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GUERREIROS EM DEFESA DO ESPORTE PARAOLÍMPICO

19/07/2018

Desde 2005, a RS Paradesporto se destaca na formação de paratletas gaúchos. Porém, a instabilidade financeira preocupa o futuro da entidade

 

Danillo Lima
danillo.lima@ufrgs.br

 

A crise econômica que assola o Rio Grande do Sul reflete no esporte. A pasta, que faz parte da Secretaria de Estado da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do RS (Sedactel), acaba por ser deixada em segundo plano, quando se trata de investimento, neste grave período financeiro. A situação fica ainda mais delicada especificamente quando se trata de esporte voltado às Pessoas com Deficiência (PCDs). Mais um obstáculo na vida dos guerreiros que já lutam diariamente.

Situada em Porto Alegre, a RS Paradesporto é a maior instituição do Estado que fomenta o esporte paraolímpico. Fundada em 2005, a entidade tem como objetivo revelar e desenvolver paratletas, disponibilizando o aporte instrumental para a capacitação esportiva.  Nesse contexto, a instituição visa alterar os paradigmas da sociedade em relação a pessoas com deficiência, aumentando a visibilidade da área e proporcionando oportunidades únicas na vida de PCDs.

 

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O treino do basquete em cadeira de rodas no Ginásio Tesourinha. Foto: Gabriel Delgado/RS Paradesporto

Os guerreiros – alcunha normalmente dada aos atletas da RS Paradesporto – estão presentes nos mais diversos esportes paraolímpicos: basquete em cadeira de rodas, atletismo, bocha, tênis de mesa, esgrima e paraciclismo. A entidade conta hoje com cerca de 50 atletas de alto rendimento e mais 80 alunos no programa de iniciação paraolímpica.

Para realizar os treinos, o futuro paratleta pode se registrar gratuitamente na instituição e a partir daí realiza um procedimento padrão. “Primeiramente é feita uma avaliação psicológica e verificado qual a doença pela CID (Classificação Internacional de Doenças). Depois, encaminhamos o futuro atleta para categorias específicas e treinamentos conforme a avaliação. Crianças e adolescentes geralmente acabam vão para o atletismo, e os adultos, basquete em cadeira de rodas”, explica Nilo da Silva, psicólogo e responsável pelo primeiro contato da instituição com o futuro atleta e seus familiares.

Depois desse momento, o guerreiro tem a sua disposição periodicamente o CETE (Centro Estadual de Treinamento Esportivo) e a quadra do Ginásio Tesourinha, ambos espaços da esfera pública localizados no bairro Menino Deus. Porém, esses locais foram conquistados pela RS Paradesporto após uma intensa luta jurídica comandada pelo presidente da instituição, Luiz Carlos Portinho. O espaço público reservado para a prática de esportes precisa de uma ação jurídica advinda do lado dos paratletas, pois aguardar um movimento Poderes é esperar em vão, segundo Portinho.

Na sede da RS Paradesporto, na região central da capital, as taças e medalhas conquistadas decoram a estrutura. No local há uma biblioteca, um laboratório de informática e um espaço reservado para apoio psicológico e fonoaudiologia. Além disso, a instituição oferece suporte jurídico, caso haja necessidade, para os paratletas. As leis para garantir acessibilidade e prática de esportes para PCDs existem e devem ser aplicadas, e isso é resultado de um processo histórico de luta.

A HISTÓRIA DOS GUERREIROS

“O início está lá na década de 1970, com a Arpa”, conta Portinho. A Arpa (Associação Riograndense de Paralíticos e Amputados) foi uma entidade de Porto Alegre extinta na década de 2000, precursora dos esportes paraolímpicos no Rio Grande do Sul. Contou com uma bem-sucedida equipe de basquete em cadeira de rodas, que continuou atuando mesmo após o fim da Arpa. Um dos paratletas desse time foi o próprio Portinho. Da dissidência dessa instituição se formou a RS Paradesporto.

Segundo Portinho, a RS Paradesporto se diferenciou das outras ONGs (Organizações não-governamentais) e das instituições públicas de apoio às PCDs, pois foi a única focada na formação de paratletas, além do apoio jurídico e médico necessário.

A função da instituição não se resume apenas ao esporte. A preocupação social está atrelada, quase que por definição, às funções da entidade. A Constituição de 1988 garante a seguridade social, além do direito à saúde, porém quanto à atividade profissional, só veio a ser regulamentada numa lei de 1991, que obriga as empresas privadas a destinarem uma porcentagem pré-determinada de vagas para PCDs. Com a Lei Municipal 10.351, de 7 de janeiro de 2008, que determina a reserva de vagas para PCDs em todos os contratos firmados entre o Poder Público Municipal e as empresas ou entidades prestadoras de serviço. A partir daí, foi criado pela RS Paradesporto o projeto “Trabalhando pela Inclusão”, que tem como objetivo capacitar pessoas com deficiência, através de cursos e atualizações, visando a obtenção de vagas no mercado de trabalho.

A área da saúde e seguridade social, sempre foi uma preocupação máxima da instituição. “Sempre tem a ideia de que o deficiente precisa de uma doação, de uma cadeira de rodas. É claro que precisamos de adaptações e tratamentos especiais, porém a gente luta pela alteração desse paradigma, como entidade que combate as políticas assistencialistas. A gente busca realizar projetos e políticas públicas que contemplem a pessoa com deficiência como sujeito capaz e não como doente”, reforça Portinho.

Focando exclusivamente no esporte, um momento histórico foi a criação da Escola Paraolímpica Gaúcha, em 2009. O projeto se destina a propiciar às crianças com deficiência um espaço para a prática de atividades desportivas. Em 2010, a Lei Municipal n° 10.989 instaurou o Projeto Esporte Paraolímpico na Escola, com a finalidade de propor aos alunos com deficiência matriculados na rede pública de ensino do Município de Porto Alegre a prática de esportes em uma ou mais das modalidades reconhecidas pelo Comitê Paraolímpico Brasileiro. Desta forma, a RS Paradesporto abriu o seu apoio para a defesa também das crianças PCDs.

Após a Escola Paraolímpica Gaúcha, foi liberado o espaço do CETE para os treinos, o que fomentou os investimentos e doações, além de garantir um melhor desempenho do atleta. Neste processo foi assinado o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) junto ao Ministério Público, obrigando o governo do Estado a ceder o Centro Esportivo para a escola. Para o Ginásio Tesourinha, espaço de jurisdição municipal, houve o mesmo procedimento a fim de priorizar os horários dos paratletas.

O APOIO FINANCEIRO

Como instituição não-governamental e sem fins lucrativos, a RS Paradesporto desde sua criação teve que se autogerir através de financiamentos e atividades de doações voluntárias. Desde sua criação, pequenos empresários ajudaram no pagamento dos funcionários e compra de equipamentos. A ponto de virada se deu em 2012, quando um edital da Organização das Nações Unidas para a Educação a Ciência e a Cultura (Unesco), aprovado em 2012 via Criança Esperança, foi aceito.

O edital viabilizou um investimento considerável na entidade, com a contratação de professores, médicos e funcionários, além de compra de diversos materiais e equipamentos essenciais para a atividade esportiva. “Com esse apoio da Unesco conseguimos comprar cadeira de rodas e veículo próprio – incluindo o combustível – para o transporte das crianças”, explica a diretora esportiva Cíntia Florit.

A direção da instituição afirma que este período foi uma peça-chave para o desenvolvimento do projeto da entidade e valorização do esporte paraolímpico no Rio Grande do Sul. Isso foi revertido em diversas medalhas. Aser Mateus de Almeida Ramos, 26 anos, portador de paralisia cerebral grave, é um dos grandes nomes brasileiros do salto em distância. Formado na RS Paradesporto, o paratleta bateu em 2017 o recorde das Américas em 2017, conseguindo a marca de 6 metros no Circuito Paraolímpico Loterias Caixa.

 

 

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O recordista Aser Mateus e sua medalha de ouro no salto em distância na classe T38, para atletas com paralisia cerebral. Foto: Arquivo RS Paradesporto

 

A problemática se deu quando o edital da Unesco teve seu fim em 2017. A partir desse momento, a receita da instituição caiu consideravelmente e agora necessita de um novo plano de financiamento. Um dos projetos que ainda sobrevive é o “Ajudar É Uma Delícia”, parceria de 5 anos com um restaurante de Porto Alegre que realiza uma vez por mês um dia beneficente, destinando parte de sua renda à entidade.

“Nós estamos estudando como faremos para manter o projeto nessa mesma estrutura que vinha ocorrendo nos últimos anos. O fato é que vamos continuar, com apoio financeiro ou não. Nem que voltemos para as origens, contando com a ajuda de voluntários”, diz Portinho.  

A instituição ainda mantém seu princípio de estar gerando o autoconhecimento nos guerreiros e desenvolvendo a noção de individualidade. A função social realizada pela RS Paradesporto dá uma oportunidade para talentos que, em geral, são desperdiçados pelos mais diversos fatores. “Quando o portador de deficiência se enxerga como um atleta, dá uma noção de autonomia que é muito importante sua própria noção de cidadão”, diz Portinho.

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Esporte e Universidade: As associações atléticas na UFRGS

19/07/2018

por Raíssa de Avila
raissa_avilaribeiro@outlook.com

 

 

Dentro do currículo nacional do ensino fundamental e médio o esporte fica garantido nas disciplinas de educação física, mas dentro da Universidade a prática esportiva essencial para o desenvolvimento cognitivo e bem-estar fica escanteada. Uma tradição que surgiu nas Universidades de São Paulo e se espalhou pelo Brasil foi o surgimento da associações atléticas, que tem como objetivo aliar o esporte com integração e lazer dentro das universidades. Fundadas pelos estudantes, dentro da UFRGS existem diversas associações ligadas a diferentes cursos, algumas já tradicionais e de renome como as dos cursos de Medicina, Engenharia e Educação Física. Mas o que trazem de benefício tanto para a comunidade estudantil, quanto para a sociedade?

As associações atléticas surgem com o propósito de promover atividades esportivas dentro da Universidade e seus respectivos cursos, mas além disso, são responsáveis por promover festas e eventos reunindo mais de 1000 pessoas nas famosas cervejadas que acontecem em escolas de samba com bateria também das associações. Em Porto Alegre a atlética da Engenharia (AAEE) é conhecida por este modelo de evento, que arrecada fundos para associação. Além das cervejadas, são vendidos uniformes, camisetas, abrigos que levam o nome da associação que também conta com planos de assinantes que pagam mensalidade e tem descontos em produtos e eventos promovidos pela atlética. Tudo em nome da integração que também acontece em eventos promovidos por diversas associações como o Universipraia (evento que conta com sede, eventos esportivos e festas) que conta com a participação de atléticas de todo o sul do país. A Atlética da Engenharia estava inativa há aproximadamente 30 anos quando em 2012 juntamente com o Centro de Estudantes Universitários de Engenharia (CEUE) reativou a fundação.

Em 2015, com o movimento de reativação das atléticas já existentes e de fundação de novas associações,surgiu a LAPA (Liga das Atléticas de Porto Alegre), com o objetivo de fomentar e fornecer um espaço de prática e competição esportiva mais acessível dentro da UFRGS. Essa união levou as principais atléticas de Porto Alegre a criação de um evento que mistura diversas atléticas, surgindo assim os Jogos InterAtléticas de Porto Alegre (JIPA), que neste ano de 2018 vai para a sua 3ª edição. A LAPA foi fundada por diversas associações atléticas entre elas a AAEE e a Atlética de Direito da UFRGS (AAAD UFRGS). As atléticas não tem como intenção garimpar os melhores atletas e sim abrir oportunidade para todos, inclusive ensinar para quem não tem conhecimento, por exemplo.

Outra associação renomada dentro da UFRGS é a Associação Atlética do Campus Olímpico (A3CO), da Educação Física, Fisioterapia e Dança fundada em 2014. O atual presidente da atlética, Cauê Soares, 24, acredita que a atlética é importante para integrar os três cursos do Campus Olímpico e destaca que esse foi um dos motivos para fundação da A3CO, já que apenas a Educação Física e Dança tinham diretórios acadêmicos, instituições de representação discente, nesse âmbito, o curso de fisioterapia ficava à parte das atividades do Campus Olímpico. Além disso, Cauê acredita que para quem faz parte da gestão a experiência proporciona aprendizado na área de administração, marketing, comunicação sendo uma oportunidade complementar que deve ser utilizada na carreira posteriormente. Além dos eventos esportivos e das festas, a A3CO também oferece oficinas de dança e ensaios semanais. A rivalidade entre atléticas para Cauê fica apenas em competições, fora das quadras existe um movimento de colaboração entre as gestões e eventos conjuntos para tornar os novos grupos mais conhecidos.

Uma das atléticas que surgiu há pouco tempo e ainda tenta se afirmar no cenário é a AAAF (Associação Atlética da Fabico), que retomou suas atividades após um hiato de 3 anos. Quando fundada em 2014, realizou apenas um campeonato e uma festa no Diretório Acadêmico Estudantil (DCE) e acabou não continuando as atividades. Um grupo de estudantes da FABICO (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação) se interessou em 2017 em reativar a Atlética e depois de algumas reuniões com a gestão anterior assumiu o projeto que ainda dá seus primeiros passos. O intuito dos coiotes, mascote que nomeia os integrantes da associação, é principalmente promover eventos ligados ao esporte de forma a proporcionar lazer, tornando o ambiente menos pesado para os estudantes, segundo a presidente Gabriela Plentz, 20, mas o grupo também quer propor eventos e palestras com assuntos latentes na sociedade. Além disso, Gabriela também visa  a integração com os outros campus e cursos da Universidade, já que a FABICO fica no campus saúde em um prédio separado dos demais cursos da UFRGS. Os coiotes tentam aliar a faculdade e o esporte e tem iniciativas como o “Talentos da Casa” onde publicam produções dos estudantes da FABICO relacionadas ao esporte, por exemplo. Para melhorar o ambiente da faculdade também compraram cordas novas para o violão que fica no espaço de convivência e um carrón, que foi furtado nas férias de verão. A atlética também se engajou na campanha de arrecadação de agasalhos neste inverno e está presente em ações promovidas pela faculdade vendendo produtos e alimentos para arrecadação de dinheiro que além de ser feita desta forma, é feita com o valor da inscrição dos times nas copas promovidas pela associação. Mesmo assim, segundo a presidente, a arrecadação não é suficiente para colocar em prática todos os projetos almejados; “Muitas vezes tiramos do nosso próprio bolsa para fazer as coisas acontecerem, é um trabalho totalmente voluntário e de doação”, ressalta. Para realizar uma copa é preciso pagar o juíz, a quadra, e as premiações e é cobrado 160 reais por time inscrito.

Gabriela acredita que no geral a AAAF vem tendo boa recepção dos estudantes, principalmente das novas gerações que entraram após a reestruturação da associação e um pouco de resistência dos alunos mais antigos. Um dos desejos da presidente é criar uma gestão mais diversificada e que fuja dos padrões  das atléticas já existentes que tendem a ser dominadas por homens, heterossexuais e brancos onde a cultura machista e racista muitas vezes é perpetuada. Hoje a AAAF deixa de participar de algumas competições como os Jogos Universitários de Comunicação (JUCS) e Universipraia pois acreditam que não tem compatibilidade com os ideais e público da atlética, considerando o ambiente opressor, crítica que vem de encontro aos últimos acontecimentos quando nos Jogos Jurídicos Estaduais no RJ estudantes sofreram racismo sendo atingidos por cascas de bananas arremessadas por estudantes da PUC-RIO.

Gabriela é uma das poucas mulheres presidentes nesse cenário, e fala que às vezes é complicado ocupar a posição e que o machismo está presente nas pequenas atitudes. Gabriela foi eleita presidente justamente pela vontade da gestão de se diferenciar do padrão apresentado em Porto Alegre e também no Brasil. Ela tem trabalhado com os integrantes homens algumas atitudes como a prática Mansplaning (termo em inglês que designa situações onde homens explicam de maneira didática algo a uma mulher, mesmo que ela tenha conhecimento do assunto, dando a entender que sabe mais do assunto) e diz não ter sofrido até então nenhuma atitude marcante de machismo contra ela, apesar de sentir que precisa se esforçar e dedicar mais para “provar” sua capacidade.

Recentemente, em abril, a AAAF se envolveu numa polêmica quando na Copa Fabico (Campeonato interno de futsal), organizada pelos coiotes, apenas o time campeão masculino ganhou troféu além da premiação e medalhas. O time feminino campeão só recebeu medalhas e premiação. Criticados por uma competidora no twitter, a Atlética se posicionou publicamente em nota alegando que o troféu masculino foi herdado da última gestão e que não tinham conhecimento sobre o paradeiro do troféu destinado a equipe feminina.  Gabriela admite a falha da gestão, mas ressaltou que a equipe se esforçou para realizar um campeonato feminino com competidoras da faculdade e não de fora como era de praxe antigamente. Neste semestre de 2018/1, cinco equipes femininas competiram na Copa Fabico, já masculino foram 12 equipes.

Ela joga como uma Guria

18/07/2018
Por Fernanda Peron Soranzo
speronfernanda@gmail.com

 

Mylena Pedroso, 19 anos, meia-atacante das Gurias Coloradas, convocada para a seleção brasileira sub-20 e recentemente eleita melhor jogadora do Gaúchão 2017. A passofundense falou brevemente sobre sua experiência no futebol e o mundo visto de dentro do campo.

