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Três estádios e três destinos

20/06/2016

por Filipe Kunrath

Porto Alegre sempre respirou futebol. Hoje, a Capital tem dois estádios com padrão Copa do Mundo, Arena e Beira-Rio, que chamam a atenção de qualquer um que passar por aqui.

Em meio à modernidade das casas de Grêmio e Inter, há realidades bem diferentes dentro da cidade.

Passado, presente e um futuro ainda indefinido se misturam na existência de três estádios históricos de Porto Alegre.

Um já pendurou às chuteiras há algum tempo e está aposentado. Outro largou a emoção de grandes partidas recentemente, talvez por isso viva o momento mais conturbado desde sua inauguração. Outro segue firme e forte, atuante, ao menos por enquanto.

O “vovô” da turma é também o que sente mais forte as marcas do tempo. O Estádio da Timbaúva, ou Força e Luz, nome da equipe que abrigava os jogos. Para os mais novos, era um clube fundado por funcionários da Carris e da CEERG (empresa de energia).  Construído em 1934 e localizado na rua Dr. Alcides Cruz, o Força e Luz fica, literalmente, no coração do Bairro Santa Cecília.

Onde antigamente craques como Aírton “Pavilhão” desfilavam pelo gramado, se vê apenas o resquício de o que já foi um estádio. O muro, de cerca de 3 metros de altura, encobre a visão de quem passa pela rua.

Há apenas um portão de onde é possível observar o lado de dentro. Não há nada que chame tanta a atenção; em vez de Aírton e tantos outros jogadores de futebol, quem toma conta do campo são caseiros contratados pelos atuais donos do local. Com as novas estrelas, tentei contato, sem sucesso.

Ouvi relatos de que alguns animais também habitavam o gramado do Força e Luz, mas admito que nada vi.

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A rua que é seguida pelos muros do estádio é calma, sem grande movimentação, o que deve mudar em breve. O terreno foi há anos comprado pelo Grupo Zaffari, que ainda não conseguiu a autorização para construir um empreendimento na área e se manifesta apenas através de nota oficial: “O projeto do Força e Luz está em plena tramitação junto às Secretarias Municipais competentes. Ainda não há previsão de aprovação final devido ao conjunto de obras externas, tais como a nova ponte sobre o Arroio Diluvio”.

Pelo que informa o Zaffari, o certo é que haverá mudanças no bairro quando o novo negócio for construído, mas não é dito ainda o que tomará conta do campo de futebol. Especula-se na vizinhança que a obra seja um hipermercado com apartamentos em cima.

Por ali, a expectativa é boa, pois o muro alto e a pouca iluminação no estádio geram insegurança aos moradores e comerciantes, logo, o maior número de pessoas circulando também é visto com bons olhos por donos de estabelecimentos da rua.

“Vai ser positivo pro bairro. Vai ser bom pelo movimento que dará. O que não é bom é este terreno vazio, abandonado”, comenta Simone Betanin Lubuss, proprietária da “Casa dos Vinhos” e vizinha do Força e Luz há 17 anos.

Essa visão também é compartilhada por Neri Lazzaretti, da Ferragem Santa Cecília, há mais de 20 anos na rua e que inclusive vendia materiais para o antigo clube de futebol: “Acredito que as coisas vão prosperar com o maior número de pessoas”. Ambos não temem uma possível concorrência com a rede Zaffari. O único minimercado da rua não quis contar o que pensava sobre o novo empreendimento.

A vizinhança do Força e Luz já aprendeu a conviver com o antigo estádio e aguarda tranquila por novidades no local. Já em outro canto da cidade, a coisa é bem diferente.

Talvez por ser uma ferida ainda não cicatrizada, o Olímpico deixa saudades, tanto nos torcedores do Grêmio como nos moradores do entorno.

É provavelmente o que vive o pior momento dentre os três estádios que este texto se propõe a falar, e certamente vive a fase mais difícil de sua história.

Em 2012 o Tricolor inaugurou a Arena e a antiga casa foi deixada para trás. Desde então, muita coisa aconteceu. Para o Grêmio, a bola segue rolando, para o Velho Casarão, não.

O Olímpico é um arremedo do que já foi um dia. Onde antigamente ouviam-se cânticos durante os 90 minutos da partida ou até mais, avalanches, comemorações que não tinham hora pra acabar e duelos memoráveis, hoje, só restam escombros, matagais, o silêncio, o vazio e a escuridão.

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Logo após o fechamento definitivo dos portões, e por vezes até hoje, o estádio seguiu recebendo visitantes. O que era a casa dos gremistas se tornou a casa de moradores de rua, que pulam os muros à procura de abrigo, conforme a vizinhança.

Além dos hospedes, outros visitantes compareciam à noite no Velho Casarão. Vidraças, janelas, portas, qualquer material com algum valor era/é furtado. “É um antro de marginal”, define Murilo Camargo, 50 anos e morador do bairro desde os 8 anos de idade.

