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“Nunca se olhou para a categoria de base”

27/06/2015

Por Kathlyn Moreira

Gerente executivo das categorias de base do Inter, Jorge Andrade fala dos problemas no setor, mas defende que a formação no clube ainda é fonte de talentos e de retorno para o time.

Todo o jogador em início de carreira sonha em chegar a um clube brasileiro renomado ou até mesmo a um time no exterior. E para alcançar esse objetivo, a formação começa cedo, muitas vezes desde a infância, nos primeiros chutes ou defesas.

O sonho desses garotos depende do investimento e do interesse dos clubes. As chamadas categorias de base são oportunidades para quem quer consolidar uma carreira e para que os times encontrem talentos e fortaleçam seu elenco. Ainda assim, o cenário brasileiro da base não é o ideal. Seja por problemas na legislação, pela interferência de empresários, que acompanham o destino desses atletas desde muito cedo, pelo comportamento inadequado de alguns jogadores, ou até pela ausência de investimento no setor, as categorias de base no Brasil ainda precisam de muito desenvolvimento para atingir o patamar europeu. O exemplo disso foi na Copa do Mundo, quando a discussão ressurgiu após a derrota do Brasil para a Alemanha.

Investimento previsto para a base do Inter em 2015 é de cerca de R$ 15 milhões. Crédito: Mirela Putrich

Investimento previsto para a base do Inter em 2015 é de cerca de R$ 15 milhões. Crédito: Mirela Putrich

Muitos dos nossos jogadores da base se relevam como grandes talentos, mas acabando deixando o time de formação para atuar fora do país. Algo que acaba sendo impossível de evitar, em razão da remuneração alta e da necessidade financeira dos clubes.

O Internacional descreve suas categorias de base como um “Celeiro de Ases”, referência que vem do hino do clube. São cinco grupos, do sub-14 ao sub-20, além do Inter B e da Escola Rubra, que reúne garotos dos 10 a 13 anos. Ao longo da história, o núcleo de formação do Inter revelou nomes como Falcão, Leandro Damião e Alexandre Pato. Hoje, cada vez mais atletas da base participam do time principal. Segundo o clube, quase metade do grupo é composta pelos chamados “pratas da casa”, já que 15 dos 34 jogadores do atual elenco foram descobertos no Inter.

Os nomes já são familiares e recebem admiração da torcida: Alisson, Muriel, Nilmar, William, Rodrigo Dourado, Eduardo Sasha, Valdívia, e a lista segue. A chegada ao grupo principal veio com resultados positivos: dos 20 gols marcados na Libertadores até agora, 9 foram feitos por atletas que vieram da base.

Para o gerente das categorias de base do Internacional, Jorge Andrade, o clube é um dos que mais investe na formação de atletas no Brasil. Conforme a página oficial do Inter, o orçamento previsto para o setor em 2015, incluindo a Escola Rubra, é de cerca de R$ 15 milhões.

Andrade defende que ainda é possível encontrar talentos nas categorias de base, o que ficou exemplificado na final do Gauchão deste ano contra o Grêmio, quando 8 dos 11 jogadores que iniciaram a partida tiveram origem na base. Segundo ele, a cada ano, uma média de 4 a 5 atletas da formação sobe para o time principal.

Apesar disso, o trabalho não é fácil. Andrade admite que encontrar posições como laterais e zagueiros ainda é um verdadeiro desafio nos processos seletivos e culpa a atual legislação pela lenta trajetória dos clubes brasileiros para chegar ao nível europeu de investimentos na base.

Confira a entrevista com Jorge Andrade:

Como funcionam as categorias de base do Inter?

Cada categoria tem uma comissão técnica. O grupo é composto por 25 a 30 jogadores, na média. Eles participam das competições das idades em nível regional, nacional e internacional. Cada categoria disputa no mínimo duas a três competições ao ano. E eles têm, durante o ano todo, o planejamento de treino para desenvolvimento e formação. Com isso, aqueles que vão se destacando, sobem de categoria no ano seguinte.

Como um atleta faz para participar da categoria de base?

O jogador pode chegar através do nosso departamento de captação, que faz observações externas e realiza as avaliações técnicas. Também por indicações ou em competições em que a gente vê atletas e convida para participarem. Fazemos uma avaliação do mercado, em clubes menores, clubes parceiros e nas escolinhas, como no Genoma Colorado, que é um projeto do clube que está vinculado às categorias de base.

O que se procura hoje em um jogador?

A gente trabalha dentro do Inter para procurar um jogador com um perfil para o Internacional. O Inter sempre teve uma busca pelo perfil do jogador mais técnico. Claro que a parte física também é importante, mas fica em segundo plano, porque pode ser desenvolvida no treinamento. Se o jogador é bom, tem qualidade, sabe jogar e pode ter uma evolução física nesse período de treinamento, a gente acredita nisso. Sempre vislumbramos a parte técnica. Se ele tem qualidade, ele fica.

