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Mas qual é a desse amor pelo futebol?

19/07/2019

Por Emerson dos Santos

 

Um sábado de frio e chuva. O cenário perfeito para quem vai pela primeira vez assistir a uma partida de futebol. A vida inteira espraguejando de todas as maneiras possíveis tudo que envolve o esporte queridinho por quases todos que conheço, e lá estava eu, a caminho do duelo entre São José e Ypiranga.

40 minutos de espera na parada, aguardando o ônibus que me levaria ao Estádio Passo D’Areia. Conversar com uma senhora desconhecida no ponto de ônibus, falar sobre nossa dificuldade em comum de enxergar os ônibus que passam, quando deixamos os óculos em casa, me distraía dos pensamentos que tentavam me convencer de que seria melhor desistir da louca ideia de ir sozinho ver um jogo de futebol. Lá estava eu. 

Aos vinte minutos do primeiro tempo consigo chegar no estádio. Eram poucas as pessoas que ocupavam as cadeiras do Zéquinha. Me aconchego em um banco próximo ao senhor que vendia pipoca e pastéis. Comer seria algo interessante para me ajudar a passar o tempo naquele lugar. A bola rolando, os torcedores até então não muito vibrantes, o cara da pipoca andando pra lá e pra cá, e eu, distraído, observando os jogadores que ficaram de fora da partida fazerem seus exercícios de aquecimento, bem perto de onde eu estava. Nada de muito surpreendente até o momento. E é assim que termina o primeiro tempo, com minhas poucas  expectativas frustradas.

Depois de um cafezinho, volto para a arquibancada. É dado início ao segundo tempo. Percebo por ali uma nova figura. Não no campo (que confesso, foi o lugar que menos me chamou a atenção), mas sim à três fileiras de distância do banco onde eu estava sentado. Um rapaz que gritava freneticamente a cada ação que ocorria no gramado. “Tira o cartão do c*”, ele dizia. “Presta atenção no jogo, seu bosta”. Eram alguns dos votos que ele desejava ao juiz que mediava o duelo.

Após o gol de Luiz Eduardo, que poderia garantir a vitória para o Zéquinha, ser invalidado pelo bandeirinha, os conselhos dados pelo rapaz das três fileiras à minha frente voltaram-se para o treinador de seu time. Acredito que este nobre torcedor deve também atuar como capitão, treinador, ou sei lá eu o que de futebol, pois suas orientações eram dadas com muita convicção e confiança. “Tira esse cara daí! Esse Tavares tá usando jeans molhada.” “Tá jogando de coxa colada, filha da *#!%”.

Com meu pouco repertório futebolístico, não fui capaz de compreender suas diretrizes, e o porquê de tanto ódio contra a mãe do Tavares. Como uma criança enraivecida, ele continuava a insistir que o citado jogador fosse retirado de campo, e que Diguinho deveria ficar em seu lugar. E esse Diguinho  deve ser um craque, já que, mesmo com as orientações do torcedor-treinador não sendo atendidas, em poucos minutos já se via um grupo maior de torcedores bradando o nome do jogador que estava no banco.

Saí do Zequinho não muito realizado, mas preciso ser honesto comigo mesmo, as poucas relações que vi na arquibancada conseguiram despertar minha curiosidade. O senhor que assistia atento ao jogo, aparentemente não perdendo um detalhe do que acontecia em campo, me lembrou de meu avô, que assistia deitado no sofá da sala a toda e qualquer partida de futebol que passe na televisão. Podia ser os jogos de um dos times que mais detestava (Grêmio e Corinthians), mas lá estava ele, atento a tudo. Também, vi no estádio dois amigos que comentavam cada lance da partida, e antes de ser anulado o quase gol (aquele que foi descartado pelo bandeirinha) eles festejaram com imensa paixão o ponto que tiraria o zero a zero do placar. Paixão essa que se assemelha ao dia que vi meu tio chegar em casa com a cara completamente pintada de vermelho e branco, comemorando um dos títulos de seu time.

Essa paixão cega pelo futebol foi por muito tempo o principal combustível que alimentou minha aversão ao esporte. Mas ir neste jogo,  que por si só pouco me despertou a atenção, me fez olhar para as pessoas que interagiam naquele estádio. Que mesmo no frio, na chuva, se mantiveram lá, não para escrever um texto para um trabalho, mas pela paixão. 

E essa partida não muito empolgante me deixou com o desejo de ir a outro jogo, um maior, com as arquibancadas lotada de pessoas loucas gritando por seus times, com torcedores se julgando mais sábios que o juiz e o treinador. Talvez ver um pai levando sua filha pela primeira vez ao estádio, um casal passando um tempo juntos, ou mesmo para observar os jogadores se preparando para a partida… Essa cegueira que tanto critiquei se torna  um motivo para eu querer ver ainda mais de perto como funciona esse “amor pelo futebol”.

 

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Nippon, Nippon! Jovens japoneses surpreendem a grande Celeste

17/07/2019

Por Samara Onofre

 

Desde 1993 a Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) traz seleções de fora da América do Sul para participarem da Copa América. Na edição de 2019 não foi diferente: Catar e Japão entraram em campo nas terras brasileiras. Em Porto Alegre, os japoneses jogaram com rapidez e confiança e fizeram história. No dia 20 de junho, a seleção do Japão empatou com o Uruguai em 2×2 e foram os asiáticos que abriram o placar.

Era mais uma noite fria na capital gaúcha, o jogo começou às 20h, mas antes disso muitas pessoas já circulavam pelo bairro Humaitá. Pela proximidade dos países com o Brasil, a torcida uruguaia era a maioria e cobria as ruas com seus mantos celestes. Ainda assim era possível ver os japoneses, um pouco tímidos e caminhando rápido para entrar na Arena do Grêmio. Na fila, algumas pessoas distribuíam bandeirinhas do Japão para os que ainda estavam indecisos na sua torcida. 

