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“A intenção nunca foi sair do Inter”, diz André, ídolo colorado na década de 1990

11/10/2016
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Como auxiliar técnino do clube, ex-goleiro avalia a carreira (Foto: Bruno Pancot)

Bruno Pancot
brunopct11@gmail.com

Dono de uma trajetória marcada pela conquista de duas copas do Brasil e sucessivas lesões pelos clubes que defendeu, André Döring adota uma postura discreta como auxiliar técnico do Internacional. Trabalhando no clube desde 2009 depois da aposentadoria, o ex-goleiro e ídolo colorado nos anos 90 garante que não ambiciona se tornar treinador de qualquer equipe profissional. Prefere aproveitar a família. Mas caso seja chamado às pressas para algum jogo, como já aconteceu em diferentes oportunidades, André diz que aceitará o desafio.

“Sou funcionário do clube”, frisa.

No final do dia em que os gaúchos comemoram o 20 de setembro, após mais uma jornada de trabalho, André recebe a reportagem no CT Parque Gigante para uma conversa de pouco mais de uma hora. Em um tom comedido, o ex-goleiro puxa duas cadeiras de um quiosque na beira do Guaíba e relembra os principais momentos da carreira, as convocações para a Seleção, as lesões, o momento em que decidiu parar e o trabalho nas categorias de base e comissão técnica do Inter.

Confira, a seguir, algumas respostas de André Döring.

Quando assumiu a titularidade como goleiro do Inter, você sucedeu o Sergio Goycochea, argentino que ficou famoso por ser pegador de pênaltis. No Cruzeiro, precisou substituir Dida. Como você lidou com a cobrança de encarar as posições que pertenciam a dois ídolos da torcida?

De certa maneira, foi tranquilo. Tu só chegas em um determinado ponto da carreira de assumir o lugar de alguém por aquilo que tu estás produzindo. Ninguém tem lugar cativo no esporte, mas substituir ídolos é uma coisa que traz um peso um pouco diferente. A minha chegada à titularidade do Inter foi alicerçada em muito trabalho. Eu comecei a jogar em 1996 e subi para o profissional em 1992. Fui resersa do Fernández (Roberto Fernández, ex-goleiro da seleção paraguaia) e do Sérgio (Sérgio Guedes, ex-arqueiro da seleção brasileira). Quando eu entrava, também já tinha essa pressão nas costas. Mas maior que a pressão de substituir um ídolo é a pressão de estar jogando em um grande clube.

Você chegou para as categorias de base do Inter em 1989. Foi o seu primeiro clube?

Como profissional, sim. Eu jogava no Guarani de Venâncio Aires nas categorias menores, mas treinava duas ou três vezes por semana e não tinha uma rotina de trabalho profissional como tinha no Inter, com treinamento diário e uma preparação mais direcionada. E eu tive a chance de trabalhar com treinadores de goleiros como o Benítez (José Benítez, também ex-goleiro do selecionado paraguaio) e o Schneider (Luis Carlos Schneider). A qualidade técnica do Benítez era impressionante. Todos os goleiros que saíram do Inter tiveram uma condição técnica privilegiada em função do trabalho que ele acabou colocando como uma filosofia.

Sobre as categorias de base: o que mudou daquela época para a atualidade?

Mudou muito. Quando eu cheguei aqui (no Inter), tu tinhas que trazer a tua chuteira e as luvas. O material era lavado duas ou três vezes por semana e tu estendias a roupa para ao menos estar seca. Hoje, aquilo que o profissional tem dentro do clube é muito próximo do que a categoria de base tem – guardadas as devidas proporções em quantidade de material e na qualidade do material.

Você ocupou a reserva por alguns anos e passou a ser o goleiro titular do Inter em 1996. No ano seguinte, o time voltou a ser campeão gaúcho. Qual foi a relevância de 1997?

Nós quebramos a sequência de títulos do Grêmio (bicampeão gaúcho em 1995 e 1996, campeão da América em 1995 e campeão brasileiro em 1996). Foi uma retomada de conquistas de títulos por parte do Inter. Aquela geração ficou marcada pelo belo campeonato brasileiro que fez. Fazia tempo que o Inter não classificava entre os oito melhores e conseguiu fazer isso com um time relativamente jovem e jogadores que vieram para tentar retomar a carreira.

Em 1998, depois da Copa do Mundo, aconteceu a sua primeira convocação para a Seleção.

Foi contra a Iugoslávia (empate em 1 a 1). Também tive outras convocações, nos jogos contra a Coreia do Sul e o Japão, onde aconteceria a Copa de 2002, e também no jogo do Centenário do Barcelona (empate em 2 a 2).

O ano de 1999 também é marcado pela goleada histórica de 4 a 0 sofrida pelo Inter contra o Juventude no jogo de volta da semifinal da Copa do Brasil. O que ocorreu naquele dia?

Aquele foi um dia em que não deu nada certo. O Inter atacou o jogo todo, o Juventude chegou quatro vezes no ataque e acabou vencendo por 4 a 0. Aquela goleada ficou marcada em todo mundo. Havia uma perspectiva muito boa em função do time de 1997, que estava chegando em outro patamar e acabou não se concretizando na Copa do Brasil. A maioria dos atletas era da casa e todo mundo sentiu muito. Para dar a volta, foi um processo muito difícil.

Os insucessos do Inter nos anos 1990 pesavam sobre os jogadores?

Não. Esse negócio de que “o passado pesa” não chega a atingir (os jogadores) no futebol atual porque os plantéis são trocados praticamente de três em três anos. Muitos atletas não tinham nem noção de como aconteceu o título da Copa do Brasil em 92 e a sequência de maus resultados.

E as conquistas do Grêmio pressionavam?

De certa forma, pressionava. Mas não existe pressão maior que a tua. A pressão por fora pode ser imensa, mas a cobrança que um atleta de alto nível tem com ele mesmo, como desportista e como alguém que quer crescer, é muito maior.

Como foi a saída para o Cruzeiro, em 1999?

A intenção nunca foi sair do Inter, mas o clube vivia um crise financeira muito grande e precisava vender. Foi uma negociação muito rápida, depois um jogo no final de semana. Na quarta-feira, eu já estava jogando pelo Cruzeiro (a transação envolveu cerca de R$ 4,5 milhões). Naquela época não existia a Lei Pelé. Grosso modo, o jogador era uma mercadoria e o clube era detentor da tua condição. Iniciamos muito bem o campeonato brasileiro, fomos eliminados (quartas-de-final contra o Atlético-MG) e no final do ano eu tive uma lesão no ligamento cruzado do joelho. Fui convocado para a seleção e até teve um “rolo” grande.

Na época, o reserva no Cruzeiro era o Rodrigo Posso; no aquecimento, ele estourou o posterior da coxa em um jogo contra o São Paulo, no Mineirão (empate em 2 a 2, no Brasileiro de 2000). Eu não conseguia andar, mas ficava em pé e acabei não podendo sair. Joguei mais 25 minutos lesionado. Em seguida, tinha a convocação da Seleção e o Luxemburgo me viu terminando o jogo e me chamou. Criticaram muito ele: “como é que convoca alguém que está machucado?”. No outro dia, foi feito o exame (constatou-se que seria preciso parar por seis meses).

A passagem pelo Cruzeiro ficou mesmo marcada pelas lesões.

Tive uma segunda lesão do ligamento cruzado em um jogo contra o Santos (derrota por 4 a 2, na Vila Belmiro, pelo Brasileiro de 2001). Por causa dessa lesão, eu fiquei dois anos parado. Tive problemas e precisei refazer quatro vezes (as cirurgias).

Como era o suporte oferecido pelo clube mineiro?

O Cruzeiro dava suporte, mas eu acabei fazendo boa parte da recuperação aqui em Porto Alegre. É previsto em lei a contratação de seguro, mas a maioria dos clubes não fazem. Então, quando acontece alguma coisa, fica tudo meio nebuloso. Hoje, as coisas foram regulamentadas e correm de maneira mais clara que naquela época.

As lesões acabaram prejudicando a sua trajetória na Seleção. Você acredita que seria convocado para a Copa de 2002 e que até mesmo poderia ser o titular?

Não sei. Isso é uma coisa que tu não tens como mudar, o rumo do destino. Poderia chegar muito bem ou chegar muito mal – ou não chegar, como aconteceu por causa da lesão. Ou se estivesse em uma fase ruim, também não iria. Então, tu não tens como traçar uma tangente de expectativa.

Em 2001, o Felipão assumiu o comando da Seleção. Ele convocaria um colorado?

(Risos) Não sei. Eu trabalhei com o Felipe no Cruzeiro.

Como aconteceu a sua volta para o Inter? Chegou a jogar novamente pelo Cruzeiro?

Não. Acabou o meu contrato no Cruzeiro em 2003 e eu retornei para o Inter em 2004. Fiquei no banco, joguei boa parte do campeonato gaúcho de 2005 e acabei quebrando o braço com o Jacques (em dividida com o atacante do 15 de Novembro), na final.

Em seguida, você foi para Caxias do Sul e enfrentou uma situação única na carreira: o rebaixamento pelo Juventude, em 2007. O que aconteceu naquele ano?

Passei 2006 (como titular) e 2007 no Juventude. Lá, eu fiz uma cirurgia no joelho porque tive um problema de cartilagem. Depois disso, acabei não jogando mais. Os caras tentaram de tudo (para afastar o rebaixamento). Teve um motivador, um cara que chamavam de “guru” e que fazia pensamento positivo. O Juventude teve uma política de contratar muitas apostas. Chegaram a ter, em um ano, entre 50 e 60 jogadores. É muita gente. Então, tu não crias uma estrutura de time. Quem é mais vivido sabe que dificilmente isso vai dar certo em relação a resultados.

Mas nós chegamos na final do campeonato gaúcho. Eu joguei as semifinais e finais sem conseguir dobrar os meus joelhos. O presidente (Iguatemi Ferreira Filho) pedia “pelo amor de Deus, nós precisamos chegar na final”. Eu fui abaixo de remédios contra a dor para poder chegar. E depois disso eu passei meio ano com remédio para treinar e remédio pós-treino para a dor. Foi então que chegou o final do ano e o início da temporada (2008), eu tinha mais dois anos de contrato e falei que não valia a pena destruir o corpo abaixo de anti-inflamatório – que eu tomava praticamente há seis meses de forma contínua para poder trabalhar. Não tem coisa que valha mais que a saúde.

Como foi a decisão de encerrar a carreira de jogador?

Foi muito tranquila porque a dor que eu sentia para poder fazer as coisas era muito grande. Foi uma decisão bem pensada e encaminhada dentro daquilo que eu podia fazer na minha carreira – e de justiça, para não ficar usufruindo de uma coisa que saberia que não poderia dar para o clube. Se eu quisesse ficar recebendo pelos meus dois anos de contrato, eu ficaria e não teria condição de jogo. Não seria uma coisa honesta de fazer com um clube e uma comunidade que me tratou tão bem. É o mínimo de dignidade que se pode ter.

O jogador consegue alcançar uma independência financeira depois que decide parar?

O meio do futebol proporciona a poucos uma condição financeira muito boa. O global paga muito pouco. Da minha turma que começou no Inter no infantil e no juvenil, pouquíssimos conseguiram jogar em alto nível. Entra uma “grana” considerável, mas o espaço (de tempo) é curto. Hoje, uma carreira em alto nível tem uns 10 anos. Então, tu tens que montar 50, 60 anos em cima desses 10 para poder viver uma vida normal. O futebol te faz abrir mão de muita coisa: juventude, família, ver o crescimento dos filhos. Então, tu chegas em uma certa idade e essas coisas começam a pesar. Eu tinha uma filha com sete anos e a infância dela eu praticamente perdi toda.

Quais foram os seus principais jogos?

Teve um jogo contra o Santos pela Copa do Brasil (vitória por 2 a 0, após levar 2 a 0 no jogo de ida, em 1997). O Arílson fez dois gols e nós fomos para a decisão por pênaltis em que eu peguei três penalidades. No Cruzeiro, teve a semifinal contra o Botafogo, no Maracanã, e o jogo de ida da final contra o São Paulo (Copa do Brasil de 2000). No meu primeiro jogo como profissional eu fiz uma belíssima partida também, em 1996, contra o Palmeiras da Parmalat (no Palestra Itália) e nós conseguimos o empate em 0 a 0 que marcou e deu uma confiança para a sequência.

Você resolveu, então, ser auxiliar técnico no Inter.

Eu retornei em 2009 para ser auxiliar do Inter B, que já mudou para sub-23 e time B. Com o Fernandão, acabei vindo para cá para ser auxiliar do clube e fazer a transição base-profissional. Eu trabalhava aqui em cima (com os profissionais), mas estava direto vendo os jogos dos juniores e do time B para monitorar os atletas. E agora estou com os profissionais: voltei com o Argel e sigo com o Celso (Roth).

Qual é a sua função no clube, atualmente?

Eu auxilio no trabalho de campo e, quando não tem treinamento, acompanho os jogos da base para dar um feedback mais focado naquilo que o treinador está querendo em termos de características de jogador em um canal mais direto com o treinador – principalmente porque a base está em Alvorada e não mais no Beira-Rio, quando ficava mais fácil esse trânsito entre a categoria de base e o profissional. Agora, pela distância, precisa de alguém que circule nos dois meios.

No Inter, os meninos da base recebem alguma orientação sobre o futuro financeiro?

Nós sempre tentamos. Alguns dão abertura para fazer isso. Outros não. Eu me tornei profissional aos 21 anos. (Com essa idade), tu já tens uma cabeça mais estruturada para poder pensar na vida. Com a lei Pelé, aos 16 anos, “a criança” passa a ter um contrato profissional ganhando um dinheiro considerável. Muitas vezes, é o maior salário da família e isso é muito complicado. Está difícil para esses meninos acharem um limite e ter respeito pelo clube e pelo professor da escola, por eles terem tomado uma proporção dentro da casa em que eles têm uma voz ativa por causa do poder financeiro. A lei Pelé incrementou muitas coisas boas, mas como toda moeda, tem os dois lados.

Como funciona o seu trabalho nos treinos do dia a dia?

Depende muito do que o treinador está pedindo. No campo, a gente monta os trabalhos, assessora o treinador dento da filosofia que ele tem de futebol. Se o treinador gosta que se trabalhe com toque de bola, com aproximação, tu vais montar um trabalho com regras que potencializem esse tipo de jogo. Normalmente, nós chegamos uma hora e meia antes do trabalho, sentamos e debatemos os objetivos e maneiras de conseguir isso. O técnico comanda; nós apenas assessoramos. São muitas variáveis que um treinador tem que prestar atenção dentro de um trabalho.

Como auxiliar no Inter, teve algum treinador que marcou você de forma especial?

O Fernandão. Na época, ele assumiu uma condição de treinador não era para ser, não era o momento dele. E assumiu por amor ao clube. Então, é um cara por quem eu tenho um carinho especial.

Em 2012, o Fernandão teria causado incômodo no vestiário colorado após dizer que havia jogadores do Inter na “zona de conforto”. As rebeliões de atletas existem?

Não. Se o clube vai mal, o jogador é prejudicado também. Está todo mundo no mesmo barco. Rebelião de jogadores… Já participei de muitos grupos de trabalho e, até hoje, nunca. O treinador recebe informação e é assessorado por todos os lados. No momento em que ele souber que tem alguma coisa acontecendo, a primeira coisa que ele vai fazer é tirar (o jogador).

Você tem interesse e vontade de ser o treinador do time principal no futuro?

Não, não tenho essa ambição. No momento em que eu abandonei a carreira, foi justamente para estar mais próximo da família e ter um convívio maior. Se eu ambicionar alguma coisa de treinador, eu vou entrar nessa mesma roda-viva que eu vivia como atleta, de concentração e viagem.

E se o clube precisar de você para algum jogo do time principal?

Eu sou funcionário do clube. Mas essa ambição de buscar uma coisa maior para ser treinador – não só do Inter, mas de qualquer outro time – eu não alimento.

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