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Nostalgia em verde e branco

19/07/2015

Aos 87 anos, o fotógrafo Alceu Feijó relembra um amor perdido: o Football Club Esperança

Luís Francisco Caselani

Manto esperancista: Alceu Feijó honrou a camisa alviverde nas arquibancadas e dentro das quatro linhas Crédito: Juliana de Brito

Manto esperancista: Alceu Feijó
honrou a camisa alviverde nas
arquibancadas e dentro das
quatro linhas
Crédito: Juliana de Brito

Domingo, 16 horas. O horário nobre do futebol brasileiro atrai os mais diversos tipos de torcedores para arquibancadas e sofás. Os olhos de alguns, porém, mantêm-se frios e desinteressados. O jogo ainda lhes agrada, faz parte de suas vidas, mas falta-lhes a emoção de ver em campo aquele time que encantou sua infância. Esse é o caso do repórter fotográfico Alceu Feijó. Hoje, aos 87 anos, ele se vê órfão de seu amado Football Club Esperança, de cujas décadas de vida ainda lembra com carinho.

A equipe alviverde foi fundada no dia 10 de maio de 1914 para representar o bairro Hamburgo Velho, reduto da elite germânica no então segundo distrito de São Leopoldo (mais tarde o município de Novo Hamburgo), no Vale do Rio dos Sinos. A agremiação surgiu como um contraponto à criação do Sport Club Novo Hamburgo, time alvianil da região central da cidade organizado por um grupo de trabalhadores do ramo calçadista. Configurava-se o início de um grande antagonismo que logo excederia as quatro linhas. “A rivalidade entre os dois times era muito grande, tanto social quanto comercialmente. Os torcedores do Novo Hamburgo não compravam produtos dos curtumes de Hamburgo Velho e vice-versa”, recorda Feijó.

A competição social entre as duas localidades, já existente nas décadas anteriores, ganhava agora as cores verde e anil. A paixão pelos clubes se transformava em um sentimento de pertencimento ao respectivo bairro. Os duelos dividiam a cidade. “Era uma rivalidade tremenda, porque o município se resumia apenas a Novo Hamburgo e Hamburgo Velho. Então metade da cidade era Novo Hamburgo, metade era Esperança. Os rapazes de um bairro não podiam nem namorar meninas do outro”, conta Feijó.

Jogador e presidente Natural de São Francisco de Paula, Feijó se mudou para Novo Hamburgo com sua família aos 13 anos. Na época, ele estudava em Porto Alegre e passava apenas os finais de semana com seus pais. Foi em seus momentos de lazer que teve início sua relação com o Esperança. No mesmo ano em que sua família se instalou na cidade, o garoto Alceu passou a treinar no time juvenil do clube. Feijó assegura que sempre fora um zagueiro voluntarioso. “O futebol não tem mistério. A pessoa ou tem Manto esperancista: Alceu Feijó honrou a camisa alviverde nas arquibancadas e dentro das quatro linhas Crédito: Juliana de Brito facilidade para jogar com os dois pés, ou então só com o direito ou só com o esquerdo. Eu jogava mal com os dois, mas tinha muita dedicação”, brinca.

Sua paixão esperancista não parou mais de crescer. Feijó passou a ser frequentador assíduo das arquibancadas do estádio 10 de Maio – inaugurado em 1942 com vitória de 3 a 1 sobre o Grêmio. E passou a viver, como todo bom torcedor, momentos de alegria e decepção, quase todos envoltos no clássico da cidade. “Lembro uma partida em que perdemos para o Floriano (nome utilizado pelo Novo Hamburgo durante a Segunda Guerra) por 1 a 0. Com o empate, o Esperança seria campeão municipal. Faltando cinco minutos para o jogo terminar empatado sem gols, saí do campo deles no Centro, peguei minha bicicleta e toquei para Hamburgo Velho para comemorar. Cheguei ao reduto do Esperança, na antiga estação férrea, e não tinha ninguém ali. Isso porque passaram os cinco minutos, passaram sete, mas o juiz continuou o jogo até arrumar um jeito de o Floriano ganhar”, recorda com desgosto.

Mas seu envolvimento não se ateve apenas ao lado torcedor. Foi em partidas do Esperança que começou a tirar suas primeiras fotografias esportivas, mas principalmente foi no Esperança onde se tornou jogador profissional e até mesmo ocupou o cargo de presidente. Feijó chegou inclusive a exercer as duas funções simultaneamente, como em sua última partida vestindo a camisa alviverde. A amarga derrota por 4 a 2 para o Santa Cruz, no estádio dos Plátanos, não lhe sai da memória por um motivo bem peculiar: o zagueiro-presidente Feijó pendurou suas chuteiras anotando um golaço contra. “A bola veio em minha direção e eu fui mandá-la para o nosso campo de ataque, mas peguei com o lado do pé e dei um balãozinho no nosso goleiro. Um gol sensacional. Pena que contra”, recorda. Os jogadores do Santa Cruz fizeram questão de abraçá-lo. “Muito obrigado, presidente”, agradeciam.

Os últimos chutes

Feijó estava a trabalho na Europa quando soube do fim do Esperança. O clube fechou seu departamento de futebol no final da década de 1960, sem nunca ter se transformado em uma grande força do interior gaúcho. O ponto alto da equipe foi o terceiro lugar no Estadual de 1945, quando o time liderado pelo centroavante Geada perdeu a semifinal para o Pelotas na prorrogação. O futebol esperancista, que perdeu o entusiasmo ao longo do século em virtude da preferência da elite do bairro Hamburgo Velho por outros esportes, teve sua pá de cal em 1974, com a venda do estádio 10 de Maio.

O clube ainda sobreviveu como Sociedade Esportiva Esperança, em uma nova sede afastada do local de origem, mas se destacando mais por seus eventos sociais e suas competições de bicicross e motocross. A iniciativa durou algumas décadas, mas se esvaiu com o tempo. Sob o olhar nostálgico de Feijó, porém, seus antigos álbuns sempre guardarão fotografias reais e imaginárias de uma época em que o futebol ainda lhe significava mais do que um simples esporte; representava uma paixão. Sob seu olhar nostálgico, o Esperança será sempre o último a morrer.

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