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Crescendo com o voluntariado na Copa

02/12/2011

Voluntários em teste de segurança dias antes do início da Copa de 2010, na África do Sul.

Por Sarita Reed
sarireed@hotmail.com

 

Assistir aos bastidores de um evento do porte da Copa do Mundo, participar de treinos e ensaios restritos ao público e entrar em contato com diversas culturas são alguns dos motivos que fazem com que milhares de pessoas desejem trabalhar voluntariamente no mundial de futebol. As inscrições para o programa oficial de voluntariado da FIFA para a Copa do Brasil ainda não estão abertas, mas a previsão é que o processo de seleção inicie no começo de 2012. No mundial da África do Sul, em 2010, setenta mil pessoas de todas as partes do mundo se candidataram ao trabalho voluntário para 18 mil vagas disponíveis. Para a Copa do Brasil, a estimativa é que a procura seja ainda maior.

 

Projetos de capacitação

    À parte da FIFA, por todo país surgem iniciativas, muitas vezes voluntárias, que visam capacitar a população para o trabalho voluntário durante a Copa. São o caso de projetos feitos por ONG’s, universidades ou governos que oferecem desde cursos de línguas até noções de como lidar com o público.     Essa qualificação profissional de milhares de brasileiros que o mundial indiscutivelmente impulsiona, por si só, já faz com que sediar o maior evento esportivo do mundo valha a pena para o Brasil. Abaixo, algumas das ações:

 

  • O projeto “Um gol de educação na Copa”, do Distrito Federal, propicia um curso de capacitação a estudantes que querem trabalhar no mundial de 2014. Além do ensino de línguas estrangeiras, aulas de história, geografia, cultura brasileira e noções de futebol são dadas em período extra-classe por professores voluntários. Segundo Ana Cristina Chaves, coordenadora do projeto, a expectativa é que os jovens trabalhem também nas olimpíadas de 2016 – caso haja competições de algum esporte na capital do país. “Eles vão trabalhar em aeroportos, concentrações, jogos, monumentos da cidade, shoppings… Em qualquer lugar que necessite um falante de língua estrangeira com esse perfil, nós estaremos lá”, conta Chaves.
  • Em Novo-Hamburgo, no RS, a universidade Feevale tem como objetivo preparar acadêmicos e a comunidade em geral para a recepção de visitantes na região através do projeto “Feevale na Copa”. A ideia é capacitar os interessados em participar do mundial, como voluntários ou com vínculo empregatício, nas áreas de hotelaria, turismo, gastronomia, lazer e segurança.

  • Jovens que cumprem medidas socioeducativas na Amazônia terão a oportunidade de participar do projeto “Voluntários da Copa”, como forma de reintegração social. A iniciativa do Governo do Estado prevê a participação dos jovens no atendimento ao público, em locais como áreas de embarque e desembarque de visitantes e ao redor da Arena da Amazônia.

Lílian Oliveira no estádio Ellis Park, em Johannesburg.

A paulista Lílian Oliveira, de 27 anos, foi voluntária internacional na área de logística na Copa da África do Sul, em 2010. Formada em arquitetura e urbanismo, a moça teve a oportunidade de aprofundar seus estudos sobre arquitetura esportiva durante o evento e então relatar suas experiências e possíveis soluções para os problemas do mundial nos seus blogs Gol da Arquitetura e Arquibancada. Ela conta, em entrevista abaixo, como se deu todo o processo do voluntariado:

 

O que motivou você a ser voluntária na Copa do Mundo da África do Sul?

Já havia sido voluntária nos Jogos Pan Americanos do Rio, em 2007. Gostei da experiência por ter acesso aos bastidores e a um evento bem diferente do que vemos pela televisão. Por já ter a experiência seria um ponto positivo no processo de seleção para a Copa do Mundo, que é um evento mais importante e que me interessa muito. De qualquer forma, mesmo tendo acessos a bastidores que nem a televisão consegue, saliento que o evento é bem diferente, e as vezes parcial, pois você acaba se entretendo com mais coisas e perdendo parte da evolução dos jogos e tendo menos acesso a alguns dados que a televisão nos deixa a par.

Como funcionou o seu processo de seleção?

