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O país de um futebol

10/07/2019

Redimensionar campos, goleiras e bola não pode ser discutido antes de se enfrentar a realidade: futebol feminino no Brasil possui apenas 300 meninas registradas no base.

Por Gabriela Plentz

O Brasil é o país do futebol. Mas para quem? Mas que futebol? Essas simples perguntas podem fomentar a discussão sobre o papel do futebol em diversas frentes, chamando atenção para a necessidade do esporte cumprir a sua função com responsabilidade social. Vou me contentar, porém, em tratar de um dos aspectos que virou pauta nos últimos meses: o futebol feminino. A Copa do Mundo na França, em 2019, fez os holofotes serem direcionados pela primeira vez de alguma forma ao futebol feminino. Canais de TV aberta e por assinatura transmitiram todos os jogos, o que trouxe a tona também a reflexão acerca do desenvolvimento da modalidade. O batom da estrela Marta (que se consagrou a maior goleadora em Copas do Mundo) virou manchete em diversos jornais e rendeu mais assunto do que suas jogadas ou, por exemplo, a chuteira preta que usava – como forma de protesto às ofertas de patrocínio mais baixas em relação a dos homens, Marta jogou essa Copa do Mundo sem estampar marca nenhuma, apenas o símbolo da campanha Go Equal, que pede a igualdade de salários entre homens e mulheres.

A transmissão desses jogos evidenciou, porém, o despreparo de profissionais do Jornalismo, por exemplo, ao narrar e comentar a modalidade. A abordagem é sempre em paralelo, em tom de comparação, de minimização em relação ao futebol masculino. No centro das comparações em todo os lugares, a grande discussão: não se deveria alterar, no caso diminuir, as dimensões de campo, goleira e peso da bola para o futebol feminino em relação ao masculino? Para quem não estuda o futebol feminino e não dialoga com as jogadoras, a necessidade de redimensionar o futebol feminino é nítida. A inferioridade do estilo de futebol se justificaria, assim, pela incapacidade técnica e física das mulheres. O que deixam de considerar é a real diferença entre o futebol feminino e o masculino. É claro que assistir um jogo da Copa do Mundo Masculina é realmente diferente do que assistir a Copa do Mundo da França com os times femininos neste ano. É claro que um jogo da Copa América rende mais financeiramente falando do que qualquer jogo do feminino. Mas as diferenças no tipo de jogo, na capacidade de alcance e todas essas que enxergamos de longe são consequências das diferenças reais: de investimento, estrutura, motivação e preconceito.

gabi plentz 1A capitã da equipe do Grêmio, Taba, começou a jogar bola aos 12 anos em Alegrete. Iniciou pelo futsal misturado com meninos e depois futsal feminino. O futebol de campo feminino não era uma opção. Desde pequena, já tinha o sonho de viver profissionalmente o futebol, saiu da cidade natal com 16 anos para fazer teste no Juventude, onde ficou por 2 anos. Nessa etapa, o clube acabou encerrando as atividades femininas. Ali, Taba precisou optar por uma vida fora do futebol: por seis ou oito anos, ela precisou estudar e trabalhar fora e se formou em Administração. Voltou para o futebol somente em 2017, no Grêmio. Essa é a realidade de muitas mulheres e meninas que optam por seguir a carreira do futebol: a ajuda de custo e a falta de profissionalização na modalidade impõem barreiras financeiras. Se manter só do futebol, para Taba, virou realidade mesmo no ano passado: “A gente não tem uma base né, a gente trabalha muito mais pela paixão, pelo amor, que a gente gosta, que a gente quer viver do futebol do que propriamente como profissão. A gente chega com os 18 anos diferente. Os meninos desde pequenos são instruídos a trabalhar que futebol é uma profissão, que se tu quiser ser um atleta tu tem que ter determinadas regras, determinados valores. E nós viemos de outro tipo de ensinamento, de conhecimento, referente a futebol e vida. A gente acaba atrasada no contexto de conhecimento técnico, tático. Os meninos acabam trabalhando isso desde pequenos e a gente quando acaba tendo uma oportunidade de chegar num clube com estrutura, porque a gente não vai ter na várzea ou no futebol amador, o conhecimento que um clube com estrutura pode te dar”.

