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O JUDÔ ALÉM DO QUE SE VÊ

15/07/2015

Por Paula Schwambach Moizes

As aulas de judô no tatame do Ginásio Bugre Lucena, em Porto Alegre, são mais do que treinamentos de combate. O projeto que a Escola de Educação Física (ESEF) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceira com a Associação de Cegos do RS (ACERGS), realiza com deficientes visuais está completando 10 anos de atividade com uma equipe de professores especializada na inclusão pelo esporte. Mal sabia Jigoro Kano que sua arte marcial fundada em 1886 ajudaria na independência de pessoas cegas ou com baixa visão.

Quem acompanha uma aula de judô do sensei – como é respeitosamente chamado no tatame – Alexandre Velly Nunes, especialmente o exercício de combate em dupla, pode surpreender-se ao saber que ali estão lutando entre si “videntes” e deficientes visuais. Alexandre é ex-atleta e hoje treinador e professor na UFRGS. Em seus ensinamentos, ele nos mostra que, principalmente no judô, é enriquecedor reunir pessoas com visão “normal” e cegos. “No começo, as aulas eram apenas para deficientes visuais, e depois a gente viu que o grande segredo desse nosso projeto é não trabalharmos com uma turma só de deficientes visuais, mas com a integração”, comenta Alexandre. Assim como o portador de deficiência visual pode se beneficiar com o apoio de colegas “videntes”, incluir pessoas cegas ou com baixa visão nesse esporte de combate evidencia o lado pedagógico e educacional do judô. “Educar através do esporte”, como fala Alexandre.

A prática de judô por deficientes visuais ainda está em desenvolvimento no Rio Grande do Sul. Como Alexandre relata, é em 1995 que a Escola de Educação Física da UFRGS abre espaço para a prática de judô por crianças da rede pública. Três anos depois, Alexandre faz um curso na Universidade de Leipzig, na Alemanha, e inicia sua especialização no trabalho com deficientes visuais. Uma primeira tentativa de projeto desse aspecto surgiu por parte de uma aluna, mas durou menos de um ano. Somente a partir do TCC apresentado por Darci Campani, ex-aluno da Engenharia, em 2005, a prática de judô por deficientes visuais se fortaleceu na ESEF, ganhando logo em seguida parceria com a ACERGS.

Sensei Alexandre (à direita) acompanha o exercício dos alunos. Foto: Paula Moizes

Sensei Alexandre (à direita) acompanha o exercício dos alunos. Foto: Paula Moizes

Darci Campani é judoca desde 1973. “Já era formado agrônomo e resolvi fazer o curso de Educação Física porque, cada vez mais, a própria atividade estava me exigindo. Para poder ser técnico precisa ter o diploma de Educação Física”. Foi no decorrer no curso que ele foi se interessando cada vez mais pela área do esporte para deficientes. “A coisa foi andando e, como eu vim pra ESEF por causa do judô, então queria fazer alguma coisa no judô com deficientes”, comenta Campani. O primeiro passo do projeto foi buscar deficientes visuais que quisessem participar das aulas de judô. “Formamos uma turminha de uns cinco ou seis e a gente treinava aqui [ESEF] no sábado de manhã. Todo mundo trabalhava, todo mundo adulto. Foi o núcleo inicial”, diz Campani sobre o início do projeto. “O que a gente conseguiu, pelo fato de ser um TCC, foi fazer esse casamento com a ACERGS. Com a Associação, o judô passa a ser competitivo”.

Campani foi sempre quem esteve à frente do projeto, enquanto Alexandre e os outros professores continuam desenvolvendo uma metodologia que se molda de acordo com as necessidades dos alunos. O projeto executado por bolsistas “tem, entre outros objetivos, formar professores para trabalhar com essas comunidades por meio do judô e do esporte de combate”, diz Alexandre. Há poucos profissionais no Rio Grande do Sul especializados em judô para deficientes visuais. Como Alexandre, muitos dos professores do projeto tiveram a oportunidade de se aprofundarem no tema em cursos no exterior, já que o assunto ainda é pouco estudado no Brasil.

A atenção pedagógica do trabalho realizado na ESEF foi um dos pontos que o presidente da ACERGS, Gilberto Kemer, elogiou ao visitar uma das aulas ministradas por Alexandre. O baixo número de alunos, causado por problemas de acessibilidade urbana, é o que preocupa Kemer. “O deficiente visual, culturalmente, ele é um pouco acomodado e os treinos de judô tendem a ser em locais mais afastados. Em dias de chuva é ainda mais difícil: tem o guarda-chuva, tem a bengala. Não são impossibilitadores, mas são dificultadores”, declara Kemer. Atualmente, o projeto de judô para deficientes visuais da ESEF conta com doze alunos, de diferentes idades, que têm horários disponíveis de segunda a sábado para praticar o esporte junto com os “videntes”. Como a maioria são judocas iniciantes ainda, muitos não têm sua orientação desenvolvida. “É muita gente que não foi reabilitada, que depende de algum familiar pra sair de casa. Não é todo mundo que tem independência e autonomia”, fala Kemer. Durante o encontro do presidente da ACERGS com Alexandre, foi até discutida a possibilidade de custear um transporte coletivo para esses alunos.

