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O esporte como agente inclusor

30/05/2016

Por Jonata Fabris

 

Inclusão. Essa talvez seja a palavra-chave para definir o que o professor Darci Campani, em conjunto com outros virtuosos profissionais, realiza todas as noites de segunda e quarta num dos grandes ginásios que cobrem o campus da ESEFID-UFRGS. Ginásio que, enquanto o sol brilha durante o dia, acolhe universitários com seus múltiplos anseios, e que quando anoitece, reabre suas portas para recepcionar lutadores, que fazem jus ao sentido mais genuíno da palavra. Na noite universitária, quando os portões fecham-se e as luzes apagam-se, brilham na quadra de judô, os atletas que fazem parte do Projeto Judô para deficientes visuais, que sob a batuta dos senseis (professores) Darci e Gustavo, executam seus Ippon-seoi-nage (nome de um golpe no judô) nos desafios diários que a vida lhes apresenta, como aquela calçada não adaptada, aquele sinal de pedestres mudo ou até mesmo aquele livro que não tem versão em braile.

O começo desse projeto se deu com o olhar atento de alguns professores e alunos que resolveram aperfeiçoar uma disciplina já existente na Escola Superior de Educação Física e Dança. No longínquo 2005, nasce o Projeto Judô para deficientes Visuais, que entre seus objetivos, tinha por base possibilitar a inclusão e integração de pessoas com algum problema visual. Os benefícios que o esporte traz podem ir muito além da parte física. Confiança e segurança, além de ser uma atividade prazerosa, são algumas das vantagens da prática do judô. Desde a criação dos Jogos Paralímpicos em 1960 em Roma, na Itália, o esporte adaptado vem ganhando a profissionalização: ele deixou de ser um esporte amador e de reabilitação para atingir o alto nível. Além disso, o número de atletas que esses jogos vêm agregando aumentou significativamente: nos Jogos desse ano que ocorrerão aqui no Brasil, serão mais de 4300 atletas de 176 países, que disputarão 528 medalhas. O judô é a única arte marcial dos Jogos Paralímpicos e se tornou oficial em competições em Seul, 1988. A estreia das mulheres foi feita em 2004, nos Jogos de Atenas.

Conforme consta no site da Confederação Brasileira de Desporto de Deficientes Visuais, a CBDV, no Brasil, o judô chegou no início da década de 80. A primeira participação internacional foi em 1987, no torneio de Paris. A modalidade, através de seus ensinamentos orientais, é muito importante para o cotidiano dos deficientes. Outro ponto importante é o aperfeiçoamento do equilíbrio, muito significativo para os deslocamentos do dia a dia dessas pessoas. O judô é praticado por atletas cegos e com deficiência visual que, divididos em categorias por peso, lutam segundo as mesmas regras da Federação Internacional de Judô.

Com uma parceria de mais de dois anos com a Associação de Cegos do Rio Grande do Sul, que é filiada a CBDV, os participantes do projeto dos professores Campani e do também professor Alexandre Nunes, podem competir em vários campeonatos para deficientes visuais Brasil afora. Hoje a delegação tem em torno de 16 atletas, a segunda maior do país nas competições da Confederação Brasileira de Desportos para Deficientes Visuais. Histórias boas não faltam. Fatos curiosos como namoros, uniões, frutos dessa socialização que os professores promovem são alguns dos exemplos de como pode ser benéfico ao deficiente visual a prática do esporte coletivo, visto seu aumento de autoconfiança e socialização proporcionados pelo esporte.

O Projeto em si é um sucesso. Campeonatos, medalhas, premiações… tudo isso eles já conseguiram. Mas falta-lhes algo que nem o maior campeonato do mundo conquistado pode lhes premiar. O respeito dentro da sociedade, tão almejado por esses atletas, ainda é utopia, assim como a acessibilidade que é algo importantíssimo quando falamos sobre deficiência visual. A acessibilidade é um atributo essencial do ambiente que garante a melhoria da qualidade de vida das pessoas e que no Brasil ainda é um grande desafio, uma constante luta. E além das barreiras físicas presentes, onde as maiores dificuldades se encontram, existem outras que são inerentes às questões da pessoa com deficiência e que necessitam ser removidas: o preconceito, a ignorância e o medo.

Iniciativas para a inclusão de pessoas com deficiência, como a visual, existem e tem relativa procura quando bem difundidas e anunciadas. Mas a maioria esbarra quase sempre nas dificuldades estruturais que são encontradas em grande parte das cidades, como barreiras e obstáculos que limitam e impedem o acesso, a liberdade de movimento e a circulação com segurança dessas pessoas.

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