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Bola no pé, bisturi na mão

24/06/2015

Por Júlia Corrêa 

Aos 81 anos, Milton Kuelle é dono de uma trajetória que teve início no futebol e que acabou curvando para uma área bem distinta: a odontologia. Iniciando na várzea, tornou-se titular do Grêmio em 1952. Mas, para Formiguinha, apelido da época dos gramados, o futebol nunca foi um fim, apenas um prazeroso meio de sobrevivência. O tempo como jogador, além de experiências detalhadamente gravadas na memória, lhe permitiu o custeio dos estudos. Até dois anos atrás, atuava em um consultório aberto no período em que chegou a conciliar as duas atividades. Além disso, há 40 anos, é dentista da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo, a Fase, onde segue trabalhando mesmo depois da aposentadoria. Na entrevista a seguir, Milton detalha a mudança de profissão e o percurso em cada uma.

Milton Kuelle. Crédito: Júlia Corrêa

Milton Kuelle. Crédito: Júlia Corrêa

Como foi sua entrada para o futebol?

Comecei jogando futebol de bairro. Morava na Cidade Baixa. Tinha um lugar que frequentávamos muito, em frente ao Capitólio. Era uma turma muito boa e formamos o time Dalto Filho. Na zona, tinha uma equipe de divisão ligada à federação, o Vila Federal. Como nos conhecíamos muito, nos convidaram para disputar o campeonato com eles. Ali tinha alguns olheiros. Convidaram a mim, a meu irmão e dois amigos para darmos um pulinho no Grêmio. O olheiro era um entregador do Diário de Notícias, que conhecia o treinador. Disse para irmos jogar no juvenil. Começamos a jogar na Baixada. No fim, só eu continuei. Me convidaram para ficar no aspirante, eu disputei campeonatos e um dia me chamaram para jogar no profissional.

Seus pais apoiavam?

Apoiavam. Na verdade, a gente não procurava liberdade econômica, enriquecer, a gente procurava sobreviver. O que eu ganhava eu pagava a minha faculdade, ajudava em casa no supermercado. Meu pai era um imigrante árabe, casou com a minha mãe, vieram para Porto Alegre e montaram uma pensão de estudante, que não dava muito. Mas conseguiu manter meus irmãos no colégio. Meu irmão mais velho também nos ajudava.

Como era a questão do salário dos jogadores?

Não tinha aquela ideia “ah, vou ganhar quanto?”. Naquele tempo se ganhava uma quantia quando renovava o contrato, “luvas”. Uma vez eu o Orlando percebemos que renovamos e não ganhamos luvas. Decidimos ir falar com o presidente, ele nos perguntou, debochando, por que queríamos luvas no verão e nos mandou embora. Saímos rindo e agradecendo por ele não ter nos demitido. Para ver como era a mentalidade do futebol. Hoje, um jogador em um ano faz o pé de meia. O primeiro carro que eu tive ganhei numa renovação de contrato só no meu último ano. Me disseram para ficar mais um pouco e me deram um fusca 1964 amarelo. Eu não posso me queixar, ganhei um apartamento, um fusca, aparelho odontológico para o meu consultório. Alguma coisa eu usufruí, tive vantagens, ainda que a gente não tivesse tantas naquela época.

O senhor tem alguma lembrança marcante daquele tempo?

Quando eu fui para o profissional, em 1952, foi quando o Grêmio quebrou aquela coisa odiosa do racismo. O Tesourinha veio do Rio, onde jogava no Vasco. A ideia era quebrar o dogma de ser um time em que só jogava branco. Foi muito marcante para mim. Outra marca foi em 1954, quando foi inaugurado o Olímpico. Aquele lugar, para mim, é um santuário. Toda a minha vida esportiva, a minha juventude toda, está ligada ao Olímpico.

O que fez o senhor optar pela odontologia?

Do lado da minha casa, tinha uma senhora que era prática em odontologia e eu ia lá. Mas ela não era técnica, não tinha uma técnica de universidade. E eu contestava isso. E tinha também um amigo meu que era dentista e foi me criando a ideia. Então eu vi que a universidade facilitava e fiz vestibular em 1956. Além do mais, o curso era no Rosário, onde eu já estudava. Tudo isso colaborou. Me formei na primeira turma da PUC, em 1960.

Como era o curso na época? Dava para conciliar o futebol com os estudos?

Era intensivo. Eu era interessado e queria saber de tudo sempre. Depois de um tempo, até fui convidado para monitoria de uma parte de cirurgia, fiquei um ano auxiliando as turmas dos anos anteriores. Toda vez que eu assinava contrato, eu dizia que não poderia atrapalhar meus estudos. Quando eu tinha provas, eu não viajava, a gente jogava muito no interior, mas eu não ia. O grêmio ajudou muito na minha formação, entendeu muito. O Foguinho, Oswaldo Rolla, que era treinador, entendia isso. Sempre que dava, eu aproveitava e estudava.

Como era a relação com os colegas de turma?

Eu tive colegas fabulosos. Me auxiliavam, emprestavam material. Engraçado que naquela época não existia essa paqueração com jogador. Isso aí começou mesmo no futebol depois de 70. Era uma página no jornal, meia hora, uma hora no máximo na rádio e acabou. Futebol não era tão difundido. Hoje liga na rádio e estão falando de futebol.

Quando o senhor se formou, parou de jogar?

Eu me formei em 1960, larguei em 1965 o futebol. Aí eu comecei a trabalhar. Já jogando eu tinha um consultório com um amigo íntimo meu, que infelizmente morreu faz dois anos, a gente montou um consultório juntos. Cada um tinha uma sala. Ele me apoiava muito, era um irmão para mim. Quando ele morreu, eu fechei o consultório e fiquei só na FASE, onde trabalho há 40 anos. Me aposentei e me chamaram de novo. Continuo lá.

Como é o trabalho na fundação?

Tem que ter muito empenho, dedicação e concentração. Há pouco, uma colega fez a extração de um dente e o guri disse que era um dente bom, tiveram que indenizar ele. Tem que saber lidar com eles e ter jogo de cintura.  Não é sempre uma faceirice, tem senões. Os internos provisórios, que só são atendidos em caso de dor, eu faço uma extração ou dou um medicamento. Às vezes, por cuidado, eu chamo, acompanho. Mas normalmente eles que devem pedir. Com os outros, eu tenho um livro de atendimento e vou acompanhando. A fase me paga muito bem, em dia, não posso reclamar.

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Milton e o catálogo de manchetes da sua época de jogador. Crédito: Júlia Corrêa

O senhor teve uma passagem pela política. Conte mais sobre essa experiência.

Fui vereador, por volta de 1964. Fiquei cinco anos. Eu nunca tive esse espírito político, mas foi uma experiência boa porque me deu conhecimentos políticos que antes eu não tinha. Fui vendo que a política não é tão odiosa quanto parece, mas não é nada limpa. Como estava largando futebol, o partido viu que eu tinha certa aceitação na torcida e me disseram que eu poderia lutar pelo esporte. Na época, até, o Parcão estava para ser vendido para uma imobiliária. Eu queria manter como parque. Tentaram me subornar, garantir a reeleição. Eu disse que aquilo que era uma afronta para mim. Eu jamais r minha origem, o esporte, a área verde. Passou um tempo, numa sessão, o pessoal discursando e eu sentado, ouvindo, mas fazendo um desenho distraído num papel. No outro dia, abri o jornal que dizia “enquanto uns trabalham, outros…”. Para ver a maldade. Depois eu vi que não era a minha área, tinha que ter uma cara de pau que eu não tinha.

O senhor chegou a retornar ao futebol?

Em 1972, o Grêmio vinha muito mal, sob pena de cair, e me convidaram para os jogos finais contra o Flamengo, contra o Santos… E eu assumi. Fui bem no começo. Ganhei os jogos, me formando como treinador. Só não me classifiquei porque perdemos no Recife em um jogo completamente atípico. Mas eu saí de uma zona quase de rebaixamento para quase reclassificar. Aí me recontrataram para o campeonato de 1973. Não perdi nenhum. Curiosamente, naquela época, tinha jogador que se vendia. Olha como era o futebol. Essas coisas foram me irritando. No fim do ano, fui mandado embora, sabia que seria. Tive propostas, mas eu larguei. Futebol, se não tem sinceridade, não é minha seara, ainda que eu não pudesse afirmar que as coisas aconteciam. Depois me convidaram para treinar outros times, o Atlético Mineiro, o Vasco… Mas eu teria que largar a família. Na Grécia, fizemos quatro jogos, e o Panathinaikos, time de lá, me chamou… Me ofereceram tudo, era uma oportunidade boa. Mas eu preferi ficar na minha cidade, com minha família, meu consultório.

Como o senhor avalia essa passagem do futebol para outra área? Acha que, se o futebol tivesse a configuração que tem hoje, teria continuado a jogar?

Para mim, o futebol foi tão bom que eu fiz o que queria, me formei, viajei como nunca ia viajar. Disputei campeonato pan-americano pela seleção, um no México e um na Costa Rica. Conheci a Rússia, Dinamarca, Noruega, Inglaterra, França… Jogamos em todos esses lugares. Então eu sou um cara feliz. Eu aproveitei tudo o que o futebol podia me dar. Não me enriqueceu, mas eu não fico triste por isso. Volta e meia eu ouço de alguém: “tu podia estar ganhando uns 300 mil se fosse hoje”. Para mim, o que eu ganhava na época estava muito bom. Não era para fazer um fundo de garantia, era para começar a viver. Depois eu me formei, comecei a trabalhar e ganhar dinheiro. Dentro daquela área restrita que eu estava, eu fui feliz. Fiz grandes amigos no futebol, nunca me desentendi. E estudei, que era o principal. Sempre digo para os meus filhos, todos formados, que o que eu deixei foi o estudo. É o que eu posso deixar.

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