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IV Torneio de Joquetas das Américas reflete espaço das mulheres no turfe

23/06/2015

Por Jéssica Kilpp

Na Inglaterra do século XVII, o turfe era conhecido como o “esporte dos reis” – reis mesmo, nada de rainhas. Em 2015, já não pode mais negar o espaço garantido pelas mulheres, dentro e fora das pistas de corrida. Tradicionalmente, elas já têm seu dia reservado no Ladies Day, um evento social de gala no hipódromo que as coloca no centro das atenções, fora das pistas de corrida. Mas no último dia 04, durante o feriado de Corpus Christi, o público pode conferir de perto as mudanças que o Jockey Clube Rio Grandense vem implantando para alterar essa realidade, no IV Torneio de Joquetas das Américas, em Porto Alegre.

Aliando a atenção dada aos chapéus deslumbrantes das socialites no Hipódromo do Cristal à capacidade das profissionais nas pistas, o torneio também mostra o talento da mulher em cima do cavalo. Nessa 4ª edição, contou com a participação de joquetas de sete países: Brasil, Estados Unidos, Canadá, Chile, Uruguai, Equador e Peru. Além disso, a grande novidade do ano é a Taça Ladies Day, criada para uma corrida composta só de cavalos de proprietárias mulheres, fato inédito na história do turfe. Tão inédito quanto o público, que juntou, aos tradicionais homens apostadores de meia-idade, também crianças e mulheres.

“O desafio era chamar público.  Ainda convidamos algumas mulheres da sociedade que se destacam pela sua atuação profissional e demos às corridas de cavalo o nome delas”, conta Carol Strussmann, Gerente de Marketing do Jockey, que conta com um quadro administrativo composto só de mulheres. “Aqui no hipódromo a gerente geral e as três adjuntas são mulheres. E é óbvio que é um ambiente machista e a gente tem desafios, mas aos pouquinhos estamos conseguindo quebrar essa barreira”, completa Strussmann, que defende o hipódromo como um lugar para todos.

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Josiane Gulart recebendo prêmio. Crédito: Jéssica Kilpp

Com a palavra, as joquetas

Segundo a joqueta brasileira Josiane Gulart, as mulheres ainda são minoria no turfe no Brasil. “Quando eu comecei há 14 anos, o preconceito era muito grande. Fomos mostrando que podemos ganhar corridas importantes e hoje já estão mais acostumados com a mulher. Mas tivemos que garantir nosso espaço. E não adianta ganhar um páreo. Tem que ganhar sempre, mostrar sempre, todo dia”.

Com tradição familiar no jockey vinda do pai e do irmão, a gaúcha de Carazinho conta que cresceu envolvida com o cavalo. “Meu pai não queria que eu fosse por achar uma profissão muito arriscada e machista. Mas quando eu comecei a montar e ganhei, viu que era possível e ficou todo orgulhoso”. Mesmo figurando entre os cinco melhores no Jockey Clube de São Paulo, na Cidade de Jardim, competindo nas estatísticas ao lado dos homens, Gulart já ouviu do público que deveria ir pilotar um fogão, não um cavalo. “Eu fui lá e no mesmo páreo ganhei. Não sei nem quem falou, mas lá dentro de mim eu dizia: Viu? Eu posso”.

E ela pode mesmo. As altas expectativas de Gulart para o IV Torneio deram certo:  venceu com 30 pontos, seguida da brasileira Bárbara Melo (26 pontos) e das estrangeiras Skye Chernetz (Canadá, 21 pontos) e Janice Blake (EUA, 16 pontos).

A canadense Chernetz não enxerga o esporte dessa forma em seu país. “No Canadá, é fácil para mulheres se tornarem joquetas. Somos muitas. E somos tratadas como os homens. Temos que passar pelas mesmas coisas inicialmente. Depois, é tudo por nossa conta”. A joqueta, que esteve no Brasil pela primeira vez, tem influência direta da mãe, a também joqueta Bonnie Eshelman que, em 1973, tornou-se a primeira mulher vencedora no jockey canadense.

Já nos Estados Unidos, segundo Blake, as mulheres ainda são muito julgadas pelo que fazem em sua vida pessoal. “Um homem pode sair e fazer o que quiser. A mulher deve viver uma vida mais regrada. Nos EUA, se você realmente quer correr, deve só correr e colocar sua vida pessoal em espera. Fazer sua carreira”. A joqueta, que corre desde 1998 e está no Brasil pela quarta vez, explica que cada gênero tem suas próprias dificuldades, mas a mulher deve provar o seu valor constantemente, muito mais do que os homens. “Se a mulher ganha a corrida, dizem que foi graças ao cavalo. Então você tem que provar tudo de novo, de novo e de novo. Até ser reconhecida. Até dizerem que você é capaz de correr. Se é um homem, uau!, bota o cavalo para correr”. Mas a estadunidense é otimista e aponta que hoje não é mais tão difícil para a mulher como já foi um dia.

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IV Torneio de Joquetas das Américas, em Porto Alegre. Crédito: Jéssica Kilpp

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Garantir espaço não depende só da mulher

Para as vizinhas latino-americanas do Uruguai, no entanto, a realidade é diferente. Segundo Antônio Javier Castro Franco, jornalista e narrador de corridas convidado para trabalhar no Ladies Day, há 25 anos não havia uma joqueta a nível oficial no país.

“Para o Uruguai, foi muito importante ter novamente a figura da mulher em um universo tão machista quanto é o turfe. O esporte está sempre associado à figura dos homens. Ainda existe como barreira a cultura de que montam melhor que a mulher”. Mas mudar essa visão não está só nas mãos das mulheres. O uruguaio concorda que, para dar à mulher o lugar que ela merece no turfe, os homens também precisam agir.

Assim, enquanto as mulheres garantem a vitória com treinamento e competência, é preciso superar uma cultura marcada pelo machismo e pela desigualdade de gênero.

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