Pular para o conteúdo

Copa Internacional de Futsal LGBT: um gol contra o preconceito

12/07/2019

Por Rafaela Frison

1

A Copa Internacional de Futsal LGBT premia, além dos campeões, diversos destaques. Foto: Rafaela Frison.

Era quase meia-noite quando o último apito inicial aconteceu. Após um dia intenso de jogos, finalmente, a Copa Internacional de Futsal LGBT recebia a partida final. O título da segunda edição do torneio, realizada em Gramado, estava entre Real Centro e Taboa. A bola rolou e já nos primeiros minutos a exaustão dos jogadores era aparente, não à toa, o início da Copa aconteceu às nove horas da manhã, daquele sábado gelado de 08 de junho.

O primeiro tempo foi acirrado, sem predomínio pra nenhum dos lados. 0x0. Segue o jogo. Aos 11 minutos do segundo período, Taboa abriu o placar, em um chute cruzado de Kaio, sem chances para o goleiro. Apenas dois minutos depois, Geovane, em uma jogada individual, deixou Silvio na cara do gol para finalizar tranquilamente. 2×0. Fim da Copa.

Assim, Taboa, o time que viajou mais de 700 km para poder participar da competição, se sagrou novamente campeão da Copa Internacional de Futsal LGBT. Isso porque, os curitibanos, no ano passado, também venceram. O grito de bicampeão ressoou pelo ginásio. O capitão do time, Rafael Augusto, comentou sobre o sufoco sofrido no primeiro título. “A primeira vez foi bem complicada, a gente veio de van e ela quebrou no meio do caminho, chegamos na hora do primeiro jogo, já se trocando… Enfim, foi em forma de superação. Neste ano, diferentemente, viemos um dia antes e ficamos mais tranquilos”, conta Rafael.

2

Taboa, de Curitiba, campeões da Copa Internacional de Futsal LGBT. Foto: Rafaela Frison

Mas não é só o vencedor supremo que recebe troféu e medalha. Na Copa, eles premiam todo mundo, o vice, o terceiro, o destaque da final, o artilheiro, o goleiro menos vazado e o time disciplina. Esse último, é, talvez, o prêmio mais importante, por conta de uma só razão, na Copa LGBT de Futsal, o respeito à diversidade é o que tem a maior voz.

 

O jogo pela representatividade

“Eu tinha o sonho de conseguir uma medalha olímpica e faria de tudo para chegar lá, até esconder quem eu era. Eu tinha certeza que se um dia eu saísse do armário publicamente, perderia patrocínios e minha carreira seria prejudicada”. Esse é um trecho da entrevista do ginasta Diego Hypolito, concedida ao Uol Esportes. No mundo dos esportes, esta é uma pauta muito debatida, um homem declarado gay ainda é muito criticado e pode até ter a sua carreira interrompida e prejudicada.

As competições voltadas ao público LGBT, como a Copa de Futsal de Gramado, surgem dessa necessidade de quebrar paradigmas e de mostrar que homossexuais podem jogar futsal como qualquer outra pessoa, seja no âmbito do alto rendimento ou do amador. “Existe uma demanda reprimida de LGBTs que queriam praticar esporte, mas que não encontravam espaço em torneios ou nos times ‘tradicionais’, assim, não jogavam. Hoje em dia, eles já jogam, inclusive, em times héteros, porque se sentem empoderados para jogar em qualquer time”, ressalta Gilson Rambor, integrante da equipe Pampa Cats. 

3

Bandeiras do movimento LGBT decoravam o ginásio de Gramado, mostrando a representatividade da competição. Foto: Rafaela Frison.

Empoderamento e representatividade. Segundo o organizador da Copa, Flávio Prestes, esse nicho, que vem se formando, quebra muitos preconceitos. “A gente está falando de inclusão através do esporte, estamos falando de incluir gays em um contexto social. Cada vez mais, ações como essas, são fundamentais, visto que vivemos tempos obscuros no Brasil, e a gente precisa mostrar força, falar desses temas e debater”, desabafa.

Na verdade, todo esse movimento ajuda na ruptura de padrões e na democratização do futsal, trazendo para este meio, que é considerado de “machos”, um grupo que sempre foi colocado para escanteio. “Eu tenho certeza que a tendência é só de aumentar, mais modalidades e mais pessoas integrando”, diz, com otimismo, Gilson.

 

Além de LGBTs, mulheres

O preconceito está impregnado em nossa sociedade e a desconstrução desse paradigma é árduo e constante. Assim, se ser LGBT, no mundo e no esporte, já é uma luta diária, ser LGBT e mulher, duplica a intensidade do combate. Na Copa de Gramado, as minorias se abraçam e jogam juntas em prol de uma causa muito maior.

“A gente gosta de todos os tipos de esportes, ficamos sabendo dessa realização e viemos prestigiar”, comenta Camila Cavichioni, que assiste aos jogos ao lado do namorado, Maurício Benzer. “O que eu achei muito legal é que tem a Jéssica que está jogando no gol, eu não sabia, achei que era só masculino, achei muito legal essa junção dos dois, isso não acontece normalmente”. A Jéssica, a qual Camila se refere, joga como goleira para o Quero Quero Sport Club, um time de homens. “A ideia de jogar com eles surgiu a partir de um amistoso, em que eles não tinham goleiro e, então, me convidaram para fazer parte do time e eu aceitei. Estou aí há dois anos”, conta Jéssica Wiltgen, atleta.

4

Jéssica Wiltgen joga com na equipe masculina do Quero Quero Sport Club. Foto: Rafaela Frison

Além de mulher como defensora da meta, também tem mulher no comando. A equipe Uruguay Celeste, de Montevideo, tem uma técnica. Um ambiente, formado por pessoas que sofrem diariamente o preconceito na pele, não será um lugar em que se proíba alguém de ser quem ela quiser ser.

A segunda edição da Copa também é palco para uma competição feminina. Neste naipe, o grande vencedor foi o time das Sereyas, de Florianópolis. As meninas derrotaram as donas da casa, o Donna, e ergueram a taça. A taça, que representa um título, mas também uma vitória para cima do machismo e da homofobia. “Por defender essa bandeira, tem um gostinho a mais de ganhar esse campeonato, por conta da visibilidade das mulheres lésbicas. A gente joga bola, sim. É a partir daqui que a gente começa a mudar as cabeças das pessoas”, ressalta a capitã das Sereyas, Isis Reis.

Respeita as minas, os manos e as monas. E deixa todo mundo jogar, livremente e abertamente.

5

A equipe Sereyas foi a campeã da Copa Internacional de Futsal LGBT, no naipe feminino. Foto: Rafaela Frison

 

Muito mais que uma Copa

A Copa Intercontinental de Futsal LGBT de Gramado reuniu 12 equipes – oito masculinas e quatro femininas. Quero Quero Sport Club, de Gramado, Donna/Quero Quero, de Gramado, Magia – masculino e feminino, de Porto Alegre, Pampacats, de Porto Alegre, Ximangos, de Porto Alegre, Sereyos, de Florianópolis, Sereyas, de Florianópolis, Taboa, de Curitiba, Real Centro, de São Paulo, Uruguay Celeste, de Montevideo e GAPEF, de Buenos Aires. Estes foram os times que proporcionaram à cidade gramadense um espetáculo, além de esportivo, de representatividade. 

Este ano foi a segunda edição da Copa, realizada pelo time local, o Quero Quero Sport Club. O organizador da competição, Flávio Prestes, fala sobre a dificuldade em sediar um evento como esse, em um cenário de preconceito. “No ano passado, a gente encontrou algumas resistências, também tivemos ataques de haters. No entanto, nesse ano já foi mais tranquilo, em questão de ter mais parceiros e mais apoios de marcas da cidade. Na verdade, nós vivemos em um contexto social de interior, o Rio Grande do Sul já é muito machista e homofóbico, pela sua cultura, e numa cidade do interior, como Gramado, muito mais, as pessoas são reacionárias mesmo, mas o que importa pra gente é fazer um evento de credibilidade, para que as marcas possam associar suas imagens, e que, assim, quebre paradigmas.”

Segundo as atletas Jéssica Wiltgen e Isis Reis, é possível notar o aumento de pessoas que foram ao ginásio acompanhar a Copa. “Esse ano eu vi que tem mais gente, ano passado tava vazio. Mesmo e que seja dez pessoas a mais, a gente já tá mudando alguma coisa”, comenta Isis.

Além da Copa, entre os dias 6 e 9 de junho, Gramado foi palco para o LGBT Conference. O evento teve palestras, onde foram debatidos temas como direitos LGBT, LGBT na família, bíblia e homossexualidade, visibilidade trans, turismo LGBT, terrorismo de gênero nas redes, projetos Sociais, entre outros. “Na abertura, ficamos surpreendidos, porque achamos que só iria o pessoal LGBT e, na verdade, não foi assim, a comunidade foi prestigiar. É muito bom porque abre os olhos da comunidade”, ressalta Jéssica Wiltgen.

 

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: