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Dez anos depois do Mundial, Iarley retorna ao Internacional para trabalhar nas categorias de base

14/10/2016
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Iarley durante a apresentação como novo coordenador das categorias de base do Internacional (Foto: Leonardo Fister/Divulgação)

Thaianny Pontes
thaiannypontes@hotmail.com

Nascido no interior do Ceará, Pedro Iarley Lima Dantas, hoje com 42 anos, teve uma carreira grandiosa no futebol. Iniciou sua carreira na base do Ferroviário, em 1993, e depois teve uma breve passagem pelo Real Madrid, onde não se afirmou. No retorno para o Brasil virou ídolo no Paysandu, durante a campanha da Libertadores da América de 2003, onde fez o gol contra o grande Boca Juniors, na La Bomboneira, em Buenos Aires. Esse gol foi o principal responsável pelo interesse do Boca pelo jogador, que se transferiu para o time argentino no ano seguinte. Em 2005, chegou no Sport Club Internacional, onde foi grande ídolo da torcida, e foi dele o passe que resultou no gol do maior título do clube, o Mundial de Clubes, em 2006, contra o Barcelona. Dez anos depois daquele título conquistado no Japão, e após a aposentadoria do futebol, Iarley retorna para o Internacional para trabalhar com as categorias de base do clube.

Em que momento que tu percebeste que jogar futebol era algo que tu querias fazer no resto da vida?

Iarley: A gente começa sempre nas peladas nos bairros, eu jogava essas peladas, jogava futebol de salão, e conforme tu vai jogando tu percebe que leva jeito para a coisa, as pessoas começam a te elogiar, começam a falar “olha, joga bem, tu pode ser jogador”, e ai conforme vai passando os anos, quando chega a idade de 15 anos mais ou menos eu comecei a notar que eu realmente levava jeito para a coisa, e era aquilo ali que eu queria para mim.

E quais os principais momentos da tua carreira que tu destacaria?

Uma coisa que eu sempre preservei muito foi a minha parte física, o fato da preparação física, do meu desempenho em campo. A gente trabalha com o corpo, então temos sempre que deixar o corpo em ótima performance, eu chegava cedo para treinamento, eu alongava bastante, sempre fazia reforço, isso tudo fora da carga horária de trabalho dos treinadores, eu procurava os preparadores físicos para fazer um algo mais, porque é muito importante. Hoje em dia os atletas só fazem o que você manda, eu não tive lesões na minha carreira, não tive nenhuma lesão muscular, só tive algumas lesões de trauma mesmo, de pancadas, então isso foi um diferencial na minha carreira, então o meu desempenho sempre foi regular. A pessoa que ia me assistir jogando já sabia que eu ia ter uma regularidade, e daí eu fazer gols e ser o melhor da partida seria uma consequência, mas a regularidade eu sempre procurei ter porque assim eu manteria a minha posição dentro do grupo, a titularidade em relação ao treinador. E assim, no dia que eu não estava bem tecnicamente, eu aliava com a parte física, com a parte tática, de ajudar mais na marcação, porque a gente tem que saber que tem dias que as coisas não acontecem mesmo,a bola bate na canela, tem dias que são assim, mas eu não me entregava, eu sempre tratava de fazer algo diferente, de correr mais, de marcar mais, e assim conseguir a aceitação do treinador e da torcida. Os momentos bons da minha carreira foram muito em virtude do meu desempenho.

Tu passaste por alguns clubes que possuem uma torcida bem forte. Qual a importância do apoio da torcida em momentos ruins, como este que o Inter está passando atualmente?

A torcida é importante em todos os momentos, seja no ruim, ou no bom. No momento bom, em que ela faz aquela festa para o atleta é uma motivação a mais, vendo que o desempenho do grupo está sendo reconhecido, e no momento ruim, não só o apoio dela, mas a cobrança para o crescimento do atleta. Ele saber que no momento que ele está errando, que ele tem que se qualificar mais, que ele tem que se cobrar mais, e entra em campo a questão do grupo, que a cobrança é pra todo mundo. E o momento que o Inter está passando hoje é difícil eu descrever porque eu não to dentro do grupo para eu dar uma opinião mais concreta do que está acontecendo, hoje eu to como um mero torcedor que está na expectativa de que ele possa sair desta situação.

