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Beira-Rio: gestão própria e resultados positivos

23/06/2015

Por Alessandro Di Lorenzo

O grande legado deixado pela Copa do Mundo aos brasileiros foi a modernização e construção de estádios de futebol. Mas um ano após a realização do mundial, muitos clubes vêm enfrentando dificuldades para manter suas arenas. Além disso, a média de público registrada está muito abaixo do esperado para estádios desse porte. Os chamados elefantes brancos, que geravam preocupação mesmo antes do mundial, confirmaram as expectativas negativas. Um exemplo é o estádio Mané Garrincha, em Brasília, responsável por um rombo de quase quatro milhões de reais ao governo do Distrito Federal.

Nesta arena, a média de público registrada é de apenas sete mil torcedores. Mesmo estádios tradicionais e utilizados constantemente, como Maracanã, Mineirão, Fonte Nova e Castelão, não lotam e causam dificuldades aos seus clubes. Situação estranha vive a Arena Corinthians, que, mesmo com uma média de público superior a 30 mil pessoas, é corresponsável pela crise financeira enfrentada pelo Timão. Apenas um desses estádios não tem causado dificuldades de manutenção ao seu clube. É o estádio Beira-Rio. A causa, segundo o vice-presidente de administração do Internacional, Alexandre Limeira, é que o clube é o responsável pela gestão de seu estádio.

Depois da Copa do Mundo, o Beira-Rio recebeu 34 jogos oficiais. A média de público nestas partidas é de pouco mais de 26 mil torcedores, e a renda média chega à casa dos 830 mil reais. O dirigente afirma que além de colaborar com o equilíbrio financeiro do Inter, o estádio é responsável pelo bom momento que o clube vive dentro de campo. Confira a entrevista com Alexandre Limeira.

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Para Alexandre Limeira, diferencial do Beira-Rio é que o clube é quem realiza a gestão do estádio. Crédito: Alessandro Di Lorenzo

Alessandro Di Lorenzo – Vários estádios estão sendo um peso para administração de seus clubes. Porque a situação do Beira-Rio é diferente?

Alexandre Limeira – O Internacional tem uma vantagem que é o investimento em gestão pelo clube. Nós temos duas vice-presidências que cuidam da operação do jogo. A vice-presidência de patrimônio e a vice-presidência de administração, que cuida das questões operacionais. Para fazer um comparativo: em jogos de 35 mil pessoas, logo após a Copa do Mundo, nós estávamos com uma despesa de jogo em torno de 330 mil reais. Hoje um jogo com o mesmo público sai por 250 mil. Nós conseguimos através da gestão diminuir os custos das partidas. Mesmo com 330 mil já era um bom número. O Maracanã, por exemplo, tem despesas que ultrapassam 600 mil reais. Outros estádios do porte do Beira-Rio passam dos 400 mil por jogo. A grande vantagem competitiva do Inter em relação aos outros estádios é que o clube administra o Beira-Rio. Muitos clubes terceirizam esse serviço ou tem uma empresa gestora.

“Para fazer um comparativo: em jogos de 35 mil pessoas, logo após a Copa do Mundo, nós estávamos com uma despesa de jogo em torno de 330 mil reais. Hoje um jogo com o mesmo público sai por 250 mil.”

Quais foram os custos de jogo que foram diminuídos?

Foram vários, não teve um principal. Nós tivemos uma grande redução no quadro móvel. Talvez em razão do padrão Fifa houve um certo exagero no número de funcionários na época. Nós incentivamos também a redução de custos com a criação da venda antecipada com desconto. Isso resulta, no dia do jogo, menos bilheterias, menos deslocamento de dinheiro, menos seguranças. São ações preventivas que geram economia ao clube.

E quais são os principais custos de manutenção do Beira-Rio hoje?

O maior custo é o campo. Troca de gramado de verão para o de inverno. Também há um alto custo de tecnologia e automação do estádio: ar-condicionado, sistema de catracas. Em jogos noturnos, a energia. Nossa conta de luz passa de 350 mil reais por mês. E tem o custo do gerador elétrico também.

O preço dos ingressos foi alterado em razão da modernização do estádio?

