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Entrevista com Helga Sasso

27/11/2017

Arthur Ruschel da Silva

totoruschel96@gmail.com

 

Chilena de Santiago, Helga Sasso fez toda sua carreira no voleibol do no Rio Grande do Sul. Lembrada como uma das maiores jogadoras do estado, a atacante, ao lado de lendas como Jaqueline, Isabel e Vera Mossa, fez parte da geração de ouro” do Brasil que alavancou o esporte no país e sacramentou de vez a hegemonia brasileira nas quadras. Hoje, Helga é técnica das categorias de base da Sociedade Ginástica Porto Alegre (Sogipa).

 

Fotos: Acervo Pessoal

 

Como você iniciou sua carreira e por que decidiu jogar voleibol?

Meus pais se conheceram em um campeonato sul-americano de voleibol aqui em Porto Alegre. Logo depois, eles foram morar no Chile. Minha mãe e irmã jogavam no time da cidade e eu sempre assistia aos jogos. Sempre quis jogar, pois todo mundo da minha família jogava, mas minha mãe dizia que eu só podia começar depois dos 10 anos. Quando completei a idade, ela começou a me ensinar.

Quando ocorreu o golpe militar no Chile nos mudamos para o Brasil, em Alegrete. Por eu ser filha da Karen, e alta, peguei minha primeira seleção gaúcha. Acho que tinham pena de mim. Em 1976 me mudei para Porto Alegre, onde joguei minha vida inteira na Sogipa. Em 78 fui convocada pela primeira vez para a seleção brasileira.

Representei o país até o ano de 1984, mesmo ano que me casei e fui morar no Rio de Janeiro até 87. Logo depois fui jogar uma temporada na Itália. Encerrei minha carreira quando engravidei do meu primeiro filho, o Guilherme, em 1989.

 

Quais foram os momentos mais importantes da sua carreira?

Quando ganhamos o campeonato sul-americano adulto, em 1981, na cidade de Santo André (SP). Nós sempre perdíamos para o Peru. Lembro que o ginásio estava lotado e viramos o jogo para 3×2. Foi muito emocionante. Eu entrei só no segundo set e mudei o jogo. Outro momento foi quando fomos campeãs mundiais das Universíades (Jogos Universitários Mundiais), no Canadá, em 1983.

 

 

E os piores momentos?

Eu acho que foi quando eu torci o meu joelho no mundial de 1982. Queria poder a voltar a jogar logo e tive que opera-lo três vezes naquele mesmo ano. Não cheguei a ficar parada, mas ia e voltava. Isso era muito ruim. Quase não consegui jogar o mundial do ano seguinte, mas fui cortada do pan-americano.

Mas sem dúvida, o pior momento mesmo foi quando eu estava jogando pela Sogipa. Fiz uma “china” (jogada característica das centrais no vôlei) e torci o meu joelho bom. Eu me lembro de ter caído em quadra, pensando: “meu joelho bom não, meu joelho bom não…”.

 

Helga gosta de relembrar os bons momentos vendo os recortes dos jornais da época

 

Mudou muita coisa no voleibol desde a sua época?

Com certeza. A qualidade técnica dos treinos melhorou bastante. Eu treinava cinco vezes na semana; de manhã, tarde e noite; mas os treinos eram muito básicos. Hoje, a parte física evoluiu muito também. Temos atletas muito mais altas. Eu tenho 1,77 e era central da seleção brasileira adulta, o que hoje é considerado muito baixo para a posição.

 

Como você avalia a reformulação da atual seleção brasileira feminina, promovida pelo técnico José Roberto Guimarães?

Na minha época essas trocas aconteciam muito cedo. A Vera Mossa foi para sua primeira olimpíada com 15 anos. Aos 22, ela já era uma veterana. Hoje em dia as jogadoras estão despontando na seleção com 30 anos. Jamais uma atleta chegaria a essa idade na minha época.

Temos vantagens e desvantagens. Colhemos bastantes frutos com essas atletas mais experientes, mas iremos “remar” um pouco agora quando essas atletas novas entrarem. Nossa seleção hoje é muito habilidosa, mas não é uma seleção alta. Nas categorias de base, vêm se buscando muito isso. Cada vez mais eles privilegiam a altura e esquecem a habilidade; isso não é legal. Claro, fazer um atleta alto ganhar habilidade é mais fácil, mas eu acho que existem muitas atletas habilidosas que são tão boas quanto. Hoje em dia é muita altura, muito físico.

 

Time campeão do Sul-Americano de vôlei, em Santo André. Helga sempre com sua camiseta três

 

Analisando a Superliga, só temos a equipe do Canoas representando o estado no naipe masculino, e, já algum tempo, não temos uma equipe no naipe feminino. Como podemos mudar isso?

Outro dia eu estava assistindo o jogo do Bauru contra o Minas Tênis Clube. No Bauru tinha duas atletas que jogaram aqui no Rio Grande do Sul, no Minas tinha duas atletas que foram nossas aqui na Sogipa. Sempre exportamos nossos melhores para as equipes de fora. Não temos investimento, nunca teve. Essa é a nossa maior dificuldade. Poderíamos fazer grandes equipes.

No vôlei feminino o custo é muito mais caro, porque uma atleta que faça a diferença no feminino é muita mais caro que no masculino. Se você chutar uma árvore vai cair, no mínimo, dois atletas que jogam igual ao que você quer contratar. No feminino isso é muito mais difícil.

 

Faltou conquistar alguma coisa na sua carreira?

Eu me considero uma pessoa bastante realizada nas coisas que eu consegui gosto do meu trabalho, gosto de fazer o que eu faço amo meu trabalho. Nunca pensei em chegar numa seleção gaúcha, em uma seleção brasileira. As coisas foram acontecendo e eu acabei conhecendo o mundo inteiro. Que legal que essas coisas acontecem. O vôlei me deu muita coisa.

Talvez não ter ido para uma olimpíada seja a única mágoa que eu tenho, porque isso é uma coisa tão importante para as pessoas. Lá na Sogipa eu fui campeã mundial e ninguém sabe disso. Eu fui cortada em duas olimpíadas, eu poderia ter ido.

 

Helga no Mundial Juvenil realizado no México, em 1981.

 

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