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Mylena em treino do Sport Club Internacional – Foto: Divulgação

Mylena, como que tu começou no futebol?
Eu comecei no futebol com 5 anos de idade, na escolinha do Clube Juvenil, com o futebol masculino, futsal.

Não tinha feminino lá?
Não tinha, eu fui a primeira menina a ingressar no futsal masculino.

E como tu veio parar aqui no Inter?
Ano passado, em agosto, eu participei de uma competição em Encantado, Copa Encantado. Eu jogava no Criciúma, aí o Inter me viu jogar, joguei contra o Inter, e eles se interessaram. E aí fizeram uma proposta.

Roubara a Mylena de lá?
Sim [risos]!

E pra seleção, quando tu foi, como foi vestir a amarelinha e jogar pelo Brasil?
É muito gratificante, eu acho que é um sonho de qualquer jogadora ir para a seleção e eu pude integrar a equipe da seleção sub-20, que agora tá se preparando pro Mundial em agosto.

Você sempre quis ser jogadora profissional?
Sim, sempre quis essa carreira profissional

Como foi sair de Passo Fundo para jogar futebol? Teus pais te apoiaram? Vieram contigo ou você veio sozinha?
Aos meus 13 anos sai de casa para jogar futebol, meus pais sempre me apoiaram, mesmo eles morando em Passo Fundo me acompanham diariamente e quando possível estão presentes nos jogos.

Você estuda? Como se dá essa dinâmica de conciliar estudos com os treinos e jogos?
Eu faço faculdade de Engenharia Civil, é uma tarefa bastante difícil conciliar os estudos com o futebol mas acredito que é necessário tanto para crescimento profissional quanto pessoal.

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Meia-atacante atuando em partida contra o Criciúma pela 3ª Taça Encantado de Futebol Feminino – Foto: L&T Other Vision

Vocês estão em terceiro na tabela do grupo do Brasileirão, dois pontos atrás do líder, que é o time adversário dessa quarta-feira, em Brasília, como que tá a preparação e a expectativa para o jogo?
Eu acho que a expectativa é das melhores, a gente sabe que tem um grupo bom, e que o adversário também é bom, então a gente tem consciência disso mas estamos treinando forte para fazer um bom jogo e trazer resultado.

Tu tem vontade de sair do Inter, sair do Brasil, jogar em algum clube, em algum lugar onde o futebol feminino seja mais reconhecido?
Olha, no momento, tá bom aqui no Inter. Mas eu tenho um sonho de ir pra fora, pro exterior.

Tem algum clube que é teu objetivo lá fora?
Tenho vontade de jogar no exterior mas sem nenhum clube em mente no momento.

E como tu tem notado o avanço no investimento no futebol feminino nos últimos anos?
É, eu acho que aos poucos o futebol feminino tá tendo seu espaço, mas eu creio que tem muito pra evoluir ainda, porque é um esporte espetacular mas não tem o apoio necessário ainda.

Tem alguma história que tenha te marcado no futebol, que tu pense de cara quando pensa na tua trajetória?
Olha, no momento, uma história que eu penso foi ano passado que a gente ganhou o Gauchão, que ninguém praticamente acreditava em nós pelo fato de a gente ter perdido de 2×0 na casa do Grêmio, e aí a gente acreditou em nós e conseguimos virar o placar e ganhar o campeonato.

E foi um jogo lindo, mesmo.
Foi!

Em algum momento você esperava ser eleita a melhor jogadora do Gauchão? Qual foi o sentimento?
Não esperava ser eleita a melhor jogadora do gauchão, foi uma surpresa incrível, alegria imensa.

A Copa (não) é para todos

18/07/2018
Por Giulia Reis
gi_0297@hotmail.com

Durante os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi, vários torcedores homossexuais foram agredidos nas ruas. A situação na Copa do Mundo não mostra ter evoluído.

São Petersburgo, junho de 2018. Copa do Mundo. O francês O. Davrius e seu namorado pegavam um táxi quando foram roubados e atacados brutalmente por dois russos. Davrius sofreu lesões permanentes na cabeça e no cérebro, além de ter sua mandíbula quebrada. Antes mesmo da primeira partida da Copa começar, um casal gay já era hospitalizado por causa da homofobia.

Moscou, dias depois. Copa do Mundo FIFA. Uma mulher segurava a bandeira arco-íris na Praça Vermelha. Minutos depois, dois policiais pediram para que ela guardasse a bandeira e mostrasse seus documentos. Em seguida, foi escoltada pela polícia para fora da praça e impedida de permanecer no local. Esses casos são exemplos da onda de intolerância que vem acontecendo na Rússia, principalmente depois da eleição de Putin e preocupando fãs de futebol por todo o mundo em relação a sua própria segurança no evento.

Dias antes do início da Copa do Mundo de 2018, sediada na Rússia, o Ministério do Esporte e o Itamaraty lançaram um Guia Consular do Torcedor Brasileiro. Dentro das recomendações, havia um alerta para a comunidade LGBTQI+ sobre manifestações de afeto em público. De acordo com o documento, “não são comuns na Rússia manifestações intensas de afeto em público. Em particular, recomenda-se à comunidade LGBT evitar demonstrações homoafetivas em ambientes públicos, que podem ser consideradas ‘propagandas de relações sexuais não tradicionais feita a menores’ e enquadradas em lei (junho de 2016) que prevê deportação”. O governo do Reino Unido teve atitude parecida, aconselhando seus residentes LGBTQI+ a não demonstrarem publicamente sua sexualidade e não carregarem bandeiras arco-íris durante as partidas. O Departamento do Estado americano também declarou que os fãs de futebol devem ter cuidado com a lei contra “propaganda gay” que está vigente na Rússia.

Entendendo a lei

A lei russa anti-propaganda gay é de 2013, não de 2016 como alega o governo brasileiro. Por trás da lei, existe a história de um país atrasado em todos os aspectos que dizem respeito aos direitos humanos, principalmente da comunidade LGBTQI+. A Rússia considerava a homossexualidade crime até 1993, quando houve a descriminalização. Entretanto, o preconceito da população resistiu às mudanças legislativas. Até 1999, a homossexualidade era considerada doença mental pelas autoridades médicas e civis russas.