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Em outra época, os árbitros é que tentavam manter ordem no Olímpico, papel atualmente desempenhado por 4 vigilantes contratados do clube para cuidar do pátio à noite.

Um cartão amarelo aplicado por Romildo Bolzan Júnior, presidente do Grêmio, que precisou aumentar a segurança do local, justamente para impedir as invasões que eram costumeiras.

Já do lado de fora, as coisas seguem complicadas. O Grêmio saiu de campo e quem entrou foi a insegurança. “Não tem hora para assalto. O pior é isso, não a queda nas vendas pelo pessoal não vir mais a jogo”, relata uma comerciante que não quis se identificar, mas que possui há mais de 28 anos um ponto no local.

A falta de iluminação em boa parte do entorno, o menor movimento de pessoas e a diminuição do policiamento no local são apontados como fatores principais para o aumento da criminalidade no bairro. “Ôxi, Deus o livre! Meu marido e meu genro já foram roubados. Esses dias entraram no prédio do vizinho”, relata Tereza Brum, moradora do entorno há mais de 20 anos.

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Mesmo com a reclamação da vizinhança, por enquanto, nada de a bola rolar. Romildo Bolzan Júnior afirma que o estádio ficará no estado atual até que seja resolvida a questão da gestão da Arena junto à OAS.

Mas afinal, quanto tempo dura o intervalo dessa partida? O acerto está sendo encaminhado há bastante tempo e, ao que tudo indica, acabará com um gol do Grêmio, um gol do Olímpico. O contrato concederá ao Tricolor o direito de administrar sua nova casa e permitirá que o projeto de construção de grande condomínio avance na Azenha. O presidente do Grêmio pretende finalizar as negociações até o final do ano.

Enquanto tudo isso acontece, na Zona Norte de Porto Alegre, nosso último estádio segue recebendo partidas de futebol, e muitas. Não é da Arena que estou falando, e sim, do Passo D’Areia.

Treinos de profissionais, da base e jogos de todas as categorias seguem acontecendo na casa do São José. Já são mais de 70 anos desde a inauguração e dos três campos escolhidos para essa reportagem, é o único que segue com o futebol.

Nada mudou no Zequinha então? Mudou sim, o piso agora é de grama sintética.

Uma opção controversa e que causa polêmica entre os atletas e treinadores profissionais que jogam no estádio. Contudo, a explicação é simples: “Utilizamos o gramado sintético das 8h às 18h em todas as categorias, para treinos e jogos. Ele pode ficar um grande tempo sem uma grande manutenção. Realmente é muito positivo pela questão financeira”, conta João Lock, diretor de futebol do clube.

A cada 6 meses é feita uma vistoria no gramado por parte da Fifa, que libera ou não o piso para a realização de partidas oficiais.

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Divulgação / São José

A utilização de uma opção mais em conta se explica pelo fato de o São José ser um clube de bairro, com pouca capacidade de conseguir um grande número de torcedores, como a dupla Gre-Nal.

Para atrair sócios, o Zequinha possui uma estrutura com piscinas, quadras, salões de festas e restaurantes. Com o apoio de investidores, o estádio reformado nos últimos anos, vestiários, gramado, iluminação e alojamentos.

Atualmente no Passo D’Areia há espaço para que 18 meninos das categorias de base e 21 atletas do profissional morarem nos dormitórios do clube.

O grande número de treinos proporcionado pelo gramado e as opções da área social fazem com que pelo menos 250 pessoas passam pelo estádio por dia, entre jogadores, familiares, comissão técnica, direção, funcionários e sócios do clube.

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Divulgação / São José

Apesar das críticas de rivais ao gramado, tudo caminha com tranquilidade no São José. Futuro definido e estagnado? Nem tanto.

A direção está estudando um projeto. Um grande conglomerado de ensino do Rio Grande do Sul quer adquirir a área do estádio e utilizar o espaço para construir uma nova instituição.

Há uma proposta de construção uma nova estrutura de estádio, próximo a Freeway, e que contaria com dois campos suplementares. João Lock define como “uma grande saída”, para o clube crescer como instituição esportiva.

Mas como fica o bairro, com moradores e sócios que há tanto tempo permitem a existência do Zequinha? A expectativa do São José é que a instituição de ensino valorize a área e que na nova arena, sejam mantidas estruturas do quadro social, com um amplo estacionamento para atrair visitantes.

Esta é a atual situação dos três estádios propostos no início deste texto. O passado deles nunca vai sair da história de Porto Alegre e da memória de quem vive por aqui. O presente está posto, em constante mudança, visando um futuro que, cedo ou tarde, ainda virá. Os destinos do Força e Luz, do Olímpico e do Passo D’Areia seguem seus diferentes caminhos, mas sem deixar de olhar pra trás.

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