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Mas qual é a desse amor pelo futebol?

19/07/2019

Por Emerson dos Santos

 

Um sábado de frio e chuva. O cenário perfeito para quem vai pela primeira vez assistir a uma partida de futebol. A vida inteira espraguejando de todas as maneiras possíveis tudo que envolve o esporte queridinho por quases todos que conheço, e lá estava eu, a caminho do duelo entre São José e Ypiranga.

40 minutos de espera na parada, aguardando o ônibus que me levaria ao Estádio Passo D’Areia. Conversar com uma senhora desconhecida no ponto de ônibus, falar sobre nossa dificuldade em comum de enxergar os ônibus que passam, quando deixamos os óculos em casa, me distraía dos pensamentos que tentavam me convencer de que seria melhor desistir da louca ideia de ir sozinho ver um jogo de futebol. Lá estava eu. 

Aos vinte minutos do primeiro tempo consigo chegar no estádio. Eram poucas as pessoas que ocupavam as cadeiras do Zéquinha. Me aconchego em um banco próximo ao senhor que vendia pipoca e pastéis. Comer seria algo interessante para me ajudar a passar o tempo naquele lugar. A bola rolando, os torcedores até então não muito vibrantes, o cara da pipoca andando pra lá e pra cá, e eu, distraído, observando os jogadores que ficaram de fora da partida fazerem seus exercícios de aquecimento, bem perto de onde eu estava. Nada de muito surpreendente até o momento. E é assim que termina o primeiro tempo, com minhas poucas  expectativas frustradas.

Depois de um cafezinho, volto para a arquibancada. É dado início ao segundo tempo. Percebo por ali uma nova figura. Não no campo (que confesso, foi o lugar que menos me chamou a atenção), mas sim à três fileiras de distância do banco onde eu estava sentado. Um rapaz que gritava freneticamente a cada ação que ocorria no gramado. “Tira o cartão do c*”, ele dizia. “Presta atenção no jogo, seu bosta”. Eram alguns dos votos que ele desejava ao juiz que mediava o duelo.

Após o gol de Luiz Eduardo, que poderia garantir a vitória para o Zéquinha, ser invalidado pelo bandeirinha, os conselhos dados pelo rapaz das três fileiras à minha frente voltaram-se para o treinador de seu time. Acredito que este nobre torcedor deve também atuar como capitão, treinador, ou sei lá eu o que de futebol, pois suas orientações eram dadas com muita convicção e confiança. “Tira esse cara daí! Esse Tavares tá usando jeans molhada.” “Tá jogando de coxa colada, filha da *#!%”.

Com meu pouco repertório futebolístico, não fui capaz de compreender suas diretrizes, e o porquê de tanto ódio contra a mãe do Tavares. Como uma criança enraivecida, ele continuava a insistir que o citado jogador fosse retirado de campo, e que Diguinho deveria ficar em seu lugar. E esse Diguinho  deve ser um craque, já que, mesmo com as orientações do torcedor-treinador não sendo atendidas, em poucos minutos já se via um grupo maior de torcedores bradando o nome do jogador que estava no banco.

Saí do Zequinho não muito realizado, mas preciso ser honesto comigo mesmo, as poucas relações que vi na arquibancada conseguiram despertar minha curiosidade. O senhor que assistia atento ao jogo, aparentemente não perdendo um detalhe do que acontecia em campo, me lembrou de meu avô, que assistia deitado no sofá da sala a toda e qualquer partida de futebol que passe na televisão. Podia ser os jogos de um dos times que mais detestava (Grêmio e Corinthians), mas lá estava ele, atento a tudo. Também, vi no estádio dois amigos que comentavam cada lance da partida, e antes de ser anulado o quase gol (aquele que foi descartado pelo bandeirinha) eles festejaram com imensa paixão o ponto que tiraria o zero a zero do placar. Paixão essa que se assemelha ao dia que vi meu tio chegar em casa com a cara completamente pintada de vermelho e branco, comemorando um dos títulos de seu time.

Essa paixão cega pelo futebol foi por muito tempo o principal combustível que alimentou minha aversão ao esporte. Mas ir neste jogo,  que por si só pouco me despertou a atenção, me fez olhar para as pessoas que interagiam naquele estádio. Que mesmo no frio, na chuva, se mantiveram lá, não para escrever um texto para um trabalho, mas pela paixão. 

E essa partida não muito empolgante me deixou com o desejo de ir a outro jogo, um maior, com as arquibancadas lotada de pessoas loucas gritando por seus times, com torcedores se julgando mais sábios que o juiz e o treinador. Talvez ver um pai levando sua filha pela primeira vez ao estádio, um casal passando um tempo juntos, ou mesmo para observar os jogadores se preparando para a partida… Essa cegueira que tanto critiquei se torna  um motivo para eu querer ver ainda mais de perto como funciona esse “amor pelo futebol”.

 

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