No dia 11 de junho de 2013, o Parlamento da Rússia aprovou o Artigo 6.21 do Código de Violações Legais Administrativas que proíbem a chamada “propaganda de relações sexuais não tradicionais” a menores e impede “ofensas aos sentimentos religiosos”. As medidas são uma violação aos direitos humanos básicos de toda a comunidade LGBTQI+ do país. A lei foi aprovada pela Câmara por 436 votos a favor, nenhum voto contrário e somente uma abstenção. Haverá multa em caso de manifestações de “relações sexuais não tradicionais”. A multa é de 4.000 a 1 milhão de rublos (de R$250 a R$ 650 mil). A punição também vale para estrangeiros, que poderão ser obrigados a pagar 100 mil rublos (R$2.500), ficarão presos por 15 dias e serão expulsos do país se forem considerados culpados. O texto da lei vale para todo o território nacional. Empresas e escolas também podem ser multadas se não cumprirem a lei.

A medida tem o propósito de impedir a realização de paradas gays e manifestações de ativistas, que tem recebido forte repressão governamental, e multar jornais que tratam do tema. Em 2012, o governo russo aprovou outra lei que também bane eventos de orgulho gay em Moscou pelos próximos 100 anos. O Artigo 6.21 também proíbe que seja dada a crianças ou adolescentes menores de 16 anos (idade de consentimento na Rússia) qualquer informação sobre “orientações sexuais não tradicionais”. De acordo com o texto da lei, a proibição serve para que exista a “proteção das crianças de informações prejudiciais a sua saúde e desenvolvimento”. Na época em que a lei foi promulgada, uma pesquisa feita pelo instituto Vtsiom mostrou que 88% dos russos aprovavam a proibição de “propaganda homossexual” e 54% acreditavam que a homossexualidade devia ser punida.

Em junho de 2017, a Corte Europeia de Direitos Humanos (CEDH) determinou que a lei russa viola as regras de tratados europeus sobre a liberdade de expressão e discrimina toda a comunidade LGBTQI+. O governo russo foi condenado a pagar uma multa de €49 mil (R$226 mil). O Ministério da Justiça Russo informou que irá recorrer, mas o caso permanece parado.

A publicação da lei fez com que aumentasse o número de membros da comunidade LGBTQI+ sendo atacados e assediados em toda a Rússia. Em um relatório da Human Rights Watch (HRW) publicado em 2014, demonstra que das 78 vítimas entrevistadas, 22 não denunciaram os ataques para a polícia por medo de assédio direto por parte dos policiais e por não acreditar que a polícia levaria os ataques a sério. De acordo com a HRW, a lei de “propaganda” não protege ninguém, mas dá aos homofóbicos um motivo conveniente pra acreditar que a vida das pessoas LGBT valem menos para o governo. Alguns governantes russos, incluindo o presidente Putin, utilizaram explicitamente de discurso de ódio anti-LGBT.

E a FIFA?

Meses antes dos Jogos Olímpicos de Inverno, em 2014, o presidente Putin assegurou que não haveria discriminação contra nenhum fã LGBTQI+ durante o evento. A mesma declaração não foi feita para a Copa do Mundo FIFA.

Em 2013, a FIFA organizou uma força-tarefa para que a Rússia fosse mais branda em relação a lei anti-propaganda gay. As diretrizes da organização são claras, com uma política de tolerância zero com discriminações baseadas em orientação sexual. O governo russo não respondeu aos pedidos da FIFA. Não faltam promessas por parte da Federação. Um conselho anti-discriminação, conhecido como FARE (Football Against Racism in Europe) fez uma parceria com FIFA para produzir um guia aconselhando fãs sobre como manter-se seguro durante a copa e monitorar as ações da organização contra comportamentos discriminatórios. A FARE também tem preocupações sobre como será a recepção russa aos fãs negros e de outras minorias étnicas.

O “Guia da Diversidade para a Rússia” (tradução livre de “Diversity Guide to Russia”) contém avisos para a comunidade LGBT+ e pessoas de algumas raças e etnias. O guia reforça que o comitê organizador local, comandado por Alexey Soroki, e a União Russa de Futebol, representada por Alexey Smertin, prometeram que todos os fãs estarão seguros durante o evento. A recomendação no guia é de que todos os fãs compareçam com precaução, e coloca em tópicos o que se deve ou não fazer.

Na página com conselhos para os fãs LGBQT+, a FARE e a FIFA garantem que os fãs podem usar símbolos do arco-íris em roupas e acessórios e discutir o tópico da proteção dos direitos LGBTQI+, mas que devem estar atentos às reações negativas que podem acontecer em volta. Andar de mãos dadas fica em uma área cinzenta, na qual o guia diz que não é um ato criminoso a não ser que a polícia veja como uma ameaça ou uma demonstração. Prestar atenção aos arredores e ser discreto é principal conselho dado. Fica claro no guia de que, por segurança própria, não se pode protestar em defesa dos direitos LGBT+, mesmo se você estiver parado, sozinho, segurando uma bandeira no meio da praça.

A FARE e a FIFA fizeram duas “Casas da Diversidade” em Moscou e em São Petersburgo, porém nenhuma dessas informações foi divulgada dentro da grande mídia e não se sabe se elas realmente estão funcionando. Existe também uma linha direta no WhatsApp, mas assim como as casas, este número não foi amplamente divulgado por nenhuma das organizações e só consta em uma parte específica do manual e do site. A FIFA também lançou uma plataforma para que “jornalistas e defensores dos direitos humanos” possam submeter reclamações e relatos sobre situações ou atos de risco. Novamente, a plataforma não foi divulgada para a grande mídia ou para os fãs, não consta no manual e só está disponível em quatro línguas (francês, inglês, alemão e espanhol). Além disso, de acordo com a Federação, haverá um sistema de monitoração anti-discriminação, no qual três observadores estarão procurando por comportamento suspeito durante todos os 64 jogos do campeonato.

