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Uma noite de sonho

05/02/2017
Grêmio é penta campeão da Copa do Brasil |

Festa na Avenida Goethe (Foto: Emmanuel Denaui)

Rafael Sant’Anna Conceição
santanna.raf@gmail.com

No dia 7 de dezembro de 2016, o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense deu fim ao jejum de 15 anos sem títulos nacionais, após empatar em 1 a 1 com o Clube Atlético Mineiro e sagrar-se pentacampeão da Copa do Brasil.

Iniciada às 21h45, a final disputada na Arena do Grêmio, em Porto Alegre, contou com o maior público na história do estádio: 55.337 mil torcedores. A Brigada Militar estimou que cerca de 20 mil pessoas acompanharam a decisão nos arredores da Arena. Na avenida Goethe, aproximadamente 85 mil gremistas assistiram ao jogo em telões instalados na via. Naquela noite, a capital registrou 29ºC e tempo seco. A pouca incidência de nuvens evidenciava o céu estrelado.

A torcida

As vias que cercam a Arena do Grêmio começaram a receber torcedores durante a madrugada de quarta-feira – muitos vindos do interior gaúcho. O movimento começou a se intensificar a partir do meio-dia, com a chegada das torcidas organizadas.

Bumbo preso no peito, uma baqueta em cada mão, camiseta do Grêmio amarrada na cabeça, corpo encharcado de suor e forte hálito de cerveja. Este é o farmacêutico Pedro Guimarães Zanotto, de 28 anos, integrante da Geral do Grêmio e um dos milhares de gremistas que aguardavam ansiosamente para entrar na Arena.

“Tô aqui desde às nove da manhã e vou ficar acordado até às nove da manhã de sexta-feira se o Grêmio for campeão”, prometeu, corajosamente, às 15h de quarta-feira.

No fim das contas, o Tricolor foi campeão, porém, infelizmente, a promessa não pôde ser cumprida. Na manhã de quinta-feira, Pedro foi internado no Hospital de Pronto Socorro com suspeita de coma alcoólico. Ele sobreviveu.

“Não me arrependo de nada”, me disse no WhatsApp, alguns minutos após acordar no seu leito.

Pedro tinha apenas 13 anos quando o Grêmio conquistou seu último título de expressão – justamente a Copa do Brasil de 2001, após vitória por 3 a 1 sobre os Corinthians, no Morumbi. Comemorar um título após 15 anos tem suas desvantagens.

O verdadeiro significado desta final, porém, só era encontrado nos olhos de dois tipos de torcedores: os antigos, que acompanharam e lembram vividamente dos períodos de glória do clube, e os jovens, que nunca viram o Grêmio conquistar uma taça significativa.

Fora do estádio, Maria Clara Ribeiro, nove anos, cantava a plenos pulmões o hino do Grêmio, enquanto aguardava para presenciar a primeira final do time que colore o seu pequeno coração. Dentro, o aposentado Ricardo Souza, 73 anos, chorava, emocionado pela atmosfera do palco tricolor.

“Confesso, achei que não viveria para ver o Grêmio campeão novamente”, declara.

Assim como Maria Clara, milhares de jovens gremistas presentes à Arena tiveram, ontem, sua primeira alegria no futebol. Torcedores como os irmãos Ricardo e Fernanda Ritter, de 15 e 13 anos, respectivamente. Estes que fazem parte da geração de tricolores que nunca haviam visto o Grêmio erguer uma taça digna de sua grandeza. Para eles, a noite foi ainda mais especial.

“Eu não sei descrever o que estou sentindo agora. Acho que eu nunca estive tão feliz na minha vida”, diz Ricardo, poucos minutos após o apito final.

Conforme a partida se aproximava do desfecho, todos os gremistas que estavam na Arena se uniram em uma só voz, um só sentimento.

“Se emoção e nervosismo matassem, eu já estaria morto”, confessa Ricardo, o velho gremista.

Mas Ricardo viveu, aguentou até o apito final e voltou a ver o Grêmio ser Grêmio.

Quando a Copa do Brasil encontrou seu fim, os limites da Arena transbordaram lágrimas de alegria, sorrisos largos e cânticos ensurdecedores. Após 15 anos de (não tão) paciente espera, o Grêmio voltou. Aquele Grêmio dos jovens e velhos, daqueles que tinham saudades de uma volta olímpica e de quem nunca viu um capitão gremista erguer uma taça nacional. O Grêmio dos azuis, dos pretos e dos brancos.

O jogo

Gremio x Atletico-MG

Pré-jogo na Arena do Grêmio (Foto: Rafael Sant’Anna Conceição)

A final foi regada por lágrimas do início ao fim. Primeiro, de tristeza, Depois, da mais pura alegria. Na Arena, o mar azul, preto e branco só era navegado por mais uma cor: o verde da Chapecoense. Por respeito ao time catarinense, milhares de torcedores foram ao jogo com a camisa da Chape. Nenhum caixão vermelho entrou no estádio e o minuto de silêncio foi respeitado por todos os presentes.

Antes de o jogo começar, todos se comoveram com as homenagens aos mortos na tragédia da Chapecoense. Em cada canto da Arena, era vista uma referência àqueles que perderam a vida.

Em campo, o Grêmio mostrou que seu principal interesse era manter o Galo sob controle. E conseguiu. No primeiro tempo, o ótimo setor ofensivo dos mineiros só foi capaz de acumular duas cabeçadas para fora, além de alguns chutes de média e longa distância – todos sem perigo.

O Grêmio se ateve a conter o adversário – para conservar a enorme vantagem conquistada no primeiro jogo, vitória por 3 a 1 em pleno Mineirão – e aguardar pela oportunidade de matar o jogo. E ela veio.

Aos 35 minutos, Douglas, de letra, deu um passe magistral para Everton, colocando o jovem atacante gremista frente a frente com o goleiro Victor. Por pura falta de experiência, o garoto concluiu na direção do experiente arqueiro, que defendeu. Porém pouco importou. Naquela altura, o jogo já estava absolutamente sob o controle dos comandados de Renato Portaluppi.

No segundo tempo, aumentava gradativamente o desespero dos atleticanos, que se jogaram ao ataque e passaram a deixar espaços colossais no setor defensivo. Cada contra-ataque gremista era uma chance de gol. Nas arquibancadas, todos estavam de pé, como se pressentissem a iminência do gol do título. Ramiro chegou a marcar, mas teve seu gol anulado por impedimento. Não fez falta.

Aos 44 minutos, nada foi capaz de parar o contra-ataque puxado por Miller Bolaños. Ele arrancou pela direita e tocou para Luan, que lançou Everton no lado esquerdo. Desta vez, o garoto foi perfeito. Arrancou em velocidade, driblou o zagueiro Gabriel e cruzou rasteiro para dentro da grande área. A bola encontrou o pé esquerdo de Miller, que estufou a rede. No placar agregado, 4 a 1. Acabou.

Pouco depois, o equatoriano Cazares empatou a partida com um gol antológico, chutando antes da divisa do meio-campo e encobrindo Marcelo Grohe. Mas poucos foram os torcedores presentes que repararam essa pintura. Nada mais importava. O Grêmio era campeão.

Foi uma noite de sonho, esta vivida pelos azuis, pretos e brancos, na noite quente do dia 7 de dezembro de 2016.

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