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Uma vida de lutas e conquistas

03/07/2014

Quarenta anos de idade (dos quais 31 de tatame) 1,72 de altura e 78 quilos, dezenas de títulos e medalhas conquistadas, dentre elas a de bronze nos Jogos Pan-americanos de 2007 no Rio de Janeiro, além de ter disputado as Olimpíadas de Pequim em 2008, e Londres em 2010. Essa é Rosângela Silva da Conceição, ou simplesmente, Zanza.

Faltaria espaço para descrever passo a passo o currículo vencedor de mais de 30 anos de carreira – ainda em atividade – da judoca, lutadora de jiu jitsu e luta olímpica. Atualmente vive em Dubai, onde treina e leciona judô e jiu jitsu em escolas para crianças e adolescentes. A seguir um pouco da bonita história de vida da atleta multicampeã.

 

por Hudson Nogueira

Como surgiu teu interesse pelo esporte, e como se deu a prática dele durante a tua carreira?

Começou quando eu tinha nove anos, meu irmão treinava judô na academia (Associação de Judô GABA) e o professor dele (Almerindo Batista) me convidou para treinar. De princípio eu relutei, mas topei fazer um treino, gostei e estou até hoje ai (risos). Aos catorze anos meu professor lá na academia Ragmar Borsatto me colocou para lutar um campeonato feminino na categoria adulto, ai eu lutei fui bem, depois de um ano ele me mandou para o Rio de Janeiro para fazer uma seletiva para um Sul-americano, lutei, não classifiquei porque tinha só quinze anos, mas foi uma boa experiência.

 

Você disputou os Jogos Olímpicos de Atlanta de 1996 e fez história nos Jogos Pan-americanos de 2007, como foi essa caminhada para disputar esses eventos?

Na verdade em 1996 eu fiz a seletiva na categoria meio pesada, mas eu não fui classificada treinei por dois meses aqui no Brasil. No final de 1995 eu recebi um convite da Gama Filho (Universidade) para treinar no Rio de Janeiro, e a partir dai foi só sucesso, treinando com uma grande equipe com nomes como o Flávio Canto, Léo Leite.

Quatro anos depois eu entrei para a seletiva para as Olimpíadas de Sidnei (2000), fiz parte da equipe te treinamento, mas não competi. Quem foi selecionada para lutar foi a Edinanci que acabou machucando o joelho. Ai quatro anos depois acabei não classificando para os jogos de Atenas (2004) e ai fui convidada por um professor de wrestling. Treinei com ele por três meses e fui para uma luta na Espanha, ganhei da campeã europeia, e o treinador falou que assinava embaixo que eu tinha condições de disputar uma Olimpíada por essa modalidade.

No Pan-americano de 2007 lutei na modalidade de Luta Olímpica e ganhei o bronze, na categoria peso pesado. Depois classifiquei no wrestling para os jogos Olímpicos de Pequim. E também classifiquei no campeonato (Mundial) de Edmonton e fui a primeira mulher a conseguir.

 

Quais os principais incentivos que te fizeram construir essa carreira vitoriosa? Havia patrocínio, apoio financeiro de federações?

As principais motivações vieram da minha família, primeiro com meu irmão que me inspirou, e depois com meus pais, que sempre me apoiaram quando eu precisei. Também teve um chinês, um senhor chamado Yo Tin, um empresário do ramo de bolsas, e sempre que precisei dele, ele me apoiou. Interessante é que nas olimpíadas de 2008 eu não tinha condições de pagar uma sparring (parceiro de treino) e a minha mãe falou com ele que de pronto de dispôs a me ajudar. O Aurélio Miguel (ex-judoca) pagou a passagem dela para Pequim. E toda a vez que um atleta ganha uma medalha importante ou se classifica para uma competição desse nível, a federação te da um tipo de suporte financeiro, uma verba para treinar, mas quando eu classifiquei, eu não recebi nada do meu país! Até hoje eu não sei o por quê.

Ai eu tive apoio do Zequinha Barbosa, que foi atleta medalhista em Seul (1988) que me ajudou bastante. Eu tive ajuda de muita gente, mas patrocínio eu não tive não. E hoje que quero encerrar minha carreira, me aposentar aqui nos jogos do Rio de Janeiro em 2016.

Zanza finalizando  a adversária em competição nacional (Foto: Arquivo pessoal)

Zanza finalizando a adversária em competição nacional (Foto: Arquivo pessoal)

Como é a tua rotina de treinamento e preparo para competições oficiais?

Bom, aqui hoje em dia a minha vida mudou bastante (atualmente a lutadora vive em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos), porque eu faço parte de um projeto do Sheik Mohamed bin Zayed (interrompo).

 

O dono do Manchester City?

Sim! Ele mesmo! Esse é o meu chefe hoje em dia. Ele e o irmão dele estudaram nos Estados Unidos tiveram aulas de jiu jitsu com a família Gracie. E isso teve um impacto muito importante na vida da família dele, especialmente do filho dele que através do esporte melhorou muito na sua autoestima e na educação do filho com os pais. Então ele (Zayed) percebeu que se o esporte fez bem para o filho dele, também poderia fazer bem para as crianças dos Emirados Árabes.

Ai ele começou um projeto para implantar o esporte aqui nos Emirados. Começou com oito escolas, cinco masculinas e três femininas. Hoje nos temos 48 escolas, e temos 219 professores brasileiros nesse projeto. Hoje em dia nós estamos nas escolas, no exército masculino e feminino.

Bom, respondendo a tua pergunta, hoje em dia eu treino 5 horas por dia, antigamente eu treinava 8, porque eu trabalho na escola feminina dando aula na escola para as crianças aqui. Eu treino de 5 da manhã as 7:30 e depois eu treino a noite, das 5 da tarde até 20 ou 21h, ai depende da programação do treinamento.

 

Mesmo à distância, você desenvolve um projeto social. Como desenvolveu essa ideia?

Eu sempre fui envolvida com a parte social, porque acho que é uma responsabilidade de todo cidadão. E como sempre estive envolvida no esporte e ele ocasiounou grande mudanças na minha vida, creio que eu tenho a obrigação de ajudar e incentivar as pessoas a praticarem esporte, principalmente as crianças. E sempre gostei de trabalhar com pessoas com necessidades especiais, quando estava ai no RS, eu sempre visitava as escolas. E quando morar em São Paulo fiz parte de um projeto de mães de um Hospital Municipal de São Paulo, que fica no Morumbi, onde trabalhei com judô com essas crianças, e tive um resultado muito legal. Sempre tentei abrir uma ONG, mas nunca deu certo, até porque eu não tenho muito tempo, então passei a apoiar projetos que já existiam.

Hoje eu faço parte de um projeto chamado Small Word aqui em Abu Dabi, onde sou embaixatriz do projeto, e meu papel nessa organização é divulgar o Brasil, através de sua cultura, desde a dança, gastronomia e esporte. O objetivo desse projeto é combater o tráfico de crianças, de prostituição infantil e envolvimento de crianças em guerrilha. No ano passado, eu consegui um apoio para uma escola de São Leopoldo que trabalha com crianças especiais. Foi uma verba daz mil dólares, mas foi uma burocracia enorme para por em prática esse projeto social.

Sempre que posso mando doações para o Brasil, que vão desde roupas até algum outro tipo de recurso para ajudar a comunidade de São Leopoldo. Minha mãe que faz essas acões em parceria com as escolas da cidade.

 

Mulher, negra e lutadora. O teu caminho não foi fácil de trilhar. A Zanza é espelho a ser seguida pela juventude?

Tu sabe que na verdade só a pouco tempo que eu passei a considerar isso. Antigamente eu não tinha noção desse fato. Então prestando atenção na minha vida e em quem está ao meu redor, pude perceber o quanto eu pude influenciar as pessoas. Um exemplo disso é a Joice Silva que foi minha sparring em Pequim e hoje é da seleção de wrestling. Ela só foi para os jogos olímpicos de Londres porque eu ajudei ela. Arrastava ela pra tudo quanto é país, mesmo sem as condições adequadas, e falava para ela – não Joice, tu vai lá e irá lutar o Mundial – e depois acabou se classificando para os jogos de 2012.

Também teve outra menina, uma argentina, que muitas pessoas diziam que não era boa lutadora, e simpatizei com ela, então passei a incentiva-la a treinar mais e seguir lutando em competições. Hoje ela faz parte da Seleção Argentina de judô. E tem várias outras histórias assim, e percebi que tinha a possibilidade de atingir várias pessoas, mulheres e crianças, especiamente as que tem condições financeiras pouco favoráveis. E hoje em dia acho que é meu papel passar essa mensagem, de que não importa o que tu seja, mas se tu tens um sonho é preciso acreditar nele e não medir esforços para alcançá-lo, até porque os grandes feitos foram conquistados por pessoas desacreditadas.

Zanza (com faixa no cabelo) junto com outras competidoras em um campeonato na Espanha (Foto: Arquivo pessoal)

Zanza (com faixa no cabelo) junto com outras competidoras em um campeonato na Espanha (Foto: Arquivo pessoal)

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