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A Situação do controle antidoping brasileiro às vésperas da Copa e da Olimpíada

24/05/2013

Por Lauren Steffen

Com a proximidade da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, há muitas expectativas sobre a preparação do Brasil para sediar esses eventos. Uma das principais questões é a capacidade técnica do país para realizar, com eficiência, exames antidoping durante as competições. O médico Eduardo de Rose explica as principais dúvidas sobre doping e avalia as condições técnicas do Brasil no assunto. De Rose é professor de medicina do esporte na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é membro fundador da Agência Mundial Antidoping, da Comissão Médica do Comitê Olímpico Internacional (COI), do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e preside a Comissão Médica da Organização Esportiva Pan-Americana (ODEPA) desde 1979.

1) O que caracteriza o doping?

O que caracteriza o doping é a presença da substância ou método na Lista Proibida da Agência Mundial Antidoping. Esta lista é elaborada anualmente e divulgada em outubro de cada ano, tendo validade a partir de 1º de janeiro do ano seguinte. Os critérios atuais para uma substância ou método integrar esta lista são três: incrementar o rendimento físico, ser prejudicial à saúde e ser contra o espírito do esporte. Se duas destas condições estiverem presentes, a substância ou método pode integrar a Lista Proibida.

2) Quais as substâncias mais comuns encontradas em exames antidoping?

A resposta difere do Brasil para a área internacional. No Brasil, as substâncias mais comuns encontradas em exames antidoping são os estimulantes e, no resto do mundo, são os anabólicos esteroides.

3) Quais os efeitos físicos e psicológicos do doping para atletas que utilizam substâncias dopantes?

Os efeitos são vários e diferem de uma substância para outra. Vou citar brevemente o efeito dos anabólicos esteroides, que em doses elevadas e por muito tempo causam problemas nas áreas cardiovasculares (aumento da pressão arterial e do colesterol), hepáticos (alteração das funções hepáticas, tumores), ósseos (fixação maior de cálcio, diminuindo a flexibilidade e aumentando a possibilidade de fraturas), hormonais (diminuição dos testículos e supressão do esperma, perda de cabelo e acne em homens, modificação da voz e aumento de pelos em mulheres e consolidação da cartilagem de crescimento em crianças e adolescentes), além de alterações de comportamento (agressividade e tendência ao suicídio).

4) Quais as formas de punição para o atleta pego em exames antidoping?

A punição do atleta pode ser uma simples advertência, uma suspensão até dois anos ou a eliminação do esporte. Depende da substância usada, de ser ou não a primeira violação da regra antidoping, e da maior ou menor culpabilidade do atleta.

5) Quais são os principais métodos utilizados atualmente em exames antidoping?

Os controles laboratoriais antidoping podem ser feitos em urina e sangue.

6) Os métodos antidoping atuais estão conseguindo acompanhar os avanços da dopagem?

Na minha opinião, considerando que os métodos por serem antidoping devem se seguir a um tipo de doping evidenciado, a resposta é sim, se for usada a tecnologia correta de detecção.

7) Como a questão do doping interfere na vida do atleta? Quais os cuidados diários que o esportista precisa tomar?

O atleta deve conhecer a Lista de Substâncias Proibidas e estar disponível para controles em competição e fora dela. Um cuidado especial deve ser dado ao uso de suplementos alimentares, que muitas vezes são os portadores da substância dopante sem informar isto em suas bulas, pois não existe esta exigência legal para suplementos, apenas para medicamentos.

8) O Brasil está preparado, em termos de controle de doping, para receber a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016?

Entendo que não. Necessitamos avançar rapidamente em termos da Autoridade Brasileira de Combate ao Doping, que não está ainda completamente estruturada e em funcionamento, e melhorar as condições do nosso laboratório antidoping do Rio de Janeiro, em termos de área física, pessoal e equipamentos.

9) O ciclista Lance Armstrong foi desclassificado de todas suas conquistas esportivas em 2012 devido ao doping. Na sua opinião, os atletas de hoje estão mais conscientes sobre o doping?

Quando da participação deste ciclista, maiormente em competições entre 2000 e 2004, o controle de sangue era incipiente e a Eritropoietina (substância usada por Armstrong) não podia ser detectada. Hoje podemos fazê-lo através de exames de urina e sangue, e os atletas já estão mais conscientizados do problema e de suas consequências.

10) Qual a melhor forma de combater o doping no esporte?

No meu entendimento, é através de um programa de educação para os futuros atletas, em eventos estudantis, e de instrução para os nossos atletas de elite, seguido por um monitoramento com controles antidoping inteligentes fora de competição e, em número menor, em competição.

11) O doping é considerado crime no Brasil? Por quê?

O Direito Penal brasileiro não criminaliza o doping, ao contrário do que ocorre em vários países da Europa, como a Itália e a França, nos países da Escandinávia, nos Estados Unidos e na Austrália.

12) Há orientação suficiente por parte das equipes técnicas e confederações a respeito do doping?

Baseada na estatística nacional de casos que apresentam resultados analíticos adversos, eu diria que não, pois a maioria dos resultados positivos em exame advém de uso de medicação para alguma enfermidade do atleta ou do uso exagerado de suplementos, o que gera uma realidade diferente da área internacional.

13) Existem laboratórios que investem no estudo de substâncias a fim de melhorar o desempenho dos atletas?     

Isto já ocorreu e um exemplo é o caso do Laboratório Balco, dos Estados Unidos. O laboratório fornecia substâncias proibidas a atletas de destaque, incluindo o britânico Dwain Chambers, proibido de competir por dois anos após testar positivo para o esteróide artifical THG em 2003. É possível que continue ocorrendo, pois o doping rende mais para o crime organizado que a venda de drogas.

De Rose tem cidadania brasileira e italiana e possui dois doutorados, um na Itália e outro na Alemanha.

De Rose tem cidadania brasileira e italiana e possui dois doutorados, um na Itália e outro na Alemanha.

O laboratório antidoping do Rio de Janeiro será referência para exames durante a Copa e as Olimpíadas.

O laboratório antidoping do Rio de Janeiro será referência para exames durante a Copa e as Olimpíadas.

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