Grandes organizações esportivas não deveriam escolher lugares que violam diariamente os direitos humanos como sede de nenhum de seus eventos. Países sede, além de ganharem dinheiro de ingressos, ganham visibilidade turística e milhares de dólares em lavagem de dinheiro com o superfaturamento das obras. A FIFA também ganha dinheiro com isso, com escândalo após escândalo envolvendo alegações de corrupção dentro do sistema que escolhe os países sede e lavagens de dinheiro por todas as partes. A FIFA, ao decidir sediar um evento na Rússia, só injetou dinheiro em um país corrupto, governado por e para homens cis, héteros e brancos, no sentido mais literal possível dessa frase, já que são os únicos detentores de direitos os protegendo. Em 2017 Putin sancionou uma lei que despenaliza a violência doméstica.

A próxima copa, em 2022, será sediada no Catar. País em que ser gay ainda é considerado ilegal e é punível com prisão de até sete anos. O ministro do esporte do país, Salah bin Ghanem bin Nasser al-Ali comparou a questão dos direitos LGBT+ com a de vender bebidas alcoólicas, dizendo que o país “fará o que puder sem comprometer seus princípios e morais”.

Já o presidente da FIFA, Sepp Blatter, declarou que “(os LGBT+) somente deveriam não fazer sexo (enquanto estivessem no Catar)”. O país também não possui idade de consentimento, nem leis empregatícias contra a discriminação, ou qualquer tipo de lei contra discriminação. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é ilegal, casais do mesmo sexo não são reconhecidos, e não podem adotar crianças de nenhum jeito. Gays e lésbicas também não podem prestar serviço militar, pessoas trans não podem mudar seu gênero legalmente e lésbicas não podem fazer fertilização in vitro.

Para a FIFA, aparentemente, a falta de direitos humanos não é motivo para um país não sediar um evento. Todo o dinheiro da Copa do Mundo irá beneficiar um governo controlador e conservador, mas o mais importante é a parte da FIFA nisso tudo.

A Copa do Mundo 2018 de Porto Alegre

18/07/2018
Por Gabriel Rigoni
gabrielrigon87@hotmail.com
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Foto: Gabriel Rigoni

A Copa do Mundo 2018 chegou antes em Porto Alegre que na Rússia. No início do mês de junho, a capital gaúcha foi palco de um torneio de futebol que reuniu pelo menos 120 atletas de diversas nações.

Não estamos falando de qualquer Mundial: os jogos disputados no Rio Grande do Sul fizeram parte da Copa dos Refugiados. Imigrantes vindos de Angola, Colômbia, Guiné Bissau, Haiti, Líbano, Peru, Senegal e Venezuela disputaram o título pela segunda vez em Porto Alegre durante um fim de semana inteiro.

No sábado, o estádio Passo D’Areia recebeu os jogos das quartas de final. As partidas decisivas ocorreram no domingo (3), no Beira Rio, estádio do Internacional.
Na grande final, Senegal e Líbano se enfrentaram em um jogo difícil, que acabou decidido nos pênaltis. Por 3 a 1, o time africano se consagrou e virou bicampeão do torneio. Para chegar ao título, antes disso, a equipe senegalesa precisou bater a Colômbia nas quartas de final, e a seleção de Angola na semifinal.

“É uma festa que significa integração cultural. Não significa povo brasileiro de um lado e imigrantes do outro. O importante dessa Copa para hoje, para amanhã e todo o futuro, é que todos os imigrantes que chegam ao Brasil se sintam muito felizes aqui”, afirma um dos voluntários do evento, o senegalês Serigne Bamba Touré.

A Copa dos Refugiados vai além do futebol. O evento, que acontece no Brasil desde 2014, promove a integração entre os atletas e o público, além de simbolizar a luta desses estrangeiros por aceitação e reconhecimento. E é por isso que, enquanto a Copa acontecia, também foram realizadas ações sociais, como a realização de exames básicos de saúde, aulas de português e cultura brasileira e auxílio jurídico. Além disso, um espaço foi reservado especialmente para o cadastro de currículos de imigrantes em busca de empregos formais.

“Nós somos muito gratos ao Brasil e a Porto Alegre. Aqui, estamos lutando por um direito humano. Migrar é um direito humano. E estamos lutando através da junção do amor e do futebol”, explica o refugiado sírio e organizador da Copa, Abdul Rour.

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O organizador da Copa dos Refugiados, Abdul Rour – Foto: Gabriel Rigoni

O sírio, que deixou o país natal para fugir da guerra, chegou ao Brasil em 2014. Dos sete irmãos da família, ele foi o único a desembarcar por aqui, já que cada um optou por um local diferente.

 

“A guerra da Síria é uma vergonha para a humanidade. Mais de 1 milhão de pessoas já morreram. Enquanto isso, a guerra continua há seis anos, e o mundo está assistindo”, desabafa.

Já o venezuelano Adryan Romero desembarcou no Brasil aos 15 anos em busca de uma vida melhor.

“Eu vim porque meu país vive uma ditadura. Hoje, felizmente, eu trabalho e estudo aqui”, diz Romero, que, aos 18 anos, pretende ingressar na universidade assim que concluir o Ensino Médio.

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Adryan Romero deixou a Venezuela rumo a Porto Alegre – Foto: Gabriel Rigoni

Apesar de haver apenas um campeão, todas as equipes celebraram o mesmo objetivo: a integração. Inegavelmente, atletas de oito países celebraram juntos a grande capacidade de mobilização do torneio.

 

A disputa foi organizada pela ONG África do Coração e teve o apoio da Ponto, Agência de Inovação Social, da Associação Antônio Vieira (ASAV) e da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

O Zeca vai jogar a Série C

17/07/2018
Crédito Eduardo Torres Divulgação EC São José

Crédito: Eduardo Torres Divulgação/EC São José

Por Emerson Trindade
Emerson.trindade@ufrgs.br

Durante a pausa para Copa do Mundo, foi comum ouvirmos que o Campeonato Brasileiro estava em pausa. Isso é uma meia verdade, ou melhor, um quarto de verdade.

Os times da primeira divisão realmente tiveram cerca de um mês para se preparar para o restante do campeonato. Mas as outras três divisões seguem com jogos rolando. Como cada uma delas tem uma fórmula de disputa, agora estão em etapas diferentes. A mais avançada é justamente a quarta e última divisão: enquanto as séries B e C estão mais ou menos na metade (15 rodadas de 38 na B e a C quase no fim da primeira fase), a série D já definiu os semifinalistas.

A primeira definição aconteceu em Porto Alegre. Enquanto Grêmio e Inter aproveitavam a parada para a copa para fazer amistosos e os brasileiros ainda digeriam a eliminação na Copa do Mundo para a Ótima Geração Belga™, o São José recebeu no domingo, dia 8 de julho, os paulistas do Linense, que tinham a vantagem construída por 1×0 na primeira partida. Ao vencedor, além da vaga na semifinal da competição, um lugar na terceira divisão de 2019. Quem perdesse deveria buscar a classificação para a próxima edição da série D do ano que vem pelo estadual de 2019.

Em mais um domingo de frio em Porto Alegre, o zequinha entrou em campo pressionado pela obrigação de reverter o resultado. Cerca de 400 torcedores foram acompanhar a partida, divididos de forma bastante desigual no Passo d’Areia: pouco mais de 40 estavam postados atrás do gol, junto às barras transversais e vários trapos, no setor que era o mais agitado e barulhento. Nos momentos mais importantes do São José no jogo, cantos como “Vamo / Meu Zeca/ Hoje temos que ganhar/ Os Farrapos nunca deixam de apoiar” eram engrossados pelo restante do público local, que tinha em sua composição muitas famílias e até uma criança de colo sendo amamentada pela mãe.

Ao lado da torcida mais atuante dos locais, “à paisana”, exatos 19 simpatizantes do elefante paulista, vestiam jaquetas porque ninguém era corajoso o suficiente para usar apenas mangas curtas naquele domingo. Estavam postados junto a quatro bandeiras vermelhas e brancas amarradas na grade que os separava do campo.

Durante o primeiro tempo, poucos momentos que justificassem manifestações contundentes. Mesmo no intervalo, com os times passando próximo à torcida indo para o vestiário, poucos foram os torcedores que se animaram a repetir a cena tão comum nos grandes estádios do país: na passagem dos adversários, uma (nem sempre) pequena horda de torcedores se posiciona no ponto mais próximo dos jogadores para desferir uma série de xingamentos, impropérios e o que mais seu vocabulário permitir. Teve um ou outro que não se importou com a solidão de sua agressividade e foi possível ouvir alguns gritos ironizando o fato de ser um time de interior, alguém que chamou o Linense de “time sem cidade” (esse eu juro que não entendi), e o mais comum em qualquer momento de inconformidade “paulista p* no c*”. Em um lance que o juiz contrariou a vontade da arquibancada, houve inclusive a variável “carioca p* no c*”.

Assim foi a primeira etapa. Os visitantes cozinhando o jogo, sem ter a vantagem ameaçada, os mandantes especulando, mas sem se atirar ao ataque para não acabar abrindo espaço para os contragolpes e a torcida em sua maioria passiva, com um pequeno contingente tentando empurrar o time para a vitória.

No segundo tempo as coisas não demoraram muito a mudar de figura. Logo aos cinco minutos, bola na área dos paulistas e pênalti para o São José. Quem estava sentado levanta vibrando e quem estava de pé pula exultante. A torcida começa a gritar o nome do goleiro Fábio, que atravessa o gramado e justifica o clamor: uma cobrança que beira a perfeição, chute forte e alto, que roça o travessão e toca a rede primeiro na parte superior da rede antes de correr até o fundo. Um a zero, bola ao centro para reiniciar o jogo que em tese não tem vantagem para nenhum lado, mas na prática está muito mais para o São José, que agora tem o fator anímico ao seu lado.

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Foto: Lucas Barth

Sem o peso da obrigação de correr atrás, o São José aposta nos lances pelos lados, que não levam muito perigo. Sem a vantagem do empate, o Linense começa a arriscar um pouco mais e começa a dar alguns espaços. Segue essa toada por cerca de vinte minutos, até que Kelvin, camisa onze do time gaúcho, recebe a bola na ponta da área, puxa pro meio e chuta no melhor estilo Philipe Coutinho na Copa. O chute talvez não tenha a mesma qualidade do jogador do Barcelona, mas o desvio de Marcio Jonatan tira qualquer possibilidade de defesa e agora a vaga nas semi e na série C tem endereço na zona norte de Porto Alegre.

Como não havia o critério de gol qualificado, um 2×1 levaria para os pênaltis, então o São José não abdica de atacar, tentando um terceiro gol para liquidar a disputa, enquanto o Linense faz duas alterações para tentar um gol que lhe daria a sobrevida. Os visitantes quase conseguem seu objetivo, mas em escapada pela esquerda a zaga do time gaúcho consegue cortar o cruzamento que já tinha vencido o goleiro Fábio. Se não houve terceiro gol para liquidar a fatura, o lance que passou mais perto de ser definitivo foi a expulsão do atacante Carlos André, do Linense.

Só com o apito final a torcida e os jogadores puderam comemorar aliviados o primeiro acesso nacional da história do São José. Acostumado nos últimos anos com títulos em âmbito estadual, o zequinha já disputou a terceira divisão brasileira, mas antes de existir uma quarta divisão. Depois de comemorar e cantar “Arerê, o Zeca vai jogar a Série C, êêê”, foi possível ficar atento às outras partidas que aconteceram naquele domingo. Na serra gaúcha, o outro representante do estado na D até saiu na frente, mas liderado por Marcelinho Paraíba (aquele), o Treze da Paraíba venceu o Caxias por 3×1 e se classificou, assim como o Imperatriz, do Maranhão, que venceu o Manaus nos pênaltis. O adversário do São José será o Ferroviário, tradicional clube cearense, que superou o Campinense da paraíba, também nos pênaltis. A ida será disputada no dia 16/07, segunda-feira, no Ceará e a volta mais uma vez será no Passo d’Areia, em 21/07, sábado.

O fim das Chearleaders! A omissão dos clubes está matando o esporte mal compreendido.

17/07/2018
Por Vytor Bueno
vytorbueno@hotmail.com
Lider spacatto

Emily em ensaio fotográfico para a apresentação das Chearleaders do Goiás – Foto: Reprodução

Falar sobre as Cheerleader (ou Cheerleading) e não cair no clichê criado pelos filmes norte americanos é algo simplesmente complicado, porém existe profundidade e complexidade na história das animadoras de torcida, uma classe objetificada e desqualificada por aqueles que não entendem sua importância.

O esporte começou em 1884, na Universidade de Princeton, EUA. No início só homens participavam, mas já nos anos 30 o esporte estava difundido entre as outras universidades e contavam com mulheres na equipe. A animação de torcida é um esporte que possui habilidades de ginástica artísticas, de dança, de stunting e são apresentadas em jogos dos times e em competições próprias. Porém entre os anos 80 e 90 houve um abalo na imagem do esporte, graças aos filmes lançados na época que associavam as cheerleaders a meninas fúteis e burras. A partir daí se criou um imaginário de senso comum nas pessoas que não conhecem a culturas das animadoras de torcida, criando um choque de cultura que muitas vezes acabam em preconceito e desvalorização da imagem da mulher.

Lider pom pom

Renata em apresentação no jogo do Vila Nova – Foto: Reprodução

No Brasil muitos clubes abriram as portas para as Cheers, como exemplo temos o Bahia, o Vitória, o Ceará, o Palmeiras, o Corinthians, o Cruzeiro e outros, mas algumas problemáticas sempre se repetem no futebol brasileiro: a educação nos estádios, o machismo e a negligência em tratar os problemas.

 

Em Goiás os dois maiores clubes do estado, Goiás e Vila Nova, vivem de forma antagônica em praticamente tudo, classe social das torcidas, público, caixa financeira, organização interna… Mas quando se trata em consertar problemas causados por suas respectivas torcidas o resultado é o mesmo, negligência e omissão.

Os dois rivais tiveram o projeto das Cheraleadings encerrados, o Vila Nova ano passado e o Goiás no inicio desse ano, e o motivo foi o mesmo, desinteresse dos clubes. Em conversa com duas ex-cheers (Emilly Novaes Florêncio, estudante de Relações Públicas e ex-membro das Chealedears do Goiás; e Renata Souza Machado, estudante de Nutrição e ex-membro das Tigretes do Vila) nos deparamos com o quão sofrível é realidade das animadoras dentro dos estádios brasileiros.

Comentários constrangedores e até alegação de que as meninas seriam “putas” são comuns nas arquibancadas. “Uma vez eu estava fazendo uma ação no estádio e um rapaz gritou para mim e minha amiga ‘quanto vocês cobram?’ Na hora não entendi bem se foi sobre o produto, se foi para fazer a ação ou se foi um comentário ridículo mesmo. Já ouvi comentários do tipo ‘Maria chuteira’ e ‘Tudo puta’ ” – Emilly, ex Chearleader do Goiás. A situação só piora, pois familiares presentes no estádio também acabam escutando e sofrendo com tais comentários “ […] quando eu tava em campo apresentando e ele ( meu pai ) na arquibancada, escutava muitas coisas dos homens sobre mim, elogios ( ‘essa loirinha é muito linda’) ou coisas pesadas ( ‘nossa se eu pegasse essa loirinha eu acabava com ela’)”- Renata ex Tigrete do Vila Nova.

Ambas entraram nas equipes por amor aos clubes, e ambas enfrentaram o receios dos pais que sabiam o ambiente que as meninas estavam a mercê, e que, no decorrer do tempo, o descaso com a equipe de animadoras e a omissão em casos de preconceito acabam cansando o amor que elas tinha em ajudar o time de coração.

A falta de apoio e suporte nas dificuldades enfrentadas fez as Chealeaders do Goiás não continuarem em campo em 2018, já as Tigretes deixaram os campos em 2017 pelos mesmos motivos. Um espelho dessa situação é o caso do Boca Juniors da Argentina que em 2017 encerrou o contrato com as “Las Boquitas”, cheerlearders do clube, com o argumento de que são contra o machismo e logo não querem a objetificação da mulher no estádio. Perguntado isso as meninas a posição foi clara: “ Não concordo (com o fim das “LasBoquitas”), acho que isso tudo foi uma desculpa. A questão é que muitos clubes aqui no Brasil (que não é um país que tem o cheerleading como uma cultura) não se dá valor no trabalho dos grupos de Cheers, então é mais fácil encerrar os projetos do que apresentar o verdadeiro sentido e a verdadeira importância das líderes de torcida em campo.”

Os vários filmes que objetificaram as cultura de chearleading criou a ideia de que elas são mulheres servindo de distração para homens ou sendo segundo plano em um esporte masculino. Mas o esporte é maior do que isso, pois participam em todos os esportes do clube, inclusive os femininos, em ações, e com o devido apoio podem participar de competições nacionais de chealeaders.

Existe hoje uma confederação paulista de Chearleading e uma iniciativa para uma liga nacional, mas por enquanto é apenas para torneios universitários. Enquanto grandes equipes não se me mobilizarem e apoiarem o novo cenário, as meninas continuarão sendo vistas e taxadas como fúteis. Os clubes precisam se posicionar e defende-las, pois só assim protegem aquelas que amam e querem representar o clube dentro de campo e em competições voltadas para as cheers.