Skip to content

A primeira morte de um jogador é quando ele para de jogar

06/10/2016
01

Copa do Mundo de Futsal de 2008, disputada no Brasil (Divulgação/Fifa)

Paloma Fleck
fleck.pah@gmail.com

Conheci Marco Aurélio dos Santos – ou Marquinho, como ele gosta de ser chamado – em 2007. Eu estava na sétima série do ensino fundamental quando o então campeão dos Jogos Pan-Americanos levou a medalha de ouro conquistada no Rio de Janeiro para que todos -pudéssemos ver. Na ocasião, ele visitou diversas escolas de Não-Me-Toque, cidade do interior gaúcho, para contar sua experiência na competição e incentivar os jovens da cidade a praticar esportes. O ex-camisa 11 da seleção não nasceu em Não-Me-Toque, mas foi no time da cidade, o Russo Preto, que ele começou sua trajetória no futsal profissional, com 19 anos de idade.

Quando criança, Marquinho teve de escolher entre o futebol de campo e o futsal. Por ter uma rotina de treinamentos mais leve, ele optou pelas quadras. Em pouco tempo despontou como jogador profissional, passando por times gaúchos como Russo Preto, Carlos Barbosa, Ulbra, pelo paulista São Paulo F.C. e pela equipe carioca Vasco Gama. Em 2002, com 25 anos, foi jogar Intermovistar da Espanha, onde permaneceu por 10 anos e foi pentacampeão da Liga Nacional. Em seu último ano como jogador, em 2012, Marquinho jogou no Japão, defendendo a equipe Nagoya Oceans e conquistou a Liga Japonesa.

O ala-pivô de uma das melhores seleções brasileiras da história se aposentou com 37 anos. No lugar de b

olas e gols, bombas de abastecimento de gasolina e trabalhos administrativos do Posto de Combustível que ele passou a gerenciar.

Onde tu nasceu? Como foi parar em Não-Me-Toque?
Nasci em São Caetano Do Sul/SP e vim para Não-Me-Toque através de um convite para jogar na equipe do Russo Preto em 1994.

Como e quando iniciou sua carreira no futsal? Por que escolheu esse esporte?
Sempre pratiquei esportes desde criança e tanto o futsal como o futebol foram se tornando os que eu mais gostava. Mas chegou uma etapa que por causa dos treinamentos tive que optar entre um dos dois. Como os treinamentos de futsal eram menos exigidos na época e tinha que dividir com os estudos, tomei essa decisão.

E eu era meio fominha (risos) e queria estar sempre com a bola, e no futsal você está em constante contato com a bola ou esperando um passe.

Pensou em migrar para jogar futebol de campo profissionalmente?
Nunca foi uma obsessão me tornar um jogador profissional de futebol e já no futsal as coisas foram acontecendo normalmente.

Quais momentos que você considera mais marcantes na sua carreira?
Tive várias conquistas na minha carreira, internacionais e nacionais, tanto nos clubes onde joguei e também com a seleção brasileira. Mas como um dos mais emocionantes foram a conquista do título mundial com a seleção brasileira em 2008 e o Pan-Americano no Rio de Janeiro em 2007.

E qual foi o pior momento?
Uma lesão no púbis que me afastou por 4 meses das quadras.

Qual teu ídolo dentro do esporte?
Gostava de um jogador que se chamava Jorginho e achava que eu tinha as mesmas características que ele. Ele foi multicampeão com a seleção brasileira.

04

Copa do Mundo de Futsal de 2008,, disputada no Brasil (Divulgação/Fifa)

 

Como você vê a idolatria de Falcão? Há poucos dias perdemos o mundial para o Irã e ele foi reverenciado pelos jogadores rivais…

Ele foi um jogador que levou o nome do esporte em lugares que nunca foi explorado. Foi um ícone e com respeito mundial. Ele foi reverenciado pelos jogadores do Irã, mas tenho certeza que seria por outros também se houvesse a mesma ocasião. A idolatria dele foi sua maior conquista e temos que reconhecer.

Como seria o seu time ideal de futsal?
Luis Amado (goleiro espanhol), Schumacker (com esse apelido, mas era brasileiro), Daniel (brasileiro naturalizado espanhol), Manoel Tobias e Lenisio.

Como foi participar de uma competição como Pan Americano do Rio de Janeiro em 2007, ficar na Vila com atletas de várias modalidades?
Foi uma das melhores experiências que tive como jogador. Saber e sentir como era conviver com atletas de outros países e outros esportes e saber que todos buscavam o seu melhor resultado. Estar com eles na Vila, nos restaurantes e com esportistas de altíssimo nível foi muito legal.

O que falta para o futsal ser uma modalidade olímpica?
É uma das perguntas que mais me fazem e até hoje não encontrei a resposta. Dizem que já virou um tema político e as dimensões, nem para nós que estivemos ali, saberia dizer a real decisão de não ver esse esporte na olimpíada. Espero sempre que na próxima, o futsal faça parte.

Como você vê a falta de investimento no futsal aqui no Brasil?
Com muita tristeza. Joguei em uma época em que os investimentos sempre foram aumentando, mas hoje a realidade é outra. O fator de não participar em uma olimpíada pode ser um deles, pois as empresas se afastam um pouco por causa disso. Junto a isso, veio a crise, primeiro na Europa e depois aqui no Brasil.

Em que outros países você jogou? E qual a diferença do tratamento do futsal nesses lugares da Ásia e da Europa comparando com Brasil.
Fora do Brasil, onde joguei na Espanha e no Japão, somos reconhecidos como profissionais e atrás disso vem o respeito, estrutura melhor, maior investimento, divulgação e muitos outros fatores positivos.

Em 2012, quando decidiu se aposentar, já tinha planos para o futuro?
Não. É uma decisão muito difícil, mas o corpo a uma altura já não responde as suas intenções. Procurei estar no meio, mas aqui no Brasil, são poucos os clubes que tem estrutura para que ex-jogadores possam dar sua parcela de ajuda, seja na gestão, como treinador ou diretor, infelizmente.

Você continua dentro do esporte de alguma maneira?
Hoje somente como “corneteiro”, mas estou me preparando para voltar para o futsal sim. Tenho alguns projetos e espero dar esse “salto” em pouco tempo.

É difícil para um atleta decidir quando parar? Como foi tomar essa decisão para você?
Lembro que chorei muito na quadra lá no Japão quando terminou o jogo porque sabia que até ali eu tinha feito e exigido do meu corpo o máximo. Mesmo se voltasse a jogar aqui no Brasil eu não iria encarar com tanta intensidade como sempre fiz. Então decidi parar. E o velho ditado de que a primeira morte de um jogador é quando para de jogar é a pura realidade.

03

Copa do Mundo de Futsal de 2008, disputada no Brasil (Divulgação/Fifa)

O que você faz atualmente como profissão?
Tenho um posto de gasolina em Não-Me-Toque e administro ele também.

Geralmente após se aposentar muitos atletas ficam perdidos por não ter estudado para atuar em outra profissão, muitos acabam trabalhando dentro do próprio esporte. Como você se preparou para essa aposentadoria e para assumir novas funções?
Tive que me adaptar a minha nova realidade e buscar cursos relacionados. Também estou fazendo faculdade e me formarei no ano que vem. Mas isso tudo só consegui após deixar de jogar pois o futsal, além de treinos e jogos, tem as viagens e assim foi difícil procurar fazer um curso superior durante esse período.

Clubes pelos quais passou

• RUSSO PRETO – 1994/1995
• CARLOS BARBOSA – 1996/1997/1998
• SÃO PAULO F.C. – 1998
• ULBRA – 1999
• C.R. VASCO DA GAMA – 2000
• CARLOS BARBOSA – 2001
• INTERMOVISTAR – 2002/2003/2004/2005/2006/2007/2008/2009/2010/2011
• NAGOYA OCEANS – 2011/2012

Títulos em clubes do Brasil

• BICAMPEÃO ESTADUAL DO RIO GRANDE DO SUL – 1996/1997
• ESTADUAL DE SÃO PAULO – 1998
• MUNDIAL DE CLUBES – 1999
• TORNEIO RIO SÃO PAULO – 2000
• ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO – 2000
• TAÇA BRASIL – 2000
• LIGA NACIONAL – 2000
• LIGA NACIONAL – 2001

Títulos pelo Intermovistar da Espanha

• 5 CAMPEONATOS DA LIGA NACIONAL ESPANHOLA – 2002/2003/2004/2005/2008
• 4 COPAS DO REI – 2004/2005/2007/2009
• 6 SUPERCOPAS DA ESPANHA – 2003/2004/2006/2007/2008/2009
• 3 COPAS DE EUROPA – 2004/2006/2009
• 5 MUNDIAIS DE CLUBES – 2005/2006/2007/2008/2011
• 1 RECOPA DE EUROPA – 2008
• 2 COPAS IBÉRICAS – 2004/2006

Títulos pelo Nagoya Oceans do Japão

• CAMPEÃO DA OCEANS ARENA CUP – 2011
• CAMPEÃO DA LIGA JAPONESA – FLEAGUE – 2011/2012

Títulos com a seleção brasileira

• CAMPEÃO MUNDIAL – 2008
• MEDALHA DE OURO NOS JOGOS PANAMERICANOS – 2007
• MEDALHA DE OURO NOS JOGOS SULAMERICANOS – 2006
• BICAMPEÃO SULAMERICANO – 1999/2008
• CAMPEÃO DO TORNEIO FIFA SINGAPURA – 1999

Prêmios individuais

• MELHOR PIVÔ DA LIGA NACIONAL ESPANHOLA – 2008
• 2 VEZES MELHOR JOGADOR DA SUPERCOPA ESPANHOLA – 2002/2003
• MELHOR JOGADOR DO MUNDIAL DE CLUBES – 2005

 

 

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: