Skip to content

O incentivo ao esporte forma cidadãos

21/10/2016
raul-com-fernando-scherer-no-11o-campeonato-nacional-dos-correios-em-2002

Raul com Fernando Scherer no 11º Campeonato Nacional dos Correios, em 2002 (Foto: Raul Lazzari/Arquivo Pessoal)

James Mello Rodrigues
jamesmello@outlook.com

Há coisas que o esporte proporciona que seria difícil aprender de outras formas, como a determinação, a disciplina e a superação. Estes são apenas alguns exemplos que mostram, não apenas o potencial que o esporte possui de formar atletas vencedores, mas mais que isso, em cidadãos. Raul Lazzari, atualmente estudante de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi atleta fundista durante dez anos e conta as dificuldades de ser um atleta de alto rendimento, a importância do incentivo ao esporte e o quanto a sua atividade foi fundamental para sua formação pessoal.

Como tu começaste no esporte e quais atividades tu fez antes da natação?

Eu comecei a praticar esportes porque era uma criança com sobrepeso. Meus pais foram alertados de que eu deveria praticar alguma atividade física com regularidade para ter uma vida mais saudável. Então, comecei a fazer ginástica olímpica – não sei ao certo porque iniciei na ginástica, não lembro se foi uma decisão minha ou dos meus pais – no CETE (Centro Estadual de Treinamento Esportivo), depois fiz futsal e com dez anos comecei a nadar.

Por que tu mudaste para natação?

Havia um projeto de incentivo ao esporte para crianças no clube Caixeiros Viajantes. E nele tu passavas por um período de adaptação em que tu “aprendias” a nadar, e faziam testes para descobrir as tuas habilidades e potencial para ser atleta e, sendo escolhido, tu era encaminhado para uma equipe mirim/petiz do clube.

Quando essa atividade se tornou algo mais sério e tu começaste a competir?

Na verdade, a natação em si sempre teve o caráter de competição de alto rendimento. Os outros esportes (que pratiquei antes) não eram assim, mas a natação desde o princípio tinha esse objetivo. Justamente porque já entrei na equipe que competia.

O que o atleta fundista de natação faz?

O fundista, normalmente, é aquele que compete 800m e 1.500m livre em piscinas. Também pode ser considerada uma prova de fundo os 400m livre. É comum nós encontrarmos atletas de “longa distância” que competem em provas de 200m de cada estilo da natação (costas, peito e borboleta). Assim como quem faz o 400m medley. Já fora das piscinas o fundista é aquele que compete em maratonas aquáticas, que podem variar de 3km até 25km, ou até mais. Desde que eu era infantil, eu competi em maratonas aquáticas porque no período de base de treinamento – que seria janeiro e fevereiro – havia o Circuito Gaúcho de Maratonas Aquáticas e, a partir disso, eu descobri que o meu rendimento em águas abertas era melhor que em piscina.

Raul competindo no Torneio Classe Aberta FGDA 53 Anos, em 2008.jpg

Raul competindo no torneio Classe Aberta FGDA 53 anos, em 2008 (Foto: Raul Lazzari/Arquivo Pessoal)

Por que o teu rendimento em maratonas abertas era superior aquele registrado nas piscinas?

Talvez porque eu tivesse uma maior facilidade em nadar em um ambiente mais hostil. Rio com água bastante mexida, com marolas. Também por ter um bom senso de localização, o que me auxiliava no deslocamento entre uma boia e outra no circuitos. Por não ter problemas de nadar em grupo porque, às vezes, tu acabas levando socos e pontapés, tanto na largada das provas, onde há uma aglomeração bastante grande, quanto durante a competição.

Explica um pouco mais sobre essa hostilidade.

Às vezes, acontece de ter um soco ou pontapé, mas não acredito que, na maior parte das vezes, isso seja de propósito. Claro que pode acontecer. Porém, acho que não seja voluntário, é mais a disputa pelo espaço porque são muitas pessoas próximas. Então, é uma mão que passa e pode tirar os teus óculos, por exemplo. A hostilidade é no sentido de que é difícil se colocar no meio de muitas pessoas, além de precisar lidar com questões da natureza, como ondas grandes no mar, mães d’água no mar, por exemplo.

Tu podes falar um pouco sobre os campeonatos que participaste?

As principais competições que eu participava eram a nível estadual, sul-brasileiro e brasileiro de piscinas e estadual e brasileiro de águas abertas. Em 2006, quando era juvenil, por exemplo, nadei o Campeonato Brasileiro Juvenil e um pouco antes de deixar a natação, competi os Jogos Universitários Estaduais, me classificando para os Jogos Universitários Brasileiros. Eu também competi algumas vezes em aquathlon e triatlo, mas foram poucas competições. Foi mais por incentivo do meu técnico, porém não era algo tão direcionado para ser um triatleta, apesar dos bons resultados que eu obtive.

Por que tu abandonaste o esporte?

Eu abandonei a natação porque, apesar de estar no meu melhor momento nos treinamentos e competições, precisava estudar para o vestibular. E eu não estava conseguindo equilibrar tão bem as duas coisas, então optei por tentar garantir uma aprovação na UFRGS e entrar em uma nova graduação. Porque no esporte, por exemplo, você tem uma lesão muito grave e isso pode te impossibilitar de várias coisas ou fazer o teu rendimento cair a médio e longo prazo. Naquela época eu tinha alguns poucos incentivos, mas não era o suficiente para que eu me mantivesse com segurança, como em uma profissão “com maior reconhecimento”. Obviamente que uma graduação e um ofício não te dão uma segurança, mas talvez mais oportunidades.

Se tivesse um incentivo maior do Governo ou empresas privadas, tu terias continuado e seguido carreira no esporte?

Eu não te saberia dizer sobre todos os incentivos do Governo na época para dar uma resposta mais concreta, afinal eu era adolescente. Mas assim, em um senso comum, me parece que o incentivo do Estado é muito pequeno. Talvez com relação a quantias não seja tão pequeno, porém acredito que ele possa ser mal distribuído. Se eu tivesse um incentivo de patrocínio, talvez fosse muito mais fácil porque tu vês perspectiva de se manter. São várias coisas que o atleta precisa para ter um alto rendimento: equipamentos, suplementação, academia, fisioterapia, atendimento psicológico etc. Então, se tu tens um incentivo anterior, um bom suporte, principalmente quando está em fase de desenvolvimento,isso te facilita muitas coisas porque tu tens atalhos e possibilidade de se manter com mais facilidade e com o direcionamento das tuas energias muito mais voltados ao esporte.

As competições também funcionam como uma forma de incentivo nos treinamentos. Havia muitas competições?

Aqui no estado, na época em que eu nadava não tinha mais que meia dúzia de competições em todo ano. Isso faz com que tu não tenhas ritmo. Por exemplo, no Campeonato Brasileiro é necessário índice e tu acabavas tendo uma ou duas competições para conseguir alcançar o índice necessário.

Tu gostarias de voltar a competir?

Provavelmente não porque a vida de quem é atleta é muito desgastante e tu acabas tendo que se privar de várias coisas. A minha rotina era muito cansativa. O meu treinamento, para se ter uma ideia, orbitava entre oito e nove treinos por semana, mais trabalho funcional e musculação. Eu também tinha uma vida social bem mais restrita, pois isso poderia prejudicar meus treinamentos, havia muitos cuidados com a alimentação. Mas foi também um período de construção muito importante porque isso me constituiu como sujeito e o esporte pode me proporcionar uma educação e uma disciplina que nenhum outro espaço poderia, nem a sala de aula, nem os meus pais. É uma educação que só o esporte pode te proporcionar a partir das suas particularidades.

O que o teu período como esportista trouxe para a tua vida?

A disciplina que o esporte te proporciona é algo que, talvez, ninguém mais consegue aplicar em ti. Outra questão é conhecer as suas limitações e buscar formas de lidar com elas e superá-las. Além disso, tem outras coisas. Por exemplo, depois que parei de nadar comecei a praticar Muay Thai e lá aprendi que, independente da experiência de cada um dentro desse esporte em específico, todos têm algo a ensinar, porque todos trazem de fora uma bagagem de outras experiências que podem colaborar no desenvolvimento dos parceiros de treino. Outro aspecto é relacionado com a construção colaborativa de algo. Em todos esses anos pude perceber, através do esporte, que a cooperação, mesmo em um ambiente de competição, tem a capacidade de proporcionar resultados muito melhores e mais consistentes para todos. Um exemplo que pode ser dado é o que acontece em maratonas aquáticas, quando atletas de uma mesma equipe, ao mesmo tempo que competem, se auxiliam e se protegem durante a competição para que o grupo tenha um melhor resultado comparado ao que haveria se cada um nadasse por conta própria durante todo o circuito.

Me parece que esse é um entendimento que, muitas vezes, não encontramos no ambiente escolar, o do aprendizado mútuo e o da cooperação, porque, em inúmeras ocasiões, aquele que tem mais títulos é visto como alguém que tem o poder da palavra e o entendimento de tudo, delegando ao estudante apenas a posição de quem escuta. Quando na verdade todos são carregados de experiências e é preciso saber trabalhar isso em cada um dos sujeitos para que isso seja somado a todos.

 

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: