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O futebol feminino sob o olhar de Duda, histórica atleta do Rio Grande do Sul

03/11/2016

João Campos Lima
joaocamposlima@hotmail.com

Para falar sobre futebol feminino no Rio Grande do Sul é imprescindível que o nome de Eduarda Luizelli apareça. A ex-atleta, popularmente conhecida como Duda, possui brilhante trajetória, o que a tornou uma das grandes expoentes do esporte no Rio Grande do Sul. Atuou no Internacional, além das equipes italianas Milan e Verona, e também pela Seleção Brasileira. Hoje com 45 anos, Duda continua atuando no futebol, agora com suas Escolas de Futebol.

Atualmente, conta com 14 unidades, espalhadas por Porto Alegre, Canoas, Novo Hamburgo e São Leopoldo, com mais de 1.000 alunos envolvidos, entre meninos e meninas. Nesta entrevista, Duda conta o início da sua trajetória no futebol feminino, as mudanças que aconteceram nos últimos anos, além de perspectivas e sugestões para o futuro da modalidade no Brasil.

duda

O futebol continua presente na vida de Duda (Foto: João Campos Lima)

Como foi o teu início no futebol?

Eu era vizinha do Valdomiro, craque do Internacional dos anos 70, e era apaixonada pelo Inter e por futebol. Com 13 anos, eu vi um anúncio no jornal que o Inter estava fazendo teste para futebol feminino. Fiz o teste e passei. Na época, não existiam categorias de base, existia somente a equipe adulta, e com 13 anos eu já estava jogando na equipe adulta. Com 14 anos, joguei meu primeiro Campeonato Brasileiro de futebol feminino, em Campinas. Eu era reserva, mas na semifinal o treinador me chamou para entrar no jogo. A partida estava 2 a 2, eu entrei e fiz o terceiro gol e depois disso nunca mais saí da equipe. Tivemos um período em que o futebol feminino não existiu no Rio Grande do Sul, mas depois recomecei: participei da Seleção Gaúcha, joguei também no Milan e Verona, da Itália. Neste meio tempo, durante oito anos, participei da Seleção Brasileira de futebol feminino. Depois, voltei para o Brasil com o objetivo de abrir a minha Escola de Futebol, porque eu queria fazer alguma coisa em nível de futuro. Hoje temos 14 Escolas de Futebol da Duda, com mais de 1.000 alunos envolvidos, sendo a maior Escola de Futebol do estado do Rio Grande do Sul, depois de Grêmio e Inter.

Destes cerca de mil alunos, quantos são meninos e quantas meninas estão na Escola de Futebol da Duda?

Em torno de 700 meninos e 300 meninas. São divididos em 14 pré-escolas que trabalhamos. Temos equipes de competição sub 15, sub 17 e adulta, além de um projeto social em Canos, com cerca de 150 meninas. Há escolas em Novo Hamburgo, São Leopoldo e Canoas e várias unidades espalhadas em Porto Alegre.

Qual a diferença da iniciação das meninas no futebol hoje em relação às décadas anteriores? Atualmente, há mais interesse das meninas em praticar o esporte?

Para mim, há um momento bem claro em que este quadro se altera, que foi o ano de 1996, em que pela primeira vez o futebol feminino  esteve nas Olimpíadas. Quando o futebol feminino passou a ser um esporte olímpico, passou a ser visto com outros olhos. E principalmente depois desta última Olimpíada, no Rio, que com as redes sociais deram um reconhecimento muito grande para o futebol feminino, o que foi muito importante para a modalidade. Agora, esperamos que venham projetos empreendedores que façam que toda esta visibilidade retorne em prol das jogadoras e de quem trabalha com o futebol feminino.

Qual a tua sugestão para a melhoria do futebol feminino no Brasil?

Acho que devemos fazer polos de captação, pelo menos nas 5 regiões do Brasil. Isto seria necessário principalmente para fortalecer as categorias de base. Estamos falando de sub 12, sub 15, sub 17. O Brasil agora vai para um  Mundial sub 17, na Jordânia, e pouca gente sabe. Nós não temos de onde tirar estas meninas do sub 17 se não for por indicações, e pouquíssima gente hoje trabalha com futebol feminino. Então, o grande problema do Brasil hoje são as categorias de base. Não existe categoria de base no Brasil, são poucos os locais que trabalham com todas as idades no futebol feminino.

E sobre o futebol profissional, tu acreditas que se encontra em outro estágio? E qual a tua opinião sobre a participação de grandes clubes brasileiros: eles podem ajudar no desenvolvimento do futebol feminino?

Sem dúvida nenhuma, para mim, os clubes de camiseta são muito importantes no apoio ao futebol feminino. Já existe uma lei, que é o Profut, que está em vigor, inclusive, em que os clubes que aderem a esta lei, precisam dar uma contrapartida, que é ter o futebol feminino. Infelizmente, não existe uma cobrança rigorosa da lei e fica por isto mesmo. Porém, parece que a partir de 2017, isto vai contar com uma maior fiscalização, e aí quem sabe não possamos ver realmente clubes de camiseta com o futebol feminino. Apoio mesmo, que precisamos num primeiro momento, é apenas uma camiseta, para que tenhamos torcida, que gere patrocínio, mídia, que vire notícia. Então, é muito pouco o que se precisa. Agora, os clubes de futebol querem sempre mais, querem sempre ganhar com isto e este é um grande problema hoje para o futebol feminino.

Tu participaste da última Olimpíada como comentarista. Sobre os esportes em geral, tu observas uma desvalorização em geral da modalidade feminina em relação à masculina, e há uma disparidade maior do futebol nisto?

Acho que em todos os esportes podemos observar isto. Se tu fores pegar o tênis como exemplo, vai ver que a premiação do masculino é maior que no feminino, não existe igualdade, e isto é geral. Mas comparando com o futebol, realmente a discrepância é muito grande. Não existe este mercado de venda de jogadoras, o “passe” delas. Mas quem sabe não estamos trilhando o rumo certo para que mude esta realidade? Temos hoje um presidente da FIFA que está começando a dar um certo apoio, quem sabe não venham novas diretrizes, que a FIFA imponha lá de cima?

Tu foste comentarista na última Olimpíada. Como tu avalias a cobertura da mídia deste grande evento? Qual a diferença entre a cobertura de grandes e pequenos eventos pela mídia no futebol feminino?

O que falta hoje é continuidade, porque o futebol feminino não pode ser falado e visto de quatro em quatro anos. Ele tem que existir no Brasil! Hoje temos um Campeonato Brasileiro com 16 equipes, subsidiado pela Caixa, além de uma Copa do Brasil subsidiada pela CBF. Mas não adianta ser assim: ‘a CBF subsidia tudo’. Mas subsidia tudo o que? Subsidiam o jogo, os gastos das partidas. Mas a gente como equipe tem gasto com treinador, preparador físico, fisioterapia, com campo, enfim, com toda uma estrutura que envolve o futebol feminino. Então, é disto que a gente precisa: que a estrutura seja sustentável.

Qual a realidade do futebol feminino na Itália (Duda foi atleta do Milan e Verona)? O que é feito lá que poderia servir de inspiração para o desenvolvimento do futebol no Brasil?

Na Itália, onde eu joguei há mais de 15 anos, já existia Série A, B, C e D de futebol feminino. Todo time da Série A era obrigado a ter um time na Série C, ou seja, estava fomentando a base. Isto são coisas importantes para que o futebol feminino exista, tenha renovação. Por exemplo, hoje na nossa Seleção temos Marta, Formiga e Cristiane, que provavelmente não vão estar no próximo Mundial, na próxima Olimpíada. Cadê a renovação? Quem vem para substituí-las? Isto é o que falta no Brasil. Teríamos que fazer um trabalho mais incentivado, seja pela CBF talvez, para captação das meninas, para que possamos crescer e existir.

Como tu avalias a questão do preconceito com o futebol feminino? Hoje em dia há mais respeito com as meninas que praticam o esporte?

Hoje as mulheres são muito mais respeitadas. A questão do preconceito não pode ser em relação ao gênero, tem que ser em relação ao comportamento das meninas. No momento que todas forem comportadas em relação ao futebol feminino, não haverá preconceito. Acho que hoje não existe mais esta história de preconceito, o futebol feminino já é consolidado no Brasil e no mundo. Não temos que jogar a culpa no preconceito, temos que fazer projetos que revertam para o futebol feminino.

Qual a tua melhor lembrança da época de jogadora?

Eu participei de um campeonato sul-americano em Uberlândia com o estádio lotado, cem mil pessoas. Quando a Seleção teve o apoio de uma marca, como foi a Maizena que patrocinou e bancou, fazendo toda uma ação na cidade, que levava uma caixinha do produto e concorria a um carro, o estádio lotou e toda a cidade se envolveu com o futebol feminino. Este foi um dos momentos inesquecíveis pra mim. Claro que depois disto houve muitas outras ações, até porque a mídia vem muito mais em cima do futebol feminino. Naquela época, era a Bandeirantes que transmitia, com o Luciano do Valle.

Hoje, pegamos a Olimpíada como exemplo, todos os canais que transmitem futebol estavam com os jogos do futebol feminino. Isto foi muito importante, agora tem que os presidentes dos clubes se darem conta de que o futebol masculino chegou num nível de ganho lá em cima, e o futebol feminino ainda tem muito a crescer. Então, quando conseguirmos fazer com que esta bola gire, e que todos ganhem um pouquinho, daí acho que o futebol feminino no Brasil tem tudo para ser um dos melhores do mundo, porque material humano tem, o que faltam são as equipes.

 

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