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Em busca do ‘game-winner’

01/06/2014
*game-winner: jargão comum no basquete americano, em referência à marcação de uma cesta que dá a vitória a uma equipe nos segundos finais de jogo

Entrevista com Antônio Krebs Jr., o Pitu, professor de Educação Física e técnico de basquete. Ele comandou o Bira/Lajeado para o título do Campeonato Gaúcho de Basquete, em 2013.

 

por Matheus Harb

Treinador, nos conte um pouco como foi sua trajetória no basquete. Você chegou a jogar profissionalmente? Onde? Como se deu a transição para treinador?

Comecei em 1974 na Sogipa, no minibasquete, e passei por todas as categorias até o adulto. Participei de seleções brasileiras na categoria juvenil. Além de Sogipa, joguei no União, na DSHS de Colônia (Alemanha), no Banespa/Jales (São Paulo), no Banco del Estado de Santiago do Chile e no Corintians de Santa Cruz.

Atualmente represento quando possível o Brasil nas competições master, sendo já campeão nas categorias 35+, 40+ e 45+. Nesse tempo todo profissionalmente em Jales e no Chile. A transição foi fácil, já que desde o primeiro ano de adulto já trabalhava como treinador para poder receber alguma ajuda do clube; foi uma transição fácil.

 

O Bira/Lajeado conquistou o Gaúcho de Basquete pela 3ª vez seguida, em 2013. Quais eram as principais virtudes daquela equipe?

No final do campeonato, com o plantel definido, pode-se dizer que a principal virtude foi a facilidade em se adaptar dos jogadores ao jogo da equipe. Montamos o time em agosto e final de outubro chegaram mais três jogadores. O time foi crescendo com a adaptação e qualidade dos mesmos. Além do nível de compromisso e seriedade de todos eles.

Krebs (ao fundo, de óculos) e o time Campeão Gaúcho de 2013 (Crédito: Divulgação Bira/Lajeado)

Krebs (ao fundo, de óculos) e o time Campeão Gaúcho de 2013 (Crédito: Divulgação Bira/Lajeado)

Se Porto Alegre se orgulha da dupla Gre-Nal, no futebol, podemos dizer que o basquete desempenha um papel semelhante no interior do Estado? A homenagem ao Matheus Raschen* no último Campeonato parece reforçar esse laço…

Eu gostaria de dizer isto, mas não posso, pois o basquete ainda sobrevive de ações isoladas de pessoas apaixonadas pelo esporte. Não existe uma política de apoio e suporte ás federações e clubes, e correr atrás de dinheiro é sempre uma batalha e essa batalha define quase sempre a não participação de mais equipes.

 

É fácil dizer que o Bira/Lajeado tem dominado o cenário local nos últimos anos, inclusive, sendo o único clube do Sul a disputar uma edição do Novo Basquete Brasil. Para você, qual a razão desse sucesso?

De novo volto a dizer: tudo isto devido á paixão de amantes do esporte Basquete! E o sucesso em nível regional se deve também à experiência acumulada nestas participações de NBB. Ainda falta no nosso sonho, uma participação de maior expressão no NBB.

 

É justamente desde a primeira edição do torneio, em 2008, que não temos times do RS disputando o NBB. O que tem dificultado a presença dos gaúchos a nível nacional?

Em 2012, com investimento pequeno, quase retornamos ao NBB, mas o fator local pesou na decisão da vaga; posso dizer que fomos prejudicados absurdamente pela arbitragem. Mas, buscando uma razão pela qual não exista nossa participação, posso citar a financeira como a principal, seguida da sequência de obstáculos na quadra a serem transpostos: Copa Sul, Supercopa, Liga Ouro que direcionam a uma vaga no NBB. Tudo isto demanda um planejamento dentro e fora da quadra. Acredito que estamos chegando lá.

 

A Sogipa, e imagino que outros clubes, abria as arquibancadas para os fãs acompanharem a equipe no último Gaúcho, informação que pareceu ter sido pouco divulgada à população. Como se poderia aumentar a exposição do basquete ao Rio Grande do Sul?

Basquete é um produto, e deve ser olhado como tal. Cada equipe participante, bem como a Federação Gaúcha de Basquete, deve investir na sua modalidade, e divulgar para buscar o devido retorno.

Desenvolver o basquete em clubes como Sogipa e GNU (Grêmio Náutico União), vejo cada vez mais difícil, pois existe a política interna de cada um e isto torna muito cíclico o apoio à modalidade internamente. E, sem dúvida alguma, apoio e interesse dos meios de comunicação também reduz esse potencial.

 

Nos Estados Unidos, o desenvolvimento de um atleta no basquete passa muito nas mãos das escolas e universidades, enquanto no Brasil esse é um modelo ainda muito voltado aos clubes. Isso ajuda a explicar, em parte, o nível em que esse esporte é praticado lá fora e aqui?

Não existe, no Brasil, uma política de massificação do esporte. Ainda se luta para que se pratique Educação Física de forma constante na escola; logo, se na escola já é difícil introduzir a criança à prática esportiva, imagina definir uma política de formação em modalidades específicas.

No Brasil tudo se resume a ações isoladas. Estamos em um ciclo olímpico, e nada se criou em termos de massificação e formação de base para destas se tirar a excelência. E, em clubes, tudo depende de diretores amadores em sua maioria, que também acabam sucumbindo a disputas internas a estas instituições.

 

Que papel poderiam ter escolas e universidades na formação de atletas no Brasil?

Seria o ideal, mas esporte não é olhado como educação. E mesmo se fosse, certamente levaria muito tempo e burocracia, como tudo no Brasil.

Na minha concepção, este é o modelo ideal, mas não digo que seja o único. Basta olhar para a Europa, onde se pratica esporte em alto nível também em categorias de base.

 

Evento da NBA no Brasil deve repetir o sucesso em 2014 (NBAE via Getty Images)

Evento da NBA no Brasil deve repetir o sucesso em 2014 (NBAE via Getty Images)

Em 2014, o Brasil sediará pela segunda vez o Global Games**, com a vinda de Miami Heat e Cleveland Cavaliers para jogar um amistoso no Rio de Janeiro. Na sua opinião, isso ajuda a promover o esporte, ou ofusca o basquete praticado aqui?

Este tipo de ação sempre é válida. Mas muito mais que grandes eventos, precisamos de uma política esportiva geral e na nossa modalidade: massificar, capacitar as pessoas que ensinam, tornar o basquete uma modalidade forte nas escolas e clubes, já que ainda não sabemos qual o nosso modelo.

Se ficarmos na dependência só de grandes eventos, vamos depender só de grandes resultados, e isso ofusca o que pode ser uma modalidade muito forte. Na Europa, vemos sempre grandes equipes ficando de fora das competições europeias, sem que isso signifique o fim da modalidade. A concorrência é muito grande e por isso precisam estar sempre reciclando.

 

Nunca tivemos tantos brasileiros atuando na NBA, mas os resultados da nossa Seleção têm ficado aquém do esperado. Não é um pouco paradoxal?

Mais ou menos o que comentei na pergunta anterior: basquete é uma modalidade muito forte mundialmente. A briga, só entre europeus é muito forte e essa briga só aumenta quando entram norte e sul americanos, mais Oceania, Ásia e África. Quero dizer que uma seleção muito forte pode muito bem chegar entre os quatro primeiros (em um grande torneio), ou ir para o fim da tabela, dependendo do nível da competição.

Como alguém que já viveu muito no esporte, prefiro não comentar resultado, que muitas vezes é enganoso.

 

NOTAS:

*Matheus Rafael Raschen jogou nas categorias de base da seleção brasileira de basquete. No início de 2013, aos 20 anos de idade, ele foi uma das vítimas do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria.

**Como parte de sua divulgação, a NBA promove jogos entre suas equipes e contra adversários estrangeiros em solo estrangeiro, durante seu período de pré-temporada. Em outubro de 2013, Chicago Bulls e Washington Wizards trouxeram pela primeira vez o basquete da liga para a América do Sul, com vitória dos Bulls por 83 a 81.

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