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Atletas marcados

02/06/2014

O significado das tatuagens nos corpos dos atletas profissionais

 

por Gabriel Jesus Emmer Brum

Os atletas esportivos estão cada vez mais marcados. Marcados na pele. Gradativamente, ao longo do tempo, um elemento foi se somando aos tantos outros já existentes e que culminam na imagem, com um todo, dos esportistas: a tatuagem. Dificilmente você, ligando a televisão ou indo a um evento esportivo, não encontrará exposto no corpo de um competidor as marcas de um trabalho que requer agulha, tinta e coragem – pois, convenhamos, tem de ter coragem. Algumas são mais sofisticadas, criativas, bonitinhas; outras são desleixadas, esquisitas, de gosto duvidoso. O fato é que a tatuagem, cada vez mais, é um ingrediente de destaque presente no esporte.

Para exemplificar o impacto que os riscos (do verbo riscar) – expressão utilizada por algumas pessoas ao se referirem às tatuagens – têm nas pessoas, é válido ressaltar a repercussão que eles tiveram nos Jogos Olímpicos de 2012, realizados em Londres. Diversas matérias, reportagens e, principalmente, imagens ganharam espaço na mídia e suscitaram discussões acerca das marcas ostentadas nos corpos dos atletas. De inocentes arcos olímpicos desenhados em uma panturrilha, até uma bola minuciosamente marcada na nádega direita de uma jogadora de pólo aquático, diversos frames passaram à exaustão nas telas mundo a fora.

Mas, afinal, o que significam essas tatuagens? Ao marcar o corpo “para sempre” o que querem dizer os atletas? As respostas, assim como as tatuagens, variam conforme o esporte. No futebol, principal atividade esportiva praticada no Brasil, as explicações giram em torno da religião, da família e do estilo.

Dudu, do Grêmio, tem 21 tatuagens. (Crédito: Getty Images)

Dudu, do Grêmio, tem 21 tatuagens. (Crédito: Getty Images)

De David Beckham a Jesus Cristo

David Robert Joseph Beckham, 39 anos, foi um jogador de destaque. Com passagens por grandes clubes do mundo, como Manchester United, da Inglaterra, Real Madrid, da Espanha, e Milan, da Itália, o inglês chamava a atenção dentro e fora de campo. Se hoje o português Cristiano Ronaldo é considerado o exemplo máximo de vaidade no futebol, Beckham – por muitos – detém o posto de precursor dentre os jogadores que se preocupam com o visual.

Ao longo da carreira, acumulou lançamentos precisos, penteados ousados, cobranças de faltas magníficas e, paulatinamente, mais tatuagens em seu corpo. Em 2002, por exemplo, quando defendia a seleção inglesa na Copa do Japão e da Coréia, apresentava um discreto moicano e duas tatuagens, uma em cada antebraço.Hoje, 12 anos depois e já aposentado (seu último clube foi o francês Paris Saint-Germain em 2013), tem os seus braços e a parte superior do peito cobertos de desenhos.

Segundo o tatuador Heráclito Mizerski, o jogador inglês foi um dos principais responsáveis pelo crescimento no número de atletas, principalmente jogadores de futebol, que adotaram as tatuagens ao seu estilo.

“Noventa por cento têm a referência do David Beckham. Não é que eles copiaram, mas acontece que quem começou foi ele. Antes, os jogadores de futebol não tinham tatuagens, foram os europeus que começaram. O David Beckham tem um estilo de se vestir da moda, várias tatuagens, também é modelo, então vários jogadores entraram nesse estilo. É sempre influência, nesse caso dos europeus. Hoje, vários têm tatuagens por aqui”, revela Heráclito, que há mais de 13 anos se dedica à profissão.

Vários jogadores de Grêmio e Internacional são tatuados, muitos deles, inclusive, freqüentam o estúdio de Heráclito, o Heráclito Tattoo, em Porto Alegre. Entre os atletas está o lateral-direito Pará, que se tatuou pela primeira vez aos 17 anos e hoje possui seis tatuagens.

“Elas significam fé e família. Tenho Jesus Cristo crucificado, Nossa Senhora Aparecida, o nome de minha filha nas costas, da minha esposa no braço direito e no antebraço o nome do meu filho”, revela o jogador do Grêmio que também tem um terço tatuado. Heráclito conta que os atletas, normalmente, já vêm com a ideia do que querem desenhar. A temática, segundo o tatuador, muitas vezes tem a ver com as características da profissão.

“Normalmente eles já vêm com alguma ideia. Eles chegam mais com a ideia de uma tatuagem religiosa porque eles acreditam que eles venceram na vida. Noventa por cento dos jogadores vieram de baixo e hoje em dia ganham muito dinheiro. Como agradecimento a Deus e à religião, pois eles são bem religiosos, gostam de fazer uma tattoo homenageando, agradecendo. Um exemplo é o Pará, que fez um terço no braço e a Santa de Guadalupe, que é a santa dele”.

Diversos são os motivos que fazem com que os atletas marquem os seus corpos. Everaldo, criado nas categorias de base do Grêmio e hoje no Figueirense, tem o seu braço esquerdo coberto por imagens. Heráclito, tatuador e amigo do atacante, confessa que as tatuagens são direcionadas à família do esportista.

“O caso dele é o seguinte: ele tem a mãe e mais sete irmãos. Então, foi uma homenagem para a mãe e para os irmãos. Ele tem sete anjos tatuados pelo braço e uma santa que representa a mãe dele. Ele fez o braço para a família dele como agradecimento, para homenageá-la”.

Apesar do fator religioso e familiar predominar nos significados das tatuagens, nem todas as motivações derivam destes impulsos. No caso de Dudu, jogador do Grêmio, o gosto pelos desenhos, o estilo e o local onde ele morava foram determinantes.

“Eu tenho 21 tatuagens. Entre elas, o nome dos meus filhos e da minha mãe. Eu sempre achei legal tatuagem, e, depois que fui para a Ucrânia, fiz a maioria para passar o tempo mesmo”, revela o atacante.

Brock Lesnar, ex-lutador do UFC (Crédito: divulgação)

Brock Lesnar, ex-lutador do UFC (Crédito: divulgação)

O MMA e o preço de uma marca

Cada esporte tem as suas peculiaridades. Alguns são coletivos, outros individuais; uns tem contato físico, outros não; há os que são praticados em ambientes abertos e outros em locais fechados. Em determinadas atividades, devido às características que as compõe, a intimidação através da figura física é um fator importante.

Nas artes marciais mistas (cuja sigla em inglês é MMA), que tem no Ultimate Fighting Championship (UFC) o seu maior expoente hoje, as tatuagens encontradas na pele dos lutadores geralmente diferem no estilo e no teor quando comparadas às que estão cravadas no corpo de jogadores de futebol.

“O pessoal do MMA faz muito tribal, maori, é diferente o estilo que eles fazem. Lutador faz muita escrita. São sempre mais estéticas, mas mais fortes, não é uma tatuagem tão coração. É um pouco mais forte”, revela Heráclito.

Indagado sobre o impacto que as tatuagens têm sobre as outras pessoas, o tatuador é enfático ao afirmar que se conhece muito do outro, não apenas no âmbito esportivo, ao se analisar os escritos presentes em cada corpo.

“As pessoas se tatuam devido ao estilo diferenciado. Mostrar um pouco de si, porque tu consegues fazer uma leitura das pessoas pelas tatuagens. Por exemplo, uma tatuagem mais feia é associada ao mau gosto, a com um desenho muito manjado pode ser ligada à personalidade fraca. Tu consegues tirar uma base dos gostos das pessoas pelas tatuagens, exemplo dos “metaleiros” que são voltados a certo estilo de tatuagem”.

Cada tatuagem tem um custo. Há diversos fatores que influenciam no montante final que será desembolsado. O tamanho, a complexidade, a cor – ou a falta de –, o realismo, a profundidade e o fundo são alguns pontos que são levados em conta na hora de estipular-se o valor a ser pago. A escolha de um estúdio qualificado, com profissionais gabaritados e uma estrutura de primeira também influencia no preço final.

“Depende de desenho para desenho. Colorido vai sair mais caro. Em uma tatuagem que é bem mais detalhada, com profundidade, onde tu vais fazer todo um fundo, tu vais gastar muito mais. E tem aquelas em que tu vais jogando os desenhos e os elementos, mas normalmente tu vais gastar em torno de sete mil reais para fechar um braço”, explana o dono do estúdio Heráclito Tattoo.

Com base no primeiro censo de tatuagens feito no Brasil, a edição de março de 2014 da revista Superinteressante apresentou alguns números sobre a temática no país. Segundo a revista, a maioria dos tatuados – foram mais de 80 mil pessoas entrevistadas – ganham um salário acima da média brasileira, que é de 1.507 reais. As tatuagens mais comuns (19,6%) são as voltadas à simbologia, enquanto que os dois clubes mais tatuados do país são o Corinthians (24,5%) e o Grêmio (10,1%). A justificativa para se tatuar, segundo 27,5% das pessoas, era a de mostrar um lado que fica escondido no dia a dia.

Segundo o tatuador Heráclito, normalmente os atletas escolhem um local do corpo em que a tatuagem seja visível no cotidiano. Outro fator salientado pelo censo, que vai de encontro com o que é visto na área do esporte, é o fato que os jovens, entre 19 e 25 anos, são os que mais buscam marcar o seu corpo. No futebol, este cenário começa logo cedo, ainda nas categorias de base.

Análise psicológica

Geralmente, o jogador de futebol dedica-se ao esporte desde muito cedo. Devido às condições adversas, muitas vezes é necessário que ele saia de sua cidade natal, fique longe de sua família e adapte-se a uma série de exigências que vão desde o âmbito do jogo em si até aos pormenores da vida de um atleta, como alimentação e rotina.

As maneiras para se destacar ficam restritas ao desempenho futebolístico, visto que a vestimenta, muitas vezes um meio de se diferenciar dos demais, é uniforme para todos, assim como as demais orientações. Salientado isto, fica mais nítido porque cada vez mais cedo os jogadores buscam um penteado diferente, uma chuteira mais destacada e até mesmo uma marca em seu corpo.

Professora universitária na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e psicóloga do esporte no Grêmio, Fernanda Faggiani revela que cada vez mais cedo os atletas da categoria de base querem se tatuar. Segundo ela, como a maioria dos jogadores não são maiores de idade, é necessário pedir autorização dos pais para que o procedimento seja realizado. Questionada sobre o significado das tatuagens no corpo dos atletas, ela indica que o gesto pode ser uma maneira de a pessoa afirmar a sua identidade.

“Acredito que dentro de um ambiente futebolístico permeado por inúmeras regras: “regras do vestiário”, regras alimentares, regras de descanso, regras de concentração, regras de comunicação verbal, o corpo (a pele) seja uma das mínimas coisas que o atleta tenha maior liberdade para controlar da forma como quer e de, em algumas ocasiões, expressar seus sentimentos, desejos, vontades, esperança, saudosismo; além de afirmar sua identidade ou continuar a busca por uma identidade própria, diferenciada através de estilos diversos”, esclarece a psicóloga.

Fernanda concorda com a hipótese que as tatuagens religiosas podem ser usadas como um meio de apoio para uma profissão cercada de superstições e superações, além de aceitar a ideia de que os desenhos familiares seriam um modo de ficar mais próximo da família, nem que seja simbolicamente, visto que os atletas passam muito tempo viajando, concentrando e atuando.

“As informações citadas me parecem bastante pertinentes, pois os atletas do futebol, assim como em outras modalidades, passam muito tempo longe da família, se apegam a crenças, orações, santos como forma de proteção, homenagem, fé, superação e podem utilizar a tatuagem como forma de expressão dessas situações”, finaliza a professora.

 

Fidelidade, perspectivas e Copa do Mundo

Apesar da profissão de jogador de futebol envolver constantes deslocamentos, seja para disputar partidas ou a transferência de um clube para outro, é comum haver fidelidade na relação tatuado e tatuador. Heráclito, responsável por tatuagens presentes em diversos atletas, revela que ex-jogadores da dupla Gre-nal continuam freqüentando o seu estúdio, apesar de morarem em cidades distantes: “Eles gostam do trabalho e continuam. O Vilson e o Leandro, que estavam no Palmeiras, o Edílson que está no Botafogo, todos continuam vindo tatuar aqui”.

Voltado ao estilo realista de tatuagem, Heráclito conta que a procura por horários está cada vez mais aumentando. Segundo ele, o diálogo entre os atletas é um fator importante para o crescimento do interesse por parte dos jogadores. Indagado sobre como se apresenta a relação com os esportistas, o tatuador confessa que em alguns casos se cria uma amizade, em que convites para almoços na casa dos jogadores se fazem presentes. Quando questionado sobre o futuro da tatuagem no esporte, ele revela que a perspectiva é boa.

“Hoje em dia o esporte que mais procura para tatuar é o futebol. Há um monte de jogador querendo tatuar por aqui, o problema é achar horário para todo mundo”.

Em um futuro próximo se inicia o maior evento esportivo do mundo. Seleções dos mais diversos lugares do planeta estarão presentes no Brasil para ver quem é o melhor selecionado da atualidade. Cada um carregando o seu estilo, sua escola, sua história. Se as atuações das equipes não saltarem aos olhos, atente para outros aspectos. Os escritos nos corpos dos atletas mostram muito sobre si próprios, mas, analisando de uma maneira mais ampla, refletem também as singularidades de cada país.

A Copa do mundo é um encontro de culturas. Não é apenas futebol. Não são apenas desenhos. As tatuagens, assim como o esporte, carregam muitos significados.

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