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Da Vila Ipiranga a Barcelona

12/10/2016
janelson-carvalho

Janelson carrega a tocha olímpica em Gramado (Foto: Arquivo pessoal)

Antonio Purcino
afelipepurcino@gmail.com

Apesar de ser parte da equipe que conquistou o primeiro ouro em esportes coletivos em uma Olimpíada, Janelson dos Santos Carvalho leva uma vida bastante discreta. De uma carreira exitosa no vôlei, com títulos por equipe e pela Seleção Brasileira, o ponta passador vive hoje em sua terra natal, Porto Alegre, com a esposa e dois filhos. No entanto, o hoje empresário não deixa de lado o esporte que tantas glórias lhe rendeu nas décadas de 1980 e 1990 – com destaque para a medalha dourada nos jogos de Barcelona, em 1992. Momentos que ele relembra na entrevista a seguir. 

Como você chegou até o vôlei?

Eu comecei a jogar com 12 anos, em 1982. Nessa época eu praticava vários esportes, menos o vôlei. E cheguei ao vôlei por acaso. Eu morava em frente ao Cecobi [Centro de Comunidade Bairro Ipiranga], na Vila Ipiranga. Faltou uma pessoa pra jogar no vôlei misto e me chamaram. Eu fui e, depois, me falaram: “você leva jeito”. Nesse tempo o meu irmão Jaílton também jogava. Por incentivo dele acabei entrando também. Depois disso, me indicaram pra Sogipa. Fiz um teste lá e vi que já tava no DNA o vôlei.

E depois disso, como você chegou até o profissional?

Fiquei jogando por quatro anos na Sogipa. Em 1986, veio minha primeira convocação para a Seleção Brasileira Infantojuvenil. Minha primeira viagem foi para Lima, no Peru, para jogar o Sul-Americano. Logo depois passei para o juvenil, quando o técnico Ênio Figueiredo, já falecido, me disse: “você precisa treinar duas vezes por dia”. O que eu fiz? Veio um convite da equipe da Sadia (Santa Catarina) e fui pra lá, onde atuei por quatro anos. Em 1990, fui para o Pirelli, de Santo André (SP), no ano seguinte fui para o Banespa, onde joguei por mais quatro anos. Depois Suzano, Banespa de novo, Suzano.

Pelo profissional, qual foi tua primeira conquista?

O Campeonato Brasileiro de 1991, pelo Banespa.

Você atuava em que posição?

Era ponta passador. Quando estava na equipe tinha aquele supertime: Marcelo Negrão, Maurício, Tande, Montanaro, Amauri, toda essa gente. Só que o Negrão teve a infelicidade de machucar o joelho e eu fui jogar o Paulista e o Brasileiro no lugar dele.

E na Seleção, qual foi seu primeiro título.

Na base, foi o Sul-Americano Infantojuvenil, em 1986. No mesmo ano fui campeão do Sul-Americano Juvenil, jogando com meu irmão, inclusive. No outro ano teve mais um título no Sul-Americano. Em 88, mais um Sul-Americano, em Caracas, onde fui o melhor jogador. Em 89, vencemos o Sul-Americano no adulto, contra a Argentina, em Curitiba. Foi uma conquista bem importante. No quarto em que estava com o Tande, a gente até falou que ia entrar e ganhar. E o Brasil estava perdendo de 2×1, era jogo classificatório para o Mundial. Entrei, viramos e ganhamos de 3×2. Foi bem marcante na minha carreira.

E em 1992 veio a grande conquista na Olimpíada, em Barcelona. Como foi a preparação para essa competição?

Esse mundial de 1990 já foi uma preparação. Batemos na trave, fizemos um 3×2 na semifinal contra a toda-poderosa Itália. Ali já estava se construindo o time. O técnico era o Bebeto de Freitas. Em 1992 ocorreu uma reviravolta e o José Roberto Guimarães assumiu. E fomos pra Barcelona com essa bagagem de 90.

Quatro meses antes da Olimpíada, sai o Josenildo de Carvalho e entra o Zé Roberto. Foi tranquila essa troca?

Sim, pois a filosofia era muito parecida. A ideia do Zé Roberto basicamente deu seguimento ao trabalho que o Bebeto tinha começado. Ele fez um sistema de pegar o Negrão, puxar bola rápida no meio, coisa que não tinha, ele era oposto… E o Zé Roberto seguiu e deu certo. Além do mais, nós não éramos os favoritos em 92. Éramos uma seleção para ficar entre os quatro melhores. Só que foi acontecendo algo muito legal que se chama união. Muita união, muita concentração, foco no que a gente queria. Estávamos extremamente focados?

Quando vocês sentiram que tinham chance de chegar ao ouro?

Acho que foi contra os Estados Unidos, na semifinal, que a gente sentiu que dava pra beliscar o ouro. E aquela foi a final, na minha opinião, foi o melhor jogo. Foi um 3×1 espetacular, tudo deu certo, um jogo muito parelho. Só que a gente tinha algo mais: do primeiro ao último jogador, estávamos muito focados. Aí fica fácil, a coisa se concretiza.

E no dia da final, como estava o sentimento?

Era de muita confiança. Depois que passamos pelos Estados Unidos, parecia que… Não dá pra dizer que entramos sabendo [que venceríamos], mas entramos convictos do que queríamos, do que seria executado. Numa final, se você for analisar, a diferença entre um e outro é quem consegue executar o melhor voleibol naquele momento. E nós conseguimos. Tanto que a vitória veio por 3×0. Parece que foi fácil, mas não. O trabalho foi construído desde o início, tijolinho por tijolinho.

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A primeira medalha de ouro do vôlei brasileiro (Foto: Antonio Purcino)

 

E como descrever a emoção de ganhar o ouro olímpico, ouvir o hino nacional do alto do pódio?

São cosias que você tem que estar ali para sentir. É difícil descrever com palavras. Foi um momento único, marcante na minha vida. Todo dia 9 de agosto eu lembro e revivo aquele momento. Marcou minha vida para sempre.

E foi o primeiro ouro do Brasil em esporte coletivo. Vocês tinham noção disso?

Não. A gente foi tomar dimensão da conquista na chegada ao Brasil, quando vimos todo aquele povo batendo palma. Eu desci em São Paulo antes de vir para Porto Alegre. Vi pessoas fora dos carros, chorando, aplaudindo. Me deu uma sensação de orgulho por ser brasileiro. Era o momento de impeachment do [presidente Fernando] Collor e o povo estava todo ali festejando com a gente. Até hoje somos parabenizados por essa conquista.

Você atuou em quantas partidas?

Três partidas. Eu entrei nos jogos contra CEI (Comunidade dos Estados Independentes, ex-União Soviética), Cuba e Argélia. O vôlei daquela época era um pouco diferente. Não tinha essa troca de entra e sai que nem hoje. Depois que tirou a vantagem [até 1998, o ponto era confirmado após dois erros do adversário e cada set chegava a 15 pontos], veio esse entra e sai. Você tinha que focar naqueles seis titulares e algumas peças, ir repondo. Alguma coisa que não dava certo, um bloqueio, um passe… Fora isso, você não mexia muito na base do time. Mas naquele momento, tinha que valorizar por estar entre os 12 da Seleção. Tinha que bater palma para aqueles seis que estavam jogando. Foram os melhores. E nós usamos o que tínhamos de melhor na época.

E depois disso, como seguiu sua carreira?

Em 1998 saí do Brasil pela primeira vez. Joguei em Milão (Itália) por um ano. Em 2001 parei de jogar, quando estava no Bunge, em Blumenau. Aí veio um convite do Eduardo Pezão, para um torneio na Jordânia. Foi legal, ficamos em terceiro. Fui mais para ter certeza de que parei na hora certa. E estava certo. Como comecei muito jovem, eu com 30 anos estava muito exigido e bem desgastado.

Aí parou definitivamente com o vôlei?

Sim. Basicamente fiquei dez anos bem afastado. Tive alguns convites… Mas me reservei. Recebi algumas críticas por não aparecer. Mas eu queria ficar mais reservado, descansar, dar um tempo na cabeça.

Aí eu tive filho, voltei a reviver um pouco mais o esporte, os colegas, os filhos… Inclusive antes das Olimpíadas participei de uma apresentação com várias gerações. Até hoje a gente tem grupo no WhatsApp com outros atletas. Mesmo não estando tão envolvido, sempre acompanho o vôlei na televisão. Eu adoro esporte.

  • Um título para a história
    A medalha de ouro em 1992 não foi apenas a primeira do vôlei brasileiro em uma Olimpíada. Foi também a pioneira dos esportes coletivos para o país. A equipe, além de Janelson, contou com Amauri, Carlão, Douglas, Giovane, Jorge Edson, Maurício, Marcelo Negrão, Paulão, Pampa, Talmo e Tande. Na fase classificatória, o time venceu as seleções da Coreia do Sul, Holanda, CEI (Comunidade dos Estados Independentes), Cuba e Argélia. Nas quartas de final, o Brasil venceu o Japão. Na semifinal passou pelos Estados Unidos e, na final, derrotou novamente a Holanda.

E hoje em dia, o que você faz?

Tenho uma casa de eventos infantis em Porto Alegre. Estou envolvido com isso. Há uns três anos participei de umas ligas masters. Mas hoje estou mais no tênis. Porém sigo acompanhando muito o voleibol.

Como foi acompanhar a conquista de mais um ouro do vôlei, aqui no Brasil?

Maravilhoso. Você escutava muitas pessoas que eram contra, que diziam: “pra que fazer uma Olimpíada nessa hora, gastar tanto”. A resposta é que isso foi decidido há muitos anos e o negócio era torcer. O mundo inteiro falaria do Brasil. Tinha que curtir o evento. A nata do esporte estaria aqui, os melhores do mundo. Aí pararam as críticas. E quando começou, era aquela curtição. Duas semanas em que não dava vontade de sair de casa, com esporte o dia inteiro na televisão.

Você fez parte do percurso da chama olímpica, em Gramado. Como foi esse momento?

Também um momento único, ímpar na minha vida. Agradeço imensamente ao COB (Comitê Olímpico Brasileiro) pelo convite. A família toda foi pra lá, curtimos bastante, foi bem bacana. Muito emocionante.

Como você avalia o vôlei no Brasil atualmente?

Cresceu bastante em altura, força… Essa regra [da vantagem], quando eu estava na Itália, me avisaram: “vai favorecer vocês no futuro”. Como o Brasil é um país que sempre treinou muito, pelo biótipo, pelo trabalho, pela persistência… Aí entrou o Bernardinho e, ou era ouro, ou era prata. E eles tinham razão.

O vôlei, da forma como está organizado hoje no Brasil, precisa melhorar alguma coisa?

Tenho uns conhecidos, principalmente no Rio Grande do Sul, que dizem que a sensação é que, quanto mais conquistas se tem, mais o incentivo diminui. Não é assim. O momento econômico do país está difícil. Na minha época foi algo histórico. Hoje estamos na terceira medalha de ouro. Deveria estar explodindo de investidores.

Mas a fase econômica está difícil. Principalmente aqui no Sul, as empresas não têm a dimensão que outras do Sudeste têm para investir, apoiar um projeto. Gostaria que, a cada conquista, que chovesse de empresas querendo investir. Há algumas saindo porque a fase é de transição… Tem que dar tempo ao tempo. Quando a situação melhorar, talvez melhore para o vôlei também. Na Itália, há uma regra de que, se você se compromete com um projeto e sai um ano depois, é penalizado. Tem que ficar cinco anos pelo menos. Se fizesse algo assim no Brasil, melhoraria muito. Conseguiria manter o mesmo nível por vários anos.

E quanto à formação nas escolas?

É uma questão importante também. Nessa época, de 82 a 86, foi a minha base. E era uma base muito respeitada, não só a Sogipa tinha, também o Grêmio Náutico União, a Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo… São quatro anos de base, com fundamentos, dizendo como você deve começar, fazer um bloqueio, um saque… Tem toda essa base para chegar ao principal e estar com os fundamentos alinhavados. Veja o seguinte: eu comecei com 12 anos. Para achar um lugar bom, com boa base para ter uns quatro anos, ter talvez a primeira convocação, é meio difícil. Está faltando, deveria ter mais.

E para um jovem que está começando no vôlei e quer chegar longe, qual a sua principal recomendação?

Primeiro de tudo, saber o que quer. Quando eu comecei, eu sabia muito bem o que eu queria. Segundo: estudo. Paralelamente, faça os dois, se conseguir. Na época eu tinha bolsa no Colégio São João. Tinha 16 anos, ia para a escola, logo depois era convocado, ficava três, quatro meses fora. Era difícil naquela época. Hoje está tudo informatizado, você abre um notebook em qualquer lugar e consegue ter um estudo à distância. Mas, ao mesmo tempo, não tenho que me queixar, eu vestia a camiseta do meu país. Também é preciso ter muita vontade. Como eu era de família humilde, eu brinco que juntei a fome com a vontade de comer. Não sei se tinha isso em mim por ter passado essa dificuldade, ou também pelo meu caráter. Eu era um cara muito sério, profissional, não gostava de matar nada, gostava de ser o melhor em tudo. Queria ser o primeiro.

Se o atleta tiver essa percepção, ele vai chegar lá. O esporte é repetição. Se ficar repetindo todo dia, aí passar numa peneira, acho difícil não chegar longe, almejar uma convocação, uma medalha. O atleta tem que ter essa gana, vontade de vencer. tive filho, voltei a reviver um pouco mais o esporte, os colegas, os filhos… Inclusive antes das Olimpíadas participei de uma apresentação com várias gerações. Até hoje a gente tem grupo no Whatsapp com outros atletas. Mesmo não estando tão envolvido, sempre acompanho o vôlei na televisão. Eu adoro esporte.

Perfil

  • Janelson dos Santos Carvalho
    Nascimento: 24/03/1969 (47 anos)
    Cidade natal: Porto Alegre
    Equipes: Sadia, Pirelli, Banespa, Suzano, Aystel Milano (Itália) e Bunge
    Alguns títulos: Sul-Americano (1989, 1991), medalha de prata no Panamericano de Havana (1991), medalha de ouro na Olimpíada de Barcelona (1992).
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