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Racismo no Futebol: acabou ou saiu da mídia?

16/07/2015

Por Bruno Teixeira

O Comentarista e ex-árbitro de futebol, Márcio Chagas da Silva, e o jornalista Luís Henrique Benfica analisam a repercussão midiática dos casos de racismo no futebol.

As injúrias raciais proferidas ao goleiro Aranha durante partida entre Grêmio e Santos, em Porto Alegre, pelas oitavas de final da Copa do Brasil 2014, ganharam destaque nacional por meio das coberturas dos veículos de imprensa. O episódio obteve atenção até então inédita por parte de grandes veículos, sobre um caso de racismo, ao pautar – durante semanas, capas, páginas e reportagens de jornais e portais na internet, entrevistas em programas de rádio e televisão, além de debates nas redes sociais. Quase um ano depois, casos de racismo ainda ocorrem no futebol, porém a repercussão midiática parece ter perdido a força.

O caso, que envolveu o goleiro Aranha, ocorreu após uma sequência de episódios de racismo iniciada em março, do mesmo ano. Naquele mês, o meio-campista Tinga, do Cruzeiro, sofreu ofensas racistas por parte de torcedores do Real Garcilaso, do Peru, em partida válida pela Copa Libertadores da América. Menos de um mês depois, foi a vez do, também, meio-campista Arouca, na época jogador do Santos, ser vítima dos insultos racistas durante partida contra o Mogi Mirim. Ainda em março, o árbitro Márcio Chagas da Silva foi ofendido por torcedores do Esportivo de Bento Gonçalves, em de partida do Campeonato Gaúcho. Após o jogo, Chagas encontrou seu carro, que estava em um local protegido no estádio,  danificado e sujo  com bananas. O ato redeu punição ao clube anfitrião, mas mesmo assim, 25 dias depois – em partida do mesmo campeonato, um torcedor do Grêmio ofendeu o zagueiro Paulão, do Internacional, imitando o som de um macaco.

Entre os casos citados, além do episódio  ocorrido com o goleiro Aranha, as ofensas racistas ao ex-árbitro Márcio Chagas da Silva foram as  únicas a  render coberturas mais aprofundadas por parte dos veículos de imprensa e a resultar em punições que foram além de multas. Em abril de 2014, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) puniu, por cinco votos a três, o Esportivo com a perda de seis mandos de campo, multa de 30 mil reais e a supressão de nove pontos na tabela, fato que resultou no rebaixamento do clube para a divisão de acesso do Gaúchão. Três dias após o julgamento, no dia 13 de abril, Márcio Chagas apitou o certame final entre Internacional e Grêmio pelo título gaúcho. Contudo, o apito que sacramentou a conquista colorada, também anunciou o fim da carreira do juiz.Eleito pela quinta vez o melhor arbitro da competição, aos 37 anos, Chagas decidiu encerrar sua carreira e aceitou a proposta da RBSTV para ser comentarista de arbitragem.

Formado em Educação Física, casado e pai de um menino de dois anos, Márcio Chagas já havia denunciado por duas vezes ofensas racistas dirigidas à ele. Em 2005, durante partida entre Caxias e Encantado, denunciou as agressões por parte do técnico do time visitante, que lhe chamou de “macaco imundo”. No ano seguinte, foi novamente atacado, dessa vez pelo goleiro do Cruzeiro RS. Em ambos os casos, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) puniu os agressores. Para Márcio Chagas, a denuncia é um fator fundamental para que existam punições e uma maior atenção da mídia. Em sua casa, ele falou sobre os fatores que fizeram as agressões sofridas em Bento Gonçalves ganharem grande repercussão e por que muitos casos não ganham a devida visibilidade.

Crédito: Diego Vara Zero Hora

Crédito: Diego Vara Zero Hora

Existem muitos casos de racismo no futebol, mas a grande maioria não ganha a repercussão devida. Para você, por que isso acontece?

Márcio Chagas da Silva – Acredito que tenha sido em função de eu ter exposto e por ter acontecido na sequência de vários fatos que se sucederam. Aconteceu duas semanas antes com o Tinga, no Peru, aconteceu comigo numa quarta-feira, com o Arouca numa quinta e ali foi um alerta de algo já vinha acontecendo não apenas no futebol, mas que acontece no dia a dia de várias pessoas e combinado a preocupação com a realização da Copa do Mundo, no Brasil,  tendo esse tipo de preconceito que a gente combate há tanto tempo.

O fato de, muitas vezes, a vítima não prestar queixa colabora para que os veículos não deem a devida atenção para os casos?

Não entendo, mas compreendo que algumas pessoas não levem adiante com medo de represálias, o que acontece. E quando a vítima não se mostra incomodada com isso, não vira uma matéria , não vira interesse público essa manifestação contrária de quem sofre. Então, eu acredito que muito tenha a ver com o fato de muitas pessoas não se manifestarem por terem medo de represálias futuras.

O simples fato de ter ocorrido uma injúria racial não deveria ser de interesse público?