Tem alguma posição mais difícil de encontrar hoje em dia?

Por incrível que pareça, laterais, zagueiros e o camisa nove. Não sei se é porque querem jogar mais de meia ou atacante e não querem jogar de zagueiro. São posições que temos dificuldade de achar no mercado. Estão faltando.

É possível achar talentos ainda ou está mais difícil?

É possível, com certeza! Tem muito talento nas categorias de base, tem muito jogador aparecendo. O Inter é um exemplo disso. Olha quantos jogadores da base estão jogando no time principal. No Grenal da final do Gauchão, nós tínhamos oito jogadores da base em campo. O Valdívia é um talento, o Rodrigo Dourado, o William…, porque eles têm a formação do clube. Eles têm um vínculo maior do que o profissional que vem de fora. Eles dão mais valor ao clube, sabem o reconhecimento do clube. Isso já é um diferencial. Agora, o trabalho que é feito aqui pelos profissionais também é diferenciado, se busca atletas que têm qualidade e se consegue trabalhar a ponto de transformá-los em atletas de elite.

Na final do Gauchão, oito dos 11 jogadores tiveram origem na base, como Valdívia. Crédito: Alexandre Lopes

Na final do Gauchão, oito dos 11 jogadores tiveram origem na base, como Valdívia. Crédito: Alexandre Lopes

Existe uma relação com empresários desde cedo?

Isso é o mercado que conduziu desta forma. Eu acho que tem influência também da legislação. A relação com o empresário começa muito cedo. Tem atleta de 14 anos que já tem empresário. Tem bons e maus empresários, assim como em qualquer profissão tem bons gestores de carreira e maus, ou como médicos e advogados. O principal problema é a má gestão da carreira do atleta. Isso ocorre por vários fatores. A gestão é o controle, é saber dar as melhores diretrizes para o atleta conquistar o objetivo da carreira dele. Se tu não fizer isso bem feito, o atleta não atinge os objetivos e isso acaba atrapalhando o clube. Um atleta que não tem um bom comportamento em casa, que é influenciado pelo empresário para sair do clube, isso é má gestão.

Qual o tempo, em média, que um jogador está levando para ascender na carreira?

Isso pode ser um período de seis anos, se considerar a sub-14 ou sub-20. Se for na escolinha, vai ser 7 ou 8 anos, mas pode chegar a 10 anos, também desde a escolinha.

E quando o clube não quer ficar com jogador? Como é essa dispensa?

Antes de acontecer isso, a gente tenta atuar de forma preventiva, com reuniões com a família, com o atleta, com o próprio agente. Só que chega um momento em que, se o menino não está rendendo de acordo com o que se esperava, conversamos com a família. Fazemos um processo de saída que a gente tem aqui, com psicológico, com assistente social, com a comissão técnica e daí fazemos a dispensa. Tem todo um processo interno.

As dispensas têm ocorrido mais?

Não, isso é normal. A dispensa sempre aconteceu nas categorias de base. Não vão ser todos que vão chegar lá. Por exemplo, se pegar as seis categorias que eu falei, e multiplicar por 30, são 180 atletas. Desses aí, não vão ser todos que vão chegar ao profissional do Inter. Por ano, sobe uma média de 4 a 5 atletas. O ideal seria mais, mas é o que se alcança.

Depois da Copa do Mundo e a derrota do Brasil, se bateu muito nas categorias de base e se compara com as de clubes do exterior. Quais são os problemas que enfrentamos e qual a diferença?

Nós temos vários problemas. Nunca se olhou para a categoria de base. Não no caso dos clubes, eles sempre investiram, uns mais, outros menos. O Internacional é um exemplo. Se não é o melhor do Brasil, que eu acredito que seja, é um dos melhores clubes de categoria de base do país. Ele sempre investiu, isso é da história do Internacional. Nos últimos anos, é só ver o número de jogadores que foram relevados e que foram vendidos para o exterior. Mas a gente tem uma série de fatores externos que também influenciam. A legislação, a educação no país. A nossa confederação que agora, depois do acontecido, começou a organizar. Até o ano retrasado, não tínhamos competições oficiais da CBF nas categorias de base. Não temos um calendário único. Não podemos alojar menores de 14 anos, então não podemos começar antes. Os clubes na Europa começam com 8 e 9 anos, porque os cientistas da área esportiva estudaram isso há muito tempo, que a iniciação no esporte começa muito cedo. Só que a nossa legislação proibiu. Não sei quem fez essa alteração na Lei Pelé e proibiu. Como é que vamos começar um trabalho de formação com um atleta já com 14 anos?

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