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Quando a bola oval quebra fronteiras

23/05/2018

A bola oval é intrigante. À medida que o tempo passa, cresce de forma rápida o público fã do futebol americano. Não é à toa que a final da liga norte-americana, conhecida como Super Bowl, é fenômeno de audiência anualmente no Brasil.

Tenho, no meu ciclo social, alguns conhecidos fãs do esporte. Em menor número, conheço também quem o joga, e entre estes, a paixão é arrebatadora.

Por Gabriel Rigoni | gabrielrigon87@hotmail.com

Lucas Zanon é um sonhador confiante. Não é para menos. Joga pela equipe que desde 2016, reina no Rio Grande do Sul: o Santa Maria Soldiers. Aos 22 anos, já realizou o sonho de se tornar atleta, ser selecionado para um programa de treinamentos nos Estados Unidos e poder ambicionar futuro no esporte. Mas ainda quer mais. Está, inclusive no sangue, o objetivo da Seleção Brasileira.

Em 2018, Lucas sonha com o tricampeonato regional. Repetida em 2017, a primeira conquista da sequência ocorreu dois há dois anos, em uma noite que consegue recordar com detalhes e muito carinho, no chamado Gigante Bowl, evento que ocorreu no Beira-Rio.

Ao mesmo tempo, Lucas equilibra a vida de atleta com o lado acadêmico. Estuda Matemática na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). No momento da nossa entrevista, confessou que corrigia provas de alunos de 13 a 15 anos de uma escola da cidade. Mas quem disse que as duas facetas não podem se misturar? Quando vai a escolas, Zanon admite que faz o possível para difundir o esporte com os alunos.

Confira o nosso bate-papo com o jovem atleta:

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Zanon foi um dos destaques na conquista do Gigante Bowl

O que te motivou a entrar no mundo do futebol americano?

Sempre quis ter a chance de tentar. O Vini, meu irmão mais velho, um dia me falou que tinha um time em Santa Maria. Fui. Como eu tinha 13 anos, comecei a treinar na categoria júnior, para menores de 16 anos. Acabei me destacando e subi para jogar com os adultos. Joguei meu primeiro jogo já com essa idade.

Qual a sua posição? E sua referência no esporte?

Atualmente jogo como ‘defensive end’. O grande jogador dessa posição nos dias de hoje, na NFL, é o JJ Watt, mas eu me inspiro mais no Von Miller, já que ele é mais rápido. Como eu não sou tão pesado, me inspiro mais nele.

Como foi sua experiência nos Estados Unidos? E como você chegou lá?

Foi um ano de destaque meu aquele 2013. Um dia, joguei em Florianópolis contra um time de lá. O técnico do time deles era quem recomendava os atletas para um treinamento na Federação Internacional dos Estados Unidos e depois da partida, acabou me convocando.

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Como é a sua rotina de treinamentos?

O time treina três vezes por semana. Às terças e quintas, fazemos treinamentos mais leves. No sábado, o elenco aprimora a parte física. Em casa, eu tento melhorar a parte física ainda mais com uns aparelhos, uns pesos, uma caixa para saltos que eu e meu irmão compramos recentemente.

Qual o tamanho do seu incentivo ao crescimento do esporte no Estado?

Eu espalho bastante a ideia em Santa Maria. Em todos os colégios que eu vou, já proponho ao professor de Educação física uma palestra sobre futebol americano, para convidar todo mundo para vir aos jogos, divulgar mesmo. Além disso, todo mundo que vem me perguntar, que não conhece, eu respondo com o maior prazer para apresentar o esporte.

 

Qual o tamanho da inspiração no seu irmão?

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Lucas comemora durante o jogo com o seu irmão, Vinicius

Quase 100%. Principalmente agora que jogo na mesma posição que ele. Aproveito tudo que ele me passa para melhorar o meu jogo. Tenho sempre essa meta de tentar alcançar ele, serve muito de inspiração. Pode ser que eu chegue na Seleção ou não. Mas, no mínimo, quero jogar tão bem quanto ele.

Em 2018, o seu time tenta o terceiro título gaúcho seguido. Um deles foi conquistado no Gigante Bowl. Como você recorda aquela partida?

“Foi uma aposta grande, de quem acreditava no esporte mesmo. Me deixou muito, mas muito feliz. Eu lembro que no campo, a maior dificuldade Não era nem jogar, era conseguir se concentrar. A empolgação estava a mil. No chute inicial, eu olhei para cima e pensei: ‘meu Deus, que coisa absurda’. A gente nem queria sair de campo.”

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Sempre falta um goleiro

22/05/2018

Da cidade interiorana de Xavantina, em Santa Catarina, Rogério Dervanoski, sempre gostou de jogar futebol. Hoje, o goleiro e presidente do PampaCats – primeira equipe poliesportiva gay do sul do país – vê no esporte uma forma de inclusão.

Por Giulia Secco | giuliasecco@hotmail.com

 

Qual a sua história com o esporte?

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Eu sempre fui um amante do esporte. Eu sou de uma cidade chamada Xavantina, no interior do estado de Santa Catarina, e cidade do interior é jogar futebol. Sai da escola vai jogar futebol na quadra da escola. E eu não me visualizava ainda como gay. Eu era uma criança, um adolescente, descobrindo a minha sexualidade como qualquer um outro. Então para mim nunca foi um problema, porque, de certa forma, eu não tinha descoberto ainda. Então eu agia como os outros meninos da minha idade. Com o tempo fui descobrindo. Eu fazia de tudo para ser o melhor jogador. Eu queria mostrar para todo mundo que eu podia, que eu era capaz, que eu podia jogar futebol como qualquer um outro. Nunca tive alguém falando para mim “sua bichinha”, “viado”. Nunca tive um grande problema na minha adolescência quanto a isso. Eu sempre joguei com héteros. Então quando eu vi que estavam formando um time de futebol só para gays eu achei o máximo porque eu ia poder estar em um ambiente em que eu poderia ser quem eu sou realmente.
Quando eu morava em Xavantina eu sempre queria participar dos jogos abertos. Eu sou goleiro e goleiro sempre falta. Quando eu vim morar em Porto Alegre, depois de uns dois meses aqui, eu estava trabalhando em um escritório de advocacia e um menino do escritório começou a falar que o time deles estava sem um goleiro. “Preciso de um goleiro e não acho”. E eu na minha. Na terceira vez eu disse “Olha só: eu jogo no gol mas eu to meio enferrujado”. A gente vai se diminuindo com medo de possíveis xingamentos. Só por ser gay tu acha que tu é inferior. E jogar no meio dos héteros, de pessoas desconhecidas, tu fica com medo que eles digam pra ti “tu ta jogando mal, sua bichinha”, “ta jogando mal porque é viado”. Eu tinha muito medo disso. Eu fui e estou nesse time até hoje. Nunca tive problema de homofobia no futebol. Quando apareceu o PampaCats, eu jogava terça com os héteros e quinta com o time.

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Na terça-feira, pós Ligay, eu fui jogar com eles. E eu estava com muito medo de eles me xingarem ou darem indiretas. Fui lá jogar porque eu posso jogar no sábado com gay e na terça com hétero. Porque o objetivo da Ligay e desse nosso movimento não é que tenha um time gay e um time hétero. O nosso objetivo é que todo mundo possa jogar junto. Mas como a forma que está sendo feita não está dando certo, porque estamos sendo excluídos, a gente está mostrando para todo mundo que gay pode jogar futebol, pode jogar vôlei, pode praticar qualquer esporte e pode praticar junto. A gente fazia amistosos contra héteros e os héteros adoravam jogar com a gente. É um jogo muito bacana, é um jogo limpo.
A gente quer mostrar para a sociedade que nós podemos. A gente sempre puxa a Liga dos Canelas Pretas, que foi um movimento de jogadores negros que criaram uma liga para os jogadores negros poderem jogar futebol. Então a gente traz para a atualidade a Ligay como uma forma dos gays poderem jogar futebol. Hoje não tem nenhum jogador profissional de futebol assumidamente gay jogando em um grande time.

Como foi a repercussão depois da Ligay?

A repercussão que teve a gente jamais imaginou que fosse ter em Porto Alegre. O nosso primeiro campeonato foi a Copa Sul, em Floripa. O PampaCats nasceu em agosto e nosso primeiro campeonato de futebol foi em janeiro. E lá em Floripa teve uma repercussão boa. Aqui a gente a gente achou que ia ter uma reportagem aqui ou ali, mas a repercussão foi gigantesca. A gente jamais imaginou que ia ter essa repercussão toda. A gente ficou muito feliz com toda a dimensão que tomou.

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A gente não tem muito essa ideia de que o homem gay pode gostar de futebol. Como é entrar nessa esfera que parece ser exclusiva do homem hétero?

O futebol é muito machista. Então todo mundo tem medo de jogar futebol. Esses novos times estão entrando no que chamamos de “santuário do homem hétero”, em que ele pode falar o que ele quiser. Não quero generalizar. A gente não pode generalizar toda uma classe. Mas hoje a maioria é assim. Você entrar em um ambiente desses não é fácil, você não consegue entrar sozinho, você precisa de um movimento, você precisa de pessoas que te apoiem. Hoje ainda tem muita exclusão no esporte. A gente recebe várias histórias de gente que ama futebol, mas ter sofrido muito preconceito passou a odiar. Tem muita gente que só assiste jogo na TV. Só vai acabar a briga dentro dos estádios quando tiver diversidade, quando tiver mulher, quando tiver gay, quando tiver negros, quando todo mundo puder realmente ir ao estádio. Não precisa ser um ambiente heteronormativo. É um ambiente para todo mundo. Dá para ver pela criação de tantos times no Brasil que tem hoje. Hoje tem, em média, 30 times formados. Então os gays também gostam de futebol. Não tem porque não gostar de torcer. Por exemplo, os PampaCats participaram pela primeira vez do campeonato na Ligay e a gente teve muita torcida porque o Grêmio X Inter para eles estava uma coisa muito pesada. É muito difícil ir a um estádio. Você vai com medo, você vai preocupado. Você não pode dar um abraço no namorado ou namorada. Precisa desse movimento.

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A Champions Ligay reuniu 12 times, 260 atletas e um público de 1,5 mil pessoas em Porto Alegre. Foi a segunda edição do campeonato. Competidores de seis Estados e do Distrito Federal que integram a Liga Nacional de Futebol Gay (Ligay) disputaram o título de futebol society LGBT do país. O vencedor da competição foi o time paulista Bulls. O PampCats não passou da primeira fase. Já, o também portoalegrense Magia Sport Club permaneceu na competição até as quartas de final.

 

Joga bola, jogadora

21/05/2018

Foto - Acervo da EntrevistadaApós passar por três clubes de futebol feminino, a atleta, nascida e criada em Garibaldi/RS, Chaiane Locatelli, de 23 anos, se tornou atacante e camisa 11 no Santos FC.

por Andrielle Prates da Silva Machado |andrielle.prates26@gmail.com

Conte um pouco sobre a tua trajetória profissional.
Quando criança, morava em uma rua de um pequeno bairro de Garibaldi, onde haviam poucas meninas. Antes mesmo de entrar para a escola, meu maior divertimento era jogar futebol com os meninos da minha rua.

Com quantos anos tu começou a se identificar como uma adoradora dos esportes, em específico o futebol?
Eu e minha irmã Natane sempre fomos crianças muito ativas, nossas brincadeiras preferidas eram sempre na rua. O futebol entrou em nossas vidas a partir daí. Com 9 anos meus pais resolveram nos colocar em uma escolinha de futsal, e foi aí que o amor começou.
Por quantos clubes de futebol tu já passou?
Passei por quatro: Porto Alegre FC, Kindermman, Foz Cataratas e Vitória de Santo Antão. E, atualmente, jogo no Santos FC.

Tendo em vista que atualmente tu joga no Santos. Fale um pouco de como é a tua rotina como jogadora de um dos maiores times brasileiros de Futebol.
Minha rotina no Santos inclui bastante horas por semana de treinamento, onde alguns dias treinamos dois períodos, outros apenas um. Em competição jogamos nas quartas, sábados ou domingos. O fato de ser um grande clube brasileiro, eu acho que não influencia muito, pois a responsabilidade que eu tenho no Santos é a mesma que tive nos outros clubes que passei.

Fique à vontade para deixar um relato de um dos jogos mais marcantes da tua trajetória.
Um dos jogos mais marcantes da minha carreira foi ano passado. Na final das Olimpíadas Universitárias (Universíade), contra o Japão. Foi um jogo batalhado do início ao fim. Vencemos por 1 a 0, no final da prorrogação e tive a felicidade de dar a assistência para o gol.

Tu conhece tuas limitações como jogadora? Quais são?
Sim. Uma das minhas maiores dificuldades é manter o equilíbrio depois de um erro, me cobro muito e às vezes acabo errando mais.

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Tu compreendeu com facilidade as exigências técnicas, táticas e físicas da tua posição? Sim.

Quanto tempo tu demorou para atender às tuas expectativas quanto a tua postura como jogadora?
No futebol ocorre uma busca diária pela excelência, ainda não me sinto na minha melhor fase, sei que posso ainda mais.

Como atacante, fale um pouco sobre a tua relação com as outras jogadoras do time, no ato dos jogos.
Minha relação é tranquila, não sou uma jogadora muito explosiva. Costumo escutar minhas companheiras e absorver somente informações positivas, que venham acrescentar no meu rendimento.

Já teve uma experiência ruim em algum jogo? Se sim, fique à vontade para falar sobre.
Sim.

Já sofreu preconceito explícito por ser mulher e jogadora de futebol? Se sim e se sentir confortável, conte sobre a situação. Sim. Desde quando eu era criança, quando eu comecei a jogar futebol na rua, quando jogava com os meninos, na maioria das vezes. Eu sofria preconceito por parte dos meninos e por parte dos pais do bairro também que me viam jogando e contavam para a minha família. Falavam que aquilo não era coisa de menina, então o preconceito começou desde aí, e nessa jornada toda no futebol da pra contar também as milhares de vezes que desvalorizaram a minha profissão, que é jogar futebol, e já ouvi alguns comentários machistas, até mesmo durante os jogos. Tem muitas coisas que a gente escuta até hoje.
Na pesquisa que realizei sobre a tua vida profissional, não haviam os números de gols e jogos realizados. Tu poderia falar sobre esse números e sobre as tuas melhores experiências nesses jogos?
Eu também não sei informar estes números.

O que o futebol significa pra ti?
O futebol me proporcionou experiências muito boas. Conheci muitas pessoas, fiz amizades, cresci, amadureci muito vivendo longe de casa. Tudo que sou hoje devo ao esporte.
Tendo em vista que o time feminino do Santos tem o apelido de “​Sereias da Vila”, se for possível, fale um pouco sobre o surgimento desse nome.
Foi uma ideia do Marketing do Santos no ano de 2008.
Existe uma relação do time feminino com o time masculino do Santos?
Temos pouco contato com o time masculino. Nosso maior contato é com os meninos da base, fizemos nossas refeições no mesmo local.

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Já teve a oportunidade de jogar com alguém que tu tem admiração? se sim, fale sobre a experiência.
Com várias jogadoras que já jogaram aqui e retornaram para o Santos. Quando criança via na TV e poder jogar com elas foi um sonho realizado.

Em família

17/05/2018

Por Emerson Trindade
emerson.trindade@ufrgs.br

Sabine Suffert tem 20 anos e estuda licenciatura em Ciências Sociais na UFRGS. Como qualquer estudante da sua idade, ela divide o tempo da faculdade com lazer e esportes. Mas dificilmente algum outro aluno de 20 anos pode dizer que disputou um campeonato mundial. No fim de abril, ela esteve na Alemanha com a delegação da SOGIPA que participou do mundial de punhobol, esporte que Sabine pratica desde os seis anos de idade. O punhobol chegou antes da própria Sabine na família Suffert: essa história começa com o bisavô paterno, passa pelo avô e os pais da estudante. E a atual geração não deixa por menos. Na família Suffert, com certeza o esporte está enraizado de maneira definitiva, com Sabine, seu namorado, o irmão, Eduardo (que também namora uma jogadora), além de primos e tios. A forte ligação da família com o esporte ajudou Sabine a conquistar dois campeonatos brasileiros com a SOGIPA (2015 e 2016) e um pan americano com a seleção brasileira (em 2015).

 

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Sabine (segunda esquerda para direita de pé), com o time da SOGIPA no mundial. (Imagem: SOGIPA)

 

Mas o que é punhobol? No Brasil, pouca gente sabe. E, como em toda pergunta, a resposta depende de pra quem se pergunta.