Com certeza! Nós estamos em 2015, 127 anos após a abolição – em 1888, mas a gente sabe que a posição do negro na sociedade ainda é muito inferior a do branco, e os negros, atualmente, estão mais conscientes e com mais chances  de saírem um pouco da clausura. Isso faz com que a mídia observe um pouco mais o fato do negro não estar mais aceitando essas injúrias racistas, que até então eram aceitas como normais.

A naturalização contribui para que esses casos sejam recorrentes no esporte e na sociedade?

Acredito que sim! Enquanto que o negro não achar o seu lugar e ficar aceitando migalhas, como, normalmente, acontece esses fatos continuarão ocorrendo. Eu  li , após o que aconteceu comigo, e vi que muitas coisas são um processo histórico do inconsciente coletivo, as ofensas, as brincadeiras de cunho racista que normalmente eu sofria, e ainda vou sofrer, são preconceitos que meus pais e avós também passaram e não teve uma barreira para chegar no patamar de dizer não.  Acredito que com o  acesso que os jovens negros (às universidades)  fará com que a conscientização seja maior daqui há alguns anos e seja reflexo para as próximas gerações.  Eu espero que seja para o meu filho também.

Você acha que existe uma grenalização da causa?

Falta muita maturidade e conhecimento por parte das pessoas que tratam o racismo de forma banal. O racismo é um crime que está no código penal e deve ser respeitado. Já a grenalização, em relação aos fatos que acontecem no nosso estado, como o que ocorreu  com o goleiro Aranha, esse ano teve um fato com o lateral esquerdo do Internacional, Fabrício, onde já quiseram emparelhar a questão racial – sem ter as imagens para dizer se houve ou não injúria racial. Até nisso se quer empatar. Deveria ser feito um trabalho de conscientização nos clubes, de educação nas escolas, nas famílias , e ter uma maior punição nos clubes, com relação ao código desportivo, porque  fatos como os que aconteceram no ano passado podem se repetir ou se tornarem corriqueiros e banais. Nem os dirigentes tem consciência sobre a posição do negro na sociedade.

Recentemente tivemos um caso de injuria racial na Ginástica Olímpica, com o caso de atletas que ofenderam seu colega que é negro e foram punidos. Você acha que no futebol as punições não ocorrem?

Falar de futebol é falar de um mundo a parte. Tem um certo paternalismo em relação aos atletas e isso faz com que aconteça e passe batido. Isso aconteceu em um tom de brincadeira e ainda bem que foi filmado, se não ficaria só na palavra. Deu pra perceber que por meio das brincadeiras se fala algumas verdades.  No futebol, mascara-se muito essa questão da posição do negro. Muitos aceitam porque almejam chegar ao patamar de um grande astro do futebol mundial, que ´é o objetivo de todo atleta, e se sujeitam a muitas situações. Não é só na ginástica olímpica, se for investigar nas categorias de base ou até mesmo com atletas profissionais esse fato acontece frequentemente.

O negro é pouco representado na mídia?

Não só na mídia, como na sociedade. Na mídia percebe-se bastante a falta de negros, até para que a gente possa se identificar. Eu costumo dizer que na minha infância a única repórter negra que eu via era a Glória Maria. Já na minha adolescência, o Heraldo Pereira no jornal nacional e agora a  Maria Júlia. Isso é algo que falta para nós negros. Para que a gente possa se espelhar para chegar ou almejar o mesmo patamar que eles alcançaram. Nós nos  acostumamos a ver negros sempre em uma posição de destaque no esporte ou na música. É como se fossemos limitados a certas funções, quando na realidade é uma questão de oportunidades. É o que está acontecendo hoje nas universidades em função do Prouni, do Enem, das cotas, que são assuntos muito debatidos e contestados , por a gente ter conseguido um espaço que era muito difícil e reservado para uma minoria e não para a maioria, como nós somos na realidade.

Neste ano, Aranha e Arouca voltaram a sofrer racismo. No entanto, os casos não tiveram a mesma repercussão.

Muito tem a ver o desinteresse dos ofendidos em se manifestarem e com o fato das penas serem brandas em relação às injúrias raciais e o próprio racismo no nosso país, de não haver respeito ao código penal. Hoje, tem muito valentão de Facebook, de Twitter, que expressa toda a sua fúria através de palavras. E foi o que aconteceu com esses jogadores quando saíram do Santos, reivindicando salários atrasados e direitos de imagem. Eles poderiam ter ofendido esses jogadores como ocorre com jogadores brancos, mas ali a questão racial pesou.

No caso Aranha, as primeiras notícias rederam grandes reportagens, mas com o passar do tempo foram reduzidas a notas. Para você, quais os motivos dessa redução? Eu particularmente vejo como um desinteresse público . No início há uma comoção pelo factual e aos poucos a situação vai se diluindo porque não tem uma punição imediata. As ações investigativas vão reduzindo ao longo do tempo e o interesse da mídia perde o foco.

Para o futuro, de que maneiras essa situação pode mudar?

Eu torço para que o ingresso dos negros nas universidades faça com que esse quadro modifique. Vai ter uma representatividade muito mais forte de pessoas intelectualmente mais capazes de lutar por interesses comuns. O ingresso dos negros em várias áreas vai desmitificar essa história de que o negro é incapaz para determinadas profissões. Que não tem condições intelectuais para exercer algumas profissões no mercado de trabalho. Óbvio que ainda é uma utopia, pois mesmo com essas oportunidades sendo dadas aos negros, o cerco cada vez se fecha mais e a cobrança é cada vez maior também. E a gente sabe que dentro das universidades públicas, o fato dos alunos cotistas estarem inseridos nesse contexto faz com que muitos professores não aceitem ou até cobrem em demasiado a presença desses negros. Mas eu estou feliz. Cada vez que vou à Fabico vejo um movimento dos negros dentro da universidade federal, que era algo restrito se a gente for analisar há vinte anos atrás.

Dentro do futebol, fora os jogadores – que são muitos, os treinadores ainda enfrentam essa grande barreira. O Grêmio, recentemente, contratou o Roger, mas quando o Cristóvão foi cogitado novamente surgiu a pergunta, onde está o Andrade e tantos outros? Na arbitragem também são poucos negros…

– No RS, não há mais nenhum. E a nível nacional tem o Luiz Flávio de Oliveira, que é irmão do Paulo Cesar, tem o Delson (Freitas), que é do Pará. De Ponta são esses.

Vocês encontram a mesma dificuldade que os técnicos?

É bem parecido. A arbitragem tem um mercado bem restrito e a cobrança é muito maior. Então, um erro de um negro se põe em uma escala dez vezes maior do que o erro de um branco. E vem a tona a questão da raça sempre em tom de brincadeira ou até em um tom real. É uma pirâmide social no meio do futebol. Eu vejo os presidentes como senhores feudais, e a camada de baixo são os jogadores, que são as massas de manobra que aceitam pacificamente a determinação de seus senhores.

Experiente na crônica esportiva gaúcha, Luís Henrique Benfica, repórter do jornal Zero Hora e da rádio Gaúcha, também analisou a atuação da imprensa na repercussão de casos de racismo no futebol. 

Crédito: Blog do Editor ZH

Crédito: Blog do Editor ZH

Bruno Teixeira – Em sua opinião, por que a maioria dos casos de racismo no futebol não ganha grande repercussão na imprensa?

Luís Henrique Benfica – Por se tratar de um tabu. Nosso país tem um absurdo viés racista, foi o último a abolir a escravidão. Logo, a inserção desse tema no debate ainda provoca resistência. E os veículos de comunicação ainda refletem muito dessa mentalidade conservadora.

A agressão ao árbitro Márcio Chagas da Silva e as ofensas ao goleiro Aranha ganharam grande cobertura dos veículos de imprensa. Quais fatores diferem estes casos dos demais?

Sem dúvida, a visibilidade dos dois ofendidos.

Por que os dois casos começaram com grande repercussão e foram perdendo força? Por exemplo: as decisões judiciais referentes aos acusados foram, em geral, noticiadas em notas.

Essa é uma prática recorrente do jornalismo, e não apenas para casos de racismo. Se viraram notas, é porque a sentença foi mais branda do que o caso poderia exigir.

Quando a vítima não faz o boletim de ocorrência, fica mais difícil de seguir com a cobertura?

Certamente. Mas, a rigor, falta “perna”, como se costuma dizer, para cobrir tantos casos, nas mais variadas esferas.

Existe uma “grenalização” dos casos racismo no futebol? Quando um clube é “punido”, a punição é vista por torcedores como um ato de perseguição ao clube e não como medida socioeducativa? Há jornalistas que seguem este pensamento?

Torço para que não exista, mas não posso desconhecer que, por vezes, alguns jornalistas são traídos pelo coração. Muito mais aqueles identificados com algum clube. A maioria é movida pelo desejo de combater o racismo.

Você é a favor de punições para os clubes?

Sim. Trata-se da única maneira de fazê-los assumir suas responsabilidades. Cabe a eles auxiliar na identificação dos infratores, o que raramente fazem.

No último ano, você e o seu irmão sofreram injúrias raciais por parte de um ouvinte. Muitas vezes, o anonimato possibilita aos ouvintes/ leitores proferirem ofensas . Para você, como é lidar com esses casos?

Extremamente constrangedor. Chegar ao terceiro milênio vendo que ainda se diferencia uma pessoa de outra pela cor é deprimente.

A naturalização do racismo e a paixão pelo futebol podem atrapalhar o debate sobre racismo no futebol, na imprensa?

Sem dúvida, atrapalham. Mas é perceptível que há hoje muito mais gente tratando de denunciar. A construção é longa, mas vale a pena.

A inserção de negros nos meios de comunicação pode mudar esse panorama?

Já está mudando. E a pressão das redes sociais também influi diretamente na abordagem do tema pelos jornais e outros meios.

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