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Rugby feminino em ascensão

14/07/2015

Por Manoella van Meegen

Ainda desconhecido para muitos, o rugby aos poucos está conquistando reconhecimento no país e no estado. O esporte irá retornar, depois de um intervalo de 90 anos, ao programa olímpico na edição de 2016. Hoje, existem cerca de 25 pólos de rugby espalhados pelo Rio Grande do Sul, entre clubes, times e núcleos de desenvolvimento.

Apesar de ser um esporte considerado bruto e masculino, as mulheres estão ganhando cada vez mais espaço. Em 2014, a equipe brasileira tornou-se 10 vezes campeã invicta do campeonato Sul-Americano de Rugby Feminino da modalidade Seven-a-side.

Fabiane Rodrigues está fazendo parte dessa realidade. Aos 23 anos, a porto-alegrense joga na categoria feminina do San Diego Rugby Club desde 2013 e concilia a rotina de treinos com trabalho e vida pessoal.

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Crédito: Manoella van Meegen

Como surgiu o teu interesse pelo rugby?

Eu sempre gostei muito de esporte. Sempre fui mais do futebol porque era a coisa mais acessível que eu tinha. O San Diego surgiu porque fizeram uma divulgação no Colégio Aplicação, onde eu estudava, só que naquela época (2006) eu não tinha muito dinheiro, então não tinha muitas condições de participar, porque o rugby ainda é um esporte muito caro. Em 2012 os diretores do San Diego começaram a convidar meninas, e como eu já estava mais velha e tinha algum dinheiro, eu aceitei. Eu tinha muito medo porque eu tenho uma lesão no joelho, e rugby é um esporte de muito contato, mas o diretor tem o dom da fala e me convenceu a jogar. E agora eu não consigo mais sair.

Por que o rugby é um esporte caro?

É caro porque é difícil conseguir patrocínio, principalmente na capital. Em Bento Gonçalves eles possuem um estadio só deles, com academia, porque são lugares que o futebol não é tão expressivo, então aqui é muito difícil ter patrocínio. Tem os teus equipamentos que tu paga, claro que tu não vai comprar todo mês uma chuteira, mas é quase isso. Bandagem também, se tu tem alguma lesão tu tem que comprar. As viagens são muito caras porque não tem outro jeito. Também tem os gastos com academia, que é bom fazer porque ajuda, e junto com academia entra suplementação, etc. E também tem a mensalidade do clube, de 40 reais, que os atletas não são obrigados a pagar, mas para ajudar o clube é bom porque nós temos contador, tem o site, tem o e-mail, todos os gastos de jogos também, então tem que sair de algum lugar esse dinheiro.

O rugby ainda é pouco conhecido no Brasil. Antes de divulgarem no teu colégio, tu já conhecias o esporte?

Não conhecia porque eu era muito nova e não tinha contato com as coisas de fora. Mas agora o rugby está ficando mais conhecido. O esporte voltou a ser olímpico, ele ficou mais de 50 anos fora das olimpíadas, então agora voltou a ser conhecido. A CBRu, que é a Confederação Brasileira de Rugby, está muito mais preparada para fazer a divulgação. E também que, quando tu não tem resultados em um time, é difícil de divulgar. Mas quando tu tem, por exemplo agora, o rugby já está passando no SporTV, o campeonato brasileiro está passando lá, e é uma mudança absurda. Há 10 anos atrás isso não existia. O primeiro time de Porto Alegre foi o Charrua e depois surgiu o San Diego, mas só uns 7 anos depois, então eles foram caminhando bem devagar.

Como é a tua rotina de treinos e preparação durante as competições?

É bem intensa. Como eles não tem como nos exigir academia, porque nem todos tem condições de pagar, a Confederação oferece cursos de técnico, inclusive eu já fiz o coach nível 1, e eles te ensinam o que tu tem que fazer em um resumo de como tem que ser um treino, como é que tem que começar, continuar e terminar, saber como tu tem que posicionar teus atletas para treinar contato, sendo que tu tem que estar cuidando da segurança deles. Os nossos técnicos tem esses cursos, e toda a experiência que eles tem dentro do rugby acaba ajudando para nos passar segurança durante o treino. E tudo segue um caminho. Então tu tens sempre que passar o básico, que é passe, posicionamento, e nós sempre ficamos de olho no calendário. Treinamos três dias por semana:  terça, quinta e domingo. Antes nós treinávamos no parque Marinha, mas no começo do ano nós perdemos o campo e fomos para a zona sul, e poucas conseguiam ir porque era muito longe. Depois conseguimos o campo do Parcão e a vida melhorou muito.

Quais são os campeonatos que a categoria pode participar?

