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RIO 2016

Eu escolhi atirar

por  Luís Vicente Souza de Medeiros
“A primeira medalha brasileira nos jogos olímpicos foi conquistada por Guilherme Paraense na modalidade tiro esportivo. O ano era 1920 e os jogos aconteciam na Antuérpia na Bélgica.” A vitória rendeu ao Tenente Guilherme Paraense a medalha de ouro. A curiosidade foi o primeiro ponto da conversa com a esportista Janice Teixeira. A atleta do tiro esportivo tem presença confirmada nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Logo no primeiro contato, Teixeira se disse feliz e disposta a conversar sobre a modalidade que pratica há 24 anos. Ela é natural de Osório, viveu muito tempo em Porto Alegre e na Serra gaúcha e hoje vive na capital fluminense. A esportista decidiu trazer a vitória de Guilherme Paraense para exemplificar o desconhecimento dos brasileiros em relação à modalidade. Teixeira reconhece que o problema está na falta de divulgação, além de preconceitos em relação ao tiro esportivo.

Janice Teixeira entrou para o tiro esportivo devido à idade. “Fui jogadora de vôlei e cheguei até a ser convidada para jogar na seleção brasileira, mas acabei ficando velha e migrei de esporte. Tentei o remo e, em 1992, conheci o tiro esportivo.” Ainda afirma que não teve influência familiar para entrar no esporte. Ela ainda afirmou que é uma apaixonada pela prática esportiva e que sempre buscou conhecer as diferentes modalidades olímpicas. No tiro, encontrou uma forma de seguir na ativa e acabou sendo feliz.  “Foi algo que aconteceu e é algo que me deu muitas alegrias como as duas medalhas: bronze nos Jogos Pan-americanos em Santo Domingo no ano de 2003 e a prata nos Jogos Sul-americanos em Medellín no ano de 2010”. Agora, Janice Teixeira se diz horada de estar fazendo parte da história nos Jogo Olímpicos do Brasil.

Treinamento mental e físico

Teixeira relatou nunca ter passado por preconceitos, mas lembra que não era comum ver uma mulher atirando. Houve resistências que foram superadas com determinação. Qualidade que, segundo ela, é importante para atletas de tiro esportivo. Os treinamentos começaram no Clube Santo Huberto, de Bento Gonçalves, ainda em 1994. Sem influência familiar, Janice Teixeira considera que a cultura de caça na região sul do Brasil contribuiu para ela entrar no esporte. No tiro esportivo, existem duas modalidades. Uma é com alvos fixos com armas curtas e longas. A outra, a qual pratica, é o tiro ao prato. O alvo é lançado em alta velocidade por uma máquina. Reflexos apurados e tranquilidade são importantes para ter êxito. “Diferente do tiro ao alvo que exige precisão e batimentos cardíacos lentos, o tiro ao alvo precisa de agilidade e coração pulsando no ’pescoço’. A gente acaba brincando que precisamos estar ligados na tomada em 220V.” A adrenalina do tiro ao prato foi determinante na escolha para Teixeira. “Sempre fui meio elétrica. Não tenho paciência para ficar parada, meu estado de espírito não era para isso. Sou mais explosiva. Não daria certo no tiro ao alvo. ”

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Janice em treino da delegação (Dovulgação: Uol).

Janice Teixeira conta que o perfil dos atiradores é bastante variado. No entanto, para ela que vem de outras modalidades, estar de bem com o corpo auxilia no esporte. “Nossa parte mental é muito forte. Sistema nervoso trabalha ao máximo. Mas a parte física precisa ajudar também. Mas também não existe a exigência de ser um maratonista. ” Porém, a atleta lembra que ter uma boa condição aeróbica, para aguentar longas sessões de treino, e mental são fundamentais para o êxito em qualquer competição de tiro esportivo. “Não precisa apenas de boa mira, mas de empenho. O maior trabalho é mental e muito sofrido. ” Janice Teixeira realiza trabalhos físicos com outros atletas olímpicos no centro de treinamento Time Brasil montado pelo Comitê Olímpico do Brasil no Parque Aquático Maria Lenk, no Rio de Janeiro. O CT também dispõe de equipamentos de Ciências do Esporte que proporcionam uma preparação de alto nível e ajudam na análise e aperfeiçoamento dos movimentos de atletas de diversas modalidades, como natação, nado sincronizado, saltos ornamentais, atletismo, judô, pentatlo moderno, entre outras, que utilizam regularmente as instalações do CT.

Dificuldades para praticar na cidade dos Jogos Olímpicos

Janice Teixeira segue no esporte treinando com muita paixão, porque os desafios não são poucos. O Centro Olímpico de Tiro, local onde realizava os treinos com a espingar, está passando por reformas desde 2015 para os Jogos Olímpicos. Os sete estandes de tiro esportivo usados no Pan 2007 foram modernizados e um estande temporário foi construído para receber algumas finais. Por isso, Teixeira está sem local para praticar no Rio de Janeiro, precisando viajar pelo Brasil e pelo exterior para seguir os treinamentos. “ Eu tenho viajado para Curitiba para treinar porque não tem local no Rio de Janeiro. No entanto, a equipe é de quatro pessoas e nem sempre o técnico está comigo. Por exemplo, semana passada nosso treinador estava em Belo Horizonte. Fui até lá. Às vezes, também viajo para o exterior. A Itália normalmente é o destino. ”

As práticas também não são baratas. O equipamento eletrônico é complexo e precisa ser importado. E o custo é bem elevado. “Você precisa ser sócio de um clube, porque os custos são bem caros. Se você não encontrar um clube disposto a investir, você não consegue treinar. ” Janice Teixeira realiza durante um dia de treinamento de 150 a 200 tiros. Uma série de 25 pratos custa R$ 15, a caixa de munição com 25 cartuchos, de R$ 25 a R$ 30. Para cada série são 35 cartuchos. Teixeira afirma que o esporte é caro e ela não recebe salário por ser atleta. Porém, ela tem recebido auxílios da Confederação Brasileira de Tiro, o que tem tornado os treinamentos mais fáceis para ela. “Quem não tem equipe ou pretende começar vai enfrentar muitas dificuldades. A questão de patrocínios também não está fácil devido a situação econômica do país. ” Janice Teixeira ainda comenta que existe a dificuldade de obter recursos pelo esporte estar ligado ao uso de armas. “Um carro mata muita gente. Se todo mundo comprasse faca saísse matando também seria um sério problema. Então, a questão é o uso que se dá a arma. Infelizmente existe uma cultura de associar a arma a violência. E é algo que estamos tentando mudar. ”

Sobre a relação que tema com a espingarda calibre 12, Teixeira comenta que não possui porte de armas, apenas uma licença do exército brasileiro para manter a arma e comprar munições. A atleta gaúcha ainda tem uma guia de trânsito que permite a circulação com a espingarda, desde que seja para fins esportivos. “A minha arma serve exclusivamente para treinamentos e competições. Não posso pegar ela e sair por aí. Botar embaixo do braço por exemplo e ir para Copacabana. ” Nas suas viagens por aeroportos, ela despacha a mala em separado em uma bagagem especial. Teixeira precisa sempre passar pela Policia Federal e relatar aos agentes o que está transportando. No momento de entrega e recolhimento da arma, sempre precisa abrir a mala e apresentar os documentos para conferir os números nos registros. A espingarda viaja em separado e não chega no aeroporto pela esteira como a bagagem comum. “Todo o procedimento é um pouco chato, mas é necessário. Contudo, nunca tive qualquer problema. Também, já estou acostumada a passar por todo esse processo que acontece tanto no Brasil quanto no exterior. ”

Um teste de precisão nos Jogos Olímpicos.

O tiro esportivo faz parte do programa Olímpico desde Atenas no ano de 1896, primeira edição da era moderna. No Rio 2016, os atletas miram o pódio em nove provas masculinas e seis femininas, todas individuais. A prova olímpica de tiro é chamada de fossa olímpica. Utilizando armas esportivas, os participantes devem acertar alvos fixos ou móveis e somar pontos de acordo com a precisão de seus disparos. O objetivo é disparar sobre um número específico de alvos, ou pratos, em forma de disco. Os pratos são lançados por máquinas eletromecânicas e podem atingir até 88,5 km/h. Eles são feitos de materiais que não agridem o meio ambiente, têm 11cm de diâmetro por 2,5cm a 2,6cm de altura e pesam entre 100g e 110g. Um tiro é considerado certo quando qualquer parte do prato quebra após ele ser atingido. Nas provas da fossa Olímpica, fossa double e skeet, o objetivo é acertar o maior número possível de pratos lançados ao ar, em uma área aberta chamada de pedana. Os atletas atiram das cinco posições centrais do estande e alvejam pratos lançados a partir da trincheira. Na fossa olímpica são 75 pratos para as mulheres e 125 para os homens na fase de qualificação e 15 para os dois gêneros na fase final. Na fossa double, 150 pratos na fase de qualificação e 15 pratos duplos na fase final. Na prova de skeet, os competidores devem atirar das oito posições numeradas no estande, alvejando pratos que são lançados da casa alta e da casa baixa. Na fase de qualificação, são lançados 75 pratos para as mulheres e 125 para os homens. Na fase final, são lançados 16 pratos duplos. O vencedor é o atleta que acertar o maior número de pratos na fase final. Os atletas são autorizados a usar protetores de ouvido para minimizar o barulho do tiro e óculos com lentes para proteger os olhos.

 

 

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