E como foi a decisão de parar de jogar futebol e largar os gramados?

A verdade é que você nunca está preparado para parar, o atleta profissional nunca tá preparado porque a parte da profissão existe o lado emocional, existe vários sentimentos qu envolvem o jogar futebol. Mas chega um momento em que a gente tem um praxo de validade,no meu caso por eu ter esta alta performance eu estendi um pouco mais, até uns 40 anos. É claro que tem jogadores que passaram desta idade, mas como eu era muito exigente eu não estava mais satisfeito de entrar no campo e não conseguir fazer a diferença para o meu time, devido a parte física, porque o corpo sente a idade. Então eu com 40 anos ainda conseguiria jogar mais algum tempo, mas por conta da minha exigência pessoal, eu percebi que tinha chegado o momento de parar, porque eu estava disputando a bola com jogadores de 25 anos, com uma preparação física muito forte, cada vez mais preparado. Há dez anos, o jogador mais velho ainda conseguiria jogar mais tempo porque não existia essa preparação tão forte como é atualmente. Mas hoje em dia, passou dos 35 anos, o jogador já começa a ter uma dificuldade maior de ter a mesma performance quando está disputando com outros garotos muito bem preparados. Então eu resolvi parar com 40 anos justamente por isso, por essa cobrança que eu tinha, mas não estava preparado. Psicologicamente é difícil dizer que está preparado para a aposentadoria, conforme vai passando o tempo é que a ficha vai caindo de que aquele foi o fim, de que você realmente não é mais jogador de futebol. É muito difícil.

E este período pós aposentadoria, tu fizeste o quê?

Eu já tinha uma programação pós aposentadoria, que seria a parte de treinador, então eu usei este tempo para começar a estudar, ler livros, fazer cursos, então eu fui me preparando. Também usei este tempo para me dedicar mais a família, outros trabalhos extracampos, então também utilizei este tempo para me desintoxicar do futebol, melhorar a minha parte psicológica, fui a algumas palestras de áreas que não tinham relação com a bola.

E como surgiu o convite para vir trabalhar aqui nas categorias de base do Internacional?

Devido a minha relação com o inter, os títulos que ganhei aqui neste clube, eu recebi o convite do presidente do clube, do Vitório Piffero para eu iniciar um trabalho aqui na base porque eu era referencia, eu era uma pessoa que tinha um nome no clube, e ele pediu exclusivamente para eu preparar estes atletas para que quando eles chegassem no time principal, eles estivessem bem preparados. Até porque esta era uma das minhas características no grupo quando trabalhei aqui, eu tinha uma liderança, costumava ajudar, de fazer com que os jogadores tivesse um bom desempenho, eu sempre me preocupei muito em agregar os jogadores, então ele (Vitório Piffero) achou importante ter alguém com este perfil aqui nas categorias de base.

Quais as principais diferenças para as categorias de base da tua época, e atualmente?

O formato hoje ainda é o mesmo daquela época, eu vivia no clube, tinha o foco no treinamento e na alimentação, como ocorre atualmente. A evolução sem dúvida nenhuma foi nos treinamentos, na psicologia, a ajuda social, tudo isso foi se modernizando com o passar dos anos. Naquela época o foco era mais em treinamento e alimentação e descanso, então conforme foi evoluindo o futebol eles foram vendo que havia a necessidade de ter um apoio psicológico, apoio da assistência social, a evolução da preparação física, a evolução na alimentação, a suplementação física, tudo isso foi sendo agregado com o passar dos tempos.

E qual a importância desta preparação para os jovens que hoje estão nas categorias de base, e que veem toda a glamourização do futebol?

Essa é uma das maiores preocupações que nós temos, e que eu tinha também na época que eu comecei, porque no meu caso eu tinha o futebol como profissão mesmo, então eu não me espelhava em ninguém, eu me espelhava no que eu tinha que fazer mesmo. Eu tinha o meu ídolo, que era o Zico, mas não copiava o Zico, eu procurava fazer o que tinha que ser feito, que era me alimentar bem, estar descansado e treinar bem. Eu sempre tive o futebol como profissão mesmo, era isso que eu queria fazer e era aquilo que eu queria para mim como profissão, então eu não saia na noite, procurava descansar bem, cuidava a minha alimentação, bebia bem pouco no decorrer da minha carreira, foi algo bem esporádico. Hoje em dia o jovem se espelha muito nisso, e é uma das preocupações, agora já falando como coordenador das categorias de base, que a gente tem muito essa preocupação de fazer com que eles coloquem o pé no chão, que eles entendam onde eles estão hoje, e que se eles trabalharem, um dia eles podem chegar onde eles querem, não necessariamente onde um Neymar está, mas construir a carreira deles. Então a gente tenta orientar também para que eles saibam lidar com dinheiro, coisa que na minha época não tinha, hoje em dia a gente já em essa preocupação de orientar o jovem quando ele começa a ganhar um dinheiro, porque a gente sabe que a profissão é um pouco disparate com o normal das outras profissões então a gente tenta orientar para que ele saiba bem como lidar, que ele procure ajuda de pessoas especializadas para administrar a parte financeira.

Tu estás trabalhando com o inter b e sub 20, como está sendo esta experiência?

Sim, to trabalhando mais com as categorias maiores, fazendo a coordenação técnica juntamente com os treinadores, analisando o desempenho e a evolução de alguns jovens, a admissão de alguns atletas que vem para fazer testes, o lado chato também que é a dispensa de alguns jogadores que não estão rendendo o nível exigido pelo Internacional, e toda esta preocupação de fazer com que o atleta chegue no profissional bem preparado. Tá sendo muito bom porque dá continuidade a minha carreira de atleta, foram 22 anos de profissão e dá continuidade a um trabalho que eu me dediquei todos estes anos, que eu estudei. Eu tive muito preparadores e treinadores de muita qualidade, com cabeças diferentes, que eu tratei de tirar o que eu acho que foi importante de cada um deles para tentar passar para os jovens que estão começando nesta profissão.

Como tu acha que tá sendo para estes jovens ter um ídolo do clube que eles defendem como coordenador?

É, eu acho que tá sendo legal, agora eles já estão mais acostumados, no incio eles não acreditavam, ficavam meio que tietando, e um pouco assustados, mas ai conforme foi passando o tempo, o nosso contato aumentou, eu sempre tratei eles com muita simplicidade, com muito respeito, eu fui utilizando também a minha experiência de jogador para falar a mesma língua deles, e para deixar eles bem a vontade comigo, e ai eu fui me infiltrando já como mais uma pessoa normal do convívio deles.

E tu já enxergas alguns talentos que possam subir já no próximo ano?

Sim, o internacional é um formador nato, o nível de profissionais que ele tem é muito grande, o maior patrimônio que o clube tem são os profissionais que ele tem na categoria de base. O retorno que a base dá para o time principal é muito grande, então sem duvida nenhuma este ano não é diferente, tem muitos atletas chegando, tem uns que a gente vai preparar bem para que a partir de 2017 já iniciar no grupo principal, e tem uma gama de jogadores jovens com muito talento chegando à base.

E, para finalizar, como surgiu a ideia de escrever um livro sobre o mundial de 2006?

Todo mundo que vê o nome Iarley associa muito rápido ao mundial, ao lance do gol, ao drible no Puyol, a segurada de bola no escanteio, então tudo isso eu via necessidade de contar a minha visão, e os torcedores mesmo começaram a comentar “porque tu não escreves um livro?” e eu comecei a amadurecer esta ideia, chamei uma equipe boa para nós fazermos um trabalho bem profissional e deixar de recordação daquele título que é o titulo mais importante no clube. Ele é mais voltado para o torcedor mesmo, como uma lembrança daquele momento, e tem muitos momentos legais, eu vou falar dos lances, ele vai ser em formato diário, desde a saída de Porto Alegre, até o retorno para Porto Alegre com o título. É para o torcedor recordar, saber o que foi dito nos bastidores, as brincadeiras, o que a gente fez durante todos estes dias que a gente esteve no Japão.

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