No feminino a gente só joga sevens – a modalidade que é sete jogadores para cada lado. O primeiro campeonato para nós é a Liga Sul, que é no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. O segundo campeonato é o Campeonato Gaúcho, que geralmente é no segundo semestre do ano, e nesse ano são cinco etapas, a primeira foi em Porto Alegre e a segunda vai ser em Ivoti. O primeiro lugar do campeonato gaúcho vai para São Paulo jogar o BR Sevens e joga com o Brasil todo. As oito primeiras colocadas jogam o Supersevens, que é durante o ano todo pelo Brasil todo, só que aí é outro nível que nós ainda estamos almejando. Aqui no Rio Grande do Sul o melhor é o Charrua, porque elas jogam há mais tempo juntas, são mais velhas e estão no topo. Em 2013, quando foi um ano incrível para o San Diego, porque foi o retorno e nós estávamos muito focadas, nós batemos de frente com elas e foi quando ganhamos uma etapa. Desde então nós só ficamos em segundo lugar.

O que mais faz parte da tua rotina no esporte?

Atualmente eu sou a mais velha do feminino, então muitas coisas que deveriam ir para a diretoria as atletas acabam pedindo para mim primeiro porque eu tenho mais contato direto com elas e, em tese, eu teria mais tempo. Geralmente, a parte fora dos treinos, a parte mais burocrática acaba sobrando para mim, e também sobra para mim cuidar do psicológico das meninas. Às vezes acontece uma briguinha que já vai se transformando em uma bola de neve e isso vai se refletindo no campo. Na maioria das vezes é isso, é tentar ajudar a atleta a se portar melhor, porque nós acabamos nos tornando uma família, e acabamos tendo conversas de família, com intervenções, e os mais velhos acabam sendo mães e pais que ficam chamando a atenção e conversando. É como se nós fossemos um tripé, e se cair uma perninha já cai a estrutura toda e é complicado.

O rugby é um esporte caro que exige dedicação. De que forma tu te mantém financeiramente?

Eu trabalho na Corsan, fui chamada em um concurso para trabalhar em Camaquã. Como fica a 130 km de distância de Porto Alegre, consegui conciliar com os treinos da semana. Mas é uma rotina bem cansativa. Eu tenho que dormir em Porto Alegre nos dias de treino e para ir no outro dia para Camaquã eu tenho que pegar o ônibus das 6h, então eu tenho que acordar entre 4h30 e 5h da manhã.

Fora o esporte, o que mais tu gosta de fazer?

Eu gosto muito de viajar, e quanto mais natureza for, mais eu gosto. Adoro acampar. Eu não gosto muito de festa, prefiro pegar um chimarrão e ir para um parque. E atualmente é isso, porque também não sobra muito tempo na semana. Nos finais de semana eu também estou em função de jogo, então também não sobra muito tempo.

an Diego Rugby Club / Divulgação

Crédito: Diego Rugby Club / Divulgação

A copa do mundo de futebol feminino foi pouco divulgada na mídia. Como tu vês a inserção e visibilidade das mulheres no esporte?

Eu acho muito contraditório. As pessoas costumam falar que o Brasil é o país do futebol, mas na verdade é o pais do futebol masculino, porque não teve divulgação nenhuma da copa do mundo feminina. No globoesporte.com tem a página copa do mundo feminina, mas não aparece nada, nenhuma reportagem, e isso é muito ruim, porque é esporte, independente se for feminino ou masculino é esporte. E a mesma coisa é o rugby, só que o rugby, pelo menos aqui no Brasil, o feminino é muito melhor do que o masculino, então isso já ajuda a dar uma visibilidade maior. O feminino no sevens é 10 vezes campeão sul-americano, ele está imbatível há muito tempo, e o masculino não. O que dá mais visibilidade? É a televisão, e eles também não mostraram nada. A Marta é cinco vezes campeã do mundo, ela já tem mais gols que o Ronaldo em copa do mundo. E eles não valorizam. No vôlei é um pouco melhor a visibilidade, mas qualquer esporte feminino no Brasil é pouco divulgado.

E tu, pessoalmente, como mulher, já sentiste alguma situação de preconceito no esporte?

Muito. Primeiro porque a maioria das pessoas não conhece rugby, então tu explica um pouco e eles falam ‘mas isso dá para mulher? Mas não é muito agressivo?’. Outra coisa que a pessoa pensa é que é parecido com futebol americano. Aí já liga os pontos: tipo futebol americano, é muito agressivo, é lésbica. Eles ligam direto o ponto e já saem falando. Mas na verdade não é, a maioria não é. Claro que tem muito homossexualismo, mas não é assim. Dentro do esporte, o masculino não aceita muito o feminino. Mas isso é por causa da cultura do rugby que, no Brasil, veio do Uruguai e eu acho que é na Argentina que eles dizem que mulher não joga rugby. Agora já está muito melhor nesse sentido a relação masculino e feminino, mas antigamente na Argentina eles diziam que mulher não podia jogar rugby. Então tu traz o esporte desse país e é impossível não trazer essa cultura também.

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