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Elitização do futebol: solução eficiente e elegante

17/07/2014

MARCOS - CopaMaraca1

O Maracanã de ontem, e de hoje, padrão FIFA (Fotos: braziltravelbeaches.com e ilheus24h.com.br)

O Maracanã de ontem, e de hoje, padrão FIFA (Fotos: braziltravelbeaches.com e ilheus24h.com.br)

 

por Marcos Bernaola

Em 1950, na Copa do Mundo de Futebol disputada no Brasil, mais de 200 mil pessoas lotaram o Maracanã para assistir à final. Além do preço mais barato daquela época, equivalente a 2% do salário mínimo da época, num determinado momento os portões foram liberados e se deu entrada franca. 64 anos depois, no mesmo país e no mesmo estádio, só 73 mil pessoas vão assistir ao jogo decisivo.

As reformas nas comodidades do principal estádio carioca fizerem a capacidade diminuir consideravelmente, mas ainda, o ingresso mais barato para os brasileiros será de 330 reais, a metade do salário mínimo. É realmente válido o aumento dos preços em relação aos investimentos nos estádios? Que acontece com quem não pode pagar esse dinheiro? Qual será o publico presente de agora em diante nos jogos de futebol, com uma exigência tão elevada de renda?

Há trinta anos, na Europa, a violência do futebol inglês preocupava aos governos. Setores mais radicais, conhecidos como hooligans, geravam distúrbios não só na Inglaterra senão também em competições internacionais. Eram punidos, ainda que os ingleses estiverem muitos anos sem poder participar de certas Copas europeias por isso. Mas a situação não mudava e as condiciones dos estádios privavam muita gente de assistir aos jogos, por considera-lhos perigosos. Não só os responsáveis pela segurança tentavam resolver o dilema, mas também os donos dos clubes e os patrocinadores, que viam como cada vez menos lotava os estádios.

A solução foi a mesma para os dois problemas: reformular os estádios. Com isso, a ideia era mudar além o publico alvo dos jogos de futebol. Contra a violência a resposta foi firme, punir e deixar fora aos revoltosos. Eliminou-se o setor mais popular do estádio, o que no Brasil se conhece como “geral”, botando cadeiras e determinando que tudo mundo devia assistir o jogo sentado. Assim, as possibilidades de distúrbios diminuíam. Consequentemente, com mais comodidades e os perigosos fora dos jogos, novo publico começou-se a interessar nas partidas. Os preços subirem, em parte para pagar os custos das reformas e também para expulsar as classes baixas do esporte, que agora era da elite.

Não era só uma mudança dos preços, mais do target perseguido. Aqueles torcedores fanáticos só contavam com dinheiro suficiente para o ingresso mais barato. Agora, quem assistia podia pagar não só o preço elevado que serviria para manter a estrutura, mas também tenha o habito de consumir dentro do estádio, incrementando as vendas. O negocio era perfeito, mudar o publico. Agora os estádios ficavam lotados com receitas maiores e com pessoas que não brigam e consumem. O torcedor de antes, sem lugar nesse novo mercado, devia se contentar com assistir o jogo na TV.

O novo Wembley (Foto: Jbmg40/Wikicommons)

O novo Wembley (Foto: Jbmg40/Wikicommons)

O modelo ficou popular em toda a Europa. Com os anos, o futebol europeu se cheio de dinheiro e foi crescendo em rendas comerciais. Jogadores melhor pagos, patrocinadores com mais dinheiro e clubes virando empresas. Todo mundo curtia, mas o problema era evidente: o esporte mais popular do mundo havia se tornado um espetáculo da elite. Já não era só no consumo, mais nas decisões. Daquela época onde os sócios e os torcedores decidiam o futuro do seu clube, o que mesmo fazia eles se identificar com a equipe, a situações nas quais grandes empresários de países distantes compram e vendem jogadores e o time como quiserem. Os fãs assistem somente, sem voto. Consumem.

Durante anos os sul-americanos olharam surpreendidos ao que acontecia ao outro lado do oceano. Pensando que a loca idéia de ter cadeiras nos estádios e permitir que estrangeiros comprassem o clube o decidiram a equipe era uma questão da cultura. Que eles não eram apaixonados pelo futebol como nos aqui, e que viviam sem tanta intensidade os jogos e que só por conseguir resultados deixavam em mãos de qualquer o destino dos seus times. Era errado. Não era senão parte do futuro perseguido pelos grandes administradores capitalistas, a transformação do esporte (como de outros gostos humanos) em um negocio bem rentável.

E não é só culpa daqueles que perseguem o beneficio. Os mesmo clubes tiverem que adotar o modelo. Além da sua função social, as dívidas eram cada vez maiores. Precisados de dinheiro, seja para pagar salários de jogadores e manterem-se competitivos o pelos erros das diretorias, as instituições buscavam a saída. Com as rendas não sendo importantes, virarem para os direitos da TV. Com todos os jogos nas telas, o publico nos estádios diminui, e o problema seguia.

Apareceu então a solução já falada: botar a classe alta nas arenas. Para isso era preciso oferecer-lhes confort e melhores condições, investimentos que patrocinadores estavam dispostos a fazer para elevar suas ganâncias. Mais dinheiro, melhores jogadores (na teoria), melhores espetáculos para o publico. Tudo fechava.

A pergunta era: o Brasil estava pronto para essa mudança. Tentativas de estádios modernos e preços altíssimos tenham fracassado como em outros lugares da América do Sul. Mas a Copa do Mundo estava chegando, e com ela a prioridade de mostrar que o futebol brasileiro estava no mesmo nível estrutural que na Europa. Motivados majoritariamente pela causa Copa, e com a bandeira das exigências da FIFA detrás, os estádios começarem a mudar. Novos foram construídos com as modernas arquibancadas de somente cadeiras, estacionamentos, acessos, lojas, camarotes, setores VIP, com luxos nunca vistos no futebol de nossas terras. Os velhos também foram repensados. Menos lugares, mas com melhores condições.

Quem iria a pagar tudo isso? O futebol não estava preparado, no Brasil, para que o torcedor assumisse os custes da reformulação. Então, era hora de repensar o futebol também. As empresas tomaram conta da possibilidade e atuarem. Estrelas locais e de outros países vieram seus salários aumentados enormemente para ficar no futebol domestico. O nível do espetáculo tenha que aumentar, se quiserem que as classes com dinheiro começassem a povoar os estádios. Com maiores orçamentos necessários para isso, o custe finalmente impactou no preço dos ingressos. Era a última barreira para definir quem poderia torcer nas arenas, e quem devia ficar na sua casa assistindo na TV.

Aqui, os números falam sozinhos. Uma consulta realizada tomou a conta só os últimos 10 anos, o valor dos ingressos aumentaram em 300%, quando a inflação no mesmo período foi menor aos 75%. Em março de 2003, o valor meio do ingresso era de R$ 9,50. No mesmo mês do ano passado, o valor meio já era de R$ 38, com hoje subindo a mais de R $45. Outros valores, além da citada inflação, não atingirem o mesmo crescimento nesses 10 anos. O salário mínimo subiu 183% e a renda média do trabalhador, 37%. A subida é mais pronunciada nos últimos anos, com um aumento de 65% em três anos desde 2010, quando a media anual de suba na década foi de 15%.

Estudo da Pluri Consultoria referente ao preço dos ingressos cobrados pelos vinte clubes que disputam a Série A do Brasil, para adultos, não considerando a meia entrada ou promoções

Estudo da Pluri Consultoria referente ao preço dos ingressos cobrados pelos vinte clubes que disputam a Série A do Brasil, para adultos, não considerando a meia entrada ou promoções

Mas não é só o preço dos ingressos o diferencial, já que ainda existem descontos e possibilidades para o torcedor economizar sua assistência aos estádios. Tudo fica mais caro, e a motivação dos clubes, ou da concessão das arenas, é que quem vai para o jogo seja consumidor.

Numa entrevista, o antropólogo Antonio Oswaldo Cruz, da Universidade Federal de Rio de Janeiro, cita como exemplo da elitização a construção da Arena da Baixada, em Curitiba. “Para este estádio foi feita uma pesquisa na Europa de plantas de estádio, concepções de estádio. Ele é voltado para um público mais consumidor de outras coisas do que futebol. Na época, um diretor do Atlético Paranaense dizia que ele não queria mais aquele público que bebia, ficava bêbado e depois ia ver o jogo dentro do estádio, ele queria um público mais espectador.”

O novo modelo faz com que os estádios não sejam mais espaços públicos de convivência e confraternização. Segundo Christopher Gaffney, geógrafo da Universidade Federal Fluminense, as mudanças arquitetônicas também modificam o comportamento do torcedor. “É uma domesticação da experiência pública. Você se sente mais em casa, mais relax, você senta na cadeira com encosto, com um drink na mão e assiste o jogo com uma atitude mais passiva. O torcedor apaixonado que usa ou usava o estádio como lugar de solidariedade social, que deixava as frustrações da semana lá no estádio, xingando o árbitro, ele não vai ter mais essa escolha, porque não vai poder pagar”.

Como já foi dito, mudando o publico muda o comportamento e aumentam os benefícios, sempre que o estádio ainda fique lotado. Para isso, segue sendo preciso que o espetáculo seja bom, que o nível atraia aos novos pagantes. O torcedor antigo assistia sem importar a posição do clube na tabela ou as comodidades do local. Os novos exigem, e muito. Os times precisam contratações bombásticas, construções modernas e espaços de relax para o publico querer pagar os altos valores. A Copa do Mundo juntou e acompanhou essa necessidade.

O “padrão” FIFA não era senão a lista do que era preciso mudar para levar os gramados ao nível previsto. Todos detrás do grande evento, o Brasil mudou em poucos anos de sua resistência ao modelo europeu para seu posicionamento como potencia mundial capaz de sediar a principal competência esportiva do mundo. No meio, ficou o povo. Com certeza que a economia demonstra que o modelo funciona, mesmo aqui em America do Sul. Embora o Campeonato Brasileiro seja um dos mais caros (não só na região, mas também em comparação com países como Espanha, Itália, México, Reino Unido, Portugal, França, Estados Unidos, Alemanha ou Japão*OBS1) e a meia de publico tenha sofrido uma queda constante (15,8% de 2007 a 2012), a renda aumento quase 50% no mesmo período de cinco anos até 2012. Mas isso só aconteceu deixando muitas pessoas fora e sem conhecimento de como vai continuar a situação no futuro.

Ainda é muito cedo para determinar os resultados sociais que a mudança vai trazer no Brasil. Já é perceptível o cambio nas características dos torcedores atuais, mas o que não é fácil definir é como isso pode afetar o resto do povo brasileiro. Especialmente aquele que ficou fora do futebol. No Brasil, os clubes ainda decidem seu futuro. Uma situação que na Europa deixou de existir a tempo. Mas as empresas cada vez ficam mais perto das decisões. Cabe dizer que os clubes como tais nasceram com uma função social. Não era dinheiro o que eles perseguiam, mas uma finalidade de identificação em procura da socialização das pessoas em torno a um gosto comum. Tudo isso vai se perdendo. As rendas e o dinheiro mandam, e o negocio decide não só quem joga no gramado, mas também quem podem ficar perto dele assistindo pessoalmente nas partidas.

(Foto: Blog Ser Flamengo)

(Foto: Blog Ser Flamengo)

Outros efeitos colaterais podem acontecer. Na Inglaterra, por caso onde parece que tudo começou, antigos torcedores sem lugar nas arquibancadas pela elitização e a comercialização dos seus maiores times, decidirem re fundar seus clubes esquecendo-se da profissionalização. Longe dos grandes títulos, eles voltam a sentir-se identificados com as equipes, e vivem perto do dia a dia dos seus amados e amadores jogadores (é o caso do United of Manchester. Leia mais aqui).

Os novos estádios da Copa e outros muitos dos próprios clubes bem fazendo sucesso no país. Ingressos altos têm descido o publico presente mais aumentado significativamente as rendas. Salários quase europeus ainda os times não pressentem o mesmo nível técnico. Torcedores mais calmos, com maior poder aquisitivo e outra visão do esporte lotam hoje os estádios para assistir seu espetáculo. Tudo da certo ao nível organizativo, com menos (na teoria) distúrbios e mais consumo. Até da para pensar se o álcool pode regressar definitivamente ao futebol como um das principais vendas dos jogos. Só resta pensar, se possível, nos excluídos e sua nova relação com o futebol. Será que o esporte realmente pode deixar de ser um conector social? Se as crianças nunca mais ficaram perto dos craques que amam, como eles vai se envolver no esporte e na sociedade de conjunto? O espetáculo para ricos pode ser bom em termos de dinheiro, mais que efeito vai trazer na pratica real do esporte? Na Europa faz tempo que o futebol deixou de ser popular. O tempo dirá se aqui conseguem o mesmo em procura do redito econômico.

 

OBS1: A consultora Pluri fez o levantamento em 16 países (Brasil, Espanha, Itália, Turquia, México, Reino Unido, Portugal, Argentina, Chile, Costa Rica, França, Estados Unidos, Uruguai, Alemanha, Holanda e Japão) e concluiu que o Brasil cobra o ingresso mais caro entre eles. O estudo dividiu a renda per capita anual média pelo valor médio do ingresso mais barato em cada país. Daí saiu um número de ingressos mais baratos possível de ser comprado por ano. No Brasil é possível comprar 645 ingressos. O número está abaixo da média geral dos 16 países que é de 1.308 ingressos, 103% a mais do que no Brasil, último colocado no ranking.

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