Skip to content

Arco e flecha: O esporte milenar

24/06/2015

Por Matheus Bertoldo Bazeggio da Rocha

O arco e flecha é um instrumento que está presente na cultura humana desde a Idade da Pedra, há cerca de 20 mil anos. Não se sabe ao certo quando surgiu, mas pinturas rupestres e achados arqueológicos indicam que esta ferramenta era utilizada desde o Período Paleolítico, na Idade da Pedra Lascada. Era uma das principais armas de caça e guerra, e foi desenvolvida junto da lança. Os arcos e as flechas eram feitos de madeira, enquanto a corda era produzida a partir de tripas ou tendões de animais, e eram utilizados basicamente para a caça.

Atualmente, essa arte deixou de ser tão rudimentar e foi aperfeiçoada, com material de alta qualidade sendo produzido em todo o mundo. Não só mais voltada para a sobrevivência, tornou-se um esporte regulamentado e olímpico, praticado por milhares de pessoas profissionalmente e como lazer.

Foto 1 Matheus

Crédito: Matheus Bertoldo

Primeiras utilizações

Vários impérios, como o Akkadian e o Mongol, sobressaíram-se pelo uso eficiente dessas armas. O exército Mongol era um dos mais temidos e tinha como principal arma o arco e a flecha. Por atirarem em cima de cavalos e por possuírem arcos fortes, de 70 até 160 libras de potência, esse exército conquistava cidades executando às vezes a população inteira. O conhecimento dos arqueiros mongóis espalhou-se pelo mundo, que logo passou a temê-los.

O Egito também era conhecido pela grande prática e pelo desenvolvimento da arte. O rei Tutmés III, sexto faraó da XVIII Dinastia Egípcia e com seu reinado indo de 1479 a 1425 a.C., destacava-se por ser um arqueiro muito habilidoso e expandiu seu império para Síria e Sudão. Muitos monumentos e templos foram construídos em sua homenagem, como o Templo de Tutnés III, localizado em Deir el-Bahari.

O arco e flecha como esporte

Com o surgimento das armas de fogo, o arco e a flecha foi perdendo cada vez mais espaço no campo de batalha, sendo melhor aproveitado para a caça e sendo introduzido como prática esportiva. O exercício está crescendo e adquirindo mais notabilidade também através da ficção. Filmes como Senhor dos Anéis, Valente e Jogos Vorazes são grandes sucessos de bilheteria que incentivam o público a procurar pelo esporte. Para Bruna Lopes, porto alegrense de 19 anos e praticante de arco e flecha, a ficção teve uma grande influência na sua decisão de iniciar a atividade. “Desde pequena vejo arqueiros em filmes e jogos como Robin Wood e Eragon e sempre quis ser como eles. É uma forma que eu encontrei de trazer o tão desejado mundo da fantasia mais próximo da realidade”, comenta ela.

Com a evolução do esporte, os arcos – antes de madeira e tripas de animais – evoluíram e surgiram os arcos de aço, fibra de vidro, madeira, carbono e cerâmica. Existem 3 tipos principais de arcos: longbow, recurvo e composto.

O longbow é o arco mais comum e é muito parecido com os utilizados na Idade Média. É longo, primitivo e simples. O recurvo é conhecido como arco olímpico e é parecido com o longbow mas possui algumas adaptações, como alça de mira e estabilizadores. O arco composto é o desenvolvido mais recentemente, em 1940, e possui um conjunto de cabos e roldanas que possibilitam mais conforto ao arqueiro na hora do disparo. Miras telescópicas e gatilhos disparadores são alguns dos aparatos que facilitam a prática.

Tiro Nativo

O Tiro Nativo é uma modalidade que surgiu recentemente no Brasil, mais especificamente no Mato Grosso, de onde provém a maioria de seus praticantes. Oficializada em 2002 pela Confederação Brasileira de Tiro com Arco, a categoria tem o propósito de valorizar a cultura dos povos indígenas da região e é disputada nos Jogos dos Povos Indígenas.

Nas provas e campeonatos só são permitidos arcos produzidos artesanalmente, não sendo permitidos materiais sintéticos e industrializados. Os índios vão aos eventos utilizando seus trajes tradicionais, como forma de manter sua cultura.

O campeonato é disputado nas distâncias de 15, 20, 25 e 30 metros e, por possuir condições mais simples, espera-se que possa popularizar o esporte no país. Enquanto um arco de madeira pode ser feito artesanalmente, um olímpico, de qualidade média, não sai menos de 2 mil reais.

O arco e flecha nas Olimpíadas

O arco e flecha, ou Tiro com Arco, como é reconhecido oficialmente nas Olimpíadas, teve sua estreia em Paris, no ano de 1900, sendo um esporte voltado apenas para competidores masculinos. Na edição de 1904, nos Estados Unidos, as mulheres começam a participar da disputa, fazendo com que a competição seja uma das primeiras a integrar provas para os dois gêneros. Mais de 100 anos depois, a presença de mulheres nos campos de treino continua um traço forte. Nomes como Bo Bae Ki e Sung Ji Lee, da Coréia do Sul, e Ya-Ting Tan, de Taiwan, mantém a tradição feminina, sendo os maiores destaques dos jogos de Londres, realizados em 2012.

Após diversas saídas da grade de esportes presentes nos jogos olímpicos, o tiro com arco sofreu algumas modificações para adaptar-se ao grande evento esportivo. Desde os jogos de 1972, na Alemanha, as disputas acontecem de duas formas: individuais e por equipes (cada equipe com três arqueiros). Os participantes atiram de uma distância de 70 metros. Nos jogos oficiais, o arco recurvo é o único utilizado, formado por lâminas, punho e corda. As flechas chegam a ultrapassar a velocidade de 240 quilômetros por hora. Modelos mais compostos, com sistemas que alcançam maiores potências são mais utilizados na caça e não são aceitos na competição.

O Brasil já teve quatro arqueiros participando de jogos Olímpicos. Para Lucídio, da Federação Gaúcha de Arco e Flecha, o maior problema do nosso país é a falta de um time. “Sempre aparece alguém muito talentoso e que se destaca, mas o time brasileiro, como um todo, é fraco. Por isso, o país acaba não tenho notoriedade”, aponta ele.

Paraolimpíadas

Visto inicialmente como uma atividade de recreação e para relaxamento, o tiro com arco apareceu no programa da edição inaugural dos Jogos Paraolímpicos, que aconteceram em Roma no ano de 1960. As regras usadas são as mesmas dos jogos olímpicos, inclusive nas modalidades de prática (individual e em equipes de três integrantes).

O esporte é voltado para pessoas com amputações, paralisia ou paresia, paralisia cerebral, doenças disfuncionais e progressivas (como atrofia muscular e escleroses), com disfunções nas articulações, problemas na coluna e múltiplas deficiências.

Federação Gaúcha de Arco e Flecha

Ligados há seis clubes espalhados pelo Rio Grande do Sul, a Federação Gaúcha de Arco e Flecha (FeGAF) trabalha duro para atender as necessidades dos interessados pelo esporte. Atendendo Porto Alegre, Bento Gonçalves, Campo Bom, São Leopoldo, Pelotas e Caxias do Sul, a federação organiza competições estaduais, além de participar dos nacionais, que acontecem uma vez por ano.

A sede de Porto Alegre, no Clube Farrapos recebe periodicamente curiosos e iniciantes para um curso teórico e prático. Em um final de semana, é possível entrar no mundo do esporte, conhecer suas técnicas e entrar em contato com o material utilizado. Após o curso, o clube oferece suporte aos interessados em continuar treinando, como aponta Cristiano, 34 anos, em sua primeira visita ao local. “Sempre me interessei pelo esporte e agora, depois de fazer meu mestrado, mudei minhas prioridades e resolvi tentar o arco e flecha. Achei o Clube Farrapos após fazer uma pesquisa na internet, e por enquanto estou gostando. O espaço aqui é muito bom e agradável, eles são bem atenciosos. Sendo este o primeiro esporte que pratico, encaro primeiramente como hobbie, mas não excluo a possibilidade de seguir profissionalmente”, conta ele, que estava em sua primeira visita ao campo de treino.

Lucídio se mostra satisfeito com o número de pessoas que procuram o local para conhecer o esporte, mas se mostra descontente com o número de desistências. “É meio frustrante receber turmas completas para as primeiras aulas, ter uma lista de espera grande, e ver que apenas três ou quatro continuam vindo aos treinos nas outras semanas”, desabafa.

Vitória Gueru, 17 anos, moradora de Porto Alegre, pratica o arco e flecha desde dezembro de 2012 no Clube Farrapos. Vitória conta que sempre se interessou pela prática e, ao pesquisar na internet, chegou ao clube, onde fez aulas básicas. Agora, seus sábados só são completos depois de uma tarde de treino. “Eu venho para o clube treinar todas as tardes de sábado, já que eles oferecem uma boa estrutura e estão sempre ajudando. Nos dias de semana, quando posso, treino um pouco do posicionamento em casa, mesmo”, conta Vitória.

Foto 2 Matheus

Crédito: Matheus Bertoldo

O desenvolvimento do arco e flecha no Brasil e a preparação para 2016

Enquanto em países como a Coreia do Sul e Coreia do Norte, apontados por especialistas do esporte como líderes do arco e flecha, a modalidade é amplamente incentivada, os brasileiros ainda engatinham para um crescimento efetivo. Ao passar uma tarde no Clube Farrapos, localizado na zona leste de Porto Alegre, conversei com diversos praticantes de arco e flecha. Ao serem questionados sobre o quão sério eles levam o esporte, a resposta era unânime: a prática ainda é apenas um hobby para quase todos, precisando de muito incentivo para ser encarada de forma séria e profissional.

“Não temos como pedir pra alguém que vem treinar aqui que largue a faculdade, o estágio, pra se dedicar unicamente ao arco e flecha e, se ele der sorte, conseguir alguma coisa aqui no Brasil. O material é caro, seria um investimento pesado e que, infelizmente, ainda não garante muita coisa”, comenta Lucídio, que acredita que poucos esportes são incentivados de fato no nosso país. “No supermercado, é possível encontrar bola de futebol, de vôlei, raquete de tênis”, continua ele, “enquanto o material usado no arco e flecha é bem mais caro e de difícil acesso”. Por essa razão, inclusive, é que Lucídio destaca o poder do esporte em outros países, que contam com grande patrocínio dos próprios produtores de material.

Lucídio não vê, portanto, as Olimpíadas como uma chance de crescimento do esporte. Mesmo que a procura por aulas no clube tenham aumentado bastante – a lista de espera conta com mais de 120 inscritos, segundo ele –, após sediar os jogos olímpicos muitas das modalidades “acolhidas” pelo país serão esquecidas.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: