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Transformando saques em pontos

03/06/2014

A formação dos atletas nas categorias de base de vôlei

 

Por Cleunice Schlee

Com o nome de Mintonette, o voleibol surgiu nos Estados Unidos em 1895, quando o professor de educação física William G. Morgan decidiu criar um esporte que não tivesse contato físico entre os jogadores. Quase cem anos depois, o vôlei começou a se popularizar no Brasil com a conquista da medalha de prata nas Olimpíadas de Los Angeles, EUA, em 1984 e com o famoso saque “jornada nas estrelas” de Bernard Rajzman.

Com o tempo, o voleibol se tornou o segundo esporte mais praticado no país, conforme a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV). As equipes feminina e masculina estão, há mais de uma década, entre os primeiros colocados no ranking do voleibol mundial, que é mantido pelo órgão máximo do esporte, a Federação Internacional de Voleibol (FIVB). Vencendo a maioria das competições disputadas, as duas seleções pretendem manter a reputação conquistada. Para isso, a renovação dos esportistas precisa continuar em alto nível. Em entrevista ao Globoesporte.com, o técnico da seleção masculina de vôlei, Bernardinho, afirmou que o Brasil está precisando investir mais na formação dos atletas “você investe na base, profissionaliza o sistema, vai gerando crescimento (…). Temos que buscar mais jovens atletas e formar mais jogadores.”.

Em Porto Alegre, há dois clubes de referência em categorias de base do voleibol, o Grêmio Náutico União e a Sociedade de Ginástica Porto Alegre, Sogipa. Nós fomos até as duas associações para entender o que é necessário para a formação de um atleta.

 

Saque

A vontade de jogar vôlei pode surgir de várias maneiras: com o incentivo da família, dos professores de Educação Física ou através de amigos que já praticam o esporte. Normalmente, o primeiro contato com a modalidade acontece na escola, depois as crianças vão para os clubes. Nas categorias menores como a mini, de 9 a 11 anos, “o mais importante é ensiná-los a ter prazer em jogar e iniciá-los na técnica correta de cada fundamento do jogo” afirma Dênio Peixoto, treinador da equipe do União.

Nessa idade, os treinos acontecem em quadras menores, com três crianças de cada lado. Para a treinadora da equipe da Sogipa, Helga Sasso, “a (categoria) mini é a porta de entrada para o vôlei (…) tem que deixá-los jogar para perderem o medo da bola.”. Essas equipes já participam de competições que são realizadas sem arbitragem; são os atletas das categorias maiores que comandam os jogos.

Treino da categoria mini no União. (Foto: Cleunice Schlee)

Treino da categoria mini no União. (Foto: Cleunice Schlee)

Para quem continua no esporte, a próxima etapa é a categoria mirim, de 11 a 13 anos. Nessa fase, as dificuldades aumentam “por que eles vão para a quadra normal de vôlei, é preciso ressaltar que eles têm que dar o toque mais alto, ensiná-los a ocupar toda a quadra (…) se aprenderem a dar toque e manchete direito aqui, jogam em qualquer lugar”, explica Helga.

Nessa etapa, as crianças ainda estão descobrindo a paixão pelo vôlei. Há a cobrança inevitável do esporte, mas os professores são pacientes e procuram compreender as dificuldades de cada aluno. “Eles precisam sentir prazer em vir treinar. Se eles gostarem de vôlei aqui, vão gostar sempre”, complementa a treinadora da equipe da Sogipa.

Os primeiros anos no esporte são os mais importantes. Ter uma boa formação nas categorias iniciais é imprescindível para quem deseja evoluir no voleibol.  Segundo o professor da escolinha de vôlei da Sociedade de Ginástica Porto Alegre, Pablo Dias Martins, “o ideal seria começar a jogar com nove ou dez anos.”

 

Recepção

Desde os primeiros treinos, as crianças já são diferenciadas pela sua habilidade no esporte. Tanto na Sogipa quanto no União há as escolinhas de voleibol e as equipes competitivas. Nas primeiras, os alunos são menos cobrados e veem o vôlei como uma forma de lazer. No início de cada ano esportivo na Sogipa, os jogadores passam por um teste para demonstrar o potencial de cada um. Quem se destaca vai para a equipe. Já no União, essa troca de grupo ocorre quando os professores das escolinhas percebem que o aluno está preparado e evoluiu nos fundamentos do esporte. Na equipe o enfoque é um pouco mais sério, pois é ela que representa o clube nas principais competições. As cobranças aumentam e treina-se mais a parte técnica de cada atleta e a parte tática do time.

 

Levantamento

Nos últimos anos, aumentou muito o nível do voleibol mundial. As equipes se tornaram mais competitivas, os fundamentos estão cada vez mais aprimorados e a média de altura aumentou, tanto no feminino quanto no masculino . Com a rede de 2,24 cm para as mulheres e 2,45 para os homens, o tamanho do atleta passou a ser um diferencial no esporte. Giba e Murilo, com 1,92cm cada, são exemplos de jogadores que conseguiram se destacar, apesar da baixa estatura para os padrões atuais do voleibol.

“Você é alto, por que não joga vôlei?”. Esta é uma pergunta que saiu do âmbito popular para entrar nas discussões dos profissionais da modalidade. Com a média da seleção brasileira masculina de 1,97cm, os clubes estão, cada vez mais, a procura de crianças altas para iniciar no esporte. Para o professor Pablo, “se não tem altura, não tem chance no vôlei de quadra”. A solução é “ir para o vôlei de praia ou ficar jogando com os amigos”, como hobby mesmo, complementa Helga Sasso.

Além dos centímetros acima da média da altura brasileira, quem deseja se tornar um atleta de ponta precisa aprender a lidar com a pressão dos treinos e das competições, ter disciplina, responsabilidade, persistência, dedicação, comprometimento, espírito de equipe e, ainda, dominar os fundamentos básicos do vôlei: saque, manchete, toque, recepção, defesa, ataque e bloqueio.

Segundo o técnico de futebol, Glauber Caldas, há muitas crianças e adolescentes que gostariam e teriam condições para seguir uma carreira esportiva. “A questão é que nem todo indivíduo possui aptidão para realizar as tarefas necessárias e desenvolver-se a ponto de ser capaz de responder às exigências do esporte de alto rendimento”, pois os fatores psico-emocionais são determinantes no possível futuro como esportista. Para a treinadora da equipe da Sogipa, na categoria infanto, de 15 a 17 anos, os atletas já precisam ter cabeça para aguentar a cobrança. “Eu sempre falo para as minhas alunas: enquanto eu estiver reclamando, estou te olhando. Quando eu parar é por que ‘larguei de mão’.”

Sogipa conquista três medalhas no XXV Festival do Mercosul de Voleibol em 2012. (Foto: Divulgação Sogipa)

Sogipa conquista três medalhas no XXV Festival do Mercosul de
Voleibol em 2012. (Foto: Divulgação Sogipa)

Normalmente, as meninas chegam à maturidade antes dos meninos. “Com treze, quatorze anos as gurias têm maturidade para entender o esporte e os guris estão querendo ficar mais maduros”, afirma Gabriela João de Deus, professora da escolinha de vôlei do União. Mas para Dênio Peixoto, essas diferenças entre os gêneros não podem interferir na maneira de abordar o esporte, “eu percebo que as meninas têm mais comprometimento que os meninos, apesar de o emocional interferir mais no sexo feminino. Mesmo assim, procuro exigir de forma igual tanto em um naipe como no outro”.

 

Ataque

A formação dos atletas se realiza, em todo o mundo, através do Treinamento em Longo Prazo (TLP), que consiste em um conjunto de métodos e estratégias utilizadas para formar um esportista, desde a iniciação no esporte até o alto rendimento. O Prof. Dr. Júlio Manuel Garganta da Silva em seus estudos sobre talento, aprendizagem e treinamento de atletas afirma que “o ‘talento’ possibilita e potencia a aprendizagem, mas não pode substituí-la, pois não é suficiente nascer com talento, é imprescindível treinar.”.

Conforme vai crescendo a categoria, aumentam as dificuldades e o número de treinamentos por semana. No Grêmio Náutico União, os atletas do mini têm duas horas de treino técnico duas vezes por semana; as categorias mirim e infantil, duas horas de treino técnico e uma hora de treino físico três vezes por semana; enquanto que os jogadores do infanto e do adulto treinam duas horas de técnico e uma hora de físico, quatro vezes na semana.

Juntamente com os treinamentos, o clube precisa oferecer uma boa estrutura de base para os jogadores. Na Sogipa, os atletas têm a disposição quadras, bolas, professores especializados, fisioterapeutas e preparador físico. O União ainda proporciona um acompanhamento psicológico para os jovens. A psicóloga do clube se reúne de 15 em 15 dias com cada categoria para fazer dinâmica de grupo, sem a presença dos treinadores, assim “os atletas se sentem à vontade para falar de suas angústias e reclamações”, explica Dênio Peixoto.

 

Bloqueio

Ser um atleta de alto rendimento é mais do que uma profissão, é um estilo de vida. A vontade em se tornar um grande esportista precisa ser maior do que as tentações que tiram o foco do esporte. Continuar concentrado nos treinamentos se torna mais difícil quando os jovens entram na adolescência, pois as prioridades começam a mudar. Para a professora Gabriela do União, as intempéries surgem na categoria infantil, de 13 a 15 anos, porque “é quando eles começam a namorar, sair (…) e precisam abdicar de algumas coisas. Tem muita gente que chega no infantil e para de jogar.”

