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Futebol Gaélico – Identidade e resistência em doses etílicas irlandesas

27/06/2014
(Foto: Ciaran McGuiggan/Flickr/CC)

(Foto: Ciaran McGuiggan/Flickr/CC)

por Antônio Assis Brasil

 

(Pré-)História do Esporte

“Como um bom brasileiro em terras estrangeiras, e como bons anfitriões que falam com brasileiros, minhas primeiras conversas com irlandeses, logo que cheguei à ilha para morar um ano, sempre acabavam em Futebol. O que mais me chamava a atenção era que eles se referiam ao esporte como Soccer. Era como se o esporte não fosse digno de ser chamado de Futebol. Em respeito aos amigos celtas, no restante do texto vou me referir ao Futebol (o britânico, o nosso) como Soccer, deixando o termo Futebol apenas para o gaélico.”

A origem do Futebol (o Gaélico, e essa é a última vez que vou fazer essa restrição) é bem parecida com a do Soccer e do Rugby. Assim como na Inglaterra medieval se jogava o (hoje) chamado Folk Football, na Itália medieval se jogava o Calcio, na Irlanda se jogava o Caid, palavra celta para bola. Os três eram jogados em festivais periódicos nas cidades desses países e consistiam basicamente de uma bola que um grupo de pessoas tem que levar para um lado, enquanto o outro tem que levar para outro lado, tendo maior ou menor (muitas vezes nenhuma) restrição no número de pessoas, no espaço e tempo em que era jogado e no que se podia fazer para roubar a bola do outro. Devido à violência, estes esportes foram aos poucos sendo proibidos nos séculos XVI e XVII mas nunca deixaram de existir totalmente.

No século XIX, então, Na Era Vitoriana, com a difusão da ideia de que uma mente sã só seria possível com um corpo são, as escolas de classe média e alta da Inglaterra passaram a criar esportes modernos baseados nos medievais, mas “civilizando-os”, com limites de tempo, espaço e principalmente de violência.

Em 1863, na Inglaterra, as regras de alguns destes esportes foram unificadas para permitir a disputa entre as escolas pela Football Association. Logo depois, uma dissidência da FA, liderada pela escola de Rugby, criou a Rugby Union, e estas regras padronizadas se tornaram bastante populares em todo o Império Britânico, fazendo com que os esportes medievais fossem aos poucos esquecidos na Irlanda.

 

O lado político

“Alguns irlandeses com quem eu conversava, seja por implicância ou por realmente acreditar, tentavam cortar o assunto Soccer respondendo que era “coisa de maricas britânico”. Na final da Copa Irlandesa de Soccer a que eu fui, pouco mais de 20 mil pessoas pagaram os 10 euros do ingresso para ir ao estádio com capacidade de 50 mil. Nas lojas esportivas, é praticamente impossível encontrar camisas de times locais. O que tem mais é de times britânicos, principalmente do Celtic, que justamente representa a resistência da minoria celta e católica no futebol escocês.”

A prosperidade da Inglaterra Vitoriana contrastava com a pobreza da Irlanda, especialmente no interior. Entre 1845 e 1850, uma peste na batata, alimento básico de quase toda a população irlandesa, fez com que mais da metade dos irlandeses morresse ou tivesse que se mudar*. Os pedidos de independência e o republicanismo cresciam na Irlanda e o Rugby e o Soccer eram símbolos do colonialismo britânico na ilha.

Para combater o crescimento dos esportes ingleses, a GAA (Associação Atlética Gaélica), que já controlava o Hurling desde 1884, passou a controlar também o Futebol em 1887. Assim, a Irlanda tinha um esporte próprio, com regras unificadas que se baseavam em parte nas do Rugby e do Soccer, mas fazendo questão de rejeitar outras, como o impedimento.

Os esportes gaélicos foram símbolo de identidade irlandesa e da resistência à cultura britânica antes, durante e até bem depois da independência irlandesa, em 1921, assim como a prática de outros esportes, especialmente os britânicos, era vista como traição por alguns. Até 1971, havia um artigo nas regras da GAA que permitia o banimento de qualquer atleta que fosse visto praticando um esporte não-gaélico.

Especialmente durante a Guerra da Independência da Irlanda, alguns membros do IRA (Exército Republicano Irlandês) usavam excursões de times de Futebol pela Irlanda para esconder soldados e armar ataques. Até hoje, enquanto o Futebol e o Rugby têm uma federação única para toda a Irlanda, o Soccer tem ligas distintas para a República da Irlanda e a Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido.

O Croke Park foi comprado pela GAA em 1913 e é o maior estádio irlandês e um dos maiores da Europa, com capacidade para 80 mil pessoas. Ele foi palco do Domingo Sangrento de 1920 (não confundir com o de 1972, tema da música do U2), quando a Real Polícia invadiu o estádio em um jogo de Futebol, matando ao menos 14 civis, em retaliação a um ataque do IRA que mais cedo havia matado 13 oficiais da inteligência britânica.

A GAA tinha uma regra até 2007 exigindo que somente esportes gaélicos poderiam ser jogados no Croke park, que só sediou (poucos) jogos de Soccer e Rugby entre 2007 e 2010, durante a construção do moderno, mas menor, Estádio Aviva, que desde então é o principal palco dos esportes britânicos na Irlanda.

 

O campeonato

Estádio Croke Park lotado para um jogo do All-Ireland Championship (Foto: Divulgação)

Estádio Croke Park lotado para um jogo do All-Ireland Championship (Foto: Divulgação)

“No meu primeiro domingo morando em Dublin, fui para o centro da cidade para comprar chuteiras e, chegando lá, vi uma massa de camisas verde-amarelas e verde-vermelhas caminhando em uma direção. Resolvi seguir o fluxo para tentar entender o que se passava. Provocações de um lado e de outro, casas coloridas para o jogo, muita gente bebendo cerveja na rua (o que é proibido na Irlanda) e bares lotados, com todo mundo já de olho no pré-jogo.

Era semi-final do All-Ireland Senior Football Championship, e o clima na cidade era igual ao de um Grenal. Um dia de Grenal dos bons tempos em que as duas torcidas chegavam juntas ao estádio. Pela primeira vez, me senti totalmente em casa na Irlanda.”

Segundo o site da GAA, ela é a maior associação de esportes da Irlanda e uma das maiores associações de esportes amadores do mundo. Teoricamente, os esportes gaélicos são totalmente amadores, dos clubes às seleções, e não é permitido que se ganhe para jogar ou treinar.

Teoricamente porque, em um esporte que movimenta uma nação inteira e alguns milhões de euros por ano em torno de publicidade, direitos de transmissão e ingressos, acaba sempre se dando um jeito para que os melhores treinadores e jogadores ganhem dinheiro com o esporte, nem que seja por baixo dos panos.

A profissionalização do Futebol é um assunto que está em pauta na Irlanda há alguns anos e se assemelha à história do Soccer, com a mesma discussão que se teve na Inglaterra no final do século XIX e do Brasil nas décadas de 1920 e 1930 se os jogadores poderiam ou não ganhar dinheiro para jogar.

Durante o outono e inverno, os jogadores treinam e jogam por seus clubes locais em campeonatos regionais. Os campeonatos que importam de verdade começam na primavera, quando cada um dos 32 counties (equivalente aos nossos estados) da Irlanda monta sua seleção para o campeonato nacional. Nos últimos anos, descendentes de irlandeses de fora do país também têm montado times, entrando com as seleções de seus locais, como neste ano jogam Londres e Nova Iorque.

As 32 seleções dos counties são divididas nas quatro províncias (Equivalente às regiões brasileiras), Leinster (que engloba a Irlanda do Norte) Munster, Connacht e Ulster, sagrando quatro campeões regionais depois de um campeonato mata-mata em jogo único. As seleções de fora da Irlanda jogam na província que tem menos counties. Os perdedores ainda jogam uma repescagem e selecionam mais quatro times para jogar o campeonato nacional.

Começa então o All-Ireland Senior Football Championship, com quartas-de-final, semifinal e final todas jogadas em um turno só no Croke Park e, nos últimos anos, dificilmente baixando de 60 mil espectadores, com a final sempre batendo os 80 mil. As quartas-de-final normalmente são jogadas em um fim de semana do início de Agosto com rodada dupla no sábado e no domingo, as semifinais, em dois domingos e a final, até o fim de Setembro.

Como o Futebol é jogado praticamente só na Irlanda, o jeito encontrado para jogar internacionalmente foi enfrentando a seleção australiana de Futebol Australiano, que tem regras muito parecidas com o Gaélico, embora haja divergência entre os historiadores se as regras têm ou não uma origem em comum. Desde 1998, a seleção irlandesa joga contra a seleção australiana num esporte híbrido entre o Futebol Gaélico e o Australiano.

 

(Enfim,) as regras

“Se souber jogar Soccer, Rugby e Basquete, tu vai te dar bem no Futebol”, foi o que me disseram um dia para me convencer a jogar uma partida de Futebol. Odeio Rugby e não sou grande coisa no basquete, mas o que me fez não ir ao jogo foi que fazia menos de dez graus na rua, uma chuvinha gelada típica de Dublin, e eu ainda teria que pedalar mais de meia hora para ficar na reserva de um time e correr o risco de não entrar. Hoje me arrependo amargamente de ter rejeitado o convite.”

Por um campo bem maior que o de soccer, se espalham os trinta jogadores, quinze de cada time. O juiz joga a bola (redonda!) para cima no centro do campo e assim começa uma partida de Futebol. O objetivo é fazer mais pontos que o adversário seja com gols, feitos em goleiras parecidas com as do Soccer e defendidas por goleiros e que valem três pontos, seja com pontos, chutando ou socando a bola por cima da goleira, em traves parecidas com as do Rugby.

Os jogadores normalmente conduzem a bola segurando-a, mas nada impede que eles conduzam com os pés. Eles não podem dar quatro passos com a bola na mão sem quicar ou fazer uma embaixadinha. Como não tem impedimento, a movimentação dos jogadores e os passes são livres, mas só podem ser feitos com o pé ou batendo na bola com o punho fechado, não podendo arremessar a bola com a mão.

O contato permitido no Futebol é bem maior que no Soccer, mas menor que no rugby. Para roubar a bola do adversário, o jogador pode dar um tapa na bola na mão do adversário, chutar ou pegar a bola quando ele for quicá-la, ou bloquear passes e chutes. Porém não é permitido bloquear chutes com os pés ou puxar a bola dos braços do adversário. Dar carrinho e puxar ou empurrar outro jogador também é falta, mas encontrões corpo a corpo são permitidos.

O ponto (jogar a bola por cima da trave) pode ser feito com um chute ou soco na bola, mas o gol só pode ser feito com o pé. A exceção é quando o atacante ainda não tocou na bola, como em um cruzamento, e nesse caso o jogador pode socar a bola pro fundo das redes. Tudo muito confuso, mas depois da quinta Guinness começa a fazer sentido.

 

Obs.:

*Historiadores modernos acreditam que a Irlanda produzia alimento suficiente para sua população, mas que a população pobre não teria acesso a estes alimentos, boa parte exportada para a Inglaterra.

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