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Mobilidade urbana: cidade parada não vai a lugar nenhum

19/12/2011

Mobilidade urbana é um dos maiores desafios que a cidade de Porto Alegre terá que enfrentar para a copa do mundo. ( Foto: Biaman Prado/O Estado do Maranhão)

Por Arthur Hack
awhack@uol.com.br

O conceito de mobilidade urbana abarca todas as questões dos deslocamentos das pessoas no contexto urbano, sejam esses deslocamentos internos dentro da cidade ou de chegada a ela por vias aéreas ou terrestres. Não é segredo para ninguém que de uns tempos para cá Porto Alegre se tornou praticamente intransitável em determinados horários do dia. Além do que, chegar à Capital também não é tarefa das mais fáceis: as rodovias de acesso trancam nos horários de pico, a rodoviária enfrenta problemas na chega do ônibus e o aeroporto frequentemente fica superlotado. É no sentido de melhorar estes aspectos que se inserem as medidas tendo em vista a Copa 2014.

As obras dentro da cidade

Trajeto da Avenida Tronco (Foto: site da Secopa).

Dentre as obras que visam melhorar a fluidez dentro de Porto Alegre a principal — e mais complexa — delas é a duplicação da Avenida Tronco. As obras de revitalização da avenida, que vai da Carlos Barbosa até a Icaraí, estão orçadas em cerca de 140 milhões de reais, sendo a mais custosa no âmbito municipal. São duas as fases do remodelamento: a primeira, já licitada, vai da Avenida Icaraí até a Coronel Gastão Mazeron, enquanto que a segunda, ainda em processo de realização do projeto, abrange o trecho da Gastão Mazeron até a rótula do Papa. Por sua localização, a Avenida Tronco formará importante elo entre a Zona Sul e a região central de Porto Alegre.

Os custos se dão pelo fato de existirem cerca de 1.140 famílias habitando o entorno da via que será duplicada. O fato gera inúmeros gastos, como afirma Urbano Schmitt, secretário da SMGAE (Secretaria Municipal de Gestão e Acompanhamento Estratégico). “A área das obras está ocupada há 40 anos. O custo das obras é de R$ 140 milhões, mas além disso tem também o valor para o reassentamento das famílias que vivem no local, que é da prefeitura”, explica.

Chegar e sair de Porto Alegre

Obras para ampliação do terminal do aeroporto Salgado Filho (Foto: Arthur Hack).

Além dos deslocamentos internos, em um evento de magnitude tão grande como a Copa é necessário também ter agilidade para sair e entrar na cidade. Por terra, tal tarefa é dificultada pela malha viária defasada da Região Metropolitana. A duplicação da rodovia ERS-118 é vital nesse sentido. A estrada atualmente tem pista simples, e liga Sapucaia do Sul à zona sul de Porto Alegre; atualmente, por lá passam cerca de 21 mil carros por dia, enquanto que estudos apontam que 5 mil veículos por dia já fazem necessária a duplicação.
A obra tem três fases, sendo que a primeira delas já está 60% concluída. A segunda está em compasso de espera e a terceira já tem licitação publicada, mas nenhuma empresa manifestou interesse ainda. Para Julio Porciuncula, superintendente do DAER — Departamento Autônomo de Rodagem de Estradas —, o fato mostra que não há qualquer tipo de irregularidade na gestão. “As pessoas falam muito em superfaturamento, mas para nós o que acontece é o contrário. Se não tem licitante é porque o preço está baixo demais”, pondera o engenheiro responsável pela obra.
Se sair de Porto Alegre por via terrestre é complicado, também não é tarefa das mais fáceis utilizar o aeroporto Salgado Filho. Mesmo com os dois terminais (o aeroporto novo e o antigo), a demanda por passagens aéreas cresceu muito nos últimos dez anos e o aeroporto já não comporta a quantidade de pessoas que por lá passam. Por isso, o terminal de passageiros será ampliado, enquanto que outro, provisório, já está sendo colocado.
Contudo, as obras do Salgado Filho vão além. A principal mudança talvez seja a ampliação da pista de pouso e decolagem, que passará dos 2,2 km atuais para 3,1 km. “Quanto maior e mais pesado for um avião, de mais pista ele precisa. O que possibilita uma aeronave fazer um vôo direto é principalmente o tamanho da pista, porque para viagens mais longas é preciso mais combustível. A ampliação da nossa pista possibilitará receber aviões fretados vindos diretamente da Europa, Ásia ou África”, explica Alberto Bernd, engenheiro da Infraero e coordenador de obras da Gerência Temporária de Porto Alegre.

Antigas reivindicações

Ocupação 20 de novembro protestando em frente à prefeitura (Foto: blog da Ocupação).

As obras de mobilidade são parte importante do projeto porto-alegrense para a Copa do Mundo de 2014, de fato, mas suas ações não têm como objetivo somente prover as demandas do evento, que é mais uma catalisadora de recursos e reformas. A copa é importante no contexto de agilizar trâmites que sem ela demorariam a ser completados.
Não é de hoje que a ERS-118 apresenta dificuldade de fluxo, já que é a rodovia estadual de maior movimento. Entretanto, foi só agora que a burocracia para seu aumento foi vencida. “A ERS-118 precisaria ter sido reformulada há algum tempo. Esse projeto é de 1993, e só foi licitado durante o Governo Olívio Dutra. Houve algumas questões de desequilíbrio nesse meio tempo; é um projeto que tem de ser adequado diariamente”, exemplifica o superintendente do DAER de Esteio. Algo semelhante ao que ocorre com a Avenida Tronco, na capital. “Há 40 anos que a Avenida Tronco consta na malha viária da Capital. Porém, foi só agora que conseguimos os recursos necessários”, completa Urbano Schmitt.
A Copa em Porto Alegre ficará em questão por um mês, dois no máximo. Mas as ações na cidade devem durar mais que isso, construindo assim um verdadeiro legado. Os pontos envolvendo o aeroporto não foram, de forma alguma, pensados apenas para ter validade enquanto durar a festa do futebol. É o que afirma Alberto Bernd: “O nosso planejamento de ampliação dos terminais não é alguma coisa que tenha vindo só por causa da Copa. A gente já projetou isso prevendo o futuro da cidade, qual a demanda que ela vai ter daqui a 10 anos”, observa o engenheiro. “Mas a Copa é muito boa no sentido que facilita a vinda de recursos e mobiliza os órgãos públicos”, finaliza.
Enquanto que muitos se tranquilizam com a chegada do evento em 2014, outros, porém, se preocupam. É o caso da Ocupação 20 de Novembro, organização que reside ao lado do Beira-Rio. A Ocupação é ligada ao Movimento Nacional de Luta pela Moradia, e está postada justamente onde será construído o complexo hoteleiro previsto na reforma do estádio do Inter, lugar para onde foi realocado após terem sido despejados do prédio que ocupavam no Centro.
Agora, temem ser retirados para longe de onde moram e trabalham.  “Seja por vontade ou por pressão política, as questões relacionadas à Copa trarão melhorias na infra-estrutura da cidade. Mas ao mesmo tempo afastarão as populações dessas melhorias, pois os projetos de reassentamentos concentram-se na Restinga, a mais de 30 km do centro, sem infra-estrutura e equipamentos públicos”, contesta Ceniriani Vargas da Silva, coordenadora municipal do MNLM. A líder do movimento ainda reclama da política do Estado envolvendo as questões do evento: “A prefeitura quer transformar Porto Alegre em local turístico e por isso tem de esconder os seus problemas sociais”, objeta.

Mãos na massa

“Engessada” do jeito que tem ficado ultimamente — com fluxo prejudicado em suas vias — Porto Alegre não pode ir a lugar nenhum. Muito menos para a Copa. Dessa forma, as ações envolvendo mobilidade urbana são vitais, já que permitirão uma melhor fluidez do trânsito e deslocamentos menos estressantes. O evento é em 2014, mas as demandas que serão supridas com ele são muito antigas.

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