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A base com pouca sustentação

16/05/2016

Por Kayan Moura

O dia 4 de julho de 2014 deixou marcas profundas na história do nosso futebol. Cada vez que a bola encontrava os nós dos barbantes, um som torturador era escutado. Era como o ronco de um colega de quarto, como uma goteira indo ao encontro de uma bacia de alumínio. Como se um alarme de um carro fosse disparado de forma acidental sem ninguém conseguir intervir na situação. O 7×1 aplicado pela Alemanha expôs problemas crônicos do nosso futebol.

Esses problemas eram citados pela torcida e pela imprensa ao longo das temporadas, porém, tínhamos o estigma de país do futebol ao nosso lado e, no imaginário do brasileiro, a habilidade dos nossos jogadores sempre se sobressairia, fazendo com que o que tinha de errado, no quesito administração fosse esquecido. “Nós somos os melhores, quando chega na hora H, ninguém segura a seleção”, dizem os entusiasmados e mal-acostumados torcedores.

Um dos problemas mais evidentes de má administração futebolística existente no Brasil é o futebol de base. O jovem chega ao nível profissional sem ter tido toda a formação que deveria. Há a impressão de que os clubes apenas torcem para que surja uma grande estrela, mais um fator que tapa a cratera aberta nos níveis menores do nosso futebol.

Ironicamente, a maior referência de que o futebol de base rende frutos no profissional vêm de nossos algozes: os alemães. Preparando-se para receber a copa do Mundo de 2006, a Federação Alemã de Futebol iniciou o século XXI inovando em categorias abaixo do profissional, obrigando 36 clubes profissionais a terem centros de treinados e escolinhas de futebol. Para que o objetivo fosse contemplado, fiscais foram analisar como outros países da Europa enxergavam o futebol de base e, a partir daí, fiscais checavam o cumprimento das recomendações, transformando o futebol alemão numa hiperpotência da atual década.

Além do fato de ser um anfitrião da Copa do Mundo, a iniciativa tomou forma após a vexatória campanha na Eurocopa de 2000, disputada na Bélgica e na Holanda, em que os germânicos amarguraram o último lugar da chave, conseguindo apenas um empate de 1×1 contra a Romênia. Vendo por esse lado, poderíamos ter usado como base a derrota sofrida para a França na Copa do Mundo de 1998. Porém, o brasileiro enxerga futebol com imediatismo, tornando difícil uma ação que renderia frutos a longo prazo, como ocorreu com os alemães.

Quando falamos em futebol de base, vem a mente os grandes clubes, mas acabamos esquecendo que os problemas se agravam quando chegamos nos clubes de menor expressão. Fui até o Estádio Passo D’areia, do São José de Porto Alegre para evidenciar as dificuldades enfrentadas por um clube sem muita receita para investir na base.

O clube não tem capital para investir nas categorias que vão do sub-10 até o sub-14, toda a verba que entra para investir na escolinha é conseguida através da mensalidade que os meninos pagam, num valor de 85 reais. O uniforme também é custeado pelos pequenos jogadores, com o mesmo preço. O time esbarra na dificuldade de recrutar garotos do interior do estado. Segundo o Coordenador da escolinha do São José, Maicon Santos, um menino do interior, quando vem a Porto Alegre, vai optar sempre pela dupla Gre-Nal, fazendo com que o nicho de procura do São José seja a capital e sua região metropolitana, no máximo.

Diferentemente do que acontece em um time grande, as peneiras não são organizadas em períodos pré-determinados, ocorrendo de acordo com a demanda do clube. Cada categoria conta com cerca de 40 jogadores, que, para se manterem na escolinha, devem deixar o clube a par da frequência escolar, para o controle, quando o garoto entrega a ficha de inscrição, precisa mostrar também seu boletim.

O São José não tem alojamento para garotos da escolinha e, a cada viagem do time para o interior do estado, os próprios alunos arcam com as despesas. O valor pago por viagem varia de 35 à 50 reais. Até essa fase, o clube não tem o empecilho de investidores e empresário nas carreiras dos garotos, fator que interrompe muitos caminhos dos atletas.

Desde a derrota na copa passada até aqui, pouco foi feito pela Confederação Brasileira de Futebol para reverter a situação da base, e, principalmente os clubes pequenos acabam tendo que se virar com o pouco que tem para conseguir revelar jogadores. O fato de a mensalidade ser paga deixa a dúvida de quantos garotos com futuro no esporte ficam pra trás pelo fato de não terem dinheiro para arcarem com todo o material.

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