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Azul e vermelho na memória

14/06/2016

Ricardo Santos

Sport Club Internacional e Grêmio Foot-ball Porto Alegrense são clubes de futebol mais que centenários. Nesse esporte tão marcado pelo imediatismo e pela situação momentânea das equipes, retornar ao passado e relembrar os episódios históricos é se comunicar com a instituição – que possui uma simbologia ímpar, indo além do fator lúdico do jogo; tangendo o social, o sociológico e o educacional.

Uma forma de conduzir o torcedor a se interessar mais pela história do clube é através dos museus. O significado do termo seria de um espaço físico , sem fins lucrativos, aberto ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para educação e deleite da sociedade. Os museus dos clubes de futebol, no entanto, detêm outros propósitos e certas características únicas. O do Internacional se chama Ruy Tedesco (em homenagem ao engenheiro responsável pela construção do Estádio Beira-Rio), já o do Grêmio se denomina Hermínio Bittencourt (em homenagem ao presidente do Grêmio no ano da conquista do hexacampeonato estadual, em 1968).

Através do uso da tecnologia, os museus da dupla grenal propõem uma experiência imersiva aos seus torcedores. Relembrar o passado (destacando, claro, em maioria as glórias) pela materialidade da construção e dos objetos que abrigam. Acrescentar sons, imagens cinematográficas e computação, com o intuito de tornar a experiência repleta de sentidos e significados. A ideia é se distanciar do conceito incrustrado na sociedade de museu como espaço elitista, contemplativo. Torcedor e funcionário consagrado do Grêmio, Paulo Sampaio, inclusive, afirma preferir outra nominata ao local: “No Olímpico era memorial Hermínio Bittencourt. A Arena designou o nome de museu. Eu preferia memorial. Museu não me soa bem, prefiro um termo mais ameno”. Percebe-se no relato a busca pela aproximação dos adeptos, desvinculando-se da concepção museal, meramente silenciosa e expositiva, substituindo-a por um lugar de memórias interativas.

Hermínio Bittencourt

O museu (ou memorial) Hermínio Bittencourt foi inaugurado no dia 19 de dezembro de 2012, na nova Arena do Grêmio. O espaço contempla: sala de troféus, conjunto de uniformes e bolas (com a localização temporal dos itens, expostos em pequenos grupos), painéis interativos, maquetes dos estádios, vídeos, músicas e a sala 360º – experiência imersiva onde parte da história do clube é reproduzida nas paredes de uma sala redonda. O museu ocupa 1,4 mil metros² de área total e tem dois andares. Custou R$ 700 mil aos cofres do Grêmio, projetado pelas empresas Museums & Expos da Inglaterra e Muse do Brasil. Embora inaugurado em 2012, ficou fechado por três anos, somente reabrindo em dezembro de 2015.

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Sala de troféus do museu Hermínio Bittencourt, na Arena do Grêmio

Valores da entrada: R$ 14 inteira | R$ 7 meia-entrada

Ao chegar na Arena para a realização desta matéria, o primeiro passo era encontrar o museu diante da enormidade da construção. Como referência, a proximidade à GremioMania (loja do clube), no lado do lobby oeste do estádio. Para saber mais da parte memorial do clube, conversei com Jean Santini (coordenador de visistas guiadas e da operação do museu) e Paulo Sampaio (funcionário histórico citado anteriormente). A média diária de visitas varia muito; portanto, o Grêmio faz o cálculo mensal: 4 mil visitantes/mês. Em dias de jogos, aumentam as visitações, e o museu permanece aberto até meia hora antes das partidas. De acordo com o coordenador Jean Santini, “o Hermínio Bittencourt é o museu mais interativo do Brasil”. Interatividade marcada pelo espaço imersivo em 360º, localizado no segundo andar, e por um filme que é reproduzido ao final da visita que mostra a passagem do Estádio Olímpico para a atual casa gremista.

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Uma linha de tempo de uniformes históricos é exibida no museu Hermínio Bittencourt

A modernidade da Arena é coeficiente atrativo de público. “A Arena é uma novidade. Estádio de última geração. As pessoas vêm muito conhecer pela curiosidade com a grandeza do estádio. Não só gremistas, mas colorados…todos são bem vindos a conhecer nossa estrutura” – afirma Sampaio, sempre emocionado ao falar da instituição em que trabalha há 40 anos. Ademais, o tour também atrai maior público. Museu e tour são dois produtos diferentes. O primeiro não acompanha a visita guiada; entretanto, há um pacote que torna as opções mais baratas. As atrações têm funcionamento espelhado. De quarta a domingo*.Aberto das 10hs às 18hs. No museu, a visita é não-guiada. O torcedor compra ingresso e a circulação pelo espaço é livre, diferentemente do tour.

 

* Segundas e terças-feiras são reservadas para escolas públicas e municipais que não podem custear a visita.

Tour: R$32 |  Museu: R$14 | Tour + museu: R$ 40

Sampaio também compara o antigo museu, do Olímpico, ao novo museu da Arena: “O museu antigo (Olímpico) era muito bonito em relação a feiura do estádio. Era uma grandiosa sala de troféus. Os troféus foram transportados todos para o novo museu”. A área do local passa de 700 metros² para 1,4 mil metros². Os objetos não expostos, estão guardados em um grande acervo ou sendo restaurados. Flâmulas dos adversários (trocadas a cada jogo) e papéis jurídicos preenchem a maioria desse acervo, mas o acesso a eles é restrito.

