimento caiu, mas seu valor era o mesmo. Ou seja: caro demais para ter no elenco.”

O momento em que Kaepernick realmente se torna uma personalidade polêmica na sociedade americana acontece quando o presidente Donald Trump declara, durante o início de uma rodada da NFL, que as franquias deveriam demitir os jogadores que se ajoelham durante o hino, além de os chamar de “filhos da p…”. Este fato foi o que deu início a diversas manifestações similares à de Kaepernick. O jogador dos 49ers passou de manifestante isolado contra a violência e o racismo a pivô de uma manifestação em escala nacional, tornou-se um símbolo de respeito e coragem para muitos. Diversos jogadores de vários times aderiram à atitude, se ajoelhando durante o hino, em protesto a Trump e sua declaração; ao mesmo tempo, apoiadores do presidente e vários americanos ainda abominam o protesto silencioso, e, segundo Kaepernick, muitos destes insatisfeitos estão entre os dirigentes da NFL.

Neste ano, o ex-quarterback entrou na justiça contra estes dirigentes, alegando conluio para mantê-lo fora da liga por razões políticas. Renan Jardim avalia que “Essa briga que ele (Kaepernick) encabeça é justa, é totalmente importante, mas qual time vai querer esse ativista com sua marca? Considerando os 64 Qbs da Liga, reservas e titulares, Kaep pega fácil no mínimo uns 5 lugares entre titulares. Mas tu coloca ele no teu elenco e traz junto a polêmica.” Segundo Renan, “A liga sempre foi engajada em causas humanitárias. Sempre incentivou isso. Na minha visão, ela não é contra a causa do Kaep. Pelo contrário. O que acontece neste caso é que um time não quer esse tipo de publicidade e não considera Kaep no elenco muito por isso, mas o seu valor de mercado também influencia na decisão.”

Realmente, a NFL tem um histórico de auxiliar a dar visibilidade a problemas e divulgar campanhas. Durante o Outubro Rosa, todos os jogadores utilizam uma parte do equipamento nessa cor, independente do time, e durante o espetáculo da grande final (o chamado Super Bowl), artistas e voluntários tomam alguns minutos do show do intervalo para chamar a atenção do público para alguma mensagem de cunho humanitário. Entretanto, a NFL já teve casos, de pouco conhecidos a grandes escândalos (como o de O. J. Simpson e do médico nigeriano Bennet Omalu) que tentou, e por vezes conseguiu, encobrir ou abafar.

Tom Brady, quarterback dos New England Patriots e ícone do esporte, se posicionou a favor de uma possível contratação de Kaepernick, em entrevista ao canal americano CBS,em outubro. Atual campeão do Super Bowl, Brady reforçou o que outro jogador respeitado da posição, Aaron Rodgers, dos Green Bay Packers, afirmou em outra entrevista: “é um ignorante quem pensa que Kaepernick está sem clube por qualquer outra razão que não seja os protestos durante as partidas”.

Durante um evento promovido pela revista Sports Ilustrated, a cantora Beyoncé chegou a pedir para subir, e subiu, ao palco para entregar o Muhammad Ali Legacy Award de 2017 ao ex-quarterback, uma premiação concedida apenas àqueles atletas cujas carreiras influenciaram, direta ou indiretamente, o mundo de forma positiva.

Independente da razão de sua ausência dos campos, Colin Kaepernick é agora uma figura de destaque no meio esportivo, especialmente na modalidade que atuou por tantos anos. Todo fã da bola oval deve conhecer este nome e seu gesto, um gesto de protesto político e social, um gesto que começou em apenas um atleta, que abriu os olhos de muitos para problemas maiores do que até ele mesmo previra. Colin Kaepernick é um nome que entrará para a história da NFL não só por sua grande jornada na liga, mas por mostrar ao mundo como se ajoelhar nem sempre significa se render.

Sempre questionadas: ser mulher e trabalhar na imprensa esportiva

18/12/2017

Júlia Teixeira Vargas

vargastjulia@gmail.com

Era sábado, 21 de outubro. Internacional e Criciúma se enfrentaram no estádio Heriberto Hulse pela 31ª rodada da Série B do Campeonato Brasileiro. Seria mais um dia de trabalho normal para Júlia Goulart, da Rádio Galera, se não fosse por uma minoria da torcida colorada que começou a se referir a ela com xingamentos maldosos e machistas. Vinte dias antes, a repórter tinha passado por uma situação muito semelhante com a torcida do São José.

“Por serem dois episódios em um intervalo de tempo muito curto, eu repensei, eu achei que não queria mais. Foi uma exposição terrível que eu não quero que ninguém mais passe”, desabafou Júlia, que pensou em desistir da profissão.

Infelizmente, ela não foi a primeira e nem será a ultima jornalista a ser vítima de comentários machistas oriundos de torcedores, dirigentes de clubes e colegas de redação. Renata de Medeiros teve qualidade do seu trabalho questionada por ser mulher. Camila Carelli, Ana Thais Matos e Mayra Siqueira começaram a colocar os fones no último volume para não ouvir as cantadas dentro dos estádios. Ana Helena Goebel preferiu não usar roupas apertadas para não ser alvo de comentários masculinos.

“A cada nove homens numa redação de esporte existe uma mulher”

Através de um levantamento feito pelo site UOL, apenas 13% das pessoas que aparecem falando sobre futebol na TV são mulheres. Dessas, quase todas são repórteres ou setoristas de times. São poucos nomes femininos como narradoras e comentaristas. Por conta disso, Camila Carelli, da Rádio Globo e da CBN, acredita que existe mais machismo dentro das redações do que nos clubes. “Os colegas são mais preconceituosos que os jogadores. Sempre tem aquela coisa ‘ah, caiu de paraquedas’ ou ‘gosta, mas não entende’.”

Algumas jornalistas não imaginavam trabalhar com esporte quando ingressaram na graduação de jornalismo. Ana Helena, da Sportv, acreditava que continuaria na profissão como jornalista de geral, cobrindo buracos nas ruas. Quando surgiu a oportunidade, ela precisou aprender tudo sobre o esporte. “Eu comecei a assistir dez jogos por dia e acabei me apaixonando.”

Outras mulheres sempre tiveram certeza que gostariam de seguir exatamente esse caminho. Para Renata de Medeiros, produtora de esportes da Rádio Gaúcha, a ideia de ser cronista esportiva existe desde criança. “Nunca existiu só o jornalismo ou só o futebol. Eu sempre me imaginei sendo jornalista esportiva. Na quarta série, eu escrevi uma crônica sobre o Brasil campeão mundial da Copa de 2018”, conta a repórter de torcida, que estudou Gestão Técnica na Universidade do Futebol.

Apesar do estudo e do empenho das jornalistas, parece que essas não são consideradas capazes de ocuparem as principais funções de uma jornada esportiva. Camila chegou a escutar de pessoas, do ramo da rádio, que a voz feminina não era padrão e que, por isso, ela não poderia fazer cobertura de clássicos do futebol brasileiro.

Em 2017, a primeira narradora em Minas Gerais

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Isabelly Morais na sua primeira narração. Foto: Acerto pessoal

Não é a toa que a narração experimental de Isabelly Morais, na Rádio Inconfidência de Minas Gerais, repercutiu no país inteiro. A estudante de jornalismo de 20 anos foi convidada para narrar uma partida da Série B do Brasileirão no dia 7 de novembro deste ano. Ela foi a primeira mulher a exercer este cargo no estado. No Brasil, a primeira narradora foi Zuleide Ranieri Dias na década de 1970. “O desafio apareceu no primeiro contato com o meu chefe. Ele me perguntou de cara se eu toparia ser uma narradora esportiva. No começo eu me assustei, mas falei que se eu treinasse para isso, beleza. Eu continuei nas funções de repórter, quando umas duas semanas antes, ele me disse que eu ia narrar”, relatou a estudante.

Na manhã seguinte a narração, Isabelly foi procurada pelas principais emissoras de comunicação do país para falar sobre a oportunidade. A repórter passou de cerca de mil seguidores no twitter para 5,5 mil em uma noite e não fazia ideia da dimensão que uma narração de 90 minutos com uma mulher narradora e uma comentarista teria em sua vida. “Narrar é uma sensação de quebrar uma barreira, de atingir um marco pessoal e de me descobrir dentro da minha profissão. Eu amo o jornalismo esportivo e ocupar uma outra função além das que eu já fazia foi uma descoberta do que Isabelly Morais ainda pode fazer no esporte.  É um orgulho muito grande!”

