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Esportes de contato: É lugar de mulher?

20/05/2016

Por Laura Stamado Berrutti

São dois times unidos pelo mesmo objetivo: dar o seu melhor, trabalhar em equipe e conquistar a vitória. O juiz assopra o apito e a partida começa. A jogadora de um dos times dá o primeiro chute, e todas se movimentam em direção à bola. Os ânimos estão exaltados. Uma das adversárias pega a bola com a mão e logo trata de correr. Quando achou prudente, arremessou para a colega que estava logo atrás dela. E esta, para a que estava do lado. Então a outra correu, destemida, mas quando menos esperava, outra jogadora a derruba no chão. Falta? Ah, isso faz parte do jogo. Sair de uma partida sem estar suja de areia ou barro é quase impossível. Uma menina do mesmo time fica em cima dela para proteger a bola, até que outra veio e conseguiu pegá-la. Tudo isso com mais três adversárias junto. Agora é preciso ser rápida. E não é que foi? Passa por uma, duas, três, quatro, mas nenhuma consegue agarrar a jogadora. Corre e passa o in-goal, se atira no chão com a bola em baixo do seu corpo. Placar: 5×0.

Essa pequena narrativa representa um jogo de Rugby Feminino que ocorre semanalmente no Brasil. De acordo com o projeto Rugby de Calcinha, há mais de 252 times para se jogar Rugby Sevens Feminino no país, dentre estes, 16 são clubes que possuem equipes profissionais. De acordo com a Sudamérica Rugby, o Brasil é o país com o maior número de jogadoras de rugby na América do Sul: 2.567 atletas, 83 treinadoras e 47 árbitras.

A Rugby Union é a forma mais difundida do esporte no mundo, e é dividida em duas modalidades: o Rugby XV (com 15 jogadores) e o Rugby Sevens (com 7 jogadores). No Brasil, as equipes masculinas praticam as duas modalidades e as femininas, por enquanto, somente o Rugby Sevens. A Seleção Brasileira de Rugby Sevens Feminina foi campeã invicta de 2004 a 2014 no Campeonato Sul-Americano de Rugby e escolhida para representar a América do Sul na Copa do Mundo de Rugby, na modalidade Sevens, de 2009, em Dubai, e de 2013, em Moscou.

Os primeiros indícios de alguma partida de rugby feminino no mundo foi um amistoso entre Escócia e Inglaterra, em 1881, na cidade de Liverpool, Inglaterra. Na época, o jogo causou grande revolta na população, que abandonou a partida pela “violência” no gramado. No Brasil, não há registros oficiais das primeiras partidas, aliás, pouco se documentou sobre o início do rugby feminino. O que sabemos, são histórias contadas por depoimentos. Alguns acreditam que as primeiras partidas no país aconteceram no início da década de 1980, entre os intervalos dos jogos masculinos do SPAC e que, na época, a Associação Brasileira de Rugby não gostou do fato das meninas estarem jogando.

Outros dizem que as primeiras equipes femininas que surgiram no Brasil foram a da Barra da Lagoa Rugby Clube, hoje sem mais atividades, e logo depois o Desterro Rugby Clube,  em 1997, ambos de Florianópolis. Mikaella Oliveira foi uma das criadoras do time feminino do Desterro e uma das pioneiras no rugby feminino no Brasil. Ela conta que o seu interesse em praticar rugby surgiu enquanto assistia o time masculino do clube jogar na antiga Escola Técnica Federal de Santa Catarina (ETFSC). Ela decidiu reunir algumas amigas, chamou um dos meninos para treiná-las, e logo depois as irmãs e namoradas dos jogadores do clube também se interessaram. Muitas pessoas a chamaram de louca na época, afirmando que rugby era um esporte masculino.

Maria Roberta Gondim, Fernanda Silveira e Lúcia Ferreira foram as criadoras da equipe de rugby feminino no Charrua Rugby Clube, em Porto Alegre, e elas contam sobre o processo de criação do time feminino no clube. Tudo começou quando o irmão da Roberta, que era amigo dos fundadores do clube, convidou ela e a Fernanda para jogar, em 2003. A Lúcia, que era colega de faculdade da Roberta, depois de 6 meses, aceitou a proposta. O trio treinava jogando com o me masculino na época. Fernanda explica que muitas equipes femininas começaram assim no Brasil e, só depois que outras meninas começassem a se interessar é que o time era formado. Roberta acredita que elas tiveram sorte, porque o clube sempre incentivou a criação da equipe feminina. Fernanda explica que em muitos clubes, a ideia do rugby ser um esporte masculino era muito forte e que acabavam não desenvolvendo a equipe feminina.

No início, o clube não possuía dinheiro, os investimentos vinham do próprio bolso das meninas, mas a vontade de jogar com as outras equipes era enorme. Na época, elas não tinham com quem jogar no Rio Grande do Sul, então jogavam com os times mais próximos, que era em Santa Catarina. A Roberta e a Fernanda lembram, com certa nostalgia, que treinavam três vezes por semana para um torneio amistoso que acontecia uma vez por ano. Até que, anos depois, começaram a jogar com times do Uruguai e Argentina, só não conseguiam ir para São Paulo porque era muito caro.    Com o passar dos anos, a equipe se cansou de jogar amistoso: então guardaram dinheiro, e conseguiram participar do primeiro Campeonato Nacional de Rugby Sevens. O tempo passou e elas sempre ficavam em segundo e terceiro lugar, até que em 2014, foram campeãs. As maiores dificuldades para a criação do time feminino foram o desconhecimento do esporte por parte da população, -na época o esporte não era nem veiculado na televisão e não existiam campeonatos consolidados- da estética violenta que as pessoas associam o esporte e do medo dos pais, principalmente quando os atletas eram crianças e adolescentes.

A treinadora do Centauros Rugby Clube, de Estrela, no Rio Grande do Sul e ex atleta do Bandeirantes Rugby Club, de São Paulo, Caren Castilhos, acredita que há um preconceito principalmente em relação ao esporte, independentemente do gênero, mas “quando o contato é masculino, todo mundo gosta e acha legal, mas quando é o feminino, causa estranheza”.

Beatriz Futuro Mühlbauer, atleta do Niterói Rugby Football Clube, em Niterói, e que atualmente está na Seleção Brasileira de Rugby, sempre foi apaixonada por esportes. Um dia foi assistir a sua irmã, também jogadora de rugby, Cristiana Futuro Mühlbauer, em uma partida. Ainda menina, já que na época tinha 13 anos, se interessou pelo esporte e, com medo, começou a treinar, se apaixonou e nunca mais parou. Beatriz sempre praticou natação, corrida, futebol, mas a “cultura do rugby” a conquistou: “É um esporte que tem os valores muito sólidos, eles são muito pregados: é a disciplina, o respeito, a lealdade, o espírito de jogo”.

Júlia Sardá, que entrou no Desterro Rugby Clube em 2004 e, atualmente, é atleta da Seleção Brasileira de Rugby, diz que a prime

ira impressão que teve no esporte nunca foi o medo, ela se apaixonou pelo esporte já no primeiro treino. Júlia jogava basquete na Universidade, mas sentia falta de praticar esporte de contato. “As pessoas do rugby são muito boas, todo mundo tem respeito por todo mundo, sempre me senti muito à vontade”, diz.

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No dia 1º de maio, realizou-se na Sociedade Hípica Porto Alegrense, a 2ª Etapa Festival Formativo Feminino de 2016. O evento, que tem como objetivo instruir as novas jogadoras, reuniu várias atletas dos clubes de Rugby Sevens do Rio Grande do Sul.  (Foto: Kimberly A. Wojcik )

Luiza Campos, jogadora do Charrua Rugby Clube e da Seleção Brasileira de Rugby Sevens, se sente muito bem jogando o esporte. “Parece que nada é impossível, me sinto meio que uma super heroína”, complementa. Luiza, que já faz parte de uma nova geração de jogadoras, diz que nunca gerou espanto de forma negativa quando falou para alguém que pratica o esporte.

 O Feminino e o rugby

Falar sobre mulher no esporte é um tema muito profundo e desafiador, porque envolve questões culturais que transcendem o corpo físico e a dedicação da atleta, principalmente referente aos de alto rendimento, como o Rugby. Nunca antes no mundo a mulher esteve em tantos espaços que antes eram considerados masculinos. Na engenharia, na medicina, na academia, na segurança foram ocupados: e no esporte não seria diferente.

