Skip to content

O Futebol Americano no Rio Grande do Sul: expectativas e realidades

14/06/2016
Rodrigo Fronza

 

Sete edições do Campeonato Gaúcho de Futebol Americano foram realizadas desde 2008, no Rio Grande do Sul. Anteriormente organizado e assinado pelos próprios clubes, o torneio passou a ter a chancela de uma liga ou federação legalmente constituída somente a partir de 2015. Tendo sido disputado na modalidade full contact (sem equipamentos) até 2011, a competição apresentou significativas mudanças até os dias atuais. A modalidade full pads (com equipamentos) foi adotada a partir de 2012 além da criação estatutariamente da Federação Gaúcha de Futebol Americano (FGFA) em 2014. Regularizada e com CNPJ, a entidade organizou seu primeiro campeonato estadual em março de 2015. Equipes como Porto Alegre Pumpkins, Santa Maria Soldiers e Juventude F.A já sentiram o ‘’gosto’’ de serem campeões estaduais.

O jornalista esportivo Renan Jardim, da Rádio Gaúcha, além de cobrir o futebol tradicional, tem como foco do seu trabalho a cobertura do futebol americano no Rio Grande do Sul, principalmente, assim como no restante do Brasil e exterior. Jornalista há cinco anos, apresentador do programa ‘’Touchdown Gaúcha’’, Renan Jardim entende que o esporte está crescendo com seu próprio esforço e acredita que possa ajudar em sua divulgação, não como publicitário, mas realizando a cobertura de jogos, fazendo entrevistas e mostrando o trabalho das equipes, isso tudo embasado no conhecimento adquirido sobre o esporte desde 2005. Em seu local de trabalho, ele falou sobre o processo de criação do programa, a importância da divulgação do esporte e mais sobre o futebol americano que é praticado no estado.

Renan jardim(1)

Renan Jardim, jornalista esportivo da Rádio Gaúcha

Há quanto tempo existe o programa ‘’Touchdown Gaúcha’’? Como surgiu e qual a sua importância para divulgar o esporte no Rio Grande do Sul?

O “TD”, como chamamos aqui na Gaúcha, é um projeto com etapas e elaborado para atender NFL e local. Esse projeto iniciou na metade de 2014 quando após o comentarista Wianey Carlet passar por uma placa alertando sobre uma “seletiva de futebol americano”, em Viamão (era do Viamão Raptors). Em seu programa, o SuperSábado, Wianey comentou a curiosidade e seu produtor, Henrique Jasper, por conhecer o esporte e praticar em outro time da capital, explicou “no ar” que existiam times no RS. O Wianey pediu para gravar 1 minuto todos os sábados sobre o esporte. Jasper se juntou com Igor Carrasco, que também acompanhava a NFL. Semanas depois, eu entrei na jogada. Com três pessoas, passamos para a próxima etapa, de ter um espaço fixo no ar e no digital. O 1 minuto do ar, com boletim seco sem sonora, se transformou em 1min30seg com trilha, sonoras e com três vozes.

A 3° etapa foi o digital. Começamos a publicar sobre NFL e RS no site da Gaúcha, mas como os jogos da temporada regular e playoffs terminavam após às 2h da madrugada, era impossível publicar os resultados de casa, já que o nosso sistema só permite publicações dentro da redação. Pedimos para criar um blog e assim ter essa liberdade de publicar de qualquer lugar e a qualquer hora. O nome “Touchdown Gaúcha” é bem simples, tanto para o “ar” quanto para o Blog. Apenas pegamos um elemento do esporte e casamos com o nome da rádio. Eu dei a ideia do nome, todos concordaram e em 5 segundos estava pronto. Criamos o blog e começamos as publicações sendo o único veículo de comunicação presente em 100% dos jogos do Gauchão 2015.

A 4° etapa foi o podcast.  Fenômeno na internet, esses programas gravados podem ser baixados e ouvidos a qualquer hora e em qualquer dispositivo. Utilizamos uma taxa baixa para que fique leve e possa ser baixado sem um grande consumo de dados. Com três pessoas, virava um bate-papo bem humorado sobre diversos assuntos da semana. Quando fiquei sozinho, incluí entrevistas e somos o podcast mais antigo da Gaúcha e o único que nunca falhou uma semana desde sua criação em 2015.

A 5º etapa era visitar as cidades que tem times. Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Santa Cruz do Sul, Venâncio Aires, Santa Maria, Ijuí, Porto Alegre e São Leopoldo. Estamos conseguindo cumprir esse calendário.

A final do campeonato gaúcho de futebol americano deste ano será no estádio Beira-Rio. Qual a importância deste evento para o fortalecimento do esporte no estado?

A visibilidade será muito grande. Logo após o anúncio oficial, já sei de times que fecharam patrocínios para duas temporadas. O esporte cresceu muito aqui no Estado e faltava um empurrão. O Gigante Bowl vai colocar uma luz muito forte sobre todos os times e sobre o esporte, mostrando que existem pessoas que colocam seus esforços para contribuir com esse crescimento.

No ano de 2015 a NFL aprovou um novo plano para estender o número de partidas disputadas fora dos Estados Unidos durante a temporada regular até 2025 aumentando assim a possibilidade da realização de jogos em outros países além da Inglaterra. O que representaria para o esporte praticado no estado a chegada de um evento deste nível?

NFL no Brasil? Nossa… é algo tão grande que as pessoas nem tem dimensão do que isso alavancaria para o esporte. Ainda tem gente que nem sonha que exista um único time no Brasil e isso infelizmente é trabalho para imprensa. Colocar um jogo da magnitude da NFL, mesmo que festivo, com estrelas da Liga por aqui, iria abrir as portas para o esporte no Brasil. Não só o jogo, mas os dias que antecedem iriam gerar assunto em todas as mídias e claro, respingaria nos times gaúchos.

Quais as possíveis dificuldades em trabalhar com um esporte ainda pouco divulgado pela grande mídia no Brasil?

Dificuldade? Já foi pior. Às vezes eu montava uma matéria e só lia comentários como “existe isso aqui?”, ou “nunca vai pegar, brasileiro não gosta disso”, “um monte de home se agarrando”, “Muito violento”, “o jogo para demais”. Mas não vou negar que isso já mudou bastante e está bem melhor, mas eu tenho um cuidado de falar para 8 e 80. Quem já entende do esporte, sabe que às vezes eu não posso chamar o coach dessa forma e chamo ele de técnico, para poder apresentar um material ao público que está conhecendo o esporte aos poucos.

Fora isso, infelizmente tu só consegue cobrir os esporte de forma exclusiva, se for independente e utilizando recursos próprios ou buscando patrocinadores. Se já está complicado para equipes, imagina para imprensa? Nenhuma empresa de comunicação do RS (e que eu saiba do Brasil) contrata alguém somente para futebol americano.

Quais as possíveis diferenças entre o futebol americano praticado no Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul, e nos Estados Unidos?

Bom, no Brasil jogamos com regras do College, que são um pouco diferentes da NFL, mas nada que seja gritante. Fora isso, temos a questão cultural. Lá, quando você nasce, a bola que você ganha não é redonda como aqui e o pai da criança sonha em ter um “Neymar” em casa. Aqui, os jogadores que se interessam pelo esporte já começam tarde. Os mais novos iniciam com 12, 13 anos, e as bases são raras nos times. Você precisa montar um time para o próximo campeonato, então você quer o maior cara, mais habilidoso e que possa contribuir imediatamente. Pegar um cara de 14 anos vai demorar, quem sabe, uns 5 anos para que ele te dê esse resultado. Nem todos os times tem esse tempo. Alguns nem pensam nisso, mas não são todos. Algumas equipes já perceberam que investir em uma base pode ser extremamente valioso. Temos casos de times que já estão usando jogadores da base em seus elencos principais. Alguns justamente com esse perfil, de ter entrado com 16 anos e com 18 já ser aproveitado. Hoje, acho que é muito mais uma questão de necessidade do que de escolha. Todos os times gostariam, mas uns acabam optando por não ter, mas com certeza todos gostariam.

Em relação à estrutura oferecida pela federação gaúcha de futebol americano (FGFA) e clubes aos jogadores, quais os pontos positivos e negativos?

É complicado destacar pontos positivos e negativos, pois como o esporte é amador e nenhum time conta com patrocínio de uma grande marca, ainda é cedo para destacar esses fatores. É tudo muito colaborativo. A FGFA é muito nova (2 anos) para oferecer algo aos clubes e jogadores, nem é tempo de exigir muito. É formada pelos próprios jogadores e diretores, então é tudo meio colaborativo. Com a sede apresentada no mês passado, em um escritório na capital, acredito que a FGFA possa utilizar os espaços do prédio, como os auditórios, para organizar melhor algumas reuniões, a fim de esclarecer dúvidas em oficinas, palestras, laboratórios. Os clubes são amadores, então também se torna colaborativo. Raros são os casos onde a equipe fornece tudo ao jogador, mas de uma forma geral, todos contribuem com tudo. Treinos, alimentação, equipamentos, ou é custeado individualmente com mensalidades ou em parcerias para aproveitamento de cada situação.

Quais foram as principais mudanças ocorridas desde a realização do primeiro campeonato estadual de futebol americano gaúcho em 2008?

Era organizado pelas próprias equipes e as vezes decidido em 1 dia ou senão por não comparecimento do adversário. Mas eram, existiam, então é errado descartar os títulos já conquistados. Tudo foi muito batalhado para esquecer como começamos, então falamos que o Pumpkins é o maior campeão, e até o Juventude, que foi o primeiro campeão após existir uma federação, sabe disso.

De lá em diante, as equipes começaram a se organizar justamente para esses campeonatos. Davam tudo que tinham e as vezes se lesionavam. Como sempre, cada atleta que tire do seu bolso para tratar um joelho ou coluna ou ainda regular a alimentação.

Hoje, os times estão bem mais estruturados e buscando aperfeiçoamento técnico, tático e físico. Temos um campeonato de verdade do jeito que muitos antigos sonhavam.

Você acha que o futebol americano praticado não apenas no estado, mas no Brasil, terá mais visibilidade no futuro? Vai depender de quais fatores?

Terá mais espaço e, consequentemente, um público ainda maior. Ainda não é o “boom” do futebol americano e acho que será após 2017. Motivo? Ainda estão conhecendo o esporte.

A imprensa precisa fazer sua parte. Eu sei da importância que eu tenho para o esporte, mas os protagonistas sempre serão eles e deixo isso muito claro. O que eu faço é em respeito ao suor de cada jogador. Eles merecem isso e eu me sinto bem sabendo que de certa forma estou colaborando para o crescimento. Acho que esse é apenas um dos fatores. A mídia precisa mostrar que o esporte é emocionante, que é estratégico e que abraça vários biótipos que estejam dispostos a se tornar atleta.

Outro fator está nos empresários. A maioria das grandes empresas é comandada por pessoas mais velhas e que não tem tanta aceitação com esportes diferentes e suas possibilidades, mas não é nem questão de falta de vontade, mas por desconhecimento. Basta alguém colocar essa confiança financeira em uma equipe para perceber que terá um retorno de visibilidade alternativa aos que só querem apostar no futebol tradicional aqui no Brasil.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: