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A Era pós Daiane dos Santos

15/07/2015

Por Camila Viero

Ao som de Brasileirinho, de Waldir Azevedo, o Brasil ganhava um novo ídolo do esporte: Daiane dos Santos. Em 2003, aos vinte anos de idade, Daiane conquistou a primeira medalha de ouro do país em um Mundial de Ginástica Artística, em Anaheim, Califórnia. Na final do solo, apresentando o movimento duplo twist carpado, que ficaria conhecido mundialmente, a ginasta superou grandes nomes da modalidade e eternizou a canção na memória dos brasileiros como um símbolo da vitória.

Além de ter se tornado uma das responsáveis pelo crescimento da ginástica no país, Daiane dos Santos, aposentada desde 2012, colaborou para que o esporte ganhasse maiores investimentos.

Apesar das melhorias, a modalidade ainda enfrenta algumas dificuldades de evolução no Brasil. Fatores como falta de incentivo familiar, dificuldade em descobrir talentos e crianças que tenham bom desenvolvimento motor, são alguns dos pontos que prejudicam treinadores a encontrar ginastas com potencial olímpico.

Em entrevista realizada no Grêmio Náutico União, Adriana Rita Alves, treinadora de ginástica artística desde 1987, conta quais são os obstáculos enfrentados pelos atletas e pelos clubes no esporte, se há incentivos suficientes para um bom desenvolvimento da modalidade no país, e o que é necessário para um atleta tornar-se completo. Confira.

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Adriana Rita Alves (D) com equipe em 2014. Crédito: Assessoria de Comunicação Grêmio Náutico União/Bruno Pantaleoni

Quais são as maiores dificuldades que a Ginástica Artística enfrenta, tanto em relação aos clubes quanto aos atletas, para crescer no país?

Hoje podemos dizer que há um bom investimento, e a Daiane dos Santos foi um marco para isso acontecer. A era pré-Daiane e pós-Daiane teve uma diferença bastante grande do que era e do que se tornou a ginástica dentro do país. Aqui, dentro do clube, temos tudo, desde psicólogo, nutricionista, departamento de marketing, fisioterapeuta, médico, até um ginásio com aparelhos de primeira linha, que fazem parte da última geração de aparelhagens do mundo, então em tremos de investimento, nós aqui no clube estamos bem amparados. E o Brasil como um todo, se formos pensar em seleção e nas Olimpíadas de 2016, também está com um bom investimento. Nossa maior dificuldade, hoje, é a de selecionar talentos. Precisamos de crianças bastante jovens para podermos iniciar o trabalho, e o dia a dia não faz com que os pais saiam do trabalho para trazer uma criança ao clube pela manhã ou à tarde. Além disso, as crianças praticamente não têm o desenvolvimento que nós tínhamos em relação a habilidades motoras de uma forma ampla: coordenação, lateralidade, equilíbrio e flexibilidade, porque nós brincávamos na rua, virávamos estrelinha, plantávamos bananeira. As crianças eram mais ágeis. Hoje, nós selecionamos crianças que têm uma alimentação realmente péssima, a maioria se alimenta de lanches, somente carboidratos, não comem frutas nem verduras, e isso dificulta tudo. Em vários casos, começamos a treinar crianças não sabem pular corda, que não ficam em suspensão, às vezes nem por um segundo, porque não têm força nenhuma, que não caminham em cima de um muro, que seria equivalente à trave, porque não têm coragem, que não sabem correr, porque não têm coordenação… Pouquíssimas crianças que chegam aqui apresentam habilidade para que possamos, pelo menos, ver como um possível talento.

As pessoas que estão, hoje, no clube, têm potencial para crescer e se tornarem atletas olímpicos?

Todos que estão aqui têm potencial, todos que estão dentro da seleção, do treinamento, apresentam pelo menos alguma condição de desenvolver um trabalho de rendimento. Mas atleta olímpico é bem diferente. Não conseguimos saber ainda o futuro de uma criança tão pequena e, por exemplo, hoje não temos potenciais para 2016. Nossa perspectiva é 2020, 2024, então ainda temos muito pela frente. Posso olhar uma menina ou menino e dizer “esse tem toda a condição física”, mas junto também vem o fator psicológico, que influencia muito, e a questão familiar, porque, como eles são pequenos, precisamos do envolvimento da família – o que muitas vezes não acontece. Podemos olhar para uma criança e afirmar “esse tem condições”, mas se ele vai, de fato, chegar lá, não sabemos com certeza. Em relação à nossa seleção, ela é feita por um esquema piramidal, ou seja, nós precisamos ter uma base bastante grande pra poder conseguir um ou dois que chegarão até lá, participando das seletivas nacionais e assim por diante, e só então tentar a vaga olímpica realmente.

Emily Andrade, 19 anos, treina no clube há 4 meses. Créditos: Camila Viero

Emily Andrade, 19 anos, treina no clube há 4 meses. Créditos: Camila Viero

Em relação a patrocínios, a ginástica consegue bastante incentivo?

Quem mora mais no eixo Rio-São Paulo tem uma facilidade muito maior do que a gente. Podemos afirmar que o Rio Grande do Sul é uma província em relação a isso. Tu consegues ver as empresas daqui ajudando equipes do Rio de Janeiro e de São Paulo, que muitas vezes tiveram resultados menores do que os nossos, e mesmo assim elas não nos veem aqui, porque o Estado não vende. O Rio Grande do Sul não vê o atleta como um produto, em qualquer modalidade. E pode soar estranho falarmos em “poduto”, mas os atletas são, sim, produtos de anúncio. E ninguém nos vê dessa forma, o que torna muito difícil conseguirmos patrocínio dentro do nosso estado. Eu tenho certeza que temos atletas que, se morassem no Rio de Janeiro ou em São Paulo, teriam patrocinadores e investidores, mas aqui não conseguem. Além disso, o Estado dificulta, porque não temos uma política esportiva. Dizem que vamos ter “Bolsa Atleta”, mas na realidade nunca temos nada. O Estado fala, mas não incentiva.

E para um atleta se tornar completo, chegar em um nível máximo, o que ele precisa fazer pra se desenvolver no esporte?

O primeiro passo é ter um clube, uma Prefeitura ou Secretaria que de todo o suporte, porque o atleta não cresce sozinho. Ele pode ser fantástico, mas se não tiver estrutura e não tiver treinador, não adianta, não conseguirá crescer. São n fases que ele vai vencer ao longo desse tempo. Se tiver, como aqui no clube, toda a equipe multidisciplinar, que são os médicos, os fisioterapeutas, treinadores, professora de ballet, nutricionista e psicólogo, terá maiores chances. E, mesmo assim, nós não somos a maior maravilha do mundo, pois temos um profissional de cada área, na maior parte das vezes, para atender vários atletas. Ou quatro, cinco pessoas no máximo para atender muitos atletas. Mas existe o atendimento e, também, um acompanhamento. Então essa estrutura é muito necessária. Primeiro de tudo, precisa da família pra trazer a criança até aqui, e para subsidiar o atleta no início, porque não basta afirmar que a criança tem talento, achando que irá ganhar tudo. Na verdade, para que possamos começar a investir nesse atleta, é preciso que ele nos mostre algum potencial. A partir daí, então, é necessário investirmos em toda essa estrutura por trás dos atletas, trabalhando muito forte na parte psicológica, que conta, muitas vezes, até mais do que a parte física. É claro que o mínimo de condição, não digo nem técnica, mas de condição física, ele tem que ter. Ginasta precisa ser coordenado, precisa ser forte, flexível, apresentar um tipo físico adequado. Todas as pessoas falam “a ginástica deixa baixinho”. Mas não, a ginástica é de baixinhos. Nós selecionamos os baixinhos porque precisamos de um centro de gravidade mais baixo. Os braços podem ser longos, por exemplo, mas as pernas preferencialmente devem ser mais curtas, o ombro mais largo e o quadril mais estreito. O biótipo que nós precisamos é diferenciado das demais modalidades. Se for muito alto, não poderá trabalhar em alguns aparelhos, porque chegará um momento em que o atleta irá bater os pés no chão. Então, no geral, acredito que se trabalharmos 50% cabeça e 50% corpo, estaremos formando atletas de alto rendimento.

Emily Andrade, ginasta do Grêmio Náutico União. Créditos: Camila Viero

Emily Andrade, ginasta do Grêmio Náutico União. Créditos: Camila Viero

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