Quem fosse responder explicando o esporte, diria que é um jogo parecido com vôlei, mas jogado na grama e com a bola quicando no chão uma vez depois de cada toque, que deve ser dado com o antebraço e com o punho fechado, daí o seu nome. Outra pessoa que fosse responder do ponto de vista social, diria que é um esporte pequeno ou pouco conhecido no Brasil – sem a vitrine que outras modalidades têm a cada quatro anos nas olimpíadas. O que não significa que o país não consiga se destacar, muito pelo contrário. Quem observar o contexto do punhobol no Brasil a partir dos resultados, vai apontar os 2 títulos e 4 vice campeonatos nos mundiais masculinos, desempenho que só fica atrás da maior potência, a Alemanha, que venceu 11 vezes o torneio. No feminino, o Brasil tem um campeonato e 3 vices. Para completar, já fomos sede de 3 mundiais, 2 femininos e um masculino.

E a tradição brasileira no punhobol vai além. Entre os clubes, os brasileiros venceram 16 dos 29 mundiais masculinos e 9 dos 22 femininos disputados. Só a Sociedade de Ginástica de Porto Alegre (SOGIPA) é detentora de 11 títulos mundiais na categoria masculina e 2 na categoria feminina.

No mundial de abril o título veio para o Brasil, mas não para Porto Alegre. A SOGIPA terminou no quarto lugar, depois de perder a semifinal para o Duque de Caxias, de Curitiba, (3 sets a 2) que depois sagrou-se campeão. Mesmo sem o título, foi mais um resultado expressivo do clube gaúcho no cenário internacional do punhobol. E mais do que isso, para Sabine este foi mais um capítulo de uma história de união e amizade.

 

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Sabine (acertando a bola) em jogo pelo mundial na Alemanha (arquivo pessoal)

 

O que é o punhobol pra ti?

É amizade, muito, muito, muito forte, porque qualquer pessoa que joga punhobol a gente já se identifica, por jogar punhobol. Então é muito forte esse negócio de amizade, família, eu gosto… de verdade eu não sei explicar porque eu gosto tanto de jogar punhobol. Não sei se os treinos me dão tanta vontade assim, mas estar jogando punhobol é uma sensação indescritível. É muito legal porque meu namorado eu conheci no punhobol, meu irmão conheceu a namorada dele no punhobol também, meus pais se conheceram no punhobol, tipo, se conhecem no punhobol e fica junto. Esse negócio de amor, amizade e felicidade são palavras que descrevem bastante o punhobol pra mim.

Isso de o punhobol ser família é mais do que modo de dizer então, é literalmente

(Risos) É, como o punhobol, é um esporte pequeno, as viagens que a gente faz é feminino e masculino no mesmo ônibus, então a gente é muito amigo, guri e guria são muito amigos, o que eu não vejo nos outros esportes. Por exemplo, tem meninas que vieram do vôlei agora e que vão pra uma viagem e dizem ‘nossa, os guris vão junto no ônibus?’ e a gente ‘sim, normal’, a gente brinca, a gente é amigo, a gente tá sempre junto e tal. Eu acho que isso acaba com certeza deixando as pessoas mais ligadas e se conhecendo mais. (…) No punhobol a gente termina o jogo, vai lá e toma uma cerveja junto e conversa e vira amigo e tal. E o punhobol, onde mais ocorrem campeonatos legais é na europa, a gente vai pra lá basicamente com o custo só da passagem, porque a gente vai pra lá e fica, se não em casa de família, em ginásio e eles pagam a nossa comida. E quando a gente ganha algum torneio lá, a gente ganha dinheiro dos torneios. Se a gente ganha algum torneio, ganha, sei lá, 200 euros. Eu já conheci (com o punhobol) Alemanha, Áustria, Suíça, Argentina, Chile, Estados Unidos…

Dá pra ter como profissão o punhobol?

Não, porque o que a gente ganha de dinheiro do punhobol… ou ganhava, porque agora acho que não vai mais ter, era o bolsa atleta. Quando a gente jogava o mundial ou algum torneio internacional e tirava até terceira posição, podia pedir bolsa atleta. Daí ganhava 23 mil reais por ano, mas a gente já não conseguiu pedir pro mundial de 2016 então provavelmente não vai ter mais isso, então a gente não vai ter remuneração nenhuma mais.

Pretende seguir no punhobol depois de formada?

Pretendo manter como hobby até onde der, até onde a profissão me permitir. Como eu tô estudando pra ser professora, é difícil porque ser professora ocupa bastante tempo, mas eu pretendo continuar jogando nem que seja só por diversão assim, porque é algo que tá na minha vida desde cedo, é difícil largar.

Eu pretendo ajudar a montar um projeto pro punhobol crescer mais nas escolas. Tem uma escola, por exemplo, em Camaquã que ajuda a disseminar o punhobol. Só que quando tem campeonato eles não têm dinheiro pra vir jogar. Então montando um projeto, conseguindo esse dinheiro pra eles virem jogar, acho que a gente consegue expandir bastante o punhobol. Quando eu tiver tempo pretendo montar esse projeto nas escolas e até quem sabe fazer uma cadeira de punhobol na faculdade, porque não adianta eu querer expandir o punhobol pras escolas mas daí ter um professor de educação física que não sabe dar aula de punhobol, que não sabe o que é o punhobol. Penso bastante sobre isso e pretendo, sim, montar um projeto pra ajudar quando eu tiver um tempo.

Quanto da tua vida hoje tu dá pro esporte?

Bastante. Agora, por causa do mundial, a gente tava treinando praticamente todos dias da semana, se não era com bola, era físico. Os únicos dias que a gente não treinava era terça e domingo quando não tinha campeonato. Agora em março todos os fins de semana teve campeonato então março inteiro foi dedicado ao punhobol. E abril também porque a gente viajou (para o mundial), daí voltou só agora em maio.

Agora, o calendário segue com o mundial de seleções feminino, que acontece na Áustria em junho. Sabine conta que não vai participar por ter divergências com os rumos tomados pela seleção, mas a SOGIPA e a família Suffert seguem representadas na equipe nacional.

Eu tava (na seleção), mas decidi não jogar por algumas coisas que foram feitas que eu achei errado durante o processo e daí eu falei que não quero jogar porque não concordo com algumas coisas que tão acontecendo. Mas tem algumas meninas da SOGIPA que foram convocadas. A Cecília, namorada do meu irmão, a minha prima Bianca, a nossa batedora Isabela e a nossa menina que joga no fundo, a Giovana.

E como é a tua relação com o clube?

Eu tô no clube desde que eu nasci. Meu vô foi presidente da SOGIPA, a casa dos meus avós tem um portãozinho que dá pra SOGIPA. Então tô ali desde que nasci e conheço tudo que tem pra conhecer ali dentro.

 

 

 

Na natação e na vida: A coragem e determinação de Joanna Maranhão

16/05/2018
por Jaqueline Kunze – jaquelinebkunze@gmail.com

Em 2014, a nadadora Joanna Maranhão anunciava aposentadoria. Após enfrentar inúmeros problemas pessoais, a atleta parecia se despedir de vez das piscinas. Ainda assim se recuperou, voltou a competir e hoje se prepara para representar o Brasil pela quinta vez em jogos olímpicos. Exemplo de superação, Joanna procura humanizar o esporte, tanto como atleta quanto como professora formada na área.

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Você começou cedo na natação, mas em que momento decidiu dedicar-se ao esporte profissionalmente? Ser atleta de alto rendimento sempre foi uma opção?  

Tudo na minha vida sempre foi uma opção, a não ser aos três anos de idade que minha mãe me colocou pra começar a nadar. Eu nunca fui forçada. E acho que tomei a decisão de me tornar atleta profissional muito cedo, porque eu repetia desde criança pra minha mãe os clubes que eu queria ir quando começasse a disputar o campeonato brasileiro. Então desde muito cedo eu já tinha na minha cabeça onde eu queria chegar, e essa decisão sempre foi minha.

Você já questionava a corrupção na CBDA antes dos casos de irregularidade na entidade virem à tona. Que tipos de represálias você sofreu em razão dessa postura crítica?

Variadas. Tudo que era meu de direito e que tinha que passar pela confederação pra chegar no comitê olímpico ou no Ministério dos Esportes era barrado dentro da confederação. Sem falar no tratamento dentro da própria seleção, muito ríspido e muito grosseiro por parte dos dirigentes. Eles não podiam me segurar e fazer com que eu nadasse mais devagar, então eles tentavam me minar psicologicamente, mas de alguma forma isso me fortalecia. O que ficou realmente duro foi mais a questão financeira.

Como era ser uma das únicas a se engajar contra a corrupção no esporte? 

Solitário, e parecia que não tinha fim. Parecia que eu estava num túnel escuro, em que algumas vezes me davam voz. A imprensa era o único local em que eu tinha a oportunidade de reverberar o que estava acontecendo. Eu não tinha o apoio dos meus técnicos, eu não tinha apoio dos meus companheiros de seleção. Algumas vezes o apoio era muito nos bastidores, do tipo: um tapinha nas costas e você é muito corajosa. Mas quando chegava na hora do enfrentamento mesmo eu ficava sozinha. Então era muito solitário, mas dentro de mim eu tinha a certeza de que aquilo era o correto a ser feito.

O financiamento dos esportes de alto rendimento no país poderia ser repensado e gerado de outras maneiras? Como? 

A gente tem uma cultura clubística. São os clubes que contratam os melhores atletas, montam as melhores equipes, têm o monopólio financeiro e pagam salário pros atletas. E a gente não tem alinhado a carreira esportiva com a acadêmica. Então é muito grande o número de atletas que param de estudar, fazem supletivos ou nunca se formam, porque eles têm que mostrar resultado para renovar com o clube. Na minha opinião, esse investimento poderia ser mais em centros de treinamento e em estrutura pra que os atletas não precisem necessariamente pagar suas contas, que isso seja ofertado para eles na contrapartida de que eles estudem. Porque ninguém é atleta pra sempre. Deus me livre que algum atleta passe por uma situação de uma doença e não consiga mais ser atleta. O clube simplesmente o manda embora! Ele vai fazer o quê? Não tem curso superior, não estudou…

Sabemos que o machismo pode ser um limitador para os e as atletas. Você já se sentiu prejudicada, como profissional, por situações machistas?

Diversas vezes. O que me pego pensando é o que os técnicos falaram, de ter de treinar como homem, ou por enfrentar a CBDA, que eu agia como homem, ou que eu tinha culhão pra isso. Na verdade não era, até porque foi necessário uma mulher pra dizer que aquilo era errado, entrar na justiça e barrar uma comissão de atletas feita sem voto dos próprios atletas. Então não tem nada a ver com gênero, tem a ver com coragem e com determinação mesmo.

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Você lidou com muitas dificuldades ao longo de sua carreira  – sistema corrupto, machismo no esporte, abuso sexual na infância, as crises de ansiedade e depressão. No entanto, você se posiciona e fala abertamente sobre essas situações. Ter essa atitude trouxe repercussões positivas?  Quais?

As repercussões positivas são o feedback que eu tenho das pessoas que se enxergam nessa minha ideia de humanizar a carreira de atleta. De falar sobre os momentos bons e dos momentos ruins, falar das vitórias e das derrotas também. Não minimizar ou fugir do assunto. Eu gosto dessa relação que eu criei com as pessoas, mais aberta. E espero que esse meu posicionamento faça com que outros atletas também se libertem dessa obrigatoriedade de falar só do resultado bom e quando for ruim não falar tanto, ou se esquivar de assuntos polêmicos. A gente não tem que se esquivar do que é polêmico, a gente tem que se esquivar e lutar contra aquilo que é errado. Então eu não me arrependo de absolutamente nada quando se fala de legado esportivo.

O que foi preciso fazer, em meio às pressões pessoais e profissionais, para ter força emocional e lidar com transtornos mentais?

Me libertar desse estigma de que eu era uma pessoa fraca por ter essa doença. A depressão é uma doença como qualquer outra. Eu fui tomando a consciência de que tem um aspecto genético e tem também situações que aconteceram em minha vida, como o próprio abuso sexual, de que eu não tive controle. Eu não tenho culpa da genética que eu herdei muito menos de que um homem resolveu me abusar quando eu tinha 9 anos de idade. Eu não era obrigada a ser forte o tempo inteiro. Então abraçar a minha própria fragilidade, compreender que quando eu estou em um estágio depressivo aquilo não sou eu, aquilo é como eu estou naquele momento, não é permanente. Sei que eu posso ter crises, e que uma pessoa que tem a história como a minha tem que lutar por equilíbrio todos os dias. Compreender que vão ter dias que não vou conseguir cumprir a minha própria rotina, que vai ser mais difícil cumprir, que vai ser excruciante levantar da cama. E que tudo bem, que isso é ser humana, é me abraçar e me amar com as minhas imperfeições também, com as minhas doenças, os meus traumas, com minhas consequências. Então essa consciência me libertou. Isso não quer dizer que eu não me julgue nesses momentos. Sempre vem aquele julgamento: “Pô, você foi pra quatro olimpíadas e agora não está conseguindo levantar da cama?” É compreender que as grandezas mudam, a gente quer ser feliz sempre, mas sempre não é todo dia.

Entre os melhores momentos de sua carreira como nadadora, qual mais te marcou? Por quê?

Mais recente, nos Jogos Olímpicos do Rio, eu não passei para a semifinal dos 200 medley, que era a minha meta, por 5 centésimos. E eu fiquei olhando para o placar, pensando no que eram aqueles 5 centésimos, o que faltou pra eu não ter feito eles e se valia a pena, no outro ano, tentar buscá-los. Mas acho que foi providencial eu não ter passado. No ano seguinte, no mundial de Budapeste, eu não só passei pra semifinal como quase entrei na final, fiquei em décimo lugar e bati um recorde que já estava durando desde 2009. Então eu consegui superar o que tinha acontecido um ano antes e acabou que teve uma simbologia muito maior. Eu precisava não ter passado para entender o que eram aqueles 5 centésimos, não me culpar e trabalhar por eles, e acabou que eu melhorei mais de 1 segundo e meio no outro ano.

Pretende participar das Olimpíadas de Tóquio em 2020?

Pretendo e ainda estou trabalhando para isso. Já voltei a treinar, estou buscando em qual clube vou e qual prova vou especificar para isso. E vai ser uma grande honra poder representar o meu país pela quinta vez em jogos olímpicos e com 33 anos de idade. Quando eu tinha 17 não imaginava que teria a oportunidade de viver isso quatro, oito, doze e dezesseis anos depois. É uma experiência realmente única e eu me sinto muito honrada e privilegiada de poder ter condições de competir nos jogos de Tóquio.

O faixa preta do Gravataí Taekwondo Clube

15/05/2018
tags:
William Coutinho

Foto: Divulgação/Gravataí Taekwondo Clube

por Júlio Câmara – julioscamara@gmail.com

William Coutinho tem 19 anos e há 9 está praticando taekwondo. O atleta do Gravataí Taekwondo Clube recebeu a faixa preta há um ano e no último mês conquistou a medalha de ouro na categoria de até 68kg do Open Sul, maior competição de taekwondo do sul do país.

Como surgiu o interesse pelo esporte? Como tu começou a praticar taekwondo?

Meu interesse começou com o professor Osmar Spido num projeto social na Morada do Vale (bairro de Gravataí). Comecei a praticar totalmente como hobbie, não tinha nenhuma perspectiva de ser um atleta no futuro. Acabei apaixonado pela arte marcial e hoje vivo para o taekwondo.
Dedicação exclusiva ao taekwondo?
Quase. Escola e taekwondo.

Como é tua rotina de treino? E teu dia-a-dia?
De manhã vou pra escola. Faço o terceiro ano no CIEP Morada do Vale. Depois vou pra casa, almoço e às 13h30 começa minha rotina dentro da academia com treinamento funcional até as 14h15. Depois vou pro Morada buscar meu amigo que é meu parceiro de treino e treinamos até 17h. Volto pra casa, janto e às 18h estou de volta na academia para fazer musculação. À noite dou aulas e, finalmente, das 21h30 às 23h treino com os faixas pretas.

E como concilia a rotina de treinos com os estudos?
No começo foi bem complicado me adaptar porque preciso acordar cedo para estudar e ter energia para ir treinar. Era bem complicado, mas com o tempo acabei me acostumando. Pra mim, treinar não é uma obrigação, é uma coisa que eu gosto de fazer, gosto de me manter ativo, me manter treinando.

Desde quando nessa rotina?
Há um ano, quando peguei a faixa preta.

E os objetivos do momento?
A curto prazo?

A curto prazo.
A curto prazo, sem dúvidas, é a seletiva fechada que vai ter agora no dia 19 de maio. Se eu ganhar, disputo o Campeonato Brasileiro em Cuiabá.

E a médio prazo?
Conseguir a bolsa-atleta para me estruturar melhor porque, querendo ou não, é um gasto muito grande que eu tenho. Também quero adquirir o máximo de experiência para a longo prazo conseguir disputar um mundial e outros torneios fora do país.

E quais são as maiores dificuldades pra isso?
No meu caso, o peso. O peso é um problema bem grande que eu enfrento. E também os apoios técnicos que a gente tem que reforçar durante a rotina de treinos para conseguir atingir os resultados lá na frente.

Quais são as tuas motivações?
Tem várias… Atletas que eu me espelho, que quero chegar ao mesmo nível um dia. Tem minha família, que é muito importante porque me dá apoio, também apoio financeiro. Também me motiva meu professor Ruan Martins que tenho muito a agradecer porque me ajuda no que pode e também no que não pode.

Em quais atletas tu te espelha?
Hoje o atleta que mais me inspira é o (campeão mundial) Lee Dae-hoon da Coreia do Sul. Ele pesa 68kg que, por coincidência, é minha categoria também. O cara é muito bom! Se eu chegar ao nível dele, eu vou ficar muito, muito satisfeito!

Tu chegou no esporte através de um projeto social. Como tu vê a relação entre projetos sociais e o esporte?
Eu acredito que o esporte é uma ferramenta de transformação, tá ligado? Tipo, ele não te dá só perspectiva dentro do esporte. O esporte serve também como uma alavanca para a vida. Te passa valores, te passa disciplina, te passa uma esperança de um futuro melhor. Eu acho que é bem isso. Tu acredita que pela tua situação social tu não vai sair dessa vida nunca e o objetivo do esporte é mudar essa perspectiva de vida, mostrar que tu pode ir pra frente.

Futebol americano no Brasil: um futuro de abismos a ser vencido

14/05/2018

Vytor Bueno
vytorbueno@hotmail.com

 

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Linha ofensiva do Viamão raptors impedindo o avanço da defesa do Porto Alegre Warriors. Tafarel Braga Reis na extremidade direita fazendo a leitura da jogada. Foto por: Nara Gama.

 

O 3º maior mercado consumidor de produtos da NFL e cerca de 130 times ativos nas várias ligas espalhadas pelo país; esse é o atual panorama do Futebol Americano no Brasil.

 
Há 10 anos seria dado como louco aquele que apontasse o Brasil como um país apaixonado no esporte da bola oval, hoje já é realidade este sentimento por parte dos brasileiros, seja ele torcendo ou jogando. A dita “moda passageira”, como foi apontada no início, está se consolidando e já conta com confederação (CBFA), duas divisões nacionais, e vário torneios regionais e estaduais.

 
O crescimento é notável, porém é necessário observar que a modalidade está em um estágio de profissionalização, com muitos times amadores e semi-amadores buscando a estabilidade em meio às dificuldades econômicas. Poucas equipes conseguem parcerias com times de Futebol ou investidores para se sustentar e oferecer boa estrutura aos atletas.

 
Em uma conversa com o jogador Tafarel Braga, estudante de Relações Públicas na UFRGS e jogador do Viamão Raptors, fica claro a dificuldade dos times gaúchos de se manterem ativos, e como é complicado um atleta se dedicar a modalidade. O zagueiro de linha ofensiva do Raptors nos contou sua trajetória e a sua visão sobre o crescimento do esporte no Brasil e no Rio Grande do Sul.

 

 

Como você conheceu o Futebol Americano?                                                               

Tafarel: Conheci através de um aluno daqui mesmo da UFRGS, o Leonardo Bandeira estudante de Publicidade. Ele fez uma seletiva antes de mim, seletiva é a maneira que se entra nos times, e me disse que o time era da minha cidade; então decidi participar do Futebol Americano, que é um esporte que eu acompanhava muito quando era criança e que depois fui perdendo um pouco o interesse, mas quando voltei a praticar comecei a acompanhar bastante os jogos.

 
Qual ano você fez a seletiva e para qual time?                                                           

Tafarel: Eu fiz em Outubro de 2016 para entrar no time do Viamão Raptors, um time que começou com 5 caras lá na vila Augusta, em Viamão.

 

 

Quanto tempo você atua/ou pelo Viamão Raptors?                                                   

Tafarel: Atuei do segundo semestre de 2016 até o primeiro semestre de 2018, mas acabei sendo expulso do time por problemas internos. Agora estou procurando um novo time, o cenário do Futebol Americano está crescendo bastante, tem muito time pro cara jogar.

 

Você já passou por alguma dificuldade para continuar praticando o esporte?

Tafarel: Depois do nosso primeiro jogo contra o Porto Alegre Warriors, em um treino eu tava bloqueando e acabei quebrando um dedo. Me afastei de toda uma temporada.[…] Como eu disse, é um esporte que temos que arcar do próprio bolso, tive que pagar tudo, a cirurgia, a reabilitação e a fisioterapia. Por ser um esporte de contato tem posições que são bem sofridas, como Run in back, que acabam se lesionando, e o cara precisa balancear isso com a profissão dele, pois talvez ele trabalhe em pé ou com alguma exigência física. Dificilmente alguma pessoa se planeja para ser profissional, a gurizada entra procurando um hobby, ou viu na TV, ou tem a oportunidade na cidade.

 

 

Qual a sua maior satisfação no esporte?                                                                     

Tafarel: Cara, tem a vitória contra o Canoas Jaguars, que é a única vitória do Viamão Raptors até agora nessa fase full pads. Mas o trabalho que o time faz de ir até as escolas de Viamão e mostrar o time, o esporte, essa questão mais social me dava um incentivo maior. A cidade é carente nesse sentido, a prefeitura não possui tantos incentivos voltados ao esporte e acaba sendo uma iniciativa de um time de Viamão para as pessoas de Viamão, sabe? Foi algo que me marcou, o que me fez jogar em Viamão foi ter um time na minha cidade e fazer algo por ela.

 

 

Nos últimos anos o esporte cresceu bastante, resultando em muitos campeonatos no Rio Grande do Sul. Como você vê o crescimento do Futebol Americano no estado?                                                                                                                                   

Tafarel: Desde 2016 o esporte vem crescendo bastante. No início houve um boom como o todo; aí as pessoas começaram com aquela ideia de que é uma moda passageira e que logo iria perder a força, mas não, o esporte vem crescendo e tem novos times. A federação gaúcha é muito organizada, apesar das limitações orçamentárias, e isso nós temos que tirar o chapéu pra eles. Acredito que o esporte agrega muita coisa. Ele agrega muito o biótipo, apesar de se ter uma exigência física muito grande dos atletas, [..] muita vezes um cara de 170 quilos não encontra um esporte pra ele, mas aqui a gente acha um
lugar pra ele na linha ofensiva (por exemplo). Claro, ele vai ter que se adaptar, mas é um esporte ainda mais inclusivo que outros esportes que a pessoa precisa ter o biótipo atlético e é isso.

 

 

Algumas vezes os times brasileiros adaptam um jogador em outra posição, isso é um estilo tático que criamos ou é mais pelo quesito técnico?                               

Tafarel: Principalmente pela questão técnica. A primeira vista o Futebol Americano parece ser muita força, mas depois se percebe que é mais uma questão técnica e de estratégia mesmo. O Tight End (por exemplo) exige muito do jogador, pois ele precisa ser tanto forte quanto rápido, e às vezes pelo indivíduo não ter uma vida dedicada ao esporte ele pode não ter o porte físico e a capacidade de jogar nessa posição (da forma correta).

 

 

Algumas Franquias (times) dos EUA costumam mudar de cidade por questões econômicas. Esse talvez seria o caminho dos times brasileiros para uma profissionalização mais rápida?

Tafarel: No Brasil já acontece dos times mudarem de cidade por questões de logística, como o Porto Alegre Bulls que acabou indo para Canoas por questão de infraestrutura. Aqui também tem a questão de mudar de lugar mas por questão de estrutura para o time poder crescer. O próprio Viamão Raptors está com planos de começar um centro de treinamento no bairro Vila Nova, aqui na zona Sul de Porto Alegre, e surge aquela paradigma se o time irá virar Vila Nova Raptors ou Porto Alegre Raptors, eu acho que não por todos os jogadores serem de Viamão.

 

 

O que pode causar para o time a mudança de sede?                                                 

Tafarel: Nós de Viamão não somos tão apegados a cidade, o time cresce mesmo pela acessibilidade, pois o cara que mora em Viamão às vezes não tem acesso a outro time, pois é complicado ir pra Canoas treinar, sabe? Ou pra cavalhadas, como tinha o pumpkins. Acaba que o Viamão era uma alternativa (mais fácil). Indo para Vila Nova teria que ver como vai ficar para a maioria dos jogadores, eu por exemplo não poderia voltar pro time, fica muito difícil pra mim, bem contramão de onde eu moro. Ainda tem essa característica de esporte amador, não tem muitos incentivos, tu paga do teu bolso para jogar, quando aparece esses empecilhos tu acaba achando outras saídas ou para de jogar e encerra ali tua carreira.

 

 

O que falta para a profissionalização do esporte e qual sua visão sobre o atual cenário do esporte no país?                                                                                             

Tafarel: Algumas Franquias entram em associação com times de futebol jogado com os pés né?! E nisso já rola muita profissionalização, tem contratos bons de 8000 reais, 9000 reais. Mas ainda está em crescimento, a maioria do público vem do time que mais tem mães, pais e namoradas vendo o jogo, ainda não se tem um público concreto do time, fora algumas exceções. O crescimento é constante porém lento, talvez daqui uns 10 anos para se estabelecer bem essa questão, para se tornar rentável para os patrocinadores e para a visibilidade em si do esporte.

 

 

O que você nota de mudança nas competições estaduais? Houve evolução nos últimos anos?                                                                                                                         

Tafarel: Ainda existe um abismo muito grande entre os melhores times e os times iniciantes, mas é visível a melhoria da técnica e também da estrutura (do campeonato), como a contagem de jardas, de receivers, as estatísticas em si estão ficando mais profissionais. As pessoas que estão chegando para procurar o esporte são pessoas mais preparadas, que vão pensando em vencer o campeonato. A própria mentalidade do esporte e dos novos atletas estão impulsionando o esporte. […] O crescimento técnico é muito bom, mas está engatinhando, o time que perde muito acaba perdendo peças, os caras se desgastam emocionalmente vão para outros times, outras oportunidades…

 

 

Como está a situação dos times gaúchos em meio a estrutura nacional do esporte?

Tafarel: Na BFA, que seria nossa primeira divisão, nós temos o Santa Maria Soldiers que é um bom time e chegou até as quartas de final, se não me engano. Na Liga nacional, nossa segunda divisão, nós temos o Juventude, time ligado ao time de futebol Juventude, e temos agora também o Porto Alegre Gorilas que é um time de boa estrutura e bom físico, mas por serem muito novos eles acabam pecando nas faltas, mas estão crescendo muito, chegaram até os playoffs do campeonato gaúcho esse ano, que é um feito inédito.

 

 

Nome: Tafarel Braga Reis, estudante de Relações Públicas da UFRGS.