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Porto Alegre para além de 2014

20/12/2011

Região das docas, em Porto Alegre (crédito: Paulo Roberto/Portal 2014)

Por Gabriel Hoewell
gabrielrh@hotmail.com

“Nós já estamos absolutamente defasados no tempo”, acredita Benamy Turkienicz, professor titular do Departamento de Arquitetura da UFRGS e PhD em Urbanismo. Turkienicz organizou no ano passado a oficina “Cenários Urbanos -Copa do Mundo 2014”, que discutia formas de aproveitamento da infraestrutura da Copa para desenvolvimento de áreas urbanas vazias em Porto Alegre. Já na época, era escasso o tempo para se planejar obras que trouxessem efetivos benefícios à população porto-alegrense. Hoje, a situação parece ainda mais distante: “certamente não há mais tempo para promover algumas ações de melhoria de sistema viário e de expansão da oferta de habitação em determinadas áreas da cidade”. O que se faz de forma direta e objetiva em Porto Alegre é um planejamento que facilite a transição entre o centro da cidade e o estádio. Essa situação, pondera o professor, tende a facilitar exclusivamente a vida de quem vai assistir aos jogos, mas, certamente, não tem o impacto que teve em Barcelona, “quando o poder público, Universidade e planejadores estiveram empenhados em promover melhorias”.

Turkienicz se refere às Olimpíadas de 1992, tido como grande exemplo de revitalização de áreas abandonadas a partir dos investimentos nos Jogos. Em Barcelona, o legado das Olimpíadas foi significativo, havendo benefícios permanentes. Os catalães “pensaram a cidade como um todo”. A situação é diferente, por exemplo, da ocorrida nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro. Se os brasileiros construíram uma vila olímpica afastada da cidade, Barcelona viu a vila como uma “extensão do tecido urbano já existente”. A partir dessa visão, um investimento na área se tornou necessário para transportar os visitantes ao local. A qualificação do sistema viário ficou de legado para os habitantes da região. Além da melhora no sistema de transportes, a vila olímpica foi reaproveitada pelos moradores de Barcelona, proporcionando um aumento na oferta de habitação. O centro esportivo substituiu uma área industrial que impedia a moradia nas redondezas, tamanha a poluição e o tráfego gerado pelas indústrias.

Situação semelhante é encontrada na Zona Norte de Porto Alegre, em especial na Rua Voluntários da Pátria. No entanto, não parece haver nenhum planejamento para que as mudanças sejam semelhantes e as consequências sejam as mesmas, com benefícios para depois da Copa do Mundo. A construção da Arena do Grêmio, iniciada em setembro de 2010, foge do que Turkienicz vê como positivo em Barcelona. O estádio – que durante o torneio será usado para treinos – está sendo construído no bairro Humaitá, no extremo norte de Porto Alegre e zona distante do “tecido urbano já existente”.

Por enquanto, o que é possível esperar é uma revitalização da área portuária. A recente liberação do início das obras do Cais Mauá, ocorrida no dia 23 de novembro, é um alento. O projeto do escritório b270 – do arquiteto espanhol Fermín Vázquez – e do brasileiro Jaime Lerner pretende alterar o cenário desta região pouco aproveitada de Porto Alegre. São 560 milhões de reais investidos em centros comerciais e culturais, com salas de teatro, museus, bares e restaurantes, que prometem agitar a área e aproximar novamente a população do Lago Guaíba. Desta forma – defende o escritório b270 – forma-se “parte do patrimônio cultural da cidade”. Além disso, as reformas terão utilidade mesmo após o torneio, sendo benéficas para cidade e um importante legado. No entanto, como já alertou Turkienicz, o prazo é curto. Para a Copa do Mundo, apenas parte do projeto estará concluído. A obra deve estar totalmente completa somente em 2014. Mesmo assim, não há previsões de que a área de 300 mil metros quadrados seja transformada, ainda que em parte, em domicílios. A moradia na região seria fundamental, pois tornaria a zona independente, mais sustentável. Caso contrário, existe a possibilidade de ocorrer o que há, por exemplo, nos centros das grandes cidades: muito comércio, pouco investimento em habitação e, consequentemente, uma área quase abandonada.

Os projetos parecem idealizar uma cidade exclusivamente para a Copa. São quase três bilhões de reais gastos em reurbanização e embelezamento das cidades brasileiras. O foco do investimento é no entorno dos estádios. Esse dinheiro é revertido, sem dúvidas, em benefícios para a população. No entanto, é preciso pensar além. 2014 era uma oportunidade de mudanças amplas no sistema de transportes e na questão habitacional, mas o ideal parece distante do planejado.

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