Anderson aplicando técnica de combate em colega. Foto: Paula Moizes

Anderson aplicando técnica de combate em colega. Foto: Paula Moizes

Não é o caso de Anderson Wassian da Silva, 16 anos, faixa cinza e estudante do Colégio Santa Luzia. “Moro no centro e vou até a Cavalhada sozinho. Acordo às 6h da manhã e vou pro colégio”, conta. Aos três anos de idade, Anderson teve uma reação alérgica a dois medicamentos. “Fiquei na UTI por um bom tempo”. Hoje em dia, Anderson vê cores, só não consegue enxergar à distância e a luz o atrapalha. Quem o incentivou a praticar judô foi o professor de Educação Física da sua escola.“Ele viu que eu gostava do esporte, da luta principalmente”, explica. É o primeiro ano de Anderson no projeto da ESEF. Antes, ele treinava no Grêmio Náutico União, mais uma das poucas instituições que realizam esse trabalho no Rio Grande do Sul.

A cada treino, Anderson volta pra casa mais independente. Como Campani argumenta, “o judô, pra essa coisa da locomoção, é básico. Qualquer ser humano não gosta de cair. O cego, por não ter noção do que está na frente dele, ele pode vir a cair. No judô, você está toda hora pronto pra cair, é a essência do judô”. Anderson ainda destaca a questão da disciplina ganhou com a prática do esporte: “vim treinar todo dia aqui é uma disciplina, um compromisso. Tipo hoje: tem jogo da Seleção [de futebol] e tá chovendo”, brinca.

O projeto da ESEF acaba de ganhar o apoio do governo para os anos 2015-2016 através do Programa de Extensão Universitária (ProExt), do Ministério da Educação. Armários fornecidos por esse patrocínio já ocupavam a sala em que conversei com Alexandre. Além disso, recursos como esse ajudam a financiar inscrições, uniformes, viagens e atendimentos de fisioterapia oferecidos aos atletas. Kemer critica que “o apoio para o esporte no Rio de Grande do Sul, fora o futebol, é muito pouco. Tem aí a Lei de Incentivo ao Esporte, mas até agora só existe na teoria”. Em vigor desde 2007, a Lei permite que “empresas e pessoas físicas invistam parte do que pagariam de Imposto de Renda em projetos esportivos aprovados pelo Ministério do Esporte” . Mesmo assim, “aqui é muito difícil de você conseguir um apoio de uma empresa ou de um empresário, e do poder público muito menos”, diz o presidente da ACERGS.

Em campeonatos nacionais, a delegação rio-grandense é representada pela sigla UFRGS ACERGS. É a terceira maior delegação de atletas do Brasil. A primeira é do Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, onde o trabalho com cegos e atividades físicas é realizado desde a década de 50. A falta de incentivo por parte do Estado que Kemer fala é um dos principais motivos pelos quais o judô para deficientes visuais no Rio Grande do Sul ainda está engatinhando, mas já dá seus primeiros passos. “Na categoria iniciante já tivemos gaúchos campeões e vice-campeões, mas na categoria dos graduados [faixa preta] a gente tem poucas pessoas que competem nesse nível”, comenta Alexandre.

Uma das únicas alterações do judô “comum” para o judô adaptado é que no último os atletas começam o combate aproximados, segurando o kimono (vestimenta do judô) um do outro. Na competição, eles são divididos por categorias de peso e em três classes que definem o nível de deficiência visual (B1, B2 e B3). Em grande parte dos eventos oficiais, atletas de diferentes classes lutam entre si, ficando apenas separados pelo peso.

Em nível nacional, o Brasil tem crescido cada vez mais. Tanto atletas homens quanto mulheres estão no Top 20 de todas as categorias de peso do ranking da Federação Internacional de Esportes para Cegos (IBSA), atualizado recentemente após a conquista brasileira de quatro medalhas de bronze nos jogos mundiais da IBSA, em Seoul (Córeia do Sul), em maio deste ano. Atletas paralímpicos medalhistas como Williams e Lucia Araujo servem de inspiração para garotos como Anderson, que ressalta: “quero ser um grande atleta, pretendo ir bem longe”.

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