A seleção uruguaia, com a dupla Edinson Cavani e Luis Suárez, era uma das favoritas ao título. O Japão vinha de uma derrota de 4×0 para o Chile. Nada disso foi obstáculo para o meia Koji Miyoshi que marcou aos 25 e 59 minutos e ganhou destaque como melhor jogador da partida. Os japoneses saíram na frente duas vezes, mas foram alcançados por Suárez, aos 32, com um pênalti marcado pelo VAR, e José Maria Gimenez, aos 66. Os 15 minutos finais foram emocionantes, Cavani tentava marcar de qualquer maneira, mas não conseguia. A seleção asiática avançava nos contra-ataques para tentar mais alguns chutes à gol. A torcida uruguaia ao mesmo que cantava “Soy Celeste, Soy Celeste…” e mostrava o amor pela seleção, estava preocupada e dava espaço para os gritos dos emocionados “Nippon, Nippon…”.

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Foto: site Conmebol

O jogo ficou ainda mais emocionante para os japoneses quando Tafekusa Kubo entrou no jogo. Com 18 anos, ele é considerado o ‘Messi do Japão’. Hoje contratado pelo Real Madrid, ele é uma promessa e deixou os torcedores animados. O paulista César Santos, tem descendência japonesa e veio à Porto Alegre para ver a seleção japonesa jogar. Ele conta que não pode ver a equipe durante a Copa do Mundo de 2014 e resolveu aproveitar o momento. Empolgado durante todo o jogo, César elogia os jogadores, principalmente o jovem Kubo, mas não nega que gostaria de ter uma dupla como Cavani e Suárez jogando pela sua seleção. Erick Takeda mora em Porto Alegre e conta que foi a primeira vez que viu a sua seleção jogar, para ele, o resultado do jogo foi realmente surpreendente.

O Japão não passou da primeira fase, mas fez uma grande partida empatando com o Uruguai. Com um time em que a base era a seleção olímpica e apenas 6 jogadores da seleção principal, eles pressionaram e deixaram os porto-alegrenses animados. Que venham as Olimpíadas e que o Kubo ainda possa surpreender muito mais nos próximos torneios.

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César durante a partida. Foto: Matheus Rodrigues.

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Erick nos corredores da Arena. Foto: Matheus Rodrigues.

URUGUAI X JAPÃO – COPA AMÉRICA – 2ª RODADA DO GRUPO C

Local: Arena do Grêmio, em Porto Alegre

Data e hora: quinta-feira (20/06), às 20h (horário de Brasília)

Público: 39.733 presentes.

Renda: R$ 6.613.630,00

  • Escalação do Uruguai: Muslera; Cáceres, Giménez, Godín e Laxalt; Bentancur, Nández, Torreira e Lodeiro; Suárez e Cavani. Técnico: Óscar Tabárez.
  • Escalação do Japão: Kawashima; Iwata, Itakura, Ueda e Sugioka; Miyoshi, Shibasaki e Nakajima, Okazaki e Abe. Técnico: Hajime Moriyasu.
  • Arbitragem: Andrés Rojas (COL) apitou a partida, auxiliado por Alexander Guzmán (COL) e Wilmar Navarro (COL). Nicolas Gallo (COL) foi o quarto árbitro. Diego Haro (PER) foi o chefe da equipe de VAR, com Nestor Pitana (ARG) e Hernán Maidana (ARG) como auxiliares.

 

Harmonia 合, energia 気, caminho 道: conheça a história da arte da paz.

17/07/2019

Por Andielli Silveira

 

Já pensou em um esporte sem competitividade ou que não busque a vitória? Pois esses são alguns dos princípios do Aikido, arte marcial japonesa que chegou ao Brasil em 1963. No período pós-Segunda Guerra, o Aikido foi concebido a partir da união entre estudos marciais e técnicas espirituais desenvolvidas através da meditação, com o objetivo de se diferenciar das lutas criadas por Samurais, cujo objetivo era destruir o oponente. No Aikido, a harmonia é o propósito. 

Os praticantes, chamados de aikidokas, buscam a não-agressão a fim de resolver o conflito. Um aikidoka nunca se opõe ao golpe de outro, e sim absorve o movimento do oponente para controlar suas ações com o mínimo esforço, neutralizando-o. Como não há uma relação de vitória entre os participantes, o Aikido não promove torneios ou competições. A prática visa apenas o resultado pacífico e a superação das dificuldades e dos medos dos participantes. Não há combates: a arte foi criada apenas para ser utilizada como recurso de defesa pessoal. E como filosofia de vida. 

O compromisso com a resolução pacífica de conflitos e com o autocontrole físico e mental através da dedicação ao treino, com o objetivo de autoconhecimento, são as duas regras basilares da prática. Nela, são trabalhadas questões como a atenção, a respiração, o olhar e a atitude. O aikidoka aprende a controlar sua agressividade, em busca de um equilíbrio entre corpo e mente, de autoconfiança, de serenidade e de bem-estar. 

Fisicamente, o Aikido melhora a capacidade aeróbica, a flexibilidade, a resistência dos músculos e a coordenação motora. Já psicologicamente, diminui o nível de estresse, melhora a concentração, a disciplina e a intuição. Além disso, é visto como uma arte de aprimoramento do espírito, através do refinamento da técnica, pois, para os antigos guerreiros, não havia diferença entre o mundo físico e espiritual. Para o psicólogo e professor de Aikido, Francisco Trindade, a prática pode ser grande aliada na melhoria da saúde mental, a partir das relações que são estabelecidas e do desenvolvimento de um autocuidado. 

 

Algumas regras

  • Os alunos devem seguir os ensinamentos do seu Sensei (mestre) e não devem competir entre si para saber quem é o mais forte.  Segundo o fundador do Aikido, Morihei Ueshiba, “a vitória verdadeira é a vitória sobre si mesmo”. 
  • Quando alguém entra ou sai do Dojo (local onde se pratica o Aikido) e do Tatami (piso do Dojo que absorve o impacto das quedas) deve fazer uma reverência em direção ao Kamiza (local onde se encontra o Kami, o Deus). A saudação ao mestre também é necessária no começo e no final dos treinos, dessa vez ajoelhado.
  • Não se deve exigir de um parceiro de luta mais do que ele pode aguentar. A consciência de suas limitações e das limitações dos adversários faz parte do Aikido. 
  • O Dogi (uniforme) é um símbolo de disciplina e portanto deve estar sempre limpo. Nunca se deve cruzar os braços nem dobrar as mangas do seu Dogi, pois isso é sinônimo de desavenças. 

 

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Seminário Internacional de Aikido com Seki Sihan Set em Porto Alegre, 2017. 
Créditos: Acervo do Instituto Sul-Brasileiro de Aikido

Depois de mim nenhum negro apitou o Campeonato Gaúcho

17/07/2019

Texto: Aline Silveira

Fotografia: Luísa Tessuto

A maioria dos grande futebolistas do Brasil são negros. Temos, por exemplo, o Pelé, considerado o rei do futebol. Porém dentro e fora das quatro linhas, o racismo foi sempre titular.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 54% da população no Brasil é negra. Isso nos coloca na posição de segundo país em população negra no mundo, só ficamos atrás de Nigéria. No entanto somos um dos países mais desiguais do mundo, e uma das dimensões dessa desigualdade é racial. Diante desse cenário, porque o país que produz grande ídolos negros não consegue deixar de ser racista?

Para refletir sobre o racismo dentro e fora das quatros linhas do gramado, entrevistamos o ex-árbitro Márcio Chagas.

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“Segundo os últimos Censos, somos mais de 50% da população e onde nós estamos?” Foto: Luísa Tessuto.

Para quem não sabe quem é Márcio Chagas, ele é comentarista de arbitragem da Globo e atuou como árbitro de futebol durante os anos de 1999 a 2014. Recentemente suas denúncias de agressões racista ganharam bastante repercussão num especial da UOL. Na reportagem Márcio relata os diversos atos racistas que sofreu durante a sua trajetória como árbitro e até como comentarista do esporte. O caso mais emblemático foi o que ocorreu em Bento Gonçalves, quando Márcio, ainda árbitro, apitou o jogo entre Esportivo X Veranópolis, pelo Campeonato Gaúcho de 2014.

“Logo que saí do vestiário fui chamado de macaco. Algo que infelizmente se tornou rotineiro de ouvir. Acabou o jogo, os torcedores se postaram na saída do vestiário para me xingar mais uma vez. Na hora que fui pegar meu carro, que estava em um estacionamento de acesso restrito à arbitragem e funcionários dos clubes. “Encontrei as portas do carro amassadas e algumas cascas de banana em cima” explica Márcio Chagas.

 

Faz cinco anos que um negro não apita mais o Campeonato Gaúcho

Pesquisa recente da Secretaria dos Direitos Humanos (SDH), do governo federal, aponta que aumentou 250% o número de denúncias de discriminação racial no Rio Grande do Sul. Apesar do número, o Rio Grande do Sul segue sendo um dos estados mais desigual para quem é negro.

“Eu tive três episódios de racismo dentro do futebol. Primeiro foi em 2005, com o treinador do Encantado. Ele queria escanteio e eu tinha dado tiro de meta. O time dele estava perdendo a partida por 3 a 0 e aí ele se sentiu no direito de me chamar de negro macaco ladrão. Relatei tudo em súmula e encaminhei para a Federação (Federação Gaúcha de Futebol). A punição dele foi de 15 dias de suspensão, mas o time já tinha sido eliminado. Então foi só para dizer que tinham feito alguma coisa.” Relata Márcio Chagas.

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Márcio conversando com alunos de jornalismo na FABICO. Foto: Luísa Tessuto.

O racismo também age diretamente sobre os corpos negros. É ele que define quem deve trabalhar com o “corpo” e quem vai utilizar a “cabeça”. Basta ver a posição de negros e brancos no mercado de trabalho de modo geral. No site da Federação Gaúcha de futebol percebe-se que temos poucos profissionais negros na arbitragem.

Márcio nos conta que depois de seu afastamento muito árbitros negros sofreram represália: “Depois da minha saída (árbitro), em 2014, já que não deu tempo de fazer represália comigo, fizeram com outros árbitros negros. Eu fui o último a apitar o Campeonato Gaúcho. “Depois de mim nenhum negro mais apitou”.

Para muitos, negros jogam futebol, mas não são capazes de “pensar o esporte”.

“O que aconteceu foi uma elitização total do perfil do árbitro. Até porque os cursos estão cada vez mais caros. E nisso tu já delimita quem vai entrar e quem não entra. A situação econômica do país já é difícil, para o negro é mais ainda. O curso é democrático, aberto a todos, mas com valores que não são nada democráticos. Um curso custa em média 5 mil reais. De onde um jovem negro vai tirar esse dinheiro para pagar um curso de arbitragem? Segundo Novelletto (presidente do FGF), dos 500 árbitros que tem no estado, 8 são negros. Nisso já podemos ver como é a relação da Federação com a questão racial.” conta, Márcio.

 

O crime perfeito

Assinada em 1989, a Lei 7.716 completou 30 anos sem de fato cumprir o que promete: criminalizar o racismo. Atualmente, diversos projetos de lei relacionados ao racismo estão em tramitação no Congresso Nacional. Na Câmara, há propostas para coibir o racismo em eventos esportivos, para igualar a injúria racial ao racismo, para tipificar o racismo cometido na internet e até para transformar o racismo em crime hediondo.

“Nesse um mês de matéria (UOL) eu recebi ataques nas redes sociais. Tive algumas transmissões em Caxias do Sul com vários ataques pessoais. As pessoas banalizam a questão racial. Há cinco anos aconteceu o fato e há cinco anos os caras (presidente da Federação Gaúcha de Futebol e presidente do Clube Esportivo) continuam tendo o mesmo pensamento. Sem se preocupar em fazer ações educativas com os seus torcedores.”

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“Não é o fato por eu estar na TV hoje que eu esteja blindado a não sofrer racismo”. Foto: Luísa Tessuto.

Chagas relata que a primeira lembrança forte de discriminação racial foi quando, ainda adolescente, jogava basquete na escola.

“Eu jogava basquete no Sogipa e nós tínhamos um adversário em Caxias do Sul, um clube bem elitizado. Jogamos em 1991, eu tinha 15 anos. Jogamos 4 vezes contra esse time durante o ano. Sempre quando a gente jogava com eles tinha situações de racismo extremo. No meu time tinha eu e mais um outro negro. E eles passavam o jogo inteiro dizendo: ‘Vai tomar banho de clorofila’, ‘tua mãe deve ser negra faxineira ou puta’ e coisas desse tipo.” ressalta Márcio.

O racismo se revela em diversas aspectos, com diferentes conceitos que podem vir associados às etnias ou às características físicas. Num país onde a maioria da população é negra e apenas uma pequena parcela dela está apitando jogos, sendo comentaristas ou técnicos de futebol, deve ser questionado e pensado formas de mudar esse quadro. Já passou da hora de virar esse jogo!

“Os atos racistas deveria ter punições mais severas, só que não há mobilização porque quem legisla as questões esportivas são pessoas brancas que são racistas também.  Enquanto não tiver uma modificação estrutural com relação à representatividade dentro do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva), na Federação Gaúcha de Futebol, nos clubes, a gente vai se deparar ainda muito com essas situações.” nós lembra, Márcio.

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Turma 2019/1 da disciplina de Jornalismo Esportivo, comandado pela professora Sandra de Deus.

 

Copa Internacional de Futsal LGBT: um gol contra o preconceito

12/07/2019

Por Rafaela Frison

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A Copa Internacional de Futsal LGBT premia, além dos campeões, diversos destaques. Foto: Rafaela Frison.

Era quase meia-noite quando o último apito inicial aconteceu. Após um dia intenso de jogos, finalmente, a Copa Internacional de Futsal LGBT recebia a partida final. O título da segunda edição do torneio, realizada em Gramado, estava entre Real Centro e Taboa. A bola rolou e já nos primeiros minutos a exaustão dos jogadores era aparente, não à toa, o início da Copa aconteceu às nove horas da manhã, daquele sábado gelado de 08 de junho.

O primeiro tempo foi acirrado, sem predomínio pra nenhum dos lados. 0x0. Segue o jogo. Aos 11 minutos do segundo período, Taboa abriu o placar, em um chute cruzado de Kaio, sem chances para o goleiro. Apenas dois minutos depois, Geovane, em uma jogada individual, deixou Silvio na cara do gol para finalizar tranquilamente. 2×0. Fim da Copa.

Assim, Taboa, o time que viajou mais de 700 km para poder participar da competição, se sagrou novamente campeão da Copa Internacional de Futsal LGBT. Isso porque, os curitibanos, no ano passado, também venceram. O grito de bicampeão ressoou pelo ginásio. O capitão do time, Rafael Augusto, comentou sobre o sufoco sofrido no primeiro título. “A primeira vez foi bem complicada, a gente veio de van e ela quebrou no meio do caminho, chegamos na hora do primeiro jogo, já se trocando… Enfim, foi em forma de superação. Neste ano, diferentemente, viemos um dia antes e ficamos mais tranquilos”, conta Rafael.

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Taboa, de Curitiba, campeões da Copa Internacional de Futsal LGBT. Foto: Rafaela Frison

Mas não é só o vencedor supremo que recebe troféu e medalha. Na Copa, eles premiam todo mundo, o vice, o terceiro, o destaque da final, o artilheiro, o goleiro menos vazado e o time disciplina. Esse último, é, talvez, o prêmio mais importante, por conta de uma só razão, na Copa LGBT de Futsal, o respeito à diversidade é o que tem a maior voz.

 

O jogo pela representatividade

“Eu tinha o sonho de conseguir uma medalha olímpica e faria de tudo para chegar lá, até esconder quem eu era. Eu tinha certeza que se um dia eu saísse do armário publicamente, perderia patrocínios e minha carreira seria prejudicada”. Esse é um trecho da entrevista do ginasta Diego Hypolito, concedida ao Uol Esportes. No mundo dos esportes, esta é uma pauta muito debatida, um homem declarado gay ainda é muito criticado e pode até ter a sua carreira interrompida e prejudicada.

As competições voltadas ao público LGBT, como a Copa de Futsal de Gramado, surgem dessa necessidade de quebrar paradigmas e de mostrar que homossexuais podem jogar futsal como qualquer outra pessoa, seja no âmbito do alto rendimento ou do amador. “Existe uma demanda reprimida de LGBTs que queriam praticar esporte, mas que não encontravam espaço em torneios ou nos times ‘tradicionais’, assim, não jogavam. Hoje em dia, eles já jogam, inclusive, em times héteros, porque se sentem empoderados para jogar em qualquer time”, ressalta Gilson Rambor, integrante da equipe Pampa Cats. 

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Bandeiras do movimento LGBT decoravam o ginásio de Gramado, mostrando a representatividade da competição. Foto: Rafaela Frison.

Empoderamento e representatividade. Segundo o organizador da Copa, Flávio Prestes, esse nicho, que vem se formando, quebra muitos preconceitos. “A gente está falando de inclusão através do esporte, estamos falando de incluir gays em um contexto social. Cada vez mais, ações como essas, são fundamentais, visto que vivemos tempos obscuros no Brasil, e a gente precisa mostrar força, falar desses temas e debater”, desabafa.

Na verdade, todo esse movimento ajuda na ruptura de padrões e na democratização do futsal, trazendo para este meio, que é considerado de “machos”, um grupo que sempre foi colocado para escanteio. “Eu tenho certeza que a tendência é só de aumentar, mais modalidades e mais pessoas integrando”, diz, com otimismo, Gilson.

 

Além de LGBTs, mulheres

O preconceito está impregnado em nossa sociedade e a desconstrução desse paradigma é árduo e constante. Assim, se ser LGBT, no mundo e no esporte, já é uma luta diária, ser LGBT e mulher, duplica a intensidade do combate. Na Copa de Gramado, as minorias se abraçam e jogam juntas em prol de uma causa muito maior.

“A gente gosta de todos os tipos de esportes, ficamos sabendo dessa realização e viemos prestigiar”, comenta Camila Cavichioni, que assiste aos jogos ao lado do namorado, Maurício Benzer. “O que eu achei muito legal é que tem a Jéssica que está jogando no gol, eu não sabia, achei que era só masculino, achei muito legal essa junção dos dois, isso não acontece normalmente”. A Jéssica, a qual Camila se refere, joga como goleira para o Quero Quero Sport Club, um time de homens. “A ideia de jogar com eles surgiu a partir de um amistoso, em que eles não tinham goleiro e, então, me convidaram para fazer parte do time e eu aceitei. Estou aí há dois anos”, conta Jéssica Wiltgen, atleta.

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Jéssica Wiltgen joga com na equipe masculina do Quero Quero Sport Club. Foto: Rafaela Frison

Além de mulher como defensora da meta, também tem mulher no comando. A equipe Uruguay Celeste, de Montevideo, tem uma técnica. Um ambiente, formado por pessoas que sofrem diariamente o preconceito na pele, não será um lugar em que se proíba alguém de ser quem ela quiser ser.

A segunda edição da Copa também é palco para uma competição feminina. Neste naipe, o grande vencedor foi o time das Sereyas, de Florianópolis. As meninas derrotaram as donas da casa, o Donna, e ergueram a taça. A taça, que representa um título, mas também uma vitória para cima do machismo e da homofobia. “Por defender essa bandeira, tem um gostinho a mais de ganhar esse campeonato, por conta da visibilidade das mulheres lésbicas. A gente joga bola, sim. É a partir daqui que a gente começa a mudar as cabeças das pessoas”, ressalta a capitã das Sereyas, Isis Reis.

Respeita as minas, os manos e as monas. E deixa todo mundo jogar, livremente e abertamente.

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A equipe Sereyas foi a campeã da Copa Internacional de Futsal LGBT, no naipe feminino. Foto: Rafaela Frison

 

Muito mais que uma Copa

A Copa Intercontinental de Futsal LGBT de Gramado reuniu 12 equipes – oito masculinas e quatro femininas. Quero Quero Sport Club, de Gramado, Donna/Quero Quero, de Gramado, Magia – masculino e feminino, de Porto Alegre, Pampacats, de Porto Alegre, Ximangos, de Porto Alegre, Sereyos, de Florianópolis, Sereyas, de Florianópolis, Taboa, de Curitiba, Real Centro, de São Paulo, Uruguay Celeste, de Montevideo e GAPEF, de Buenos Aires. Estes foram os times que proporcionaram à cidade gramadense um espetáculo, além de esportivo, de representatividade. 

Este ano foi a segunda edição da Copa, realizada pelo time local, o Quero Quero Sport Club. O organizador da competição, Flávio Prestes, fala sobre a dificuldade em sediar um evento como esse, em um cenário de preconceito. “No ano passado, a gente encontrou algumas resistências, também tivemos ataques de haters. No entanto, nesse ano já foi mais tranquilo, em questão de ter mais parceiros e mais apoios de marcas da cidade. Na verdade, nós vivemos em um contexto social de interior, o Rio Grande do Sul já é muito machista e homofóbico, pela sua cultura, e numa cidade do interior, como Gramado, muito mais, as pessoas são reacionárias mesmo, mas o que importa pra gente é fazer um evento de credibilidade, para que as marcas possam associar suas imagens, e que, assim, quebre paradigmas.”

Segundo as atletas Jéssica Wiltgen e Isis Reis, é possível notar o aumento de pessoas que foram ao ginásio acompanhar a Copa. “Esse ano eu vi que tem mais gente, ano passado tava vazio. Mesmo e que seja dez pessoas a mais, a gente já tá mudando alguma coisa”, comenta Isis.

Além da Copa, entre os dias 6 e 9 de junho, Gramado foi palco para o LGBT Conference. O evento teve palestras, onde foram debatidos temas como direitos LGBT, LGBT na família, bíblia e homossexualidade, visibilidade trans, turismo LGBT, terrorismo de gênero nas redes, projetos Sociais, entre outros. “Na abertura, ficamos surpreendidos, porque achamos que só iria o pessoal LGBT e, na verdade, não foi assim, a comunidade foi prestigiar. É muito bom porque abre os olhos da comunidade”, ressalta Jéssica Wiltgen.

 

O sonho de voltar a disputar a Superliga na primeira divisão

11/07/2019

APAV tenta retornar às primeiras posições do campeonato mais importante de vôlei no país, após uma desestruturação na equipe em 2018.

Por Thaynara Carolino

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Equipe apresentada no início da temporada 2019 da Superliga Série B

A Associação de Pais e Amigos do Vôlei (APAV), de Canoas, encerrou a temporada deste ano na Superliga Série B Masculina em último lugar, resultando no rebaixamento para a série C. Ao todo, oito equipes disputaram o torneio que começou em janeiro e terminou em abril. O desempenho da equipe esteve muito abaixo se comparado com as edições anteriores na Superliga – desde 2012 o clube participava da série A. O resultado vem de uma sequência de desafios que o clube enfrenta desde o rompimento de contrato com um importante patrocinador em 2018, que impossibilitou o cumprimento de pagamentos implicando na desistência da vaga na Superliga A. A APAV agora, se prepara para a próxima temporada buscando novas alternativas para alcançar melhores resultados em quadra e na gestão.

Para disputar o campeonato após a desestruturação, o clube lançou a campanha #SalveOVoleiGaucho no fim de 2018, buscando recursos para disputar a série B. Durante meses, as mídias sociais mobilizaram personalidades do vôlei, como Bernardinho, Renan Dal Zotto e Nalbert, chamando atenção de empresários para a situação em que se encontrava a APAV. Diante da repercussão da campanha, novos patrocinadores apoiaram o projeto, colaborando para a manutenção da equipe e do vôlei gaúcho. A captação de recursos acontece também por meio de leis de incentivo, como a lei estadual, lei da criança e do adolescente e a lei federal do esporte. A Rede LaSalle, cadeia de escolas e universidade presentes na Região Metropolitana de Porto Alegre, continuou a fornecer o espaço para os treinos e realização dos jogos, assim como as bolsas de estudos para os atletas de voleibol.

Lucas Palotti, 27 anos, ingressou na equipe adulta em 2011, e por meio das bolsas de estudos, se formou em direito no final do ano passado. O atleta permaneceu na equipe e foi importante para auxiliar os jovens provindos da base durante os jogos. “A APAV se tornou a principal equipe onde pude conquistar que eu tenho até hoje. Tive a oportunidade de estudar, com bolsa integral, e consequentemente me formar. Não foi uma tarefa fácil mas a APAV junto com o Unilasalle me proporcionaram essa oportunidade única”, alega o jogador.

A equipe foi composta por um time misto, atletas oriundos da categoria de base e amadores. Começaram a treinar 20 dias antes do início do campeonato, enquanto os demais clubes treinavam desde agosto do ano passado. Gustavo Endres, gestor da APAV e campeão olímpico pela Seleção Brasileira de Vôlei em 2004, conta que o preparo não foi o suficiente. “Dentro dos parâmetros e da verba que tínhamos era difícil pedir ao time com apenas 20 dias de treinamento, que tivéssemos um resultado melhor. O esporte exige entrosamento”, comenta o ex-atleta.

Durante os jogos, o técnico Marcelinho Ramos dividiu a quadra com Gustavo. A presença do ex-jogador da APAV foi peça chave para acalmar muitos dos jovens que ainda não haviam disputado uma Superliga. Entretanto, isso não foi o bastante para evitar as derrotas. O clube perdeu todos os sete jogos realizados fora e em casa, contabilizando zero pontos na classificação.

O rebaixamento para a série C afasta ainda mais o sonho de retornar à primeira divisão da Superliga. Os dirigentes do clube esperam que a etapa do quadrangular – os oito clubes são divididos em dois grupos e as duas equipes campeãs de cada quadrangular sobe para a Superliga B, seja realizada no Rio Grande do Sul, a fim de economizar com transporte diante do baixo orçamento disponível para longas viagens.

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A desistência

Sem um dos principais patrocinadores, o clube não conseguiu saldar os valores exigidos para participarem da Superliga A e abriram mão da vaga – na temporada de 2017/18 ficaram entre os oito primeiros colocados. Os dirigentes formalizaram a desistência por meio de um documento entregue à Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), e foram designados à série B.

Almir Beltrame, diretor da APAV afirma que ainda têm valores a serem pagos para a Superliga. “Conseguimos saldar os valores da série B por serem inferiores ao da primeira divisão, mas ainda precisamos pagar o da temporada passada”, comenta.

A busca por jogadores para compor o time demandou visitas à outros clubes. Eric, 18, filho mais velho de Gustavo jogou na equipe emprestado pelo Sesi-SP. O público também teve papel importante para a continuidade do time criado em 2009. Estiveram presentes nos jogos realizados em Canoas, e as vendas dos itens do clube cresceram. Além disso, todos os jogos foram transmitidos pelo canal da CBV na internet.

Segundo Almir, a essência da APAV é a formação. Ele avalia que “cresceram muito nesses últimos dois anos de dificuldades, mas é um projeto que vale a pena. Não é um trabalho fácil, mas é prazeroso”.

O futuro da equipe

A preocupação agora é com os futuros atletas. O clube treina atletas do masculino e feminino do mirim, infantil e infanto, e pretendem voltar a preparar para o alto rendimento, a fim de atrairem mais patrocinadores. Atualmente atendem cerca de 100 crianças de segunda a sexta-feira. “A ideia está bem firme neste sentido de ir aprimorando da base. Preparar essa equipe para que nos próximos cinco anos possam disputar campeonatos mais fortes”, afirma Almir.

O time continua buscando por novos parceiros e recursos. Gustavo Endres está visitando empresas no Rio Grande do Sul e em demais estados, para que no fim do ano com o imposto de renda elas aportem recursos ao time, que pretende voltar às posições de destaque. “Espero que a equipe possa retomar o nosso lugar que sempre merecemos e sempre conquistamos em quadra, que é a Superliga A. Disputando a C, depois a B até chegar novamente na A. Nem que isso demore 5 ou 10 anos”, comenta o gestor.

Um dos objetivos da APAV para este ano é o lançamento de um material em comemoração aos 10 anos de história da equipe. Ainda não há previsão de data para a divulgação.

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Os dirigentes do clube.

O país de um futebol

10/07/2019

Redimensionar campos, goleiras e bola não pode ser discutido antes de se enfrentar a realidade: futebol feminino no Brasil possui apenas 300 meninas registradas no base.

Por Gabriela Plentz

O Brasil é o país do futebol. Mas para quem? Mas que futebol? Essas simples perguntas podem fomentar a discussão sobre o papel do futebol em diversas frentes, chamando atenção para a necessidade do esporte cumprir a sua função com responsabilidade social. Vou me contentar, porém, em tratar de um dos aspectos que virou pauta nos últimos meses: o futebol feminino. A Copa do Mundo na França, em 2019, fez os holofotes serem direcionados pela primeira vez de alguma forma ao futebol feminino. Canais de TV aberta e por assinatura transmitiram todos os jogos, o que trouxe a tona também a reflexão acerca do desenvolvimento da modalidade. O batom da estrela Marta (que se consagrou a maior goleadora em Copas do Mundo) virou manchete em diversos jornais e rendeu mais assunto do que suas jogadas ou, por exemplo, a chuteira preta que usava – como forma de protesto às ofertas de patrocínio mais baixas em relação a dos homens, Marta jogou essa Copa do Mundo sem estampar marca nenhuma, apenas o símbolo da campanha Go Equal, que pede a igualdade de salários entre homens e mulheres.

A transmissão desses jogos evidenciou, porém, o despreparo de profissionais do Jornalismo, por exemplo, ao narrar e comentar a modalidade. A abordagem é sempre em paralelo, em tom de comparação, de minimização em relação ao futebol masculino. No centro das comparações em todo os lugares, a grande discussão: não se deveria alterar, no caso diminuir, as dimensões de campo, goleira e peso da bola para o futebol feminino em relação ao masculino? Para quem não estuda o futebol feminino e não dialoga com as jogadoras, a necessidade de redimensionar o futebol feminino é nítida. A inferioridade do estilo de futebol se justificaria, assim, pela incapacidade técnica e física das mulheres. O que deixam de considerar é a real diferença entre o futebol feminino e o masculino. É claro que assistir um jogo da Copa do Mundo Masculina é realmente diferente do que assistir a Copa do Mundo da França com os times femininos neste ano. É claro que um jogo da Copa América rende mais financeiramente falando do que qualquer jogo do feminino. Mas as diferenças no tipo de jogo, na capacidade de alcance e todas essas que enxergamos de longe são consequências das diferenças reais: de investimento, estrutura, motivação e preconceito.

gabi plentz 1A capitã da equipe do Grêmio, Taba, começou a jogar bola aos 12 anos em Alegrete. Iniciou pelo futsal misturado com meninos e depois futsal feminino. O futebol de campo feminino não era uma opção. Desde pequena, já tinha o sonho de viver profissionalmente o futebol, saiu da cidade natal com 16 anos para fazer teste no Juventude, onde ficou por 2 anos. Nessa etapa, o clube acabou encerrando as atividades femininas. Ali, Taba precisou optar por uma vida fora do futebol: por seis ou oito anos, ela precisou estudar e trabalhar fora e se formou em Administração. Voltou para o futebol somente em 2017, no Grêmio. Essa é a realidade de muitas mulheres e meninas que optam por seguir a carreira do futebol: a ajuda de custo e a falta de profissionalização na modalidade impõem barreiras financeiras. Se manter só do futebol, para Taba, virou realidade mesmo no ano passado: “A gente não tem uma base né, a gente trabalha muito mais pela paixão, pelo amor, que a gente gosta, que a gente quer viver do futebol do que propriamente como profissão. A gente chega com os 18 anos diferente. Os meninos desde pequenos são instruídos a trabalhar que futebol é uma profissão, que se tu quiser ser um atleta tu tem que ter determinadas regras, determinados valores. E nós viemos de outro tipo de ensinamento, de conhecimento, referente a futebol e vida. A gente acaba atrasada no contexto de conhecimento técnico, tático. Os meninos acabam trabalhando isso desde pequenos e a gente quando acaba tendo uma oportunidade de chegar num clube com estrutura, porque a gente não vai ter na várzea ou no futebol amador, o conhecimento que um clube com estrutura pode te dar”.

No considerado país do futebol, as meninas e mulheres foram proibidas, por lei, de jogar entre 1941 e 1979, ou seja, quando a capitã gremista nasceu, o sonho dela como profissão não era mais contra a lei faziam apenas 10 anos. O primeiro campeonato nacional de base do futebol feminino está previsto para acontecer em 2019 e já é configurado para uma idade avançada: o Campeonato Brasileiro Sub-18, primeiro a ser organizado pela CBF. A profissionalização do futebol feminino se tornou realidade em grandes clubes há pouco tempo. Somente neste ano, em 2019, passaram a valer as novas regras de licenciamento de clubes para àqueles que participam de torneios da CBF, Conmebol e Fifa. gabi plentz 2Agora, os clubes que pretendem participar da Libertadores masculina e do Campeonato Brasileiro, são obrigados a ter uma equipe profissional feminina própria ou estarem associados a um outro clube que possua. As novas regras também impõem a necessidade de pelo menos uma categoria feminina juvenil para esses clubes. Quando foram anunciadas as regras, o Globo Esporte fez um levantamento de quais times contavam com o futebol feminino (imagem ao lado). Para Emily Lima, ex-treinadora da Seleção e atual treinadora das Sereias da Vila, equipe feminina do Santos, é preciso torcer que a medida dê certo. “Infelizmente a gente tem que obrigar as pessoas a fazer algo que não querem. Se me obriga a fazer algo, eu vou fazer porque eu sou obrigada, mas não vou fazer com o prazer que eu queria fazendo algo que eu gosto. Então, assim, eles estão fazendo por pura obrigatoriedade mesmo e espero que, com isso, eles aprendam a gostar”. A treinadora, que está tirando a licença pró da CBF, entende que ainda se faz pouco no Brasil para o desenvolvimento do futebol feminino, estando o país muito atrás de outros. “Acho que as federações e a confederação brasileira poderiam convencer os clubes que é algo interessante, como aconteceu na Espanha e em outros países. A federação espanhola fez com que os clubes entendessem a importância do futebol feminino e hoje a gente tem um futebol sendo desenvolvido com muita rapidez na Espanha e em outros países”. A meta de Emily é, inclusive, ir treinar um time fora do país. De acordo com o registro da Fifa que analisa as transferências, a maioria das jogadoras brasileiras profissionais foi para o futebol espanhol no último ano. A obrigatoriedade, porém, ainda não regulamenta a profissionalização do futebol no país – o que significa que nem todos que possuem equipes femininas estruturadas ou em desenvolvimento pagam efetivamente salários.

A Seleção não foi para a final da Copa do Mundo – esbarrou nas donas da casa, as francesas. Que também não avançaram – esbarraram nos Estados Unidos. A final ficou entre Estados Unidos e Holanda. Um breve parênteses a ser feito aqui: a data da final de uma Copa do Mundo corresponde a mesma data da final da Copa América e da Copa Ouro. As partidas não são na mesma hora, mas os patrocinadores e organizações esportivas, além do público, certamente tiveram que fazer uma escolha – diminuindo a atenção dada. E tudo isso, chancelado de maneira indiferente pela própria Fifa, que decidiu anteriormente a final feminina, mas permitiu o calendário para as outras finais. Puro desdém mesmo. Voltando às equipes finalistas: elas não estão ali por mera “coincidência” – como as datas de múltiplas competições. Elas, assim como as outras seis equipes (todas europeias) que estavam nas quartas de final, aparentemente entenderam sobre o investimento no futebol feminino. Talvez por coincidência, ou não, as duas seleções finalistas façam parte do pequeno grupo que é comandado por técnicas mulheres: Jill Ellis é a treinadora norte-americana e Sarina Wiegman, a holandesa. gabi plentz 3Em coletiva, Sarina reconheceu que o investimento dos clubes holandeses na modalidade, a partir de 2007, permitiu o desenvolvimento e a chegada à final. De acordo com o portal “Copa Além da Copa”, em 2007 eram 88 mil meninas e mulheres registradas como jogadoras no país, hoje, são 153 mil.

Mesmo sem tanta tradição no futebol masculino, a seleção feminina dos Estados Unidos é uma das mais reconhecidas – sendo uma das equipes mais bem sucedidas. De acordo com o site Unisport Brasil, a força do futebol feminino na universidade norte-americana supera a do masculino. Lá, o investimento e as oportunidades surgem desde o 14 anos para as meninas. A seleção feminina é gerida pela Federação de Futebol dos Estados Unidos – que traça investimentos mais igualitários. E a abordagem, até mesmo nas redes, faz diferença:

gabi plentz 4A comparação entre salários e prêmios também se espalhou nas redes. A ONU Mulheres Brasil publicou em suas redes dados da Forbes de 2018, comparando com a Pesquisa Global de Salários no Esporte de 2017. Como resultado, o salário de anual de 1.693 jogadoras de futebol – equivalente a 42.6 milhões de dólares – não chegava a metade do que recebe Lionel Messi, argentino jogador do Barcelona, por ano: 84 milhões de dólares. Além disso, os 24 times femininos participantes da Copa do Mundo recebem 30 milhões de dólares, enquanto os masculinos têm bônus de 400 milhões de dólares. Os dados, é claro, refletem não apenas os investimentos por parte das instituições esportivas, mas o mercado financeiro que envolve o futebol. O público engajado com o futebol masculino é o público de uma indústria que compra anúncios, patrocínios, vende marcas e envolve essa grande quantidade. É necessário entender que isso tudo faz parte dessa conta, mas é preciso a considerar na hora de julgar a qualidade do futebol feminino.

A nossa goleira, a Renata, tem quase 2 metros. Isso não quer dizer. Acho que quando tu vê lances e tu quer fazer uma comparação nesse sentido, se tu vai estatisticamente avaliar quanto corre o jogador e quanto corre uma jogadora, dependendo da qualidade do futebol, no nível que tu tá jogando, tu vê que se um jogador corre 9km uma jogadora também consegue correr dentro de um jogo. Então, as dimensões acabam não sendo tão significativas. Essa diferenciação tá muito porque o futebol masculino é desenvolvido muito cedo e o feminino muito tarde. Existe um jogo mais rápido no masculino que no feminino não tem. Mas eu tenho uma crença de que se a gente trabalhasse de maneiras iguais com o mesmo tempo de proporção de trabalho, qualidade de trabalho e estrutura, eu tenho certeza que o futebol feminino irá se equivaler ao masculino, porque qualidade a gente tem”.

Taba, capitã do Grêmio.

Os grandes clubes masculinos do futebol brasileiro lucram cerca de 200 milhões de reais por ano. A estimativa de técnicos do futebol feminino é que a modalidade custe 2 milhões de reais anualmente. No início de julho, a Fifa anunciou medidas para o desenvolvimento do futebol feminino. gabi plentz 5Entre elas estão a criação de uma Força-Tarefa de pessoas engajadas no futebol feminino e o lançamento de uma pesquisa sobre o futebol feminino, o “The FIFA Women’s Football Survey 2019”. O relatório reúne dados de 198 associadas à Fifa e está no site da entidade – é um prato cheio para o estudo de quem ainda precisa entender sobre as diferenças entre investimento e tamanho das modalidades. As informações ao lado mostram alguns dados gerais, como a quantidade de apenas 7% de mulheres no comando de equipes, e também sobre as nações com futebol feminino em crescimento: Estados Unidos e Holanda estão entre os países que possuem mais de 100 mil jogadoras registradas.

gabi plentz 6No Brasil, apenas 2.974 estão registradas no profissional, enquanto 475 menores de 18 anos aparecem na listagem. Nos Estados Unidos, são 1 milhão 520 mil meninas registradas. A CBF anunciou para este ano a ampliação do Brasileirão Feminino. O número de jogos na Série A1 passou de 126 para 134 e a Série A2 terá 36 equipes (na temporada passada eram 16), passando a contar com 120 jogos ao invés dos 75 do último ano. As medidas começam a ir no sentido do que Emily Lima acredita ser necessário no país: “a gente tem que se preocupar com o futebol feminino. Às vezes a gente se preocupa muito só com a Seleção. A CBF fala muito isso “tudo que a seleção precisa a gente dá”, mas a seleção não precisa disso. Precisa é desenvolver o futebol feminino no país. A seleção é só de quatro em quatro anos então é fácil eu fazer isso de quatro em quatro anos. Eu quero ver manter o futebol feminino e ajudar a desenvolver o futebol feminino”.

Aumentar o investimento na base, o número de competições nacionais, fazer valer a profissão no país e pensar em quais as estratégias necessárias para trazer o mercado para o futebol feminino: essas são as discussões que precisamos ter antes de pensar em reduzir o problema do futebol feminino em capacidade técnica das mulheres.

gabi plentz 7Não, Google. Eu quis dizer e disse: é goleadorA.