No dia 1º de maio, realizou-se na Sociedade Hípica Porto Alegrense, a 2ª Etapa Festival Formativo Feminino de 2016. O evento, que tem como objetivo instruir as novas jogadoras, reuniu várias atletas dos clubes de Rugby Sevens do Rio Grande do Sul.  (Foto: Kimberly A. Wojcik )

Jogadora de rugby há 13 anos, Lúcia Ferreira diz que muitas pessoas já trataram a questão da mulher no rugby com desconfiança e preconceito. Quando ela começou a jogar, muitas pessoas não tinham conhecimento exato do que era o esporte. “Era mais uma questão de ser um esporte com um nome estranho e um tanto excêntrico”, afirma ela. Quando descobriam do que se tratava o rugby, perguntavam se ela não sentia medo de se machucar. Lúcia relata que já disseram para ela que “o rugby não era esporte para mulher jogar”

Beatriz Futuro também relata ter escutado “o discurso de que o rugby é agressivo e que não é esporte para menina” durante os 18 anos que o pratica. “A partir do momento que uma menina joga Rugby com outras meninas, então ele passa a ser um esporte de menina”, afirma com convicção. Ela diz que muitos confundiam o próprio nome do esporte, chamavam de “rengui” ou “rungui”, mas que com o passar do tempo, as pessoas reformularam os seus conceitos com o esporte, por compreendê-lo melhor e pelo espaço que as equipes femininas conquistaram. Principalmente depois das competições que ganharam.

Lúcia comemora dizendo que o “desenvolvimento da modalidade é algo inimaginável, o rugby cresceu nos últimos anos”. Pela primeira vez na história, uma partida de rugby foi transmitida em uma emissora de televisão aberta no Brasil, em abril de 2016, por exemplo. A Confederação Brasileira de Rugby fechou com a RedeTV! a transmissão de duas partidas da Seleção Brasileira de Rugby XV masculina pelo Torneiro Sul Americano. A atleta acredita, porém, que já houve mais incentivo, por parte da Confederação, para o avanço do rugby feminino no país. “Infelizmente com a nova gestão da CBRu, o feminino foi renegado a um segundo plano, mesmo tendo os melhores resultados internacionais que o masculino. Hoje praticamente toda a verba da CBRu é destinada à seleção masculina e ao desenvolvimento masculino. É só observar as campanhas publicitárias da CBRu e o que aparece na mídia”. Lúcia relata que essa realidade não é apenas do rugby, mas do esporte de uma maneira geral.

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Cartaz na Sede do Charrua Rugby Clube na Hípica Porto Alegrense  com os valores do Rugby. (Foto: Laura Berrutti)

Jogos Olimpicos

A primeira aparição do Rugby ocorreu durante os Jogos de 1900, em Paris, voltando a ser disputado em Londres 1908, Antuérpia 1920 e Paris 1924. Após esta edição, o Comitê Olímpico Internacional retirou o esporte do programa olímpico. Depois de 92 anos, o esporte volta para a Olimpíada na modalidade Rugby Sevens a partir dos Jogos de 2016.

Lúcia Ferreira diz que irá ser um grande desafio para a Seleção Brasileira Feminina participar das Olimpíadas, jogar de igual para igual com as melhores “seleções do mundo”. Ela acredita que a equipe brasileira teria que se superar muito para conseguir pensar em uma medalha, porque o Brasil está atrás de países mais tradicionais no esporte. Depois de anos jogando e auxiliando a parte técnica da seleção feminina, ela comemora. “Mesmo assim, as meninas têm uma grande chance de fazer ótimos jogos na Olimpíada e deixar os torcedores orgulhosos, porque sei que elas darão no mínimo 100% em cada jogo, se entregarão de corpo alma e lutarão muito por cada bola. ”

Quando perguntada sobre as expectativas da equipe para a Olimpíada, Luiza Campos, do Charruas, disse que é a melhor possível. ” No rugby, tudo pode acontecer. A gente se ‘dá’ bem com os outros times, afinal, é um esporte amistoso e todo mundo acaba se ‘dando’ bem. ” Julia Sardá, do Desterro, acredita que “será uma ótima oportunidade para mostrar o que é o rugby ao país e que o Brasil tem rugby de qualidade”.

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  1. Maria Mikaella permalink
    24/10/2016 11:01

    Parabéns pela reportagem e valorização do esporte! Venham todos para o rugby ❤

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