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O Esporte, o doping e os Jogos Olímpicos

04/05/2016

Por Luís Vicente Souza de Medeiros

O professor da Escola de Educação Física e Dança (ESEFID) da UFRGS, Alexandre Nunes é um dos integrantes do comitê de combate ao doping do Comitê Olímpico Internacional durante os jogos do Rio da Janeiro. Ele é um entusiasta do esporte. No entanto, ao traçar um paralelo com o passado, o professor percebe que, além dos habituais espaços de competição e superação física, a propaganda política também se faz presente. Na reportagem ele fala sobre casos e cuidados por parte de atletas e jornalistas.

Breve história de onde chegamos
Quando o esporte passou a envolver grandes cifras financeiras, métodos para transgredir as regras foram elaborados. Como forma de resposta, entidades esportivas criaram laboratórios para analisar a situação dos atletas e para encontrar as “trapaças”. Esse cansativo e exaustivo trabalho é uma briga de gato e rato. Conflito que também vai ter um episódio nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro. Manter a lisura do esporte é uma das preocupações de quem está organizando os jogos e de quem vai assisti-los.
Olimpíadas de Berlim, 1936. Na época, Hitler potencializou a propaganda e os treinos de seus atletas para que os jogos fossem perfeitos. Mesmo com a tentativa de legitimar o mito da supremacia ariana, ela acabou derrotada por Jesse Owens, o negro norte-americano. Do front de batalha da Segunda Guerra Mundial, surge o desenvolvimento de substâncias químicas para auxiliar na resistência dos atletas. A necessidade de recuperação de prisioneiros desnutridos dos campos de concentração também aperfeiçoou o uso dos hormônios anabolizantes. O doping passou a ser cada vez mais utilizado. Ora por motivos políticos, devido a disputa de diferentes forças no cenário mundial; ora por motivos financeiros, devido ao envolvimento de altas cifras e toda uma equipe no trabalho do atleta. A vitória passa a ser uma exigência, pois mistura a realidade do atleta, dos amigos, profissionais e da nação.

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11.ago.36/Associated Press

O Comitê Olímpico Internacional criou, no ano de 1968, uma comissão médica. O objetivo desta instituição seria atuar nas Olimpíadas e realizar a fiscalização. Os trabalhos começaram nos jogos do México no mesmo ano. Desde então, as técnicas de doping continuam a evoluir ao mesmo tempo que as técnicas de controle, dando sequência ao jogo de gato e rato.

Brasil no mapa dos laboratórios antidoping
Todo país sede de Jogos Olímpicos assume o compromisso de criar uma agência nacional de controle de dopagem e montar uma equipe de coordenação. O governo federal criou a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) em 2012. A entidade ocupou o lugar da Agência Brasileira Antidoping (ABA), conforme exigência do Código Mundial Antidoping. Em um vídeo institucional, o diretor executivo da ABCD, Marco Aurélio Klein, explica: “A partir de agora, o controle de dopagem será uma política de governo, no sentido de desenvolver essa prática de forma equânime e justa”. Já o doutor Eduardo De Rose, membro da Comissão Médica do Comitê Olímpico Brasileiro, em entrevista na época da criação da ABCD, comentou: “A transição possibilitará mais recursos do Governo, o que viabilizará avanços no controle do doping. Sempre defendi que essa questão de combate ao doping fosse liderada pelo Governo Federal, como acontece em outros modelos, como no Canadá, por exemplo. Com isso, os custos dos exames realizados pelo LADETEC deverão cair, já que o laboratório deverá passar a ser subsidiado através da UFRJ”.

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Ministério do Esporte/divulgação

O novo organismo tem autonomia diante das diferentes entidades esportivas. Segundo nota divulgada pelo Ministério dos Esportes, o objetivo será implementar uma política nacional de combate ao doping que atenda às regras e às convenções internacionais sobre a matéria e que se preocupe com “a igualdade, a justiça e a saúde dos atletas”.
O Brasil também passou a contar com um laboratório de controle de doping preparado para a análise de amostras destinadas ao controle de doping durante os jogos. O Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD) está credenciado pela Agência Mundial Antidopagem (sigla inglês Wada) e pode ser usado nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio-2016. Segundo o comitê olímpico, funcionará 24 horas, sete dias da semana. Localizado no polo de química da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o LBCD integra, conjuntamente com outros laboratórios, o LADETEC. Atualmente, o LBCD conta com uma equipe formada por cerca de 80 profissionais, entre professores, pesquisadores e técnicos especialistas em operações de controle de dopagem.
De acordo com a Wada, o laboratório passa a ser o 34º do mundo e é o segundo na América do Sul (o outro fica em Bogotá, na Colômbia). Questionado sobre o trabalho no área de doping da Rio-2016, Alexandre Nunes brinca: “Como acontece com as obras, houve atrasos na formação e início de trabalho do comitê. No entanto, estamos trabalhando muito e temos a certeza que faremos um ótimo trabalho.” O professor ainda lembra que, durante os jogos, haverá a presença de profissionais de outros países com diferentes experiências – até mesmo em outras olimpíadas – o que é positivo para o desenvolvimento do país.

A coleta de material
Ao longo dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio-2016, o Comitê estima que serão realizadas 5.500 análises de amostras para controle de dopagem. Uma lista de substâncias proibidas elaborada pela Agência Mundial Antidopagem, em vigor desde 1º de janeiro de 2016, será a guia destes exames. A lista em português pode ser facilmente acessada no site da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem. Conforme Alexandre Nunes, o controle de doping não é feito apenas durante as competições. Os atletas costumam ser periodicamente chamados para realizar os exames e sem aviso prévio. O processo é sempre o mesmo.
A partir do momento em que o atleta é notificado de que foi selecionado, o profissional de dopagem o acompanha ao longo de todos os procedimentos. É feita a coleta de sangue ou urina do competidor, sendo verificada de perto pelo profissional. Após, o atleta preenche um formulário. O kit da coleta de urina possuiu um recipiente coletor e uma caixa com dois frascos. Depois de distribuir a urina – no mínimo 60ml entre os dois frascos – eles são fechados, lacrados e colocados na caixa, que também é lacrada. Até que o processo esteja encerrado, o atleta tem por obrigação mantê-lo sob observação constante. Após o lacre, as amostras são transportadas sob um rigoroso procedimento que garante a segurança e a manutenção das características do material, até que chegue a um laboratório credenciado pela Agência Mundial Antidopagem. Nos Jogos Olímpicos, o material vai ficar armazenado em caixas térmicas para depois ser enviado ao laboratório para análise. Em caso de resultado positivo, o atleta é notificado e tem um prazo para apresentar sua defesa e manifestar se quer ou não realizar a contraprova.

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Luiz Roberto Magalhães http://admin.brasil2016.gov.br/pt-br/noticias/autoridade-brasileira-de-controle-de-dopagem-promovera-2500-testes-no-brasil-em-2015 <acessado em 27.abr.2016>

Nesse ponto, Alexandre Nunes é crítico em relação ao trabalho dos órgãos de comunicação: “A imprensa se apressa em julgar e arrumar condenados. O que é um erro. Todos temos o direito de apresentar o erro e o doping é algo muito complicado. Pequenos deslizes podem ser cometidos e comprometer a carreira do atleta”. O professor relatou casos como de atletas que acidentalmente foram contaminados no contato de amigos ou conjugues que usavam cremes com substâncias proibidas. Para Alexandre, o recente caso de doping do nadador Cesar Cielo foi de uma contaminação cruzada do laboratório que produz o suplemento que ele sempre usou.

Alexandre comenta que, constantemente, enfrenta questionamentos sobre a capacidade física dos esportistas. “Normalmente escuto que é impossível o atleta não tomar nada e ter aquela força”. No entanto, o professor garante que eles alcançam marcas assustadoras porque foram privilegiados biologicamente. Professor de Judô, Alexandre exemplifica a questão com o caso de João Derly, judoca e bicampeão mundial da categoria meio-leve: “João tinha uma força imensa, perceptível nos exercícios. Ele fazia exercícios na barra com duas vezes o peso dele”. E brinca: “O Doping auxilia os super atletas a tirar uma pequena diferença. Um ‘pangaré’ como a gente não vai fazer diferença alguma”.

A Confederação Russa e os casos de dopagem
Recentemente envolvida em um grande escândalo de doping, a Rússia voltou a ter seu nome relacionado ao uso de substâncias proibidas. No caso, a substância Meldonium e a tenista Maria Sharapova são as principais atrizes. O Meldonium, também conhecido como mildronato, é conhecido do mundo científico. Foi elaborado na década de 1970, na ex-União Soviética, e usado pelo exército soviético para o tratamento de diabetes e a prevenção de doenças cardíacas. No mundo esportivo, melhora o desempenho e favorece a circulação do sangue. A tenista russa foi pega com a substância em março e ficaria fora dos Jogos do Rio. No entanto, uma reavaliação do comitê olímpico confirmou, por testes preliminares, que o meldonium pode levar meses para sair do corpo. Portanto, a Wada vai considerar uma janela entre 1º de janeiro e 31 de março e não punirá atletas positivos no período. A decisão foi recebida positivamente pelo comitê olímpico russo. A expectativa é de que competidores sejam anistiados e voltem ao páreo nas Olimpíadas. Para o professor Alexandre Nunes, julgar os atletas em relação ao uso do meldonium é um erro. A substância era de uso recorrente na Europa Oriental. Segundo dados da Wada, desde o início do ano, 150 atletas já foram pegos com a substância em exame antidoping. A nadadora Yuliya Yefimova, medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Londres-2012 também testou positivo para a substância.

O legado do esporte
Antes de entrar no tema doping nas olimpíadas, Alexandre Nunes fez uma explanação sobre a importância dos Jogos Olímpicos no Brasil. Ressaltou a capacidade do esporte de transformar a vida dos jovens e o compromisso dos profissionais de educação física de trabalharem pelo esporte. Indicou o site do Rio-2016 que está limpo e muito bem construído. O professor relatou experiências passadas, tanto de aluno como de professor do Colégio de Aplicação UFRGS de Porto Alegre, para exemplificar o esforço para possibilitar aos jovens o contato com as modalidades olímpicas. Mesmo que não houvesse estrutura suficiente para a prática, ele usava da criatividade para transpor barreiras. O esporte tem um grande compromisso com a sociedade de proporcionar a saúde e transmitir o respeito. Dois pontos que não convivem com a prática da dopagem no esporte.

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UFRGS

http://www.ufrgs.br/esef/site/noticia/219_Professor_da_ESEF_recebe_convite_da_Academia_Brasileira_de_Treinadores <acessado em 27.abr.2016>

Link relacionado: http://www.cob.org.br/

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