Com a grande quantidade de treinos, as festas, encontros com amigos e até momentos em família acabam ficando em segundo plano. Por ser um esporte coletivo, “o próprio grupo se ajuda, não deixa que alguns faltem aos treinos”. É uma escolha, “eles acabam abrindo mão de algumas coisas para fazer outra que eles gostam muito” conta a treinadora Helga.

Segundo o professor Pablo da Sogipa, a maior dificuldade na formação de um atleta é manter a motivação no vôlei. “Hoje em dia, as crianças fazem muita coisa: normalmente praticam mais de um esporte, fazem dança, inglês (…) e se são muito cobrados em alguma coisa, largam e vão fazer outra. Tem muita opção”. Além disso, “eles se desmotivam fácil, perdem o interesse”. Nesse momento, é função dos treinadores manter os seus alunos motivados. Eles são mais do que professores, se tornam pais, amigos, psicólogos; mais do que preparar os jovens para o vôlei, os técnicos os preparam para a vida.

A equipe de volêi feminino do União é vice-campeão do Torneio Início Infanto-Juvenil em 2014. (Foto: Divulgação GN União)

A equipe de volêi feminino do União é vice-campeão do Torneio
Início Infanto-Juvenil em 2014. (Foto: Divulgação GN União)

Superadas as dificuldades físicas e psicológicas, entram em quadra os problemas financeiros. O início no esporte é muito difícil, os atletas precisam ser amparados pelos familiares, pois só passam a receber salário nas categorias infanto, 15 a 17, e juvenil, até vinte anos. No União, todas as categorias recebem um vale-alimentação e os atletas mais carentes e que mais se destacam, passam a receber vale-transporte.

Entretanto, nenhum esportista da base recebe salário do clube. O Governo Federal possui um programa de auxílio financeiro para jogadores em formação: o Bolsa-Atleta, que prevê um incentivo financeiro mensal de R$ 370,00 para as categorias de base e atletas estudantis, que beneficia, somente, quem conseguir alcançar as três primeiras colocações nas competições disputadas sob a Coordenação do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

Os estudos, na maioria das vezes, também são deixados de lado, não apenas pela ausência de tempo, mas também pela falta de incentivo de alguns clubes e, principalmente, da CBV. O Centro de Treinamento de Saquarema, no Rio de Janeiro, pode ser considerado um CT de excelência na formação de jogadores de alto rendimento. Entretanto, não oferece acompanhamento escolar aos novos talentos do esporte, que ficam de dois a quatro meses participando dos treinamentos das categorias de base da seleção.

O vice-campeão da Superliga feminina de vôlei 2013/14, Sesi-SP oferece vagas no EJA (Ensino de Jovens e Adultos) da instituição para algumas jogadoras do time poderem terminar o Ensino Médio. Entre as alunas, está a meio de rede, bicampeão olímpica pela seleção brasileira, Fabiana Claudino. Já nas categorias de base, tanto do Grêmio Náutico União quanto da Sogipa, os treinadores cobram que os alunos tenham um bom desempenho escolar para continuarem compondo as equipes de competição.

 

Ponto

Apesar das falhas no sistema de formação dos atletas no Brasil, da falta de investimento e das dificuldades enfrentadas por cada esportista, o voleibol brasileiro tem se destacado a nível mundial. Com duas medalhas de ouro olímpicas cada, as seleções feminina e masculina despontam entre as melhores do mundo.

A Sociedade de Ginástica Porto Alegre tem participação nesses feitos, pois formou atletas que fazem ou já fizeram parte das equipes brasileiras, como a oposta Fernanda Garay, que marcou o último ponto nos Jogos Olímpicos de Londres. Em contrapartida, o Grêmio Náutico União formou o ponta Thiago Alves e a levantadora Carol Albuquerque.

No entanto, em função das características físicas e psico-emocionais necessárias, nem todos os jogadores que passam pelas categorias de base de um clube conseguem se tornar atletas de alto rendimento. Mas não ser um esportista consagrado não pode ser visto como um fracasso, pois “o esporte te prepara para a vida. As pessoas gostam quando alguém fala que já jogou vôlei, por que isso demonstra que sabe trabalhar em equipe”, afirma Helga Sasso. Além disso, “há o prazer da atividade física, o lazer”, o voleibol cria grupos de amizades “eu ainda sou amigo dos guris que jogavam comigo quando eu era criança”, complementa o professor Pablo.

Nos treinamentos os alunos encaram situações que vão enfrentar na escola, na família, na carreira profissional. Se o jogador não conseguir aprender a técnica correta de cada fundamento do vôlei; comprometimento, dedicação, superação, disciplina e respeito são as bases que o voleibol lhe ensinará para a vida. Se o esporte não te formar como atleta, “ele te forma como pessoa”, conclui a treinadora Helga.

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