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O que eles querem do futebol brasileiro é compreensão

15/07/2015

Por Leonardo Baldessarelli

Ricardo Borges Martins e o Bom Senso F.C.

Ricardo Borges Martins. Foto: arquivo pessoal

Ricardo Borges Martins. Foto: arquivo pessoal

Vive-se em um dos momentos mais complicados da história do futebol brasileiro e mundial. O esporte está em crise dentro do país, depois da seleção ser derrotada por 7 a 1 para a Alemanha durante a Copa do Mundo de 2014 e ser eliminada pelo Paraguai nas quartas de final da Copa América de 2015. A noção que perpassa pela opinião popular e pela imprensa na atualidade é de que a seleção está fraca, de que o futebol nacional está fraco, e de que a Confederação Brasileira de Futebol pouco hage para mudar a situação. “Selenike” é um termo comum entre os fãs do esporte, chamando a esquadra nacional de “vendida” ao referir-se à fornecedora de material esportivo Nike. Mundialmente, as recentes descobertas de escândalos de corrupção na FIFA colocaram em dúvida a legitimidade da principal organização do esporte no mundo. Acima de todas acusações e teorias conspiratórias, há uma forte noção de que o futebol nacional é insustentável, e isso já é afirmado e problematizado há dois anos por um movimento: o Bom Senso F.C.

Fundada no meio de 2013, a organização reune jogadores insatisfeitos com a situação atual do esporte no Brasil. Foi a primeira manifestação organizada de profissionais de futebol do país feita apenas por jogadores, sem dirigentes ou trabalhadores de outra área que não o ser atleta. Logo, o movimento estabeleceu um slogan – “por um futebol melhor para quem joga, para quem torce, para quem transmite, para quem patrocina, para quem apita” – e definiu uma série de reinvidicações, pedindo desde um calendário fixo do futebol nacional que sejá mais adequado até fair-play financeiro e participação real dos jogadores nas decisões das grandes entidades que regem o futebol. Nesse tempo, já ocorreram vários protestos por parte dos atletas, e o movimento adquiriu respeito da mídia e dos dirigentes.

Para pensar o momento atual do esporte e do Bom Senso F.C., conversamos com o diretor executivo do movimento, Ricardo Borges Martins. O militante fala sobre o relacionamento com os dirigentes, a cobertura da mídia para o movimento e a situação da corrupção na FIFA, e você lê sobre tudo isso abaixo.

Qual foi o seu primeiro contato com o Bom Senso F.C.?

Conheci o Paulo André em meados de 2013, e logo nos tornamos amigos. Havia muita sintonia ideológica e conversávamos muito sobre movimentos sociais no século XXI, em como a sociedade civil organizada era capaz de incidir sobre as velhas estruturas políticas. Por sua paixão pelo futebol, Paulo foi conversando com outros atletas e especialistas da área sobre a criação de um movimento no futebol, movimento que seria liderado pelos atletas levantando bandeiras de reforma para o esporte. Daí nasceu o Bom Senso FC.

Quando você decidiu fazer parte do movimento?

Em novembro de 2013, dois meses após o surgimento do movimento, os atletas sentiram a necessidade de profissionalizar o movimento – àquela altura havia consultores e assessores ajudando no processo – mas não havia ninguém trabalhando em tempo integral com a causa, tanto é que até ali o movimento não tinha nem CNPJ, nem website e ainda não havia formalizado suas propostas de mudança. Enrico Ambrogini e eu conversamos com o Paulo André, que decidiu nos contratar para auxiliar na coordenação e profissionalização do movimento.

Como você vê a aceitação do movimento dentro dos clubes?

Há clubes e clubes; dirigentes e dirigentes. Há quem seja favorável e dialogue com o movimento, por sorte a maioria. Há aqueles que se recusam a conversar e reconhecer a validade das nossas propostas.

Você acha que a Federação Nacional e os Sindicatos Estaduais de atletas profissionais de futebol representam bem os jogadores?

Não. Acredito que a representação dependa da comunicação constante e direta com os atletas. Isso não acontece com o sindicato dos atletas. O que ocorre em boa parte dos sindicatos é um afastamento da instituição com os atletas. As decisões costumam ser tomadas por poucos e em uma hierarquia muito vertical.

Quais os clubes brasileiros que mais desrespeitam os jogadores atualmente? Há algum caso extremo, em que não há nem tentativa de diálogo com o jogador por parte do clube?

Impossível listar ou fazer um ranking dos mais desrespeitosos. O que existe de maneira geral é um entendimento tacanho sobre o papel do atleta no esporte, como se os jogadores não pudessem ou devessem participar das decisões estruturais do esporte. Aquela velha história: “jogador tem que jogar bola”. Isto se vê, por exemplo, na impossibilidade dos atletas conversarem com o juiz.

O que você acha da cobertura da imprensa para com o futebol? Acredita que o que se discute na mídia é realmente o que mais importa no esporte atualmente?

Não. A imprensa costuma tratar o esporte como mais uma seção da página de entretenimento ou, no máximo, pelo seu caráter estritamente econômico. Não se valoriza os aspectos políticos, sociais e educacionais do esporte.

E o que você pensa da reclamação da torcida de que os ingressos estariam caros demais?

Pessoalmente, acho justa. Mas acho que temos questões ainda mais graves, como a falta de segurança, péssimos horários e problemas com o transporte público, que, somados, afastam o torcedor do estádio e colocam o Brasil atrás de Austrália e Ucrânia no ranking de presença de público nos estádios.

Como vem sendo os comentários sobre a crise da Fifa entre os jogadores e os dirigentes? Chegam a conversar sobre isso? Esperam um efeito real no dia-a-dia do futebol brasileiro?

Os atletas vêm discutindo bastante, na expectativa de que a investigação internacional estimule as instituições brasileiras a irem atrás e apurarem todas as suspeitas de irregularidade no futebol brasileiro.

Como você vê o futuro do futebol brasileiro?

Sou pessimista, mas trabalho para que eu esteja errado.

Seriam as propostas do Bom Senso as melhores para o futuro? Por quê?

Elas são um pontapé inicial. Há muita coisa a ser feita, e vamos continuar lutando para construir as reformas necessárias ao futebol brasileiro.

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