Skip to content

Um estádio para renascer grande

08/07/2015

O recomeço do Cruzeiro com casa nova em Cachoeirinha

por Gustavo Chagas

A história

Torcedores de qualquer clube tradicional guardam na memória momentos marcantes vividos nos estádios. Não há colorado que não relembre de uma jornada histórica no Beira Rio ou gremista que não se emocione com uma glória ocorrida no velho Olímpico. Quase sempre, as arenas são espaços de boas recordações. Não é diferente com os torcedores do Esporte Clube Cruzeiro de Porto Alegre. Todavia a relação dos estrelados com seu estádio é um tanto peculiar, de alegrias, mas com uma morte ainda não superada totalmente.

O tradicional clube de Porto Alegre, fundado em 1913, chegou a dividir com a dupla Grenal o posto de grandes equipes do estado. Nos seus primeiros anos, jogou em pequenos campos da Zona Leste da capital. Foi no ano de 1941 que o Cruzeiro inaugurou o Estádio da Montanha. Na colina que abrigava os cemitérios da cidade, o time alcançou seus maiores feitos e a melancolia que rondava sobre o bairro da Medianeira parecia não incomodar a apaixonada torcida que lotava a moderna cancha que competia com a Baixada do Grêmio e o Eucaliptos do Internacional. Na partida de abertura, em 16 de março, vinte mil pessoas assistiram à vitória do Cruzeiro sobre o São Paulo por 1 a 0, gol de Gervásio. A nova casa marcaria um período de glórias. O Cruzeiro foi campeão municipal em 1943 e 1947, além de ter levantado taças de outros torneios da cidade. O time também conquistou o tricampeonato gaúcho amador entre 43 e 45.

Foto_1_-_Soares_Filho_(AgênciaRBS)

Legenda: O antigo Estádio da Montanha hoje dá lugar a um cemitério no bairro Medianeira em Porto Alegre. (Soares Filho/Agência RBS)

Passada a década de 1950 e a pioneira excursão à Europa – com direito à confronto contra o Real Madrid de Di Stéfano em 1953 – o Cruzeiro entrou em crise financeira nos anos 1960. Por ironia do destino, o memorável Estádio da Montanha foi vendido à Associação Cristã de Moços e deu lugar a mais um cemitério na região. A fracassada estratégia, que visava salvar as finanças do clube, não significou apenas a morte da Colina em 1970. Em 1979, o Cruzeiro desativava o departamento de futebol profissional, logo dois anos depois de ter inaugurado o acanhado estádio Estrelão, com capacidade para apenas mil e 500 torcedores, nos pés do Morro Santana. Entre 1979 e 1991, o Cruzeiro funcionou apenas com esportes olímpicos e amadores, deixando viúvos os fiéis torcedores do tradicional time de futebol da capital. O tão esperado retorno ao profissionalismo não trouxera de volta a grandeza do clube que circulou pelas divisões inferiores do futebol gaúcho entre as décadas de 1990 e 2000.

O ano de 2010 foi o grande marco para o renascimento do Esporte Clube Cruzeiro. Dentro de campo, o clube conquistou a Segundona Gaúcha, voltando à elite do estadual após 32 anos; fora dele, o estrelado negociou o terreno do Morro Santana com uma construtora e adquiriu uma área no distrito industrial de Cachoeirinha, cidade vizinha à Porto Alegre. Além de um novo estádio, os cruzeiristas sonham erguer o clube com passado melancólico a um futuro de conquistas.

O novo estádio

É na pequena, mas povoada Cachoeirinha que o Cruzeiro irá estabelecer sua estrutura administrativa e de futebol. A cidade construída no eixo de apenas uma avenida, como as cidades típicas do interior, se formou como um apêndice de Porto Alegre às margens do Rio Gravataí. Boa parte dos quase 120 mil moradores circula entre os dois municípios no movimento pendular entre casa e trabalho ou escola.

Cachoeirinha era uma das poucas cidades da Região Metropolitana sem um time de expressão. Enquanto a capital adotava o São José como “segundo clube” dos torcedores da dupla Grenal, Canoas, Gravataí, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo e Campo Bom emplacavam seus times na primeira divisão do Campeonato Gaúcho durante os anos 2000 e 2010 (respectivamente Ulbra, Cerâmica, Sapucaiense, Aimoré, Novo Hamburgo e 15 de Novembro). Sem tanto espaço em Porto Alegre e com a oportunidade batendo à porta, o Cruzeiro adotou e foi adotado pelo município vizinho.

A construção da nova arena começou em 2012, com o lançamento da pedra fundamental logo nos primeiros dias daquele ano. Estiveram presente, além do então presidente do clube, Dirceu de Castro; o prefeito de Cachoeirinha e representantes da dupla Grenal. Hoje diretor do clube, Dirceu falou à reportagem que não há previsão de conclusão para as obras. O Cruzeiro espera, no entanto, iniciar a pré-temporada de 2016 já na nova casa. Até lá, o clube mandará seus jogos no Vieirão, em Gravataí. Antes disso, a direção planeja instalar a estrutura administrativa e acertar detalhes logísticos para iniciar as operações na arena.

