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A torcida é nossa!

22/06/2015

Por Ludmila Cafarate

Este jogador número doze sabe muito bem que é ele quem sopra os ventos de fervor que empurram a bola quando ela dorme, do mesmo jeito que os outros onze jogadores sabem que jogar sem torcida é como dançar sem música.

Esta é uma das definições que o escritor uruguaio, Eduardo Galeano, dá aos torcedores de clubes de futebol em seu livro Futebol ao sol e à sombra. Para os amantes do esporte, é inegável a magia que as torcidas oferecem ao espetáculo futebolístico, que ultrapassa as quatro linhas do gramado. O ritual de vestir a camisa do time, encontrar com amigos e familiares para ir ao jogo, preparar faixas e cartazes, ficar nervoso, roer as unhas, xingar os adversários (porque ninguém é de ferro) e chegar perto do estádio para sentir a aura do futebol, faz parte da vida de milhares de torcedores. Quando são organizados, essa devoção não tem fronteiras, eles acompanham desde o amistoso na várzea do interior de seu estado até o Mundial de Clubes no Japão.

No Brasil, a história das torcidas organizadas começa, em 1942, com o surgimento da Charanga, do Flamengo, criada por Jaime de Carvalho, que também comandava a torcida da seleção brasileira durante as Copas do Mundo. Foi ele quem levou os instrumentos rítmicos e de sopro para os estádios, tornando o futebol uma grande festa. Aqui nos pampas, o pioneirismo é da torcida Rolo Compressor, do Internacional, criada na década de 1940, por Vicente Rao.

Tudo lindo, com músicas e festejos, mas infelizmente, durante muitos anos, as torcidas organizadas discriminaram e não deram espaço para mulheres e homossexuais. Elas eram chamadas de prostitutas e não podiam frequentar estádios, sozinhas, porque diziam que ali não era o lugar delas. Com os gays, apesar de terem sido criadas várias torcidas específicas para eles, o preconceito continua até hoje, dificultando a presença desses torcedores no estádio. Já, as mulheres, cada vez mais, estão ganhando espaço nos estádios de futebol do Brasil, seja com organizações exclusivamente femininas ou assumindo cargos importantes nas tradicionais torcidas do país.

Elas estão no comando

A Força Feminina Colorada (FFC) foi fundada a partir de uma comunidade de meninas no Orkut, que gostavam muito de futebol e queriam ir aos jogos do Inter, em grupo, a fim de levar mais mulheres para o Beira Rio e oferecer mais segurança para as torcedoras. Então, no dia 24 de maio de 2009, 11 gurias se encontraram, na Usina do Gasômetro, e começaram a planejar as ações que as tornariam uma torcida organizada.

A presidente da FFC, Malu Barbará, explica que o caminho para a regularização, perante o clube, foi longo: “Nós começamos a fazer parte, oficialmente, das torcidas, com um ano de existência. Nós não éramos reconhecidas antes. Eu acredito que eles tenham achado que era ‘fogo de palha’, mas quando viram que nós realmente éramos organizadas, que íamos, torcíamos e fazíamos a diferença, eles nos oficializaram”. Malu se orgulha do pioneirismo da FFC. Segundo ela, a torcida é a única, exclusivamente, feminina do Brasil e que apesar de ouvir relatos da existência de uma no Atlético Paranaense, nunca viu faixas delas no estádio do time, mesmo já tendo ido a vários jogos no Paraná. Ela também conta que há alguns meses, as meninas da FFC encontraram, na internet, a Força Feminina Cruzeirense, mas seguindo as mineiras, no Facebook, descobriram que elas assistem aos jogos em bares, mesmo quando eles são em Belo Horizonte. “Eu não conheço nenhuma torcida feminina, que seja atuante como nós somos que vai a todos os jogos no estádio, apoiando o time”, completa Malu.

Em dia de jogo, a mulherada da FFC se reúne para fazer churrasco no Gigantinho, sem a ajuda de ninguém, como afirma a presidente: “Para a surpresa de muitos torcedores, nós não dependemos de homens para nada, nós fazemos o churrasco sozinhas”. Além disso, elas cuidam com muita responsabilidade das viagens das meninas, já que elas acompanham o Inter sempre, mesmo quando os jogos são fora de casa, além das reuniões com o clube e com a polícia.

O comando feminino, atualmente, ultrapassa as torcidas feitas para mulheres. Juliana Comas é a presidente da torcida organizada mais antiga do Inter, a Camisa 12. Criada em 1969, a Camisa 12 fica na arquibancada inferior do Beira Rio, atrás do gol, e é reconhecida pela sua energia, levando ao estádio as suas charangas de sopro e metais. Juliana está na torcida desde 1994 e há 4 anos é presidente. Como ela destaca a rotina da torcida é bastante intensa: “A gente se reúne cedo, porque precisamos colocar as faixas no estádio, organizar o material que vai entrar e cuidar das vendas de materiais que nós temos”.

Como é a presidente, o trabalho de Juliana é ainda maior, ela conta que faz de tudo na torcida. É ela que vai nas reuniões com o Inter e com a polícia, que está cedo no estádio, em dias de jogos, para arrumar as carteiras e que resolve qualquer problema que ocorre. “Tu tem que dedicar 90% da tua vida para isso. Tu tem que estar disposto a largar muita coisa da tua vida particular para estar ali”.

Força Feminina Colorada em jogo do Inter

Crédito: Rosita Buffi

Crédito: Rosita Buffi

O amor organizado

A principal característica das torcidas organizadas é a fidelidade. Elas acompanham o clube em todos os lugares, e com um amor incondicional, apóiam o time tanto nos momentos bons como nos difíceis. Juliana lembra que o momento mais complicado, desde que ingressou na Camisa 12, foi o período em que o Beira-Rio estava em obras, e o Inter disputava os jogos “em casa”, no estádio Centenário, em Caxias do Sul: “A gente tinha que viajar em todos os jogos. Então, todo mundo gastou muito dinheiro. Tinha que pagar ônibus e alimentação, porque a gente saía de manhã para voltar de madrugada”.

Mesmo demonstrando todo esse amor pelo clube e representando o time fora da cidade, as torcidas organizadas sofrem muito preconceito por parte dos torcedores comuns. O principal argumento é de que eles têm lugar fixo no estádio e não precisam fazer o check in em dias de jogo para entrar. De fato, os torcedores organizados têm a entrada facilitada, mas eles não obtêm o lugar no estádio de graça. Atualmente, todos os membros de organizadas, do Inter, são sócios do clube e pagam R$ 40 por mês para frequentar o Beira-Rio. Devido a tantas reclamações dos sócios comuns, que precisam fazer check in, o Inter fechou as inscrições para torcidas organizadas e não há previsão para a retomada do processo. Malu conta que já teve vários problemas com torcedores comuns, que tiravam a faixa delas e diziam que elas não podiam ocupar aquele lugar sempre. “Aquele torcedor que reclama que a tua faixa está ali e quer colocar a faixa dele por cima, sendo que ele vai só em um jogo da Libertadores, tem que pensar que nós estamos lá sempre. Seja contra times grandes ou pequenos, faça frio, calor ou chuva, esteja o Inter bem ou mal, nós estaremos lá. Isso tem que ser respeitado”, afirma a presidente da FFC.

O amor das torcidas organizadas vai além da paixão pelo clube, elas transformam a força da mobilização coletiva em ações sociais. A Camisa 12 organiza feijoadas e uma festa junina todos os anos, a fim de arrecadar dinheiro para ajudar o Asilo Padre Cacique e casas que abrigam crianças para a adoção.

Essa corrente do bem influencia a vida dos participantes, que aprendem a trabalhar em equipe e descobrem o valor da verdadeira amizade: “Eu aprendi muita coisa na Camisa 12. Eu sou filha única, era para eu ser mimada e egoísta, e aqui eu aprendi a ter amigos de verdade, a pensar no próximo e não ser individualista”, revela Juliana. A FFC também preserva esse caráter de amizade, como destaca Malu: “A Força Feminina significa amizade e família. Nós somos muito unidas e não falamos só de futebol. Nós sabemos da vida de todas as meninas, existe uma amizade muito grande entre a gente”.

Não há dúvidas de que o futebol é uma atividade social, e as arquibancadas devem ser a “casa” de quem quiser entrar. Sejam homens, mulheres, gays, negros, brancos, ricos, pobres, organizados ou não, todos devem ter o direito de apreciar o espetáculo do futebol, comemorando aquele gol da virada nos 45 do segundo tempo ou lamentando a expulsão do craque do time. O futebol não pode ser lugar de preconceito nem de generalizações. Ao contrário do que é divulgado, as torcidas organizadas não são formadas só por marginais, que vão ao estádio para brigar. A maioria dos seus membros são tranquilos, trabalhadores e estão lá para apoiar o time.

A torcida não pode ser minha, sua ou deles. A torcida tem que ser nossa e no estádio todos precisam sentir essa emoção de fazer parte de algo especial, que transcende a razão humana. Já que começamos com Galeano, que encerremos com ele, narrando a sensação de um dia de jogo: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades.

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