O museu Hermínio Bittencourt será ampliado. Um novo projeto está em desenvolvimento no segundo andar e deve expandi-lo em 200 metros². O objetivo dos responsáveis é tornar o museu ainda mais dinâmico e atrativo ao público.

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Maquete que mostra o antigo Estádio Olímpico e seus arredores, no bairro Azenha

Ruy Tedesco

O museu Ruy Tedesco foi inaugurado no dia 6 de abril de 2010, no Estádio Beira-Rio. O espaço de 1,2 mil metros² exibe troféus, atas, flâmulas, fotos, vídeos e entrevistas, que percorrem toda a trajetória do clube. No momento, a parte interativa do museu está em reforma, devido a problemas recorrentes da modernização do Estádio do Internacional para a Copa do Mundo de 2014. Ainda assim, a tecnologia está em evidência no ambiente. Computadores que funcionam por touchscreen permitem ao visitante viajar por anos de competições do clube, trazendo todos os resultados do colorado. Outro objeto curioso é um enorme painel que exibe uma foto da antiga casa do Inter, transformando-se no remodelado Beira-Rio quando se olha em outro ângulo. Em abril de 2011, o museu recebeu o Prêmio DSE Apex Gold Award na categoria Arte, Entretenimento e Recreação, em cerimônia realizada em Las Vegas.

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Painel interativo por touchscreen do museu Ruy Tedesco, do Beira-Rio

O horário de funcionamento do museu é de terça a sabado, das 10hs às 18hs. A bilheteria fecha às 17h30min. Nos dias de jogo, domingos e feriados, haverá horários alternativos – que podem ser consultados pelo site ou por telefone. O Ruy Tedesco também é pago, sendo estes os valores:

Entrada inteira: R$ 10,00 | Meia-entrada: R$  5,00 – para crianças de 5 a 12 anos, estudantes, professores, idosos (mais de 60 anos)

Sócios (em dia): isentos | Crianças até 5 anos: isentos

Os torcedores podem aproveitar para fazer a visita guiada às dependências do Beira-Rio, passando por locais como o Centro de Eventos e os vestiários, com direito a pisar no gramado. No começo do tour, o visitante pode passa por dentro do museu. O combo das atrações resulta em um desconto de cinco reais. Contudo, as opções podem ser realizadas separadamente.

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Fotos exibem a evolução das obras do Estádio Beira-rio

Na chegada ao Beira-Rio para a apuração, a referência do museu também era a loja do clube. Ao final da ida ao Ruy Tedesco, o visitante passa as catracas e adentra, diretamente, a Inter Shop, recebido por uma gama de produtos colorados. Estratégia mercadológica da instituição.

A conversa sobre o local foi com Karol Cristiane, componente da equipe museológica do Sport Club Internacional. “Trabalhamos com paixão. A gente quer que o torcedor saia daqui mais apaixonado pelo clube. Quem não é colorado, que saia bem atendido e com uma boa impressão. Porém, não existe distinção. Recebemos muito bem torcedores rivais” – afirma Karol, sobre o tratamento com os visitantes do Museu. Antes de fechar por um tempo, durante a reforma do estádio, o museu detinha uma média de 25 mil visitantes por ano (em torno de dois mil mensais). A média atual não foi passada pela administração do museu. Grande parte do público vem do interior, seguindo como meta dos organizadores chamar mais atenção do público de Porto Alegre. O museu faz a divulgação através de uma página do facebook, além das informações básicas encontradas no site.

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Exposta, em destaque, a taça do Mundial de Clubes conquistado pelo Internacional em 2006

Ainda no setor memorial, o Internacional dispõe de um arquivo, predominantemente administrativo, onde se depositam as “papeladas” e outros documentos não-tridimensionais. Os objetos não expostos no museu permanecem na reserva técnica.

Conforme relatado no texto de abertura, os museus também são instrumentos socioeducacionais. Na Arena, um painel homenageava a “Coligay”, torcida gremista que enfrentava o preconceito sexual em plena época da ditadura. O time, estando bem ou mal, recebia o apoio da Coligay até o fim, cantando, dançando e pulando ao som de sua potente charanga. Mesmo na contemporaneidade, a diversidade sexual segue sendo um tabu nos estádios de futebol. A Coligay, por exemplo, já foi usada por torcidas rivais como forma de provocação ao Grêmio. Importante o tricolor ceder espaço no seu museu para debater o tema e dar um passo a frente na luta contra a intolerância de gênero no futebol. Já no Beira Rio, as partes iniciais do museu traziam as raízes do Inter como “clube do povo”. O time possibilitou os negros jogarem o esporte britânico, tão elitizado na época. O colorado carrega essa alcunha até hoje, utilizando-a nas campanhas de conscientização contra o racismo. Este, que é o preconceito mais recorrente nos estádios, e é outra luta cujo incentivo tem de partir dos grandes clubes.

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Tecnologia e modernidade são as marcas dos museus de Grêmio e Internacional. O choque entre passado e futuro. Ambos pretendem contar a história das respectivas instituições ao torcedor, para emocioná-lo, para fazê-lo sentir orgulho de ser parte constituinte do clube, utilizando-se de ferramentas interativas. Os objetos expostos mexem com os sentidos dos visitantes, mas nem mesmo o espetáculo visual e sonoro, marca da nossa cibersociedade, que Hermínio Bittencourt e Ruy Tedesco proporcionam, conseguem obstacularizar o elemento principal por trás da amostragem dos museus: a aura de cada peça e a energia que o torcedor sente quando divaga pelas memórias do futebol.

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