Pode errar, se não for mulher

Infelizmente, o que aconteceu com Isabelly é exceção no mercado. As mulheres que trabalham na imprensa do futebol dificilmente encontram apoio dos seus chefes dentro da editorias. Elas precisam, a todo momento, provar para seus colegas, seus superiores e para o público que realmente entendem do que estão falando.

“Tu começa a trabalhar, e a primeira pergunta é a escalação da Seleção Brasileira na Copa de 1970, ou ‘me explica a regra do impedimento.’ E perguntam para os produtores e repórteres homens se eles sabem?”, conta Renata, que precisou explicar ao comandante da jornada da Rádio Gaúcha que queria ser chamada apenas pelo nome, sem nenhum adjetivo referente a sua beleza.

À frente do É Gol!, Ana Helena interage muito com as redes sociais durante o programa e sente pressão dos telespectadores, na sua maioria homens, na hora de fazer qualquer comentário sobre futebol. “Eu tenho que destruir na minha fala para provar para as pessoas que eu entendo. Se a gente só comentar que tá jogando bem, as pessoas já olham como se você não soubesse o que tá falando.”

Mayra Siqueira, jornalista e pós graduanda em ciência política acredita que errar no jornalismo esportivo é, além de humano, permitido, mas só se você for um homem. A setorista do Santos percebe que as pessoas esperam por qualquer tropeço dela para criticar e que, por isso, precisa se preparar e estudar o triplo que um colega homem precisaria. “Uma mulher é muito mais passível de questionamento no mundo do futebol do que um homem. A partir do momento que eu já entro com um pé atrás por parte da chefia, por parte do público, por parte do meu entrevistado, eu preciso dar dois passos à frente e mostrar que eu sou melhor.”

Convocadas: a menina dos olhos

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Camila Carelli, Vanessa Riche, Ana Thais Matos, Mayra Siqueira e Fernanda Gentil. Foto: Rádio Globo

O Convocadas entrou na grade da Rádio Globo em junho deste ano. Apresentado por Fernanda Gentil e Vanessa Riche, com Camila Carelli, Ana Thais Matos e Mayra Siqueira, o programa surgiu da junção de uma ideia da empresa com uma vontade das três últimas.

A Globo queria um formato parecido com o Saia Justa, em que as cinco mulheres debatendo sobre futebol durante 50 minutos uma vez por semana. Porém, elas acreditavam que isso não daria certo e desejavam um programa de rádio com quadros e entrevistas. “Quando a Vanessa e a Fernanda entraram no projeto, nós conseguimos que elas também fossem defendendo as nossas ideias. No fim, a gente conseguiu um meio termo”, contou Camila.

Para Mayra, o Convocadas é como “uma menina dos olhos”, produzido, apresentado e editado por elas cinco. Por ainda ser uma editoria comandado por homens, elas tinham medo que o resultado se tornasse um pretexto para a Rádio usar o conhecimento das mulheres como forma de chamar atenção. “A gente não quer que foquem no fato de sermos mulheres. A gente quer que foquem no conteúdo que a gente tá trazendo, com uma visão diferente do que é apresentado todos os dias”.

Por ser um programa recente, não há dados concretos sobre sua audiência. Entretanto, através das redes sociais, elas percebem bastante engajamento do público, principalmente feminino.

Mulher não quer benefício por ser mulher

Apesar de poucas vozes nas rádios e poucos rostos nas emissoras de televisão, as mulheres têm um espaço consolidado na imprensa do esporte, principalmente no futebol. Mesmo sendo um meio ainda muito machista e o país parecer retroceder nos últimos tempos, Mayra acredita não ser possível tirar o lugar conquistado pelas jornalistas, ainda mais com tantas profissionais competentes na área.

Para Ana Thais Matos, uma redação não precisa ser formada apenas por mulheres para mostrar que não existe machismo. “Mulher não quer benefício por ser mulher. Não estamos no esporte porque ‘precisamos colocar uma visão feminina no esporte’. Mulher não quer espaço pra quebrar machismo, só queremos igualdade de condições. A cada nove homens numa redação de esporte, existe apenas uma mulher.”