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Legado da Copa é “ouro de tolo”

16/12/2013

Por Arthur Viana

De ônibus demora, os corredores estão em obras. De carro demora, estão duplicando as ruas. De bicicleta não dá, a ciclovia não ficou pronta ainda. A pé é ruim, é longe e a calçada está esburacada. À espera da Copa, Porto Alegre parou. Hoje, a cidade é um grande canteiro de obras e, pelo desenrolar dos fatos, assim continuará por um bom tempo.

Há uma semana, o governo federal retirou as dez obras de mobilidade urbana da capital gaúcha da lista de projetos para a Copa do Mundo. As “obras da Copa”, portanto, ficarão prontas muito depois de a Fifa ter voltado para Zurique, na Suíça, onde fica sua sede, muito feliz com os rendimentos de mais um grande evento. Com alguma chance de serem concluídos antes do Mundial, apenas dois projetos: a duplicação da avenida Edvaldo Pereira Paiva (que inclui um viaduto na Pinheiro Borda e um corredor de ônibus na Padre Cacique) e o viaduto da Júlio de Castilhos junto à rodoviária.

E quando a Fifa enfim for embora, então, o que fica para as cidades que sediaram a Copa? O que restará para Porto Alegre após julho de 2014? Das obras que ficarão prontas – e um dia ficarão –, quais de fato são relevantes para o funcionamento cotidiano da metrópole porto-alegrense? Um levantamento recente da revista Bastião aponta que, entre duplicações, viadutos e passagens subterrâneas, 68,75% das obras planejadas para a Copa do Mundo em Porto Alegre são voltadas para a circulação de carros. Analisando cada uma, ainda é possível detectar que mais da metade delas são próximas a estádios de futebol, ao aeroporto e à rodoviária, em detrimento de investimentos em áreas centrais problemáticas para a circulação de pessoas no dia a dia.

O sociólogo especialista em mobilidade urbana, Eduardo Biavati aponta que investir em obras que privilegiam o carro é “um erro histórico”, considerando exemplos de cidades que já viveram experiências semelhantes. Para ele, esse modelo de uso do espaço público da cidade se repete desde o início do século passado, mesmo que percebamos que ele é insustentável: “A fome do veículo automotor é infinita. Quanto mais você derrubar árvores e prédios para vias e espaço asfaltado, mais carro vai ter. Assim, a equação é insolúvel”, aponta o especialista. O governo municipal, apesar de tudo, segue derrubando árvores e cedendo espaço para veículos automotores individuais.

Além de ser um investimento “errado”, as “obras da Copa” também preocupam pelas remoções de famílias em nome da viabilidade de tais remendos viários. Casa e avenida não podem coexistir no mesmo espaço, então, seguindo a sua lógica, a prefeitura porto-alegrense expulsa pessoas de suas casas para dar espaço ao asfalto. Segundo números oficiais da SMOV (Secretaria Municipal de Obras e Viação), o governo municipal vai reassentar, somente nas obras de duplicação da Avenida Tronco, 1,4 mil famílias. Em um panorama nacional, segundo o Portal Popular da Copa, se aproxima de 200 mil o número de pessoas removidas de seus lares no Brasil por causa de obras visando o Mundial de futebol.

O Portal Popular da Copa é uma união de Comitês Populares Locais, que, por sua vez, são iniciativas de movimentos sociais organizados, universidades e entidades da sociedade civil mobilizados nas cidades-sede do evento. A luta é contra as violações de direitos decorrentes da realização dos jogos da Copa 2014 e, no Rio de Janeiro, da Olimpíada de 2016.

Mércia Alves é assistente social e participa do Portal Popular. Para ela, o legado da Copa é “ouro de tolo”: “Se de fato acreditamos que nós, cidadãos e cidadãs comuns, vamos desfrutar da festa, acho que já estamos sendo barrados antes mesmo dela começar”, avalia. Segundo ela, um olhar ampliado sobre os impactos sociais e urbanísticos nas cidades mostra que “nas intervenções em razão da construção das arenas da Copa e no reordenamento urbano no entorno das cidades estima-se que cerca de 170 mil pessoas serão removidas de suas casas. Isto significa a violação do direito à moradia e ao acesso à terra, demonstrando que estão realizando um processo de higienização, removendo os pobres das cidades brasileiras”.

A assistente social relembra casos de países onde ocorreram megaeventos semelhantes, como China (Pequim) e África do Sul. “Lá as intervenções urbanísticas buscaram eliminar a pobreza do entorno dos estádios e, assim, a população pobre foi banida da vivência e convivência nos centros urbanos”, assinala.

Corroborando a fala de Mércia, o Comitê Popular da Copa em Porto Alegre apresenta um trabalho feito por Sérgio Baiele, consultor da ONG Cidade, sobre o impacto das obras para a Copa 2014 na cidade. O estudo fala do projeto de lei 854/2010, encaminhado pela prefeitura municipal, que vincula as Áreas Especiais de Interesse Social ao programa Minha Casa, Minha Vida. São para essas áreas que as famílias desalojadas são direcionadas. De acordo com Sérgio, “em sua maioria, as áreas apontadas são concentradas no Extremo-Sul, para além dos bairros populares da cidade. São terrenos baratos e sem infraestrutura, escolhidos para levar a população pobre para cada vez mais longe, utilizando os recursos disponíveis de habitação para reproduzir mais segregação sócio-espacial”.

Por um lado um projeto precipitado, por construir um modelo de cidade ultrapassado, segundo Eduardo Biavati, por outro uma violação ao direito à moradia, segundo o Comitê Popular da Copa. O consenso é que as “obras da Copa”, que só ficarão prontas depois da Copa, preocupam. Restarão a Porto Alegre, quando o Mundial tiver deixado a cidade, contradições de uma cidade e de um país que aceitaram os mandos e desmandos de uma instituição privada (a Fifa) no planejamento urbano local. Sim, trocamos tudo por alguns minutos de fama e por investimentos rápidos, mesmo que não certeiros. Talvez Mércia esteja certa. Talvez o legado da Copa seja mesmo ouro de tolo.

Charge sul-africana, veiculada após a Copa do Mundo de 2010 Crédito: Comitê Popular da Copa de Porto Alegre

Charge sul-africana, veiculada após a Copa do Mundo de 2010
Crédito: Comitê Popular da Copa de Porto Alegre

Outdoor em Porto Alegre Crédito: Comitê Popular da Copa de Porto Alegre

Outdoor em Porto Alegre
Crédito: Comitê Popular da Copa de Porto Alegre

 

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