Dois fatores impõem maior dificuldade para concluir o estádio. Os recursos necessários para o fim da obra ainda estão sendo obtidos pela direção do clube, que recusa qualquer tipo de parceria com construtora em troca do direito de administração da arena – modelo popularizado durante os preparativos para a Copa do Mundo de 2014. “Não é pensamento do Cruzeiro passar a administração do estádio para ninguém”, avisa Dirceu de Castro. O segundo motivo é o endurecimento da legislação de segurança contra incêndio, colocada em vigor após a tragédia ocorrida na Boate Kiss em Santa Maria no ano de 2013. Algumas alterações no projeto, visando adequar a estrutura do estádio às normas de segurança, são realizadas, atrasando o andamento das obras.

Legenda: Arquibancadas e gramado já estão prontos, mas faltam acabamentos e instalações elétricas e hidráulicas. (Gustavo Chagas)

Legenda: Arquibancadas e gramado já estão prontos, mas faltam acabamentos e instalações elétricas e hidráulicas. (Gustavo Chagas)

O único ponto que o Cruzeiro aceita a fazer parceria é na comercialização dos naming rights do novo estádio. A ideia da direção do clube é vender o nome da arena para alguma empresa interessada. Por isso, o comando do time evita a batizar o campo. Nem mesmo Moacyr Scliar (1937-2011), escritor imortal da Academia Brasileira de Letras e torcedor ilustre do Cruzeiro, foi cogitado a receber a distinta homenagem. “Pode ser, mas o tema nem é discutido. Poderia ser o Moacyr ou qualquer outro cruzeirista histórico, mas preferimos esperar a negociação dos naming rights”, aponta Dirceu. Até agora, o estádio segue sem nome. A mesma dificuldade é enfrentada por Inter e Grêmio, por exemplo, que, mesmo com estádios novos, ainda não conseguiram vender o nome de suas arenas.

O que já é negociado, segundo Dirceu de Castro, é a possibilidade de a arena receber shows. A direção do Cruzeiro já recebeu sondagens para abrigar eventos. O estádio será multiuso. A capacidade para futebol de 16 mil torcedores pode ser ampliada para 20 mil em dias de espetáculos. A proposta de dar ao estádio novas finalidades é um dos trunfos para alavancar as finanças do clube. Faltam locais aptos a receber grandes públicos para shows na Região Metropolitana.

Dirceu de Castro, com a experiência que teve no comando do clube, reconhece o estado deficitário das contas do Cruzeiro. A dificuldade deve ser superada apenas após a conclusão das obras do estádio. “Fizemos uma campanha de sócios que não obteve sucesso. O Cruzeiro precisa ter o estádio pronto para ter mais renda e mais sócios”.

Enquanto o estádio não fica pronto, equipes infantis e juniores treinam no gramado que já está plantado – apesar de ainda não ser um tapete. Os pais que sentam no pavilhão com as obras mais adiantadas para acompanhar o desempenho dos filhos são um desafio para Jonas, o responsável por cuidar do estádio. Muitos, curiosos com a nova estrutura, invadem o espaço que irá receber camarotes e cabines de imprensa para conhecer a obra. Sem nenhum tipo de acabamento e com paredes abertas, o local é isolado por questões de segurança. Durante a noite, o estádio que fica em um descampado próximo à Avenida Frederico Ritter (entre o Centro de Cachoeirinha e a RS-118), costumava virar ponto de namoro e de consumo de drogas. Mais um motivo para a estadia 24 horas de Jonas, acompanhado pelo cachorro Sentinela.

O cão Sentinela, guarda do estádio do Cruzeiro em Cachoeirinha. (Gustavo Chagas)

O cão Sentinela, guarda do estádio do Cruzeiro em Cachoeirinha. (Gustavo Chagas)

O zelador e o cão-de-guarda acompanharam a reportagem na visita ao estádio. Jonas explica cada detalhe da obra. Sabe responder questões técnicas, como a profundidade das fundações e a capacidade de escoamento de água do gramado. Ele diz preferir jogar futebol à torcer, mas reconhece a simpatia pelo Cruzeiro.

O futuro

Desde a retomada do crescimento, em 2010, até hoje, o Cruzeiro vem fazendo boas campanhas dentro de campo. Na primeira temporada jogando pela primeira divisão do Gauchão, em 2011, o clube terminou o torneio em quarto lugar e se classificou para a Série D do Brasileirão de 2012. Nos últimos anos, o time conseguiu se manter na elite do futebol estadual.

Com o novo estádio pronto, o diretor de futebol Dirceu de Castro é otimista: “Sobra planejamento no Cruzeiro. Nós vamos poder começar a sonhar”. Depois da melancólica morte após a saída do Estádio da Montanha, o clube espera chegar novamente à Série D do Campeonato Brasileiro e depois subir para a terceira divisão. Também faz parte do sonho uma classificação à Copa do Brasil. Tudo isso de casa nova. Um estádio para o Cruzeiro renascer grande.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: