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Viva nosso legado

15/07/2014

A preparação do Brasil para as Olimpíadas e Paraolimpíadas Rio-2016

(Foto: Rio 2016/Alex Ferro)

(Foto: Rio 2016/Alex Ferro)

Por Cleunice Schlee

Com o fim do maior evento futebolístico do planeta, todas as atenções serão voltadas para os primeiros Jogos Olímpicos de Verão na América do Sul, com o lema “Viva sua Paixão”, na cidade do Rio de Janeiro. Faltando cerca de dois anos para a abertura da 31º edição das Olimpíadas, no dia 05 de agosto de 2016, as dúvidas e questionamentos sobre o andamento e, consequente, término das obras estão rodeando o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio-2016 e as autoridades brasileiras.

Os últimos meses foram repletos de boatos, notas oficiais e contradições entre os envolvidos na organização do evento. Inicialmente, o vice-presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), John Coates, explanou toda a sua preocupação com a realização dos Jogos ao afirmar que os preparativos para as Olimpíadas de 2016 são os piores que ele já viu. Em resposta às críticas de Coates, o Comitê Rio-2016 reiterou em nota oficial que “em 2016 o Rio organizará Jogos excelentes que serão entregues absolutamente dentro do prazo e dos orçamentos já anunciados”.

Ao mesmo tempo, pelo menos 17 federações esportivas pressionaram o COI para acelerar as mudanças na capital fluminense, com receio de que alguns centros esportivos não fiquem prontos até o início da competição. Thomas Bach, presidente do COI, anunciou, então, um pacote de medidas para antecipar o término das obras, que incluem o seu acompanhamento através das visitas do diretor executivo da organização, Gilbert Felli; a criação de uma comissão de fiscalização com representantes do COI, do Comitê Rio-2016 e dos governos brasileiros; além da contratação de um especialista em projetos de construção para supervisionar as obras de estrutura esportiva.

Em meio a essa avalanche de críticas e desconfiança, o jornal London Evening Standart publicou que membros do COI estariam sondando as autoridades de Londres para uma possível realização das Olimpíadas de 2016 na cidade. Em comparação com os Jogos de Atenas, faltando um pouco mais de 900 dias para a competição, 40% das obras estavam concluídas; em Londres 60%; e no Brasil, apenas, 10%. Entretanto, oficialmente o Comitê Olímpico Internacional desmentiu a possibilidade de um possível plano B para os Jogos.

Sérgio Magalhães, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, em entrevista ao site Terra afirmou que o prazo é curto, mas dá para fazer. “Dois anos para as obras do Parque Olímpico, que é mais complexo, e do Parque de Deodoro, que é menos complexo, é um prazo pequeno, mas viável”. No dia 14 de maio deste ano, o Comitê Rio-2016 anunciou que 11 dos 29 centros esportivos da cidade estão prontos para serem usados, enquanto oito precisam de renovação e 10 ainda estão em construção. Em termos percentuais, 38% das obras para as competições esportivas estão concluídas.

Restando pouco tempo para finalizar as modificações necessárias na cidade para receber as Olimpíadas, o orçamento para os Jogos também sofrerá alterações: dos iniciais R$ 28 bilhões, para a realização do evento em 2009, aos atuais R$ 36,7 bilhões. Desta quantia, R$ 24,1 bi (65%) serão dedicados às obras de legado do evento, R$ 7 bilhões aos custos operacionais e de organização do Comitê Rio-2016 e R$ 5,6 bilhões restantes são dos 24 projetos já aprovados da Matriz de Responsabilidades, um documento divulgado em janeiro pela Autoridade Pública Olímpica (APO) que indica as obrigações das três esferas do governo e do setor privado para a realização dos projetos para os Jogos, como a Vila dos Atletas e os parques olímpicos (veja mais aqui).

As chamadas obras de legado do evento, que para o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e para o COI são os grandes benefícios dos Jogos Olímpicos, correspondem a 27 projetos direcionados às áreas de infraestrutura, mobilidade, meio ambiente e urbanização.  Dos R$ 24,1 bilhões investidos, 43% (R$ 10, 3 bilhões) serão da iniciativa privada, enquanto 57% (R$ 13,9 bilhões) virão de verba pública, dividido entre as esferas municipal, estadual e federal.

O maior projeto de mobilidade urbana é a ampliação do metrô, com a construção da Linha 4 que vai ligar a Barra da Tijuca (onde ficará o complexo olímpico) à Ipanema. Com a nova linha, a meta é transportar mais de 300 mil pessoas por dia e retirar das ruas cerca de dois mil veículos por hora/pico.

A previsão é que a obra do metrô seja concluída em 2015. (Foto: Marcelo Hom/Terra)

A previsão é que a obra do metrô seja concluída em 2015. (Foto: Marcelo Hom/Terra)

Já os custos operacionais e de preparação para o evento de R$ 7 bilhões, anunciados pelo Comitê Olímpico e Paraolímpico Rio-2016, correspondem aos gastos com as quatro cerimônias de abertura e de encerramento; às 832 competições esportivas; ao treinamento de 70 mil voluntários; ao pagamento dos salários dos funcionários do Comitê (hoje são 600); para servir quatro mil refeições por dia durante os Jogos; além de investir em tecnologia com celulares e computadores conectados a sete mil pontos de wi-fi e disponibilizar transporte aos envolvidos na competição.

Os R$ 7 bilhões para a organização funcional das Olimpíadas serão captados através de investidores locais, de patrocinadores internacionais, da contribuição do COI, com a venda de ingressos e com outros licenciamentos e receitas. Só terá investimento público se o Comitê Rio-2016 não alcançar o valor necessário. Da quantia total, 70% dos investimentos já foram arrecadados.

Completando o orçamento, a Matriz de Responsabilidade é o dinheiro investido nas instalações esportivas. O Parque Olímpico, localizado na Barra da Tijuca, sediará 15 modalidades olímpicas e nove esportes paraolímpicos. Nele, serão construídas três arenas (para as disputas de judô, luta livre, basquete, e outras três modalidades) que ficarão prontas em 2015; além da Arena de Handebol que, após os Jogos, será removida e transformada em quatro escolas; um velódromo; e os Centros de Tênis e o Aquático, que serão temporários e, posteriormente, desmontados. Esses espaços compõem o Centro Olímpico de Treinamento (COT).

No mesmo local, ficará o IBC, centro de mídia e transmissão dos Jogos Olímpicos. O Estádio João Havelange, ou Engenhão como é mais conhecido, receberá as provas de atletismo. O estádio foi construído para os Jogos Pan Americanos Rio 2007 e, atualmente, passa por reformas, pois foram encontrados problemas na estrutura do telhado, que poderia vir a desabar.

Parque Olímpico em março de 2014. (Foto: Divulgação Comitê Rio-2016)

Parque Olímpico em março de 2014. (Foto: Divulgação Comitê Rio-2016)

No entanto, a maior preocupação dos organizadores da RIO-2016 é o Complexo Esportivo de Deodoro, que receberá as competições de hipismo, ciclismo, mountain bike, BMX, pentatlo moderno, tiro esportivo, canoagem slalom, hóquei, rúgbi e esgrima. As obras no complexo ainda não começaram e a previsão é que iniciem nos próximos dois meses.

A Baía de Guanabara, um dos cartões-postais do Rio, se tornou um ponto de discórdia entre as autoridades municipais e estaduais. A meta era despoluí-la em 80% até o início das competições de iatismo.  Mas até agora, diminuiu-se apenas 40% da poluição no local e, segundo o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, o objetivo inicial não será cumprido. Logo após a declaração de Paes, a Secretaria Estadual do Ambiente, publicou em nota oficial que ainda pretende cumprir a promessa olímpica. A população do Rio de Janeiro já espera pela limpeza e despoluição total da Baía há mais de vinte anos.

Em situação parecida encontram-se as águas da Lagoa Rodrigo de Freitas, que em função da poluição, não é indicado banhar-se no local. Lá serão realizadas as provas de remo e canoagem e, segundo as autoridades cariocas, os atletas poderão competir sem nenhum risco à sua saúde.

Baía de Guanabara em junho de 2014. (Foto: Ana Carolina Fernandes/NYTNS)

Baía de Guanabara em junho de 2014. (Foto: Ana Carolina Fernandes/NYTNS)

Outro ponto de discórdia entre autoridades brasileiras e a organização dos Jogos é a construção do campo de golfe na Área de Proteção Ambiental (APA) de Marapendi. O campo será construído pela Fiori Empreendimentos Imobiliários Ltda. ao custo de R$ 60 milhões de reais. Para realizar os investimentos, a companhia receberá um terreno próximo ao campo de golfe para a edificação de um condomínio de luxo com 22 prédios de 22 andares cada. As obras têm autorização da Secretária Municipal de Meio Ambiente. Porém, para a perfeita manutenção de um campo de golfe são utilizados diversos inseticidas e agrotóxicos que poderão destruir o sistema ecológico da região preservada de Marapendi. Por isso, o Ministério Público está avaliando as propostas para proibir a construção do campo de golfe e, futuramente, do condomínio de luxo da empresa catarinense.

A intenção dos Jogos Olímpicos é incentivar a prática de esportes, principalmente no país-Sede, que por duas semanas vive o verdadeiro espírito Olímpico. Para a realização dos Jogos, são necessários investimentos em infraestrutura esportiva e urbana. Essas mudanças na paisagem da cidade são consideradas os maiores legados da competição para os governantes e o Comitê Olímpico Internacional. No entanto, tendo como base os últimos jogos Pan Americanos e a Copa do Mundo, o que foi visível é a festa movida pelo esporte e pouco do legado de melhorias nas infraestruturas das cidades, para a população.

Como pudemos acompanhar durante a Copa, os estádios ficarão prontos e os jogos estão acontecendo sem maiores problemas. Mas as cidades não tiveram muitas melhorias, a maioria das obras de infraestrutura, mobilidade e urbanização não ficaram prontas. No entanto, há uma esperança na diferença entre Copa do Mundo e Olimpíadas: o legado dos Jogos Olímpicos para a cidade-Sede é maior. Pois no torneio futebolístico, a principal necessidade de mobilidade é entre as diferentes Sedes, pois os turistas costumam acompanhar a sua seleção, por isso não ficam muitos dias em um mesmo lugar. Assim, os transtornos com obras inacabadas conseguem ser resolvidos ou superados com improvisações.

Entretanto, nas Olimpíadas não é assim. Durante duas semanas, centenas de milhares de pessoas estarão no Rio de Janeiro para acompanhar os Jogos. As competições ocorrem simultaneamente em diversos pontos da cidade. Assim, mobilidade urbana, sinalização e pontos de informação precisam estar prontos até o início da  Rio-2016. Felizmente, a maior parte, das chamadas obras de legado, estão dentro do prazo previsto pelo Comitê Rio-2016.

Na organização dos Jogos Pan Americanos 2007, os problemas foram imensos. Houve vários casos de corrupção, gastos muito acima do previstos (dos iniciais R$ 409 milhões para R$ 3,5 bilhões) e, ainda assim, locais de competição inadequados. Para tentar evitar esse problema, o Comitê Organizador das Olimpíadas e Paraolimpíadas Rio-2016, seguindo os “conselhos” do Tribunal de Conta da União, criou o seu portal de transparência com todas as informações sobre os gastos com o evento: desde o CPF e salário dos integrantes da organização até os gastos com a alimentação para os Jogos.

Em termos esportivos, o Pan do Rio foi a melhor participação brasileira dos Jogos Pan Americanos com 56 medalhas de ouro, contra as 29 do Pan de Santo Domingo, em 2003, e as 48 de Guadalajara, em 2011. Em Londres o Brasil ficou na 22º posição no quadro geral, com as Olimpíadas no Rio de Janeiro a expectativa é melhorar esse desempenho. Mas para melhorar a performance brasileira não basta apenas sediar os Jogos Olímpicos e construir complexos esportivos, é necessário investir na formação e capacitação dos atletas.

Desde a escolha do Rio de Janeiro, em 2002, para sediar os Jogos Pan-americanos em 2007, o Governo Federal criou o Bolsa-Atleta: um incentivo financeiro mensal de R$ 370,00 para as categorias de base e atletas estudantis, R$ 925 aos Atletas Nacionais, R$ 1850,00 para Atletas Internacionais e R$ 3100,00 aos atletas Olímpicos e Paraolímpicos. Em dez anos de existência, o programa tem ajudado diversos atletas a continuar o sonho do ouro Olímpico. Ano passado, o programa ajudou cerca de 5700 desportistas.

Mas estes números não são suficientes. Em um país com a dimensão do Brasil, milhares de talentos esportivos são desperdiçados por falta de políticas de captação e formação de atletas ou pela dificuldade em sobreviver como esportista, uma vez que não é fácil conseguir patrocínios para esportes que não tem muita tradição no Brasil e o apoio do governo, quando existe, não é suficiente.

Em um período de nove anos, o Brasil terá a responsabilidade de sediar três dos quatro maiores eventos esportivos do mundo, deixando de fora, somente, os Jogos de Inverno.  Mas de que maneira aproveitamos todas estas competições que fomentam a prática de esportes e proporcionam obras de melhoria das infraestruturas urbanas? Depois da realização do Pan Americano em 2007 e com o andamento da Copa do Mundo 2014, as conclusões não passam de especulações. Mas após o encerramento das Olimpíadas Rio-2016 será possível visualizar os verdadeiros legados deixados no Brasil.

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