Cerca de um ano e meio antes do evento, a FIFA abre em seu site oficial um formulário extenso para se candidatar. Após uma triagem de perfis, eles começam a fase de entrevistas, cerca de 6 meses antes do evento começar. As entrevistas são em inglês, no consulado do país sede, e servem para conhecer os potenciais candidatos pessoalmente. Cerca de 1-2 meses antes do evento, eles confirmam que você é de fato um voluntário da Copa do Mundo. Na primeira triagem eles selecionam os candidatos por terem experiências profissionais e em voluntariado (em eventos esportivos ou não). Na segunda, eles avaliam a personalidade, caráter e vontade de acrescentar, além de fluência em idiomas.

Como foi a sua experiência na África do Sul? O que acrescentou na sua formação pessoal e profissional?

Minha experiência na África do Sul foi bem positiva em muitos sentidos. Cultural por aprender bastante sobre o dia a dia e mudar possíveis estereótipos que nos fazem formar em nossas cabeças. Fiquei quase dois meses na África do Sul, então tive a oportunidade de ver um pouco além das datas do evento, que durou um mês, observando o período em que os sul-africanos retomavam suas vidas ao normal. Sou arquiteta e urbanista e nessa área o evento me ajudou a compreender muito a forma como o evento modifica de fato uma cidade e uma nação, e o que parece mudar, mas que não é eficiente, tanto em forma de projetos urbanos, como também em projetos sociais. Escrevo sobre a arquitetura esportiva, em especial sobre estádios de futebol e projetos para Copas do Mundo e Jogos Olímpicos e a experiência me fez aprender muito em como utilizar de artifícios da área para beneficiar o país em muito mais âmbitos do que somente o da arquitetura e urbanismo, mas também educação, turismo, cultura e saúde.

Preparação para o ensaio fotográfico oficial da FIFA, no Soccer City.

Como era a sua rotina de voluntária na Copa de 2010?

Por falta de um comitê local organizado, muito do meu papel foi defasado e desperdiçado. Eu teria que trabalhar no setor de logística. Conforme me candidatei, a vaga de logística era responsável pela coordenação da entrada de tudo que entrava ou saía do estádio, trabalhando dentro do estádio, na garagem. No entanto, chegando lá, o trabalho era completamente diferente e exigia um conhecimento urbano de Johannesburg que eu, nem o outro voluntário mexicano tínhamos – tínhamos que dar direções e orientações a caminhões e carros em um estacionamento afastado do estádio. Como estávamos completamente locados no setor errado, acabamos trabalhando em horários de jogos auxiliando torcedores, mas não oficialmente, por espontaneidade mesmo. No dia a dia, frequentávamos o estádio em todas as preparações para abertura e encerramento, ensaios de iluminação, treinamentos de segurança, ensaios fotográficos do troféu e da bola da partida final, reconhecimento de campo feito pelas seleções. Mas sobra muito tempo, então os voluntários se organizavam para conhecer a cidade, para assistir a outros jogos em outros estádios. Não é muito trabalho, pois tem muitos voluntários, mas as atuações são basicamente em horários de jogos (exceto que fica nos hotéis, aeroportos e no setor de voluntários e credenciamento).

Na sua opinião, quais os requisitos fundamentais pra quem quer ser voluntário em uma Copa do Mundo?

Prestatividade, pró-atividade, saber trabalhar em grupo, fluência em idiomas (principalmente o inglês), experiência em eventos esportivos e como voluntário contam como seleção. Para o trabalho em si, conta mais a vontade em colaborar e vai contra a seleção a vontade única de ter somente benefícios.

Pretende ser voluntária em 2014? Quais as suas sugestões para melhorar o sistema de voluntariado da Copa do Mundo?

Pretendo ser contratada oficial da Copa 2014, já que tenho me preparado bastante para conseguir trabalhar oficialmente. O sistema da Copa do Mundo é bem restrito e de difícil ingresso. Só mérito não te coloca lá dentro, é preciso muito reconhecimento e, principalmente, contatos, infelizmente. No entanto, caso não consiga, pretendo me candidatar, pois já tenho a vantagem agora de uma Copa do Mundo no currículo, o que me coloca facilmente dentro da seleção.

Sugeriria que o sistema de voluntariado tivesse cargas horárias variadas e que liberassem alguns voluntários para assistir jogos quando não estiveremem trabalho. Pouquíssimosjogos realmente lotavam, mas mesmo assim a África do Sul não permitia que os voluntários assistissem às partidas. Muitos dos voluntários em trabalho perdiam mais tempo com outros voluntários que com suas funções propriamente ditas. De qualquer forma, nenhum voluntário se recusa a ajudar torcedores, é um ponto positivo para o evento deixá-los lá. Todo voluntário quer assistir jogos, ninguém vai somente para ficar fechado sem ter acesso a nada e ainda arcando com seus gastos. Esses são os benefícios em troca que eles devem receber. Não adianta barrar esses voluntários pois eles conhecem o funcionamento do evento e sabem suas falhas. Na África do Sul, mesmo não sendo permitido, a maioria dos voluntários de Johannesburg assistiu à maioria dos jogos, burlando o sistema de segurança facilmente.

Lílian no Soccer City, também em Johannesburg.

E o que pode melhorar de forma geral na organização?

Comparando com a África do Sul, sugiro que as cidades sedes conversem entre si. Principalmente sobre as regras para os funcionários, alimentação e voluntários, assim como pagamentos. Que os contratos sejam assinados adequadamente e por todos. Nada disso funcionou na Copa de 2010.

Sobre a segurança, espero que o Brasil tenha planos rígidos e planos alternativos, evitando mudá-los. Na África do Sul, a regra de segurança, portas de acesso mudavam diariamente, deixando até mesmo os funcionários despreparados e discordando entre si. Cada dia era uma regra diferente. Seria boa uma fiscalização mais presente nos arredores dos estádios pois os roubos de câmeras e eletrônicos foi muito frequente.

Seria muito bom se fosse testado de alguma forma o sistema de cartões de crédito/débito antes dos eventos,em massa. NaÁfrica do Sul, o sistema falhava muito, as filas ficavam gigantes e as funcionárias tinham que sair das ‘barracas’ para tentar captar o sinal levantando as máquinas no ar. Foi de um amadorismo sem tamanho.

Também analisaria, dentro do possível o histórico dos funcionários. Na África do Sul, jornalistas sem credenciais e até mesmo torcedores sem ingressos entravam no estádio pagando seguranças. Estes, que ganhavam pouco, viam ali a oportunidade de tirar um dinheiro extra. Além disso, nas lojas oficiais da Copa, soube de funcionários que deram produtos para torcedores, sem cobrá-los.

Fale sobre a idéia dos seus blogs que tem como tema a Copa do Mundo.

Através da observação de meus artigos no meu blog pessoal Gol da Arquitetura por parte da redação do Portal da Copa 2014, fui convidada para escrever em um espaço meu, o blog Arquibancada, independente de direção ou censura do Portal da Copa em espaço destinado às soluções arquitetônicas, urbanísticas, tecnológicas e reflexos das mesmas para a Copa do Mundo, direcionando o público a se preparar e observar os potenciais e problemas da Copa do Mundo no Brasil, além de servir como atualização de informações.

O interesse em arquitetura esportiva surgiu a partir do meu trabalho final de graduação da faculdade (Mackenzie), para o qual desenvolvi um estádio para o Corinthians – no mesmo terreno onde ele está sendo construído hoje. Por ver a falta de conhecimento de alguns profissionais e de professores nessa área específica, e por ter tido dificuldades em analisar de fato os estádios, montei o blog para ajudar pessoas que possam ter interesse no assunto, além de ser um prazer escrever sobre o que eu gosto, aumentar meu conhecimento e botar em pauta a discussão, ampliando o efeito que eu queria. Com o tempo e com o estudo, as análises englobaram os grandes eventos e análises de tecnologias e técnicas que podem ser úteis em estádios e posturas do governo brasileiro com a candidatura do país para 2014 e 2016.

 

No início de 2012, as inscrições para o programa oficial de voluntariado esportivo da FIFA estarão disponíveis no site:

http://www.fifa.com/worldcup/organisation/volunteers/index.html

 

 

 

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