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A vida e a morte dos estádios de Porto Alegre

06/06/2014

por Hudson Nogueira

A cidade de Porto Alegre é conhecida no cenário futebolístico mundial por abrigar dois grandes clubes brasileiros que concentram, de longe, a maior rivalidade do futebol no país. Grêmio e Internacional construíram grande parte de suas gloriosas histórias e conquistas alicerçados na força que impõem jogando em seus estádios, criando assim, uma forte identidade com suas canchas. Fato reconhecido por clubes, torcedores e imprensa brasileira e sul-americana.

Esse período de crescimento da dupla Grenal começa em meados da década de 1960 com a construção do estádio Beira Rio e ampliação do estádio Olímpico nas décadas posteriores. No entanto, não são os estádios da dupla que serão o enfoque por aqui.

Feito o devido registro da importância de Grêmio e Internacional, a história do futebol profissional em Porto Alegre também foi composta por clubes à margem dos dois grandes, e que mesmo assim, não deixaram (e até hoje não deixam) de ocupar um lugar no coração ou na simpatia dos porto-alegrenses.

Em meio às demandas de padronização dos estádios de futebol em arenas modernas, os pequenos estádios da capital terão destaque a seguir em três enfoques: os estádios do Grêmio Esportivo Força e Luz, do Esporte Clube Cruzeiro, e o Esporte Clube São José.

 

Os talentos da Rua Alcides Cruz

Destaque do lendário ataque do Santos entre os finais dos anos 1950 e 1960, o ponta direita (posição quase extinta no futebol moderno) Dorval surgiu para o mundo da bola entortando os defensores em frente ao pavilhão social do estádio da Timbaúva, conhecido popularmente como “campo do Força e Luz”.

O meio campista Abigail, que fez parte do não menos lendário “Rolo Compressor” do Internacional, e Aírton Ferreira da Silva – o Aírton Pavilhão – considerado o maior zagueiro da história do Grêmio, também desfilavam técnica e raça no gramado da cancha do bairro Santa Cecília, zona central de Porto Alegre.

Airton visitando o campo do Força e Luz (Créditos:Silvio Williams/JC)

Airton visitando o campo do Força e Luz (Foto: Silvio Williams/JC)

A história do Pavilhão já é datada e peculiar. Aos 20 anos de idade (1955), o talentoso beque , foi negociado com o Grêmio em um escambo de 50 cruzeiros (Cr$ 50) mais o pavilhão do estádio da Baixada, sede e primeiro estádio do tricolor até 1954, que depois virou Parque Moinhos de Vento.

Fundado em 8 de setembro de 1921, o clube era mantida pela companhia de Força e Luz, sob o comando da empresa estadunidense Light, que mesmo após a estatização pelo governador do estado, Leonel Brizola, os funcionários da Companhia Carris Porto-alegrense e Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), criadas a partir da Força e Luz, continuaram sendo os sócios do clube.

Inaugurado em 14 de abril de 1935, com a derrota dos para o Inter por 5×1, o Estádio da Timbaúva teve a honra de sediar o primeiro jogo de Campeonato Brasileiro (de seleções) no RS. Devido a concorrência de outros clubes da capital, como o Cruzeiro, São José e Nacional, o Forcinha foi ficando à margem das outras agremiações da cidade. Posteriormente, seu campo era usado para partidas de campeonatos amadores como a extinta Copa Paquetá, que movimentava as peleias da várzea na capital.

No ano de 2006, além de decretar a extinção do clube junto à Federação gaúcha de Futebol, o Força e Luz sofreu sua última derrota, e dessa vez definitiva. A especulação imobiliária triunfou sobre os rajados (alcunha do Forcinha, por usar camisa branca com listras verticais rubras). O terreno onde se localiza o simpático estádio do bairro Santa Cecília foi vendido para a Companhia Zaffari, e desde então, vem sendo cogitada a construção de (mais) um hipermercado do grupo varejista.

Enquanto a cancha ainda não foi demolida e transformada em corredores repletos de consumo de massa, resta somente o saudosismo na lembrança de quem passa na Rua Doutor Alcides Cruz, 125, onde Aírton Pavilhão e outros craques desfilavam na relva do bairro Santa Cecília.

 

Arenas, grama sintética e o pós-futebol

– Se sintético fosse bom, a vaca comeria grama sintética. Eu acho que o melhor é grama natural.

A afirmação acima foi feita em 2013 pelo então técnico do Inter, o eterno capitão do tetra, Dunga. Pode se pensar a partir desse ponto, o processo em que o futebol brasileiro vem atravessando. Modernização, elitização, gentrificação, entre outras estripulias que cada vez mais afastam as grandes massas que acompanhavam o futebol com alma.

Encantando com o que presenciou no Estádio Jalisco, em Guadalajara, no primeiro confronto da final da Copa Libertadores de 2010, onde o colorado encaminhou a conquista do bicampeonato da América, ralando e destruindo as articulações dos joelhos colorados no piso de borracha, o patrocinador e ex-manager do Esporte Clube São José, Francisco Noveletto, decidiu que iria levar tal adorno para a acolhedora cancha do Passo D’Areia, quiçá, embebido em um delírio dionisíaco de anexar o gramado do estádio às canchas sintéticas de futebol sete, localizadas atrás de uma das metas do Zequinha Stadium.

Passo D’Areia recebendo o clássico metropolitano. São José enfrenta o Cerâmica de Gravataí. (Foto: Edu Leonardi)

Passo D’Areia recebendo o clássico metropolitano. São José enfrenta o Cerâmica de Gravataí. (Foto: Edu Leonardi)

E a partir de 2012, o estádio do simpático Zequinha, apelido carinhoso do clube do 4º Distrito da capital, passou a adotar grama sintética ao invés da tradicional relva verde plantada na terra. Seguindo a tendência cosmopolita e pós-moderna, jogar no Passo D’Areia se tornou um verdadeiro martírio para os atletas.

Maiores exemplos disso foram os dois jogos entre o Zequinha (como é conhecido o clube) contra o Grêmio, ambos pelo Campeonato Gaúcho de 2012 e 2014, respectivamente, onde os jogadores das duas equipes tiveram que fazer uma espécie de “escalda pés” ao contrário (mergulhar os pés e as chuteiras em baldes com gelo!) para ameninar o calor SENEGALÊS que paira sobre o paralelo 30 no verão. Em ambos os jogos, a temperatura beirava os 40º, contudo, no jogo de 2014 a temperatura dentro da cancha atingiu a singela marca de 60º, devido ao gramado artificial.

Mas não só de piso artificial se limita o estádio do Zequinha, aliás, seria muito reducionismo restringir a história de um dos clubes mais queridos da capital (divide esse posto com o Cruzeiro). Fundado em 24 de maio de 1913 por um grupo de alunos do Colégio São José – de onde derivou o nome do clube – o decano Esporte Clube São José inaugurou seu simpático estádio em 24 de março de 1940.

Com capacidade para 12 mil lugares, o estádio tem um andar distribuído em um anel retangular dividido em arquibancada, social e camarotes. Além de abrigar os jogos do time da casa, o Passo D’Areia recebe partidas de campeonatos estaduais e nacionais das categorias de base dos clubes da cidade. Eventualmente também é palco para shows internacionais como das bandas R.E.M. (que divulgou em seu site oficial o local como Zequinha Stadium), Perl Jam e o cantor Elton John.

Mas não só de Eddie Vedder, Michael Stip e Elton John vive o clube da zona norte de Porto Alegre. O centroavante Walter, ex-Inter, Porto, Cruzeiro e Goiás, atualmente no Fluminense foi revelado nas categorias de base do alviazul, onde marcou seus primeiros gols no estádio do Passo D’Areia, IAPI, Santa Maria Gorethi e toda a zona norte da capital.

Ainda na esteira do famigerado (e por muitos, odiado) futebol moderno, o também centenário Cruzeiro Esporte Clube, ou Cruzeirinho, a exemplo do Grêmio, também trocou de casa. Mas não só trocou de estádio, como de cidade. Sua nova cancha, ou melhor, ARENA, está em fase final de construção na cidade de Cachoeirinha, região metropolitana de Porto Alegre.

Fundado em 14 de julho de 2013, também tem um lugar especial no coração do torcedor porto-alegrense. Um dos seus torcedores mais conhecidos foi o médico e escritor gaúcho Moacyr Scliar (1937-2011), que sempre quando indagado para qual time torcia não hesitava em responder que o Estrelado, ou, o Leão da Montanha.

Arena do Cruzeiro em construção na cidade de Cachoeirinha (Foto: Site Oficial do clube)

Arena do Cruzeiro em construção na cidade de Cachoeirinha (Foto: Site Oficial do clube)

Mudar de endereço nunca foi problema para o Estrelado. Seu primeiro campo foi a Vila Cruzeiro, no bairro Partenon, zona lesta de Poa, e já na década de 1940, o Leão dava sinais de grandeza, quando em 7 de março de 1941 inaugurou o maior estádio da cidade, o estádio da Montanha, situado no bairro Medianeira, quando venceu o Vovô Rio Grande por 1×0, gol de Gervásio, diante de um público estimado em 20 mil pessoas (!).

Foi de onde surgiu a ficção escrita por Scliar, A Colina dos Suspiros, inspirada na história do Cruzeiro e seu campo, que ficava na Colina Melancólica, assim chamada por ser uma região de cemitérios porto-alegrenses. O estádio veio a ser vendido na década de 1960 para a construção do Cemitério Ecumênico João XXIII.

E nessa história de mais de um século de vida, o Cruzeirinho escreveu páginas gloriosas no futebol gaúcho. Conquistou o estadual de 1929, foi o primeiro clube gaúcho a excursionar pela Europa (!), em 1953, e quando voltou ao velho mundo faturou o Torneio da Páscoa em 1960, derrotando o poderoso Bayern de Munique na final em Berlim, conquistando o 1º título intercontinental do futebol rio-grandense.

Pulando do glorioso passado para o presente, em 2010, o Cruzeiro negociou o estádio Estrelão (capacidade de 1.500 torcedores) localizado no final do CAMINHO DO MEIO, a via mais extensa da cidade, a Avenida Protásio Alves, lá no Morro Santana, para comprar o terreno da nova casa, em Cachoeirinha. O Estrelão foi casa do Leão de 1977 até 2012, quando em seu último jogo enfrentou o tradicional rival citadino, o Zequinha.

Já em Cachoeirinha, o Cruzeirinho tenta soerguer sua grandeza, outrora esquecida, a partir da mudança de município, e, principalmente, para uma “arena” atendendo as demandas do famigerado PADRÃO FIFA, com capacidade para 16 mil torcedores.

Ainda que os palcos futebolísticos da cidade (entenda-se o Novo Beira-Rio e a Arena da OAS/Grêmio) tenham destaque permanente, duas das canchas mais e simpáticas deixarão de existir muito em breve, a exemplo do que aconteceu com o lendário Estádio dos Eucaliptos (primeiro campo do Internacional), cedendo lugar aos empreendimentos imobiliários, e, dessa forma, perdendo não só a identidade dos pequenos clubes da capital, como suas tradições, seu charme, e por que não, suas histórias.

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