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As marcas do racismo no futebol gaúcho

30/05/2016

Por Lucas Mello

 

Os anos passaram, mas o racismo continua presente no futebol gaúcho. “Enquanto não tivermos ações punitivas exemplares, essas situações vão continuar acontecendo e de forma cada vez maior”. É a solução que o ex-arbitro e vítima de racismo, Márcio Chagas, apresenta para este problema. A discriminação racial é histórica no futebol. Mesmo que o esporte tenha se popularizado ao longo dos anos, principalmente no Brasil, o racismo permanece. Na maioria das vezes, o preconceito não é visto propriamente dentro de campo, mas, sim, no contexto futebolístico. Altos cargos de clubes que são ocupados, na maioria das vezes, por uma elite majoritariamente branca é um exemplo.

No Rio Grande do Sul, os negros sofreram bastante resistência no futebol, já que o esporte foi trazido por imigrantes alemães. O primeiro grande clube deste estado foi criado em 1903: o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, com origem germânica, que não aceitava negros em sua equipe. Seis anos mais tarde, em 1909, os irmãos paulistas Poppe fundaram aquele que seria rotulado como o “Clube do Povo”: o Sport Club Internacional. Embora não declarasse abertamente, o Inter, em seu início, também não tinha integrantes negros em seu time. Assim, sem a presença de atletas negros, que o futebol gaúcho se desenvolveu nas primeiras duas décadas do século 20.

Em represália à Liga Metropolitana (de times “brancos”), que tinha negado a participação do Rio-Grandense – time de mulatos-, surge a Liga dos Canelas Pretas, em 1910, composta apenas por times de jogadores negros. No interior da Liga, a segmentação também era vista. Enquanto tinha time formado por mulatos funcionários públicos e de hotéis, outros eram formados por negros engraxates e profissionais de baixo custo. A Liga da Canela Preta teve fim na década de 1930, mais precisamente em 1933, por causa da criação da segunda divisão da Liga Metropolitana (a “liga do sabão”), que contava com novos e melhores jogadores de outros campeonatos.

Mesmo com o passar do tempo, com a introdução de jogadores negros nas duas maiores forças do futebol gaúcho – Grêmio e Internacional-, o racismo não deixou de ser uma questão recorrente e com uma nova aliada passou a ser bastante discutido: a imprensa. Segundo o atual comentarista da RBS, Márcio

Chagas da Silva, que também sofreu com o ato preconceituoso em 2014, a mídia tem um papel importante no debate dessa questão. Porém, para ele, a discriminação racial só vira debate nos grandes centros midiáticos quando são casos que darão grande repercussão, já que não é um assunto agradável para ser tratado diariamente na imprensa. Um exemplo foi o caso Aranha, na partida entre Grêmio e Santos, válida pelas oitavas de final da Copa do Brasil, na Arena, em Porto Alegre. As imagens de televisão flagraram torcedores gremistas insultando o goleiro santista, tendo como protagonista a torcedora gremista Patrícia Moreira. Essa importância da imprensa também acarretou no julgamento deste caso. A grande repercussão no Brasil e até no mundo influenciou para que o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) tomasse uma decisão que servisse de exemplo em casos de racismo no nosso país: a perda de três pontos do clube gaúcho e, consequentemente, a exclusão do Tricolor da competição.

Aranha

O goleiro Aranha foi alvo de racismo na Arena / Foto: Fernando Gomes – Agência RBS

Nos últimos onze anos, alguns casos de racismo no futebol gaúcho ganharam notoriedade na imprensa e foram alvos de muitas discussões. Os jogadores Paulo César Tinga, Jeovânio, Paulão e o árbitro, à época, Márcio Chagas da Silva, sentiram na pele o ódio das pessoas por causa da cor. Cada uma dessas pessoas agredidas reagiu de uma forma diferente.

Em 2005, Juventude e Internacional se enfrentaram pelo Campeonato Brasileiro, no Estádio Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, e o jogador Colorado Tinga relatou ter ouvido gritos de macaco durante a partida vindo de torcedores do time caxiense. O jogador não levou o caso à polícia, alegando que deixaria para o árbitro do confronto relatar o ocorrido na súmula. O Juventude foi o primeiro

clube brasileiro a ser punido por causa de racismo, com uma multa de R$ 200 mil e perda de dois mandos de campo.

Um ano depois, em 2006, no mesmo Alfredo Jaconi, na partida entre Juventude e Grêmio, válida pelo Campeonato Gaúcho, após ser expulso, o zagueiro Antônio Carlos Zago, hoje treinador justamente do clube caxiense, olhou para o jogador gremista Jeovânio e esfregou os dedos no braço, fazendo alusão a cor da pele do volante do Tricolor. Logo após o caso, Antônio Carlos se arrependeu do ato, pediu desculpas a Jeovânio, mas pegou uma pena de 120 dias sem poder atuar. Na esfera civil, nada houve. “Me arrependo para sempre do que fiz. Tive de comparecer ao fórum. Quando tinha de viajar por 15 dias, eu tinha de comunicar minha ausência. Paguei ali mesmo. Paguei fora de campo e estou pagando até hoje”, declarou Antônio Carlos no programa “Bola da Vez”, da ESPN, em 2013.

Oito anos depois, em 2014, no clássico Gre-Nal 400, válido pelo Gauchão, na Arena, em Porto Alegre, o zagueiro Colorado Paulão alegou ter sido alvo de gritos de macaco vindo da torcida gremista após o término da partida. O defensor tentou deter o autor do racismo, ao apontar o dedo para o suspeito, que acabou saindo de perto da confusão. E concluiu: “Ele fez sons de macaco para mim. Mas, deixa, está tudo tranquilo”. Paulão não registrou nenhuma ocorrência na delegacia, não levou o caso adiante e até hoje não se sente confortável ao tocar no assunto.

No mesmo ano, em 2014, o ex-árbitro e atual comentarista de arbitragem da RBS, Márcio Chagas da Silva, viveu de perto, no Campeonato Gaúcho, a triste experiência de ser ofendido racialmente. Na partida entre Esportivo e Veranópolis, no Estádio Montanha dos Vinhedos, em Bento Gonçalves, o ex-árbitro foi alvo. “Normalmente na Serra eu já não aquecia em campo nos jogos, tanto em Bento, quanto em Caxias. Eu evitava entrar em campo para aquecer”, declara o atual comentarista de arbitragem. No momento em que ele saiu do vestiário em direção ao campo para iniciar a partida, os insultos racistas começaram por parte da torcida do Esportivo. “Macaco, negro, lixo, volta para a África, morto de fome. Esse tipo de vocabulário que o racista usa quando está em bando, tem coragem de falar”. Segundo Márcio Chagas, a mesma situação ocorreu na ida para o intervalo, no retorno para o segundo tempo e ao final da partida novamente. Um grupo de vinte a trinta torcedores se postou e começou a insultar racialmente mais uma vez. “Eu ia descendo as escadas para o vestiário, mas parei e vi que tinha um senhor com um filho ou neto. E perguntei a ele se achava bonito o que estava ensinando para a criança. Aí ele me mandou longe e me chamou de macaco”, completa o ex-árbitro. A situação só piorou após o confronto, quando Márcio Chagas foi ao encontro de seu carro para ir embora. Deparou-se com as portas do veículo amassadas e bananas na lataria. No momento que tentou sair com o carro, saíram mais duas bananas do cano de escapamento.

Márcio Chagas

Márcio Chagas sofreu racismo mais de uma vez / Foto: Lucas Mello

Foi a gota d’água para Márcio Chagas, que em outros anos já havia sofrido racismo, mais precisamente nos anos de 2005 e 2006, na Copa Federação Gaúcha. Ele levou o caso adiante. Como consequência, o Esportivo foi punido com a perda de três pontos – o clube seria rebaixado naquele ano no Gauchão- e Márcio Chagas encerrou a sua carreira na arbitragem. “No momento que precisei, a Federação me virou as costas. Nessas horas é que vemos como o árbitro é uma peça descartável no sistema”, completa o ex-árbitro. O caso ganhou grande repercussão na mídia gaúcha e brasileira.

O racismo não é um caso isolado do futebol, mas, sim, um problema social. Que em nada adianta apenas as campanhas – são importantes, é bem verdade- se não tivermos punições exemplares e principalmente a educação vinda de casa. “O processo é de educação, ninguém nasce racista. O discurso de um racista começa dentro da sua própria casa, escutando os pais falarem ou algum parente.”, conclui o atual comentarista de arbitragem. Só com a soma desses fatores, poderemos ter uma diminuição nos casos de racismo, não só no futebol, mas também na sociedade.

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