No considerado país do futebol, as meninas e mulheres foram proibidas, por lei, de jogar entre 1941 e 1979, ou seja, quando a capitã gremista nasceu, o sonho dela como profissão não era mais contra a lei faziam apenas 10 anos. O primeiro campeonato nacional de base do futebol feminino está previsto para acontecer em 2019 e já é configurado para uma idade avançada: o Campeonato Brasileiro Sub-18, primeiro a ser organizado pela CBF. A profissionalização do futebol feminino se tornou realidade em grandes clubes há pouco tempo. Somente neste ano, em 2019, passaram a valer as novas regras de licenciamento de clubes para àqueles que participam de torneios da CBF, Conmebol e Fifa. gabi plentz 2Agora, os clubes que pretendem participar da Libertadores masculina e do Campeonato Brasileiro, são obrigados a ter uma equipe profissional feminina própria ou estarem associados a um outro clube que possua. As novas regras também impõem a necessidade de pelo menos uma categoria feminina juvenil para esses clubes. Quando foram anunciadas as regras, o Globo Esporte fez um levantamento de quais times contavam com o futebol feminino (imagem ao lado). Para Emily Lima, ex-treinadora da Seleção e atual treinadora das Sereias da Vila, equipe feminina do Santos, é preciso torcer que a medida dê certo. “Infelizmente a gente tem que obrigar as pessoas a fazer algo que não querem. Se me obriga a fazer algo, eu vou fazer porque eu sou obrigada, mas não vou fazer com o prazer que eu queria fazendo algo que eu gosto. Então, assim, eles estão fazendo por pura obrigatoriedade mesmo e espero que, com isso, eles aprendam a gostar”. A treinadora, que está tirando a licença pró da CBF, entende que ainda se faz pouco no Brasil para o desenvolvimento do futebol feminino, estando o país muito atrás de outros. “Acho que as federações e a confederação brasileira poderiam convencer os clubes que é algo interessante, como aconteceu na Espanha e em outros países. A federação espanhola fez com que os clubes entendessem a importância do futebol feminino e hoje a gente tem um futebol sendo desenvolvido com muita rapidez na Espanha e em outros países”. A meta de Emily é, inclusive, ir treinar um time fora do país. De acordo com o registro da Fifa que analisa as transferências, a maioria das jogadoras brasileiras profissionais foi para o futebol espanhol no último ano. A obrigatoriedade, porém, ainda não regulamenta a profissionalização do futebol no país – o que significa que nem todos que possuem equipes femininas estruturadas ou em desenvolvimento pagam efetivamente salários.

A Seleção não foi para a final da Copa do Mundo – esbarrou nas donas da casa, as francesas. Que também não avançaram – esbarraram nos Estados Unidos. A final ficou entre Estados Unidos e Holanda. Um breve parênteses a ser feito aqui: a data da final de uma Copa do Mundo corresponde a mesma data da final da Copa América e da Copa Ouro. As partidas não são na mesma hora, mas os patrocinadores e organizações esportivas, além do público, certamente tiveram que fazer uma escolha – diminuindo a atenção dada. E tudo isso, chancelado de maneira indiferente pela própria Fifa, que decidiu anteriormente a final feminina, mas permitiu o calendário para as outras finais. Puro desdém mesmo. Voltando às equipes finalistas: elas não estão ali por mera “coincidência” – como as datas de múltiplas competições. Elas, assim como as outras seis equipes (todas europeias) que estavam nas quartas de final, aparentemente entenderam sobre o investimento no futebol feminino. Talvez por coincidência, ou não, as duas seleções finalistas façam parte do pequeno grupo que é comandado por técnicas mulheres: Jill Ellis é a treinadora norte-americana e Sarina Wiegman, a holandesa. gabi plentz 3Em coletiva, Sarina reconheceu que o investimento dos clubes holandeses na modalidade, a partir de 2007, permitiu o desenvolvimento e a chegada à final. De acordo com o portal “Copa Além da Copa”, em 2007 eram 88 mil meninas e mulheres registradas como jogadoras no país, hoje, são 153 mil.

Mesmo sem tanta tradição no futebol masculino, a seleção feminina dos Estados Unidos é uma das mais reconhecidas – sendo uma das equipes mais bem sucedidas. De acordo com o site Unisport Brasil, a força do futebol feminino na universidade norte-americana supera a do masculino. Lá, o investimento e as oportunidades surgem desde o 14 anos para as meninas. A seleção feminina é gerida pela Federação de Futebol dos Estados Unidos – que traça investimentos mais igualitários. E a abordagem, até mesmo nas redes, faz diferença:

gabi plentz 4A comparação entre salários e prêmios também se espalhou nas redes. A ONU Mulheres Brasil publicou em suas redes dados da Forbes de 2018, comparando com a Pesquisa Global de Salários no Esporte de 2017. Como resultado, o salário de anual de 1.693 jogadoras de futebol – equivalente a 42.6 milhões de dólares – não chegava a metade do que recebe Lionel Messi, argentino jogador do Barcelona, por ano: 84 milhões de dólares. Além disso, os 24 times femininos participantes da Copa do Mundo recebem 30 milhões de dólares, enquanto os masculinos têm bônus de 400 milhões de dólares. Os dados, é claro, refletem não apenas os investimentos por parte das instituições esportivas, mas o mercado financeiro que envolve o futebol. O público engajado com o futebol masculino é o público de uma indústria que compra anúncios, patrocínios, vende marcas e envolve essa grande quantidade. É necessário entender que isso tudo faz parte dessa conta, mas é preciso a considerar na hora de julgar a qualidade do futebol feminino.

A nossa goleira, a Renata, tem quase 2 metros. Isso não quer dizer. Acho que quando tu vê lances e tu quer fazer uma comparação nesse sentido, se tu vai estatisticamente avaliar quanto corre o jogador e quanto corre uma jogadora, dependendo da qualidade do futebol, no nível que tu tá jogando, tu vê que se um jogador corre 9km uma jogadora também consegue correr dentro de um jogo. Então, as dimensões acabam não sendo tão significativas. Essa diferenciação tá muito porque o futebol masculino é desenvolvido muito cedo e o feminino muito tarde. Existe um jogo mais rápido no masculino que no feminino não tem. Mas eu tenho uma crença de que se a gente trabalhasse de maneiras iguais com o mesmo tempo de proporção de trabalho, qualidade de trabalho e estrutura, eu tenho certeza que o futebol feminino irá se equivaler ao masculino, porque qualidade a gente tem”.

Taba, capitã do Grêmio.

Os grandes clubes masculinos do futebol brasileiro lucram cerca de 200 milhões de reais por ano. A estimativa de técnicos do futebol feminino é que a modalidade custe 2 milhões de reais anualmente. No início de julho, a Fifa anunciou medidas para o desenvolvimento do futebol feminino. gabi plentz 5Entre elas estão a criação de uma Força-Tarefa de pessoas engajadas no futebol feminino e o lançamento de uma pesquisa sobre o futebol feminino, o “The FIFA Women’s Football Survey 2019”. O relatório reúne dados de 198 associadas à Fifa e está no site da entidade – é um prato cheio para o estudo de quem ainda precisa entender sobre as diferenças entre investimento e tamanho das modalidades. As informações ao lado mostram alguns dados gerais, como a quantidade de apenas 7% de mulheres no comando de equipes, e também sobre as nações com futebol feminino em crescimento: Estados Unidos e Holanda estão entre os países que possuem mais de 100 mil jogadoras registradas.

gabi plentz 6No Brasil, apenas 2.974 estão registradas no profissional, enquanto 475 menores de 18 anos aparecem na listagem. Nos Estados Unidos, são 1 milhão 520 mil meninas registradas. A CBF anunciou para este ano a ampliação do Brasileirão Feminino. O número de jogos na Série A1 passou de 126 para 134 e a Série A2 terá 36 equipes (na temporada passada eram 16), passando a contar com 120 jogos ao invés dos 75 do último ano. As medidas começam a ir no sentido do que Emily Lima acredita ser necessário no país: “a gente tem que se preocupar com o futebol feminino. Às vezes a gente se preocupa muito só com a Seleção. A CBF fala muito isso “tudo que a seleção precisa a gente dá”, mas a seleção não precisa disso. Precisa é desenvolver o futebol feminino no país. A seleção é só de quatro em quatro anos então é fácil eu fazer isso de quatro em quatro anos. Eu quero ver manter o futebol feminino e ajudar a desenvolver o futebol feminino”.

Aumentar o investimento na base, o número de competições nacionais, fazer valer a profissão no país e pensar em quais as estratégias necessárias para trazer o mercado para o futebol feminino: essas são as discussões que precisamos ter antes de pensar em reduzir o problema do futebol feminino em capacidade técnica das mulheres.

gabi plentz 7Não, Google. Eu quis dizer e disse: é goleadorA.

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