Eu administrei o antigo Beira-Rio. Em um jogo de 35 mil pessoas o custo operacional era um pouco acima de 100 mil reais. Houve um aumento de despesas porque a qualidade aumentou muito. Mas não repassamos esses valores para os preços dos ingressos. Estamos praticando bons preços, no nosso entendimento. Lógico que transferimos alguns custos para outros serviços. Por exemplo, a alimentação no estádio ficou mais cara. Mas também essas lojas, além de aumentar a sua qualidade, aumentaram as opções. É outro nível de alimentação. E esses bares consomem muito mais com sua estrutura. A alimentação ficou mais cara, o ingresso não. O estacionamento do Beira-Rio também. Hoje para estacionar tu vai pagar  vinte reais se for sócio e quarenta se não for. É caro o estacionamento, mas ele foi asfaltado, construímos um edifício garagem. Ou seja, transferimos o custo para quem usa esse serviço. Se tivéssemos aumentado o ingresso, até quem não usa estacionamento teria que arcar com as despesas. Então quem paga é quem usa o sistema.

Qual é o menor preço de ingresso que pode ser praticado sem gerar prejuízos ao clube? 

Acho que não temos que pensar no menor, e sim no melhor preço. Nós temos que buscar o preço que lote o estádio. Um jogo para dar lucro tem que ter uma receita superior a 700 mil reais. Tem a despesa do jogo, mas também toda a preparação para a partida. Nós temos hoje um quadro de 468 funcionários, sem contar os atletas. Tudo isso é custo do clube. E é importante ressaltar que existem regulamentos que limitam o preço do ingresso. Por exemplo, o Campeonato Brasileiro em seu regulamento define 60 reais como preço mínimo do ingresso. Claro que tem desconto para sócios, estudantes e idosos. Mas o clube não pode decidir cobrar 30 reais para a torcida em geral. Eu preciso de uma autorização da CBF. No campeonato gaúcho, o mínimo é 40 reais. Algumas vezes se critica o clube por cobrar 40 reais em um jogo sábado à noite. Mas nós temos que cumprir o regulamento. Muitas vezes o que limita as ações do clube são os regulamentos das competições.

“Público de 50 mil nunca vai ter. Se for um jogo para 50 mil pessoas, é jogo decisivo. E se é jogo decisivo o clube adversário vai trazer torcida. Com torcida visitante precisamos fazer separação de segurança. Eu acho que o dia que lotar até os skyboxs, o máximo que vai chegar é 48 mil.”

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Beira Rio em jogo da Copa Libertadores da América 2015. Crédito: Alessandro Di Lorenzo

Qual a importância do número de sócios do Inter nas finanças do clube?

Nós temos atualmente 113 mil sócios num estádio em que cabem 50 mil pessoas. Isso gera uma receita superior de contribuição. O sócio não é sócio do time, nem do estádio, e sim do clube. A instituição é mais forte. Com esse investimento do quadro social conseguimos montar melhores times, conseguir mais resultados e ainda mais sócios. Podemos dizer que é um ciclo vitorioso. Um dia me perguntaram se o aumento do número de sócios neste ano foi por causa da Libertadores. Eu respondi que não. É o contrário, o Inter está na Libertadores por causa dos sócios. O quadro social impulsiona o clube.

O maior público registrado no novo Beira-Rio foi de pouco mais de 44 mil pessoas contra o Santa Fé, na Libertadores. Porque não se lota o estádio?

Por vários motivos. Primeiro existem as separações de segurança. Em um Grenal, eu perco mais de dois mil lugares só por questões de segurança. E existem ainda setores que não estão lotando. Nas áreas Vips, que tem médias de preços superiores a 200 reais, não é qualquer jogo que lota. E os skyboxs não estão lotando. Isso tem sido o motivo de não se conseguir chegar na lotação. Público de 50 mil nunca vai ter. Se for um jogo para 50 mil pessoas, é jogo decisivo. E se é jogo decisivo o clube adversário vai trazer torcida. Com torcida visitante precisamos fazer separação de segurança. Eu acho que o dia que lotar até os skyboxs, o máximo que vai chegar é 48 mil.

E isso se reflete também no restante do Brasil?

Exatamente. Acho que está até pior. Eu estou vendo que, mesmo em finais, no Maracanã, no Mineirão, essas áreas Vips não estão sendo consumidas. Existia uma expectativa por parte dessas empresas que investiram nos novos estádios, que depois da Copa essas áreas arrecadassem bons valores. E isso não está acontecendo em nenhum dos estádios. Elas estão vazias e isso contribui muito para baixa média de público nos estádios.

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