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Ainda no páreo

08/07/2015

Por Filipe Strazzer Santiago

Criada na Inglaterra do século XVII, a corrida de cavalos, ou turfe, leva até hoje milhares de pessoas aos hipódromos do mundo todo. No Japão é o segundo esporte nacional; em Ascot, na Inglaterra, a rainha Elizabeth chega de carruagem para acompanhar as corridas. Já no Derby de Kentucky, uma das principais provas do turfe nos Estados Unidos, mais de 170 mil pessoas assistiram, em maio deste ano, ao cavalo American Pharoah vencer o prêmio de 1,24 milhão de dólares.

No Brasil o esporte pode não ter o mesmo charme e tamanho que em outros locais, mas ainda é relevante. Cerca de 100 mil pessoas trabalham diretamente com o turfe, e o Grande Prêmio Brasil, principal corrida do calendário nacional, realizado no Jockey Clube Brasileiro – Rio de Janeiro, paga cerca de 400 mil reais ao vencedor. Além de continuar a buscar novos adeptos, seus eventos ainda reúnem muitos aficionados pelo esporte, pelas apostas e, principalmente, pelos cavalos.

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O grande público presente vibrava com a passagem dos cavalos. Crédito: Filipe Strazzer

Cavalo: para correr desde o nascimento

Estrela principal do turfe e dos apaixonados pelo esporte, o cavalo é preparado para as corridas desde cedo, e chega a ter até sua data de nascimento controlada. O Stud Book, organização que registra os animais puro sangue, determina que todos os animais nascidos no hemisfério sul façam aniversário no dia 1º de julho, enquanto os do norte, em 1º de janeiro. Tudo isso, como conta Cláudio Franzen, criador há 51 anos, “para fins de enturmação, já que os cavalos precisam ser colocados dentro de um grupo para correr com os da mesma idade”. Além disso, o nascimento dos animais é planejado para que não haja discrepância, já que se eles nascerem em junho, terão um ano de idade, para fins hípicos, em julho do mesmo ano. “A gente tem que calcular para que a égua não dê cria antes do dia 1º de julho. Elas têm que ter cria em agosto, para que quando o cavalo tenha um ano de nascimento ele também tenha um ano hípico”.

A partir dos sete meses de vida, o cavalo passa a ser trabalhado por um treinador – uma pessoa qualificada no trato e no aperfeiçoamento do condicionamento físico do animal, que pode trabalhar com quantos quiser. Além do treino, seu trabalho também é comprar os alimentos (aveia, ração balanceada e alfafa) e contratar o cavalariço, uma “espécie de babá do animal”, diz Franzen. O trabalho começa às cinco da manhã, quando o cavalariço escova, limpa as fezes e cuida da cama do cavalo. Depois, ele prepara o animal para que o treinador oriente o jóquei para o exercício do dia.

O jóquei é um profissional autônomo. Ele que escolhe com quem quer correr. O treinador chama um jóquei para treinar o cavalo, com trote, galope e corrida. Depois disso, o próprio jóquei avalia as chances do animal e decide se vai ou não correr com ele.

Para correr com cavalos é necessário treino e estudo, como diz Marcos Rizzon, jornalista e dono do Jornal do Turfe. “Existe uma escola de jóquei. O aprendiz entra nessa escola com a idade máxima de 16 anos. Ele começa a montar com 4kg de vantagem, depois 3kg, 2kg, 1kg. Após isso, passa a ser jóquei”.

O custo para manter um cavalo e treiná-lo faz com que o turfe hoje deixe de ter a imagem de elite, segundo Rizzon. “Essa imagem já está ultrapassada no Brasil. Hoje você compra um cavalo por 3 mil reais. A pensão do animal é por volta de 750 reais, e o prêmio em torno de 3 mil. Qualquer um pode comprar um cavalo, mantê-lo e vencer”, completa o jornalista.

O páreo

No Brasil, os principais hipódromos são o da Gávea, no Rio de Janeiro, o Cidade Jardim, em São Paulo, e o Cristal, na zona sul de Porto Alegre. Ali são realizadas as corridas em pistas curvas, consideradas as mais importantes, que podem chegar a 2,4 quilômetros de extensão. Existem também as provas de cancha reta, de distância menor, muito difundidas no interior do Rio Grande do Sul, como as realizadas nas cidades de Carazinho, Alegrete e São Borja.

A corridas – chamadas de reuniões – no Cristal ocorrem todas as quintas-feiras. Para correr, o cavalo precisa ser inscrito pelo treinador, ação realizada “no escuro”. O motivo do sigilo, como afirma Franzen, é que “se eu sei que você tem um cavalo melhor, eu não vou me inscrever”. Em seguida, os nomes dos animais vão para uma urna, que é aberta na sexta-feira anterior à reunião, e começam-se a montar os páreos, divididos por idade e número de vitórias. Dessa forma, pretende-se deixar a corrida a mais equilibrada possível. Por exemplo: cavalos de 2 anos sem nenhuma vitória correm somente com animais nas mesmas condições. Do mesmo modo, os com 3 anos e uma vitória competem exclusivamente entre si. Isso permite que se tenha “mais ou menos as mesmas chances”, segundo Franzen. A partir dos 5 anos não há mais distinção por idade. Um cavalo pode correr até os 10 anos, mas seu auge é entre os quatro e quatro e meio. Em torno de dez animais competem por páreo.

A premiação varia de corrida para corrida. Em Porto Alegre, para cavalos de 2 anos, o prêmio de uma prova comum fica em torno de 3,6 mil reais. Além do vitorioso, os outros competidores também ganham uma parte. “O vencedor fica com os 3,6 mil, mas até o quinto lugar tem uma porcentagem”, explica Franzen. “Essa porcentagem é de 30%, 20%, 15% e 5% do prêmio maior”, completa o criador, que também comenta sobre a remuneração dos jóqueis. “Ele é remunerado com uma porcentagem da premiação do cavalo. O pagamento gira em torno de 12%, e se não conseguir ficar entre os cinco primeiros, recebe uma taxa que o proprietário do animal deve pagar”.

Os cavalos estavam na pista, e eles no televisor. Apenas 100 metros de distância os separam. Crédito: Filipe Strazzer

Os cavalos estavam na pista, e eles no televisor. Apenas 100 metros de distância os separam. Crédito: Filipe Strazzer

E quem aposta?

O apostador regular, que é quem pratica o turfe, chama-se turfista. Rizzon afirma que não há um perfil padrão do jogador, que geralmente começa a acompanhar o esporte desde de pequeno. “Meu pai me trouxe para o Jockey e eu segui. Acompanho desde os 8 anos. Mas há também o aficionado, que vem e aposta, e o que somente assiste, como se fosse um Grenal. Vai desde o desempregado até o milionário”.

A entrada para as reuniões é gratuita, e dessa maneira, mais pessoas podem acompanhar o esporte. O Ladies Day, evento realizado anualmente pelo Jockey Clube do Rio Grande do Sul que reúne joquetas de vários países americanos, por exemplo, recebeu um público grande e bem diferente do habitual este ano. Para entrar, não era preciso desembolsar um real sequer e, assim, o hipódromo ficou com as arquibancadas cheias. Havia famílias, crianças, jovens, muitas pessoas “diferentes” daquele estereótipo do turfista tradicional: formal, de terno, mulheres com chapéus extravagantes. São pessoas que aproveitaram uma tarde para fazer um programa diferente. É a “participação de quem normalmente não participa”, diz Rizzon.

Existem, porém, os que vão ao Jockey para apostar. Durante o dia todo de reunião, o salão principal do Hipódromo do Cristal fica tomado por esses jogadores – na maioria, homens com pelo menos 50 anos de idade que, em vários televisores espalhados pelo local, acompanham o que acontece na pista em Porto Alegre e em outras cidades ao redor do mundo. Eles ficam em mesas discutindo sobre os cavalos, com a programação do dia em mãos (que contém as informações dos animais e dos páreos), e fazendo as contas para a próxima corrida. O curioso é que muitos desses jogadores não chegam a assistir as provas ao vivo na arquibancada, somente pela televisão, ainda que o páreo esteja ocorrendo do outro lado da porta.

As apostas são realizadas em guichês no mesmo salão. Quem quiser se aventurar, não precisa pagar muito. Os valores das apostas começam em dois reais e vão até quanto o turfista pode bancar, dependendo também do tipo de aposta. As apostas são divididas entre simples e exóticas.

Apostas Simples

Win Escolher o vencedor
Placê Escolher um cavalo que termine em 1º ou 2º lugar
Show Escolher um cavalo que termine em 1º, 2º ou 3º lugar

 

Apostas Exóticas

Dupla Aposta em dois cavalos do mesmo páreo para chegarem em 1º e 2º lugar, independente da ordem
Exata Aposta em dois cavalos do mesmo páreo para chegarem em 1º e 2º lugar, na ordem
Trifeta Apostar no 1º, 2º e 3º lugares do páreo, na ordem
Quadrifeta Apostar no 1º, 2º, 3º e 4º lugares do páreo, na ordem
Pick (n): 3, 4, 5 ou mais Escolher os cavalos que chegarem em 1º em (n) páreos, consecutivos ou não, indicados pelo Jockey

 

Os jogos também podem ser feitos pela internet ou nas chamadas agências de apostas. Só para as corridas do Hipódromo do Cristal mais de cem locais no Brasil estão jogando na “pedra Cristal” – como são identificadas as apostas para Porto Alegre. A expectativa do Jockey é que, para este ano, outras 115 agências no Uruguai e no Panamá possam fazer apostas para a capital gaúcha.

Um esporte que sobrevive

Entrada franca, eventos familiares e apostas online. O turfe se reinventa para continuar firme no Brasil do século XXI. Afinal, as necessidades são muitas.Nós precisamos de renovação da mão-de-obra, renovação de criadores, treinadores e turfistas”, comenta Rizzon. O que não falta, porém, é paixão das pessoas que fazem da corrida de cavalos um esporte ainda atraente e dinâmico. Quando perguntado o que o turfe significa para ele, Marcos Rizzon responde rápido: “tudo”.

Josiane Gulart: vencedora do 4º Torneio Internacional de Joquetas, no Ladies Day 2015. Crédito: Filipe Strazer

Josiane Gulart: vencedora do 4º Torneio Internacional de Joquetas, no Ladies Day 2015. Crédito: Filipe Strazer

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