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Mariana Martins: primeira judoca gaúcha a competir em uma Olimpíada

19/10/2016

 

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Mariana Martins, nas Olimpíadas de Sydney-2000, com um voluntário que estava com a Tocha Olímpica durante período de climatização em Canberra (Foto: Arquivo pessoal)

Victória Goulart Netto
victoriagnetto@hotmail.com

A trajetória esportiva de Mariana Passos Martins, 33 anos, pode também ser resumida em três palavras: amor, dedicação e pioneirismo. A judoca que, no auge de seus 17 anos, competiu pela Sogipa nos Jogos Olímpicos de Sydney-2000 foi também a primeira mulher gaúcha a lutar na modalidade em uma Olimpíada. Hoje, Mariana é fisioterapeuta do clube e acompanha atletas de diferentes modalidades. Apesar de relativamente curta, a carreira da ex-atleta foi vivida com intensidade. A paixão começou em 1990, quando, ainda criança, Mariana escolheu meio ao acaso lutar Judô no Lindóia Tênis Clube. A posterior troca para a Sogipa, em 1996, seria o começo de um caminho trilhado com vitórias, derrotas e, sobretudo, aprendizados.

Como começou a tua relação com o judô e como foi o início da tua carreira no esporte?

Eu comecei o judô cedo, com sete anos, com o apoio dos meus pais para a prática de qualquer esporte. A escolha foi minha, depois de ter descartado quase todas as opções que o clube [Lindóia Tênis Clube] oferecia. No começo, a gente via como brincadeira, tanto que comecei com o Kimono emprestado, e desde o início eu participava de competições na categoria respectiva da idade. Meu primeiro professor, o sensei Cleto, foi quem me ensinou toda a essência, os fundamentos do esporte, além da técnica. Mas na adolescência eu troquei de clube [Sogipa], onde eu comecei a treinar mais e a ser mais competitiva, participando de competições além da minha categoria, de categorias acima. Foi onde eu tive meu pico no esporte, recém tinha terminado o Segundo Grau e pedi para os meus pais para ficar um ano sem estudar, e eles, como sempre, me apoiaram, então foi uma dedicação exclusiva: entrava às 10 horas da manhã no clube e saía às 10 da noite, três turnos de treino, com o então técnico, o sensei Kiko. Com isso, acabei conseguindo a classificação para as Olimpíadas depois de muitas seletivas.

Tu tinhas 17 anos e já ias lutar nos Jogos Olímpicos. Como foi a tua experiência nas Olimpíadas de Sydney-2000?

Olimpíada é um sonho para qualquer atleta, é uma experiência única, indescritível mesmo. O espírito olímpico é demais! Eu tinha só 17 anos, lá eu via ídolos dos outros esportes brasileiros torcendo por mim e dando apoio, alguns como, por exemplo, o vôlei masculino, tênis, natação… Mas eu competi de sangue doce, digamos assim. Eu sabia que daria o meu melhor, mas depois vi que a falta de experiência pesou bastante.

Tu também foste a primeira mulher gaúcha a competir no judô em uma Olimpíada. O que isso significa para ti em termos de representatividade?

Eu espero ter servido de referência na época, ter aberto portas para essas gerações que vieram. Porque, na época, era difícil um atleta fora do eixo Rio-São Paulo entrar [nos Jogos Olímpicos] e mostrar que isso era possível.

Como foi encerrar a carreira? Em que momento tu percebeste que não continuarias competindo?

O encerramento foi gradativo, fui diminuindo a intensidade de treino e já estava cursando a faculdade. Como eu era uma atleta, digamos, amadora, porque eu não vivia com o dinheiro do esporte, depois de formada eu fui atrás do mercado de trabalho. Aí ficou um pouco difícil conciliar os treinos exaustivos e até tarde e, no outro dia, acordar cedo para trabalhar, e, ainda, sem me lesionar. Foi uma transição lenta e até saudável. Eu sabia o quanto precisava me dedicar como atleta e isso não estava sendo possível, então eu optei por parar, mesmo.

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Foto: Reprodução

Depois de encerrar a carreira, tu mantiveste a prática do judô?

Durante a faculdade eu já não treinava como antes, já tinha diminuído bastante os ritmos. No último semestre, então, com estágios e TCC, tive que reduzir mais ainda. Depois de formada, ainda fiquei mais uns dois anos treinando de leve, participando de pouquíssimas competições até parar de vez.

A gente escuta muita gente subestimando a capacidade das mulheres de competir, de jogar bola, de lutar judô ou praticar qualquer outro esporte que culturalmente não seja considerado “coisa de mulher”. Tu achas que o esporte é um meio ainda machista?

Apesar de ser um esporte com maioria de homens, ainda mais na época em que eu pratiquei, eu nunca vivenciei machismo. Alguns preconceitos, às vezes, estão na cabeça das pessoas, hoje podemos ver que, na modalidade, o feminino está se sobressaindo, mostrando que temos ótimas atletas e que não existe gênero… Esporte é para todos.

Toda a tua carreira profissional está relacionada com o esporte. Primeiro, lutando e competindo no judô e agora atuando como fisioterapeuta de outros atletas na Sogipa. Em que momento e por que tu escolheste cursar Fisioterapia?

Eu cursei dois anos de Educação Física, tranquei, mas não concluí. Depois, pensando na profissão, eu não me via atundo na área, então optei por outra que seria próxima e que, se possível, poderia atuar com atletas também. Mas eu nunca pensei nos atletas de ponta e sim nos amadores, alguns com menos incentivos, talvez. Hoje tenho contato com diversas modalidades, e a minha experiência como atleta ajuda a entender algumas lesões e até mesmo a ansiedade deles de quererem voltar o quanto antes para a prática do esporte.

O que tu gostas de fazer nas horas vagas? Como tu te divertes?

Eu sempre fui muito caseira, curto muito a companhia dos meus cachorros, passeio com o namorado, vou ao cinema e, quando possível, gosto bastante de viajar também.

Como tu enxergas o esporte no Brasil hoje? Existe uma perspectiva de mudança, de mais apoio e incentivos depois das Olimpíadas e Paralimpíadas Rio-2016?

Próximo de Olimpíadas, os atletas sempre são muito cobrados por resultados, mas é um trabalho de quatro anos. Como os Jogos foram realizados aqui no Brasil, as pessoas puderam ter um contato maior, e isso faz com que muitas crianças entrem em diversas modalidades, muitos projetos têm alguns incentivos e investimentos, ainda mais com os resultados que nós tivemos. Mas não para por aqui: fim de Olimpíada e Paralimpíada já significa o início de um novo ciclo, Tokio-2020 está aí, mas eu acredito que algumas modalidades já estejam recebendo patrocínio grande.

Qual a importância do esporte na transformação de realidades, pessoas, vidas?

O esporte é uma ótima maneira de melhoria de vida para diversas crianças. Tivemos um grande exemplo agora no Rio, com o Judô, a Rafaela Silva sendo campeã olímpica. Ela treina no Projeto Reação, que é numa favela do Rio. Mesmo para quem não for um atleta, o esporte ensina princípios para a vida: disciplina, postura, uma visão diferente para os desafios não só dentro do esporte, dentro da quadra, do tatame, mas para tudo que venha a enfrentar na vida.

Para encerrar, em poucas palavras, o que é “esporte” para ti?

O esporte não é só saúde, ele não traz só benefícios físicos. Ele é ótimo para convívio social, para desestressar, para igualar as pessoas, mostrar que somos capazes de superar e é bom para todas as idades. Nunca é tarde para começar a prática.

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Mariana Martins com o tenista Guga na Vila Olímpica de Sydney-2000. (Foto: Arquivo pessoal)

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Mariana Martins, aos sete anos, no pódio do primeiro campeonato estadual no Lindóia Tênis Clube, em 1990. (